Contracapa

Finalmente, o grande mestre da narrativa partilha com o leitor a maior de todas as suas histrias... a da sua vida! Comeou como um dos muitos meninos pobres da
Amrica mergulhada na Depresso. Aos 17 anos, tentava suicidar-se. Como foi que este menino se transformou no mais traduzido de todos os autores, com mais de 300
milhes de exemplares dos seus livros vendidos em todo o mundo?

Como foi que o jovem arrumador numa sala de cinema subiu poucos anos depois a um palco para receber um Oscar da Academia? Em O OUTRO LADO DE MIM, Sidney Sheldon 
no se poupa aos golpes que a vida lhe reservou. Fala com candura dos seus altos e baixos, dos sucessos e das crticas, revelando, pela primeira vez, a sua intimidade: 
as suas profundas perdas pessoais e a sua busca pela felicidade.

E, se cada romance de Sidney Sheldon  garantia de leitura apaixonante, o romance da sua vida no o  menos.


OBRAS DE SIDNEY SHELDON
SIDNEYSHELDON

O OUTRO LADO DE MIM

PUBLICAES EUROPA-AMRICA
Ttulo original: The Other side of Me

Traduo de Luiza Mascarenhas Traduo portuguesa (c) de P. E. A.

Capa: estdios P. E. A.

Copyright 2005 by Sidney Sheldon Family Limited Partnership. Todos os direitos reservados incluindo os direitos de reproduo no todo ou em parte sob qualquer forma.

Direitos reservados por Publicaes Europa-Amrica, Lda.

Nenhuma parte desta publicao pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma ou por qualquer processo, electrnico, mecnico ou fotogrfico, incluindo fotocpia, 
xerocpia ou gravao, sem autorizao prvia e escrita do editor. Exceptua-se naturalmente a transcrio de pequenos textos ou passagens para apresentao ou crtica 
do livro. Esta excepo no deve de modo nenhum ser interpretada como sendo extensiva  transcrio de textos em recolhas antolgicas ou similares donde resulte 
prejuzo para o interesse pela obra. Os transgressores so passveis de procedimento judicial

Editor: Tito Lyon de Castro

PUBLICAES EUROPA-AMRICA, LDA.

Apartado 8

2726-901 MEM MARTINS

PORTUGAL

E-mail: secretariado@europa-america.pt

Execuo tcnica: Grfica Europam, Lda., Mira-Sintra Mem Martins

Edio n.: 161219/8852 Outubro de 2006

Depsito legal n  247746/06

Consulte o nosso site na Internet: www.europa-america.pt
Digitalizao e reviso

Ftima Toms


Nota da digitalizadora:
No original esto includas vrias fotografias, que foram suprimidas na digitalizao.


As minhas adoradas netas,

Lizy e Rebecca,

para que conheam a mgica viagem que foi a minha vida
"Aquele que no tem loucos, vigaristas ou pedintes na famlia foi gerado pelo claro de um relmpago."

Thomas Fuller, clrigo ingls do sculo xvI.
CAPTULO 1

Aos dezassete anos, trabalhar como moo de recados na drugstore Afremow em Chicago era o emprego perfeito, porque me permitia desviar os barbitricos suficientes 
para me suicidar. No sabia exactamente quantos eram precisos, por isso, de forma arbitrria, calculei que vinte deviam chegar, e fui tendo o cuidado de meter no 
bolso uns poucos de cada vez, de forma a no levantar as suspeitas do nosso farmacutico. Lera algures que whisky e barbitricos eram uma combinao letal, e eu 
tencionava junt-los para garantir que morreria.

Era sbado, o sbado pelo qual eu ansiara. Os meus pais estariam ausentes todo o fim de semana e Richard, o meu irmo, ia ficar em casa de um amigo. O apartamento 
ficaria deserto, por isso ningum poderia atrapalhar os meus planos.

s seis da tarde, o farmacutico anunciou:

Horas de fechar.

Ele no fazia a mnima ideia de como estava certo. Chegara a hora de fechar tudo aquilo que correra mal na minha vida. Eu sabia que no estava s. Todo o pas pensava 
como eu.

Estvamos em 1934 e a Amrica atravessava uma crise devastadora. Cinco anos antes, a bolsa entrara em colapso e a ela seguiram-se milhares de bancos. Por todo o 
lado, as empresas fechavam. Mais de trinta milhes de pessoas perderam os empregos e estavam desesperadas. Os salrios desceram to baixo que chegaram a um nquel 
 hora. Um milho de vagabundos, incluindo duzentas mil crianas, vagueavam pelo pas. Estvamos no meio de uma desastrosa depresso. Antigos milionrios suicidavam-se 
e os executivos vendiam mas na rua.

A msica mais popular da altura era Gloomy Sunday. Eu decorara uma parte da letra:
"Gloomy Sunday,

With shadows I spend it all

My heart and I

Have decided to end it all"

O mundo era sombrio e combinava perfeitamente com o meu estado de esprito. Eu atingira as profundezas do desespero. No conseguia encontrar razo nem justificao 
para a minha existncia. Sentia-me deslocado, perdido. Estava infeliz e ansiava desesperadamente por algo que no sabia definir ou nomear.

Vivamos perto do lago Michigan, apenas a alguns quarteires da margem, e uma noite fui at l para ver se me conseguia acalmar. Estava uma noite ventosa e o cu 
mostrava-se coberto de nuvens.

Olhei para cima e pedi:

Deus, se existes, mostra-te a mim.

E, enquanto eu ali estava parado a olhar para o cu, as nuvens aglutinaram-se e tomaram a forma de um enorme rosto. Um sbito relmpago deu ao rosto olhos de fogo. 
Corri durante todo o caminho at casa, em pnico.

Eu vivia com a minha famlia num pequeno apartamento num terceiro andar em Rogers Park. Mike Todd, o grande homem do espectculo, disse que vrias vezes se viu falido, 
mas que nunca se sentiu pobre. Eu, no entanto, senti-me sempre pobre, pois vivamos naquela aviltante e terrvel pobreza em que, num Inverno rigoroso, nos vamos 
obrigados a no ligar o calorfero para podermos poupar e em que se aprende a desligar as luzes sempre que no so precisas. Espremamos as ltimas gotas do frasco 
de molho de tomate e os ltimos resqucios do tubo de pasta de dentes. Mas eu estava prestes a libertar-me de tudo isto.

Quando cheguei ao nosso desolado apartamento, este estava vazio. Os meus pais j tinham partido para o fim de semana e o meu irmo no estava em casa. No havia 
ningum para me impedir de fazer o que eu me propusera.

Entrei no pequeno quarto que partilhava com o meu irmo e, com cuidado, tirei do armrio o pequeno saco que ali escondera com os barbitricos. Em seguida, dirigi-me 
 cozinha, tirei uma garrafa de bourbon da prateleira onde o meu pai a guardava e levei-a comigo

"Sombrio domingo,
Nas trevas tudo gastei
O meu corao e eu
Decidimos tudo acabar". (N. da T.)

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para o quarto. Olhei para os barbitricos e para o bourbon e perguntei-me quanto tempo demorariam a fazer efeito. Deitei um pouco de whisky num copo e levei-o aos 
lbios. No me permitiria pensar no que estava a fazer. Bebi um gole de whisky e o sabor amargo fez-me tossir, engasgado. Peguei num punhado de barbitricos e comecei 
a lev-los  boca quando ouvi uma voz que dizia:

O que  que ests a fazer?

Girei sobre mim, entornando um pouco de whisky e deixando cair alguns dos comprimidos ao cho.

O meu pai estava parado no umbral da porta. Aproximou-se.

No sabia que bebias. Olhei para ele, atordoado.

Eu... eu pensei que se tinham ido embora.

Esqueci-me de uma coisa. Vou fazer a pergunta outra vez: o que  que ests a fazer? e tirou-me o copo de whisky da mo.

O meu crebro girava, desenfreado.

Nada... nada.

Ele tinha o sobrolho franzido.

Isto no  nada teu, Sidney. O que  que se passa? Viu o monte de barbitricos. Meu Deus! Mas o que  que se passa aqui? O que  isto?

No me ocorreu nenhuma mentira. Respondi, provocante:

So barbitricos.

Porqu?

Porque eu ia... suicidar-me.

Fez-se um silncio. Em seguida o meu pai disse:

No fazia ideia de que te sentisses to infeliz.

No adianta impedir-me, porque, se no o fizer agora, fao-o amanh.

Ficou parado a observar-me.

A vida  tua. Podes fazer com ela o que quiseres. Hesitou. Se no ests com muita pressa, que tal irmos dar uma volta?

Eu sabia exactamente o que  que ele estava a pensar. O meu pai era vendedor. Ia tentar convencer-me a desistir do meu plano, mas no tinha qualquer hiptese. Eu 
sabia o que ia fazer.

Est bem respondi.

Veste um casaco, no apanhes uma constipao. A ironia destas palavras fez-me sorrir.

Cinco minutos mais tarde, caminhvamos pelas ruas varridas pelo vento e vazias de pees devido s temperaturas glidas.

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Aps um longo silncio, o meu pai comeou a falar:

Explica l, filho. Porque  que te queres suicidar?

Por onde  que eu ia comear? Como poderia explicar-lhe como me sentia s e encurralado? Desejava desesperadamente uma vida melhor mas no havia uma vida melhor 
para mim. Queria um futuro maravilhoso e no havia futuro maravilhoso. Tinha sonhos ofuscantes, mas a verdade  que eu no passava de um simples moo de recados 
de um drugstore.

A minha fantasia era entrar para a Faculdade, mas no havia dinheiro para isso. O meu sonho era tornar-me escritor. Escrevera uma dzia de contos e enviara-os  
revista Story, ao Collier's e ao Saturday Evening Post, e recebera apenas rejeies impressas em papel. Chegara finalmente  concluso de que no era capaz de passar 
o resto da minha vida nessa misria sufocante.

O meu pai estava a falar comigo:

...e h tantos lugares maravilhosos no mundo que ainda no viste...

Deixei de o ouvir. Se ele partir esta noite, poderei continuar com o meu plano.

...devias adorar Roma...

Se ele me tentar impedir agora, fao-o quando se for embora. Estava completamente embrenhado nos meus pensamentos, mal ouvindo o que ele me dizia.

Sidney, disseste-me que mais do que tudo no mundo querias ser escritor.

De repente, conseguira a minha ateno.

Isso foi ontem.

Ento, e amanh? Olhei para ele, intrigado.

O qu?

Tu no sabes o que te pode acontecer amanh. A vida  um romance, no ?  cheia de suspense. No podes ter uma ideia do que vai acontecer enquanto no virares a 
pgina.

Eu sei o que vai acontecer. Nada.

No podes realmente saber isso, pois no? Sidney, cada dia  uma pgina diferente que pode estar cheia de surpresas. Nunca sabers o que vem a seguir enquanto no 
virares a pgina.

Ponderei no que ele dizia. Tinha alguma razo. Cada amanh era mesmo como uma pgina nova de um romance.

Dobrmos a esquina e caminhmos ao longo de uma rua deserta.

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Sidney, se queres mesmo suicidar-te, eu compreendo. Mas eu detestaria que fechasses o livro to cedo e perdesses a excitao que pode aparecer ao virar de uma pgina, 
aquela que tu vais escrever.

No feches o livro demasiado cedo... Estaria eu a fech-lo cedo de mais? Algo maravilhoso poderia acontecer amanh!

Ou o meu pai era um extraordinrio vendedor ou ento eu no estava assim to empenhado em pr termo  minha vida, porque assim que chegmos ao fim do quarteiro 
eu j decidira adiar o meu plano.

Mas tencionava deixar as minhas opes sobre a mesa.

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CAPTULO 2

Nasci em Chicago, em cima de uma mesa de cozinha que fiz com as minhas prprias mos. Pelo menos era o que Natalie, a minha me, insistia em dizer. Natalie era a 
minha estrela Polar, o meu consolo, a minha protectora. Eu era o seu primognito e ela nunca deixou de se maravilhar com o milagre do nascimento. No conseguia falar 
de mim sem ser com a ajuda de um dicionrio. Eu era brilhante, talentoso, bonito e inteligente, e tudo isto ainda antes de completar os seis meses de idade.

Nunca chamei aos meus pais "me" e "pai". Preferiam que lhes chamasse "Natalie" e "Otto", provavelmente porque achavam que os fazia parecer mais jovens.

Natalie Marcus nasceu em Slavitka, na Rssia, perto de Odessa, durante o reinado dos czares. Aos dez anos conseguiu escapar a um pogrom contra os judeus e foi trazida 
pela me, Anna, para os Estados Unidos da Amrica.

Natalie era uma beldade. Tinha cerca de um metro e sessenta e sete de altura, cabelo castanho macio, uns olhos cinzentos inteligentes e lindas feies. Possua a 
alma de uma romntica e uma enorme riqueza interior. No recebera uma educao formal, mas aprendera a ler sozinha. Gostava de msica clssica e de livros. O seu 
sonho era casar com um prncipe e viajar pelo mundo.

O prncipe revelou-se ser Otto Schechtel, um lutador de rua de Chicago, que deixara a escola no segundo ano do liceu. Otto era bem parecido e encantador e percebia-se 
porque  que Natalie se sentira atrada por ele. Eram ambos sonhadores, mas tinham sonhos diferentes. Natalie sonhava com um mundo romntico, com castelos em Espanha 
e passeios de gndola ao luar em Veneza, enquanto que os sonhos de Otto consistiam em esquemas impraticveis para enriquecer depressa. Algum disse um dia que para 
se ser um escritor de sucesso basta ter papel, caneta e uma famlia disfuncional. Eu fui criado por duas famlias assim.

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Neste canto, gostaria de apresentar o cl Marcus, dois irmos, Sam e Al, e trs irms, Pauline, Natalie e Fran.

No canto oposto, temos os Schechtel, cinco irms e dois irmos: Harry e Otto, e Rose, Bess, Emma, Mildred e Tillie.

Os Schechtel eram extrovertidos, informais e espertos. Os Marcus eram introvertidos e reservados. As duas famlias no s eram completamente diferentes, como no 
tinham absolutamente nada em comum. E assim, o destino decidiu divertir-se.

Harry Schechtel casou com Pauline Marcus, Otto Schechtel casou com Natalie Marcus, Tillie Schechtel casou com Al Marcus e, como se isto no bastasse, Sam Marcus 
casou com a melhor amiga de Pauline. Foi um frenesim matrimonial.

Harry, o irmo mais velho de Otto, era o membro mais formidvel do cl Schechtel. Tinha um metro e setenta e sete de altura, era musculoso e forte, com uma personalidade 
vincada. Se fssemos italianos, seria o consiglieri. Era ele que Otto e os outros procuravam em busca de conselho. Harry e Pauline tiveram quatro rapazes, Seymour, 
Eddie, Howard e Steve. Seymour, que s tinha mais seis meses do que eu, sempre pareceu muito mais velho.

Na famlia Marcus, Al era o charmoso, o bem parecido e divertido, o bon vivant da famlia. Gostava de jogar e de namorar. Sam Marcus era o solene irmo mais velho, 
que desaprovava o estilo de vida dos Schechtel. O seu negcio era gerir concesses de bengaleiros em vrios hotis da cidade.

Por vezes, quando os meus tios se juntavam, iam para um canto falar de uma coisa misteriosa chamada sexo. Parecia-me maravilhosa. Rezava para que no desaparecesse 
at eu crescer.

Otto era um perdulrio que gostava de desbaratar dinheiro, quer o tivesse quer no. Muitas vezes convidava vrias pessoas para jantar num restaurante caro e, quando 
a conta chegava, pedia dinheiro emprestado a uma delas para a pagar.

Natalie detestava pedir ou ficar a dever dinheiro. Tinha um forte sentido de responsabilidade.  medida que fui crescendo, comecei a perceber como eles eram tremendamente 
incompatveis. A minha me sentia-se infeliz, casada com um homem que no respeitava, a viver uma vida interior que ele no compreendia. O meu pai casara-se com 
uma princesa de conto de fadas e ficou muito espantado quando a lua de mel terminou.

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Discutiam constantemente, mas no eram discusses normais, eram amargas e maldosas. Tinham percebido quais os pontos fracos de cada um e repisavam-nos avidamente. 
As discusses tornaram-se de tal forma ferozes que me habituei a fugir de casa e a procurar abrigo na biblioteca pblica, o nico local onde conseguia encontrar 
refgio, no mundo pacfico e sereno dos Hardy Boys e nos livros de Tom Swift.

Um dia, quando cheguei a casa vindo da escola, Otto e Natalie gritavam obscenidades um ao outro. Decidi que no conseguia aguentar mais. Precisava de ajuda. Fui 
ter com a minha tia Pauline, irm de Natalie. Era uma senhora gorducha, doce e amorosa, pragmtica e inteligente.

Quando cheguei, Pauline olhou para mim e perguntou imediatamente:

O que  que se passa? Eu estava a chorar.

 a Nat e o Otto. Esto sempre a discutir. No sei o que fazer. Pauline franziu o sobrolho.

Eles discutem na tua frente? Acenei que sim.

Muito bem. Eu digo-te o que tens de fazer. Ambos gostam muito de ti, Sidney, e no te querem magoar, por isso, da prxima vez que comearem uma discusso, chegas 
junto deles e dizes-lhes que nunca mais os queres ver discutir na tua frente. s capaz de fazer isso?

Anui.

Sou.

O conselho da tia Pauline resultou.

Natalie e Otto estavam no meio de um desafio de gritos, quando cheguei junto deles e lhes disse:

No me faam isto. Por favor, no discutam na minha frente. Os dois ficaram imediatamente contritos. Natalie foi a primeira a falar:

Claro. Tens toda a razo, meu querido. No volta a acontecer. E Otto:

Desculpa, Sidney. No temos o direito de atirar com os nossos problemas para cima de ti.

Depois disso, as discusses continuaram, mas pelo menos eram abafadas pelas paredes do quarto deles.

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Mudvamos constantemente de cidade para cidade, com Otto  procura de trabalho. Sempre que me perguntavam o que fazia o meu pai, a minha resposta dependia de onde 
nos encontrvamos. No Texas trabalhou numajoalharia, em Chicago, numa loja de roupas, no Arizona, numa mina de prata esgotada, em Los Angeles, vendia revestimentos.

Otto levava-me duas vezes por ano a comprar roupa. A "loja" era uma carrinha parada numa viela, cheia de fatos maravilhosos. Eram to novos que ainda tinham as etiquetas 
com os preos, e eram espantosamente baratos.

Em 1925 nasceu o meu irmo Richard. Eu estava na altura com oito anos. Vivamos em Gary, no estado de Indiana, e lembro-me como fiquei entusiasmado por ter um irmo, 
um aliado contra as foras negras da minha vida. Foi um dos acontecimentos mais excitantes da minha vida. Tinha grandes planos para ns e ansiava por todas as coisas 
que faramos juntos, quando ele crescesse. Enquanto esperava, fazia corridas por Gary com ele dentro do carrinho.

Durante a Depresso, a nossa situao financeira era algo sado de Alice no Pas das Maravilhas. Otto andava por fora, a trabalhar num dos mega-negcios do seu mundo 
de fantasia, enquanto Natalie, Richard e eu vivamos num sombrio e atulhado apartamento. De repente, Otto aparecia e anunciava que tinha feito um negcio onde ganharia 
mil dlares por semana. Antes de percebermos o que nos estava a acontecer, j estvamos a viver num apartamento enorme, no topo de um edifcio, numa outra cidade. 
Parecia um sonho.

A verdade  que alguns meses mais tarde constatvamos que fora de facto um sonho, pois o negcio de Otto acabava por desaparecer e estvamos de regresso a um outro 
pequeno apartamento qualquer, numa outra cidade.

Eu sentia-me um deslocado. Se existisse um braso na famlia seria a figura de uma carrinha em movimento. Ainda no completara dezassete anos e j vivera em oito 
cidades e frequentara oito escolas bsicas e trs secundrias. Eu era sempre o recm chegado no bairro, o forasteiro.

Otto era um grande vendedor e, cada vez que eu comeava a frequentar uma nova escola numa nova cidade, no primeiro dia levava-me sempre a conhecer o director da 
escola e quase invariavelmente conseguia convenc-lo a colocar-me um ano acima. Como consequncia, eu era sempre o mais novo da classe, criando mais uma barreira 
na possibilidade de fazer novos amigos. Consequentemente, tornei-me

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tmido, fingindo sentir prazer em ser um solitrio. Era uma vida muito perturbada. Cada vez que eu comeava a fazer amigos, era altura de ir embora.

De onde veio o dinheiro, no fao ideia, mas Natalie comprou um pequeno piano espineta em segunda mo e fez questo que eu comeasse a ter aulas de piano.

Porqu? perguntou Otto.

Depois vers respondeu. Ele at tem mos de msico. Eu gostava das minhas lies, mas acabaram pouco tempo depois,

quando nos mudmos para Detroit.

Otto gabava-se orgulhosamente de nunca ter lido um livro na vida. Foi Natalie quem instigou em mim o amor pela leitura. Otto ficava preocupado porque eu gostava 
de ficar sentado em casa a ler os livros que trazia da biblioteca, quando podia estar no meio da rua a jogar basebol.

Vais dar cabo dos olhos insistia. Porque  que no s como o teu primo Seymour? Esse joga futebol com os rapazes.

O meu tio Harry foi mais longe. Uma vez ouvi-o dizer ao meu pai:

O Sidney l demasiado. Vai acabar mal.

Quando eu tinha dez anos, tornei as coisas piores pois comecei a escrever. Havia uma competio de poesia numa revista chamada Wee Wisdom, uma revista para crianas. 
Escrevi um poema e pedi a Otto que o enviasse para a revista para eu poder concorrer.

O facto de eu escrever deixava Otto nervoso. O facto de escrever poesia deixava-o muito nervoso. Mais tarde soube que, como no se queria sentir embaraado quando 
a revista rejeitasse o meu poema, substituiu o meu nome pelo do meu tio Al e mandou-o assim.

Duas semanas mais tarde, Otto foi almoar com Al.

Otto, passou-se uma coisa muito esquisita. Porque ser que a revista Wee Wisdom me mandou um cheque de cinco dlares?

Foi assim que o meu primeiro escrito profissional foi editado sob o nome Al Marcus.

Um dia a minha me entrou a correr no apartamento, quase sem flego. Abraou-me e exclamou:

Sidney, acabo de vir da casa da Bea Factor. Ela diz que vais ser mundialmente famoso! No  maravilhoso?

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Bea Factor era uma amiga dela conhecida por ser mdium, e muitas pessoas conhecidas atestavam-no.

Quanto a mim, era maravilhoso que a minha me acreditasse no que ela dissera.

Chicago nos anos vinte e trinta era a cidade dos barulhentos comboios de superfcie, carroas de gelo puxadas por cavalos, praias atulhadas de gente, clubes de strip-tease, 
currais malcheirosos e o massacre do dia de So Valentim, onde sete mafiosos foram alinhados contra a parede de uma garagem e abatidos a tiros de metralhadora.

O sistema escolar era gerido como a cidade, com dureza e agressividade. Havia coisas a voar pelas salas de aula. E nem eram os alunos que atiravam, eram os professores. 
Uma manh, quando andava no terceiro ano, um professor no gostou de alguma coisa que um aluno disse, pegou num dos pesados tinteiros de vidro que havia em cima 
das secretrias e atirou-o pelos ares em direco ao aluno. Se lhe tivesse acertado na cabea, tinha-o morto. Fiquei demasiado aterrorizado para voltar  tarde.

A minha disciplina preferida na escola era o Ingls. Uma das tarefas da turma era ler  vez em voz alta um livro de pequenos contos chamado Elgin Reader. Chegvamos 
a um conto de Pe, de O'Henry ou de Tarkington e eu ficava a sonhar que um dia o professor diria: "Passem para a pgina vinte do vosso livro de leitura" e, espanto 
dos espantos, ali estaria uma histria escrita por mim. De onde me vinha este sonho, no fao ideia. Talvez fosse um recuo atvico a algum antepassado h muito desaparecido.

O dcimo andar do hotel Sovereign era a velha piscina da vizinhana. Sempre que podia, levava Richard at l para brincar na piscina. Ele tinha cinco anos.

Um dia, deixei-o na zona baixa da piscina e nadei at  zona mais funda. Enquanto falava com umas pessoas, Richard saiu da piscina,  minha procura. Chegou junto 
da parte mais funda, escorregou e caiu l dentro. Foi direitinho para o fundo. Eu vi o que estava a acontecer, mergulhei e puxei-o para cima.

Nunca mais houve piscina para ns.

Quando tinha doze anos, andava no stimo ano da escola de Marshall Field, em Chicago, e tinha uma aula de Ingls onde podamos trabalhar

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nos nossos prprios projectos. Decidi escrever uma pea sobre um detective que investigava um homicdio. Quando terminei, entreguei-a  professora. Ela leu-a, chamou-me 
 sua secretria e disse:

Sidney, eu acho que isto  mesmo muito bom. Queres lev-la a cena?

Se queria!

Claro que sim, professora.

Vou tratar das coisas para que a possas apresentar no grande auditrio.

De repente lembrei-me da grande excitao de Natalie com a profecia de Bea Factor. Sidney vai ser mundialmente famoso.

Eu estava muito excitado. Aquilo era o princpio. Quando os meus companheiros de classe ouviram a notcia, todos quiseram entrar na pea. Decidi que no s a ia 
produzir e dirigir como tomaria parte nela.  claro que nunca antes dirigira uma pea, mas sabia exactamente o que queria.

Comecei a escolher os actores. Permitiram-me que ensaiasse depois das aulas no grande auditrio e, pouco tempo depois, a minha pea era o tema das conversas da escola. 
Deram-me todos os adereos que pedi, sofs, cadeiras, mesas, um telefone...

Foi uma das pocas mais felizes da minha vida. Sabia, sem qualquer sombra de dvida, que era o princpio de uma maravilhosa carreira. Se eu, com a minha idade, era 
capaz de escrever uma pea de sucesso, no havia limite para onde podia chegar. Podia at vir a ter peas na Broadway, com o meu nome a non.

Fiz um ensaio geral com os colegas que escolhi, todos j com os fatos vestidos, e o ensaio correu perfeitamente.

Fui ter com a professora.

Estou pronto, quando quer que apresente a pea? perguntei. Ela olhava para mim, radiante.

Porque no amanh  noite?

Nessa noite no consegui dormir. Sentia que todo o meu futuro dependia do sucesso da pea. Deitado na cama, revi cena por cena,  procura de falhas. No consegui 
encontrar nenhuma. Os dilogos eram excelentes, a trama desenrolava-se com leveza e a pea tinha um final inesperado. Todos iam adorar.

Na manh seguinte, assim que cheguei  escola, a professora tinha uma surpresa para mim.

Consegui cancelar todas as aulas de Ingls para que todos possam vir ao auditrio ver a tua pea.

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Nem queria acreditar. Ia ser um sucesso ainda maior do que imaginara.

s dez da manh, o imenso auditrio estava cheio. No s l estavam os alunos de Ingls como tambm o director e todos os professores que ouviram falar da minha 
pea, ansiosos por verem o trabalho de uma criana prodgio. No meio de toda a excitao, eu estava calmo. Muito calmo. Parecia-me perfeitamente normal que tudo 
aquilo me estivesse a acontecer, to cedo na vida. Tu vais ser mundialmente famoso.

Chegou a hora do espectculo. As conversas no auditrio comearam a morrer e o teatro ficou silencioso. O cenrio consistia numa sala de estar simples, onde um rapaz 
e uma rapariga representavam o papel de um marido e uma mulher, cujo amigo acabara de ser assassinado. Estavam sentados lado a lado num sof.

Eu fazia o papel de um detective que investigava o homicdio. Estava de p nos bastidores, preparado para fazer a minha entrada. A minha deixa era o momento em que 
o rapaz olhava para o relgio e dizia:

O inspector deve chegar em breve.

Mas, em vez de dizer "breve", ele enganou-se e comeou a dizer "um minuto" mas parou a meio e tentou transformar "minuto" em "breve". O que saiu foi "O inspector 
deve chegar em min-breve". Ele corrigiu imediatamente, mas era demasiado tarde. Min-breve? Era o som mais engraado que eu alguma vez ouvira. Era to engraado que 
comecei a rir. E nunca mais consegui parar. Quanto mais pensava na palavra, mais gargalhadas dava.

O rapaz e a rapariga no palco olhavam fixamente para mim nos bastidores,  espera que eu entrasse. Mas eu no me conseguia mexer, porque ria perdidamente. No conseguia 
parar. As gargalhadas tomaram conta de mim e fui ficando cada vez mais histrico.

A pea fora interrompida mal tinha comeado.

Depois do que pareceu uma eternidade, ouvi, vinda do auditrio, a voz da minha professora a dizer:

Sidney, vem c fora.

Forcei-me a abandonar o abrigo dos bastidores e cambaleei at meio do palco. A minha professora estava no meio do auditrio de p, a ouvir as minhas gargalhadas 
frenticas.

Pra imediatamente! ordenou. Mas como podia eu? Min-brev;

As pessoas da audincia comearam a levantar-se e a sair do auditrio e eu fiquei a v-las, fingindo que me ria porque queria, fingindo que o que estava a acontecer 
no tinha qualquer importncia.

Fingindo que no queria morrer.

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CAPTULO 3

Por volta de 1930, a Depresso estava cada vez mais profunda e, no seu aperto feroz, oprimia toda a vida econmica do pas. As filas para o po aumentaram e o desemprego 
era pandmico. Havia confrontos nas ruas. Eu terminara o ensino preparatrio em Marshall Field, Chicago, e tinha um emprego na drugstore Afremow. Natalie trabalhava 
como caixa num recinto de patinagem, uma moda nova que tinha lugar em enormes recintos, com largos ringues de patinagem circulares em madeira, onde intrpidos homens 
sobre patins de rodas faziam corridas, deitando abaixo os seus rivais e criando o mximo de confuso que conseguiam, enquanto os espectadores os aplaudiam.

Otto, entretanto, viajava pelo pas nos seus hipotticos mega-negcios.

Intermitentemente, aparecia em casa cheio de entusiasmo.

Desta vez tenho um bom pressentimento. Acabei de fazer um negcio que nos vai levar a uma boa vida.

E, mais uma vez, fazamos as malas e mudvamo-nos para Hammond, ou Dlias, ou Kirkland Junction, no Arizona.

Kirkland Junction?

Vais gostar muito daquilo prometeu ele. Comprei uma mina de prata.

Kirkland era uma pequena cidade a 167 km de Phoenix, mas no era esse o nosso destino final. Kirkland Junction era uma velhssima bomba de gasolina, e acabmos a 
viver nas suas traseiras durante trs infelizes meses, enquanto Otto tentava dominar o mercado da prata. Verificou-se que no havia prata na mina. Fomos salvos por 
um telefonema do tio Hariy.

Ento? Como vai a mina de prata? perguntou.

Nada famosa respondeu Otto.

No te preocupes. Eu estou em Denver. Tenho uma grande companhia de corretagem a funcionar. Quero que venhas trabalhar comigo.

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Denver revelou-se uma maravilha. Era antiquada e maravilhosa, com brisas frescas que vinham das encostas das montanhas de cumes cheios de neve e varriam e atravessavam 
a cidade. Eu adorava l estar.

Harry e Pauline tinham desencantado uma luxuosa manso de dois pisos numa elegante zona da cidade. As traseiras da casa davam para uma enorme zona verde chamada 
Cheeseman Park. Os meus primos, Seymour, Howard, Eddie e Steve, ficaram felizes por nos ver e o sentimento foi mtuo.

Seymour guiava um Pwrce Arrow vermelho vivo e namorava raparigas bem mais velhas do que ele. Eddie recebera pelos anos um cavalo de montar. Howard ganhava campeonatos 
juvenis de tnis. A atmosfera endinheirada das vidas deles era bem diferente da nossa miservel existncia em Chicago.

Ns vamos viver com Harry e Pauline? perguntei.

No.

Tinham uma surpresa para mim.

Vamos comprar c uma casa.

Quando vi a casa que iam comprar, nem queria acreditar. Era grande e tinha um lindo jardim, num subrbio calmo, na rua Marion. Os quartos eram grandes, maravilhosos 
e acolhedores. A moblia era fresca e bonita, bem diferente dos mveis bafientos dos apartamentos onde vivera toda a minha vida. Aquilo era muito mais do que uma 
casa. Aquilo era um lar. No momento em que entrei pela porta da frente, senti que a minha vida tinha mudado, que finalmente tinha razes. No haveria mais mudanas 
todos os meses pelo pas, com novos apartamentos e novas escolas.

Otto vai comprar esta casa. Eu vou casar aqui e os meus filhos vo crescer aqui...

Pela primeira vez desde que me lembrava, havia dinheiro em abundncia. O negcio do Harry crescia de tal maneira que ele j era dono de trs empresas de corretagem.

No Outono de 1930, com a idade de treze anos, matriculei-me no liceu de East, o que acabou por se revelar uma experincia bastante agradvel. Os professores em Denver 
eram simpticos e prestveis. Ali ningum atirava tinteiros  cabea dos alunos. Comecei a fazer amizades na escola e gostava da sensao de regressar a casa,  
maravilhosa casa que em breve ia ser nossa. Natalie e Otto pareciam ter resolvido a maior parte dos seus problemas pessoais, o que tornava a vida bem mais doce.

Um dia, durante uma aula de ginstica, escorreguei e lesionei a

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minha coluna. A dor foi terrvel. Ali estava eu, deitado no meio do cho, incapaz de me mexer. Levaram-me ao gabinete do mdico. Assim que ele acabou o exame, perguntei-lhe:

Vou ficar aleijado?

No assegurou-me. Um dos teus discos deslocou-se e est a comprimir a espinal medula.  isso que provoca essa dor. O tratamento  muito simples. S tens de ficar 
deitado durante dois ou trs dias, com compressas quentes para relaxar os msculos, e o disco vai regredir e voltar ao seu lugar. E ficars fino como antes.

Uma ambulncia levou-me a casa e os paramdicos colocaram-me na cama. Ali fiquei, cheio de dores, mas, tal como o mdico dissera, ao fim de trs dias a dor desapareceu.

No fazia ideia de como este incidente iria afectar to profundamente todo o resto da minha vida.

Um dia, tive uma experincia simplesmente espantosa. Havia um anncio para uma feira em Denver onde uma das atraces era uma volta de avio.

Eu gostava de fazer isto disse a Otto. Ele pensou no assunto e respondeu:

Est bem.

O avio era um belssimo Lincoln Commandere eu estava excitadssimo s por subir para dentro dele.

O piloto olhou para mim e perguntou:

A tua primeira vez?

A primeira.

Aperta o cinto pediu. Vais adorar.

E tinha toda a razo. Voar era uma experincia surrealista. Observei a terra a aproximar-se, a afastar-se e a desaparecer a uma velocidade vertiginosa, e eu jamais 
sentira algo to estimulante em toda a minha vida.

Quando aterrmos, disse a Otto:

Quero voltar l acima.

E voltei. Estava decidido a vir a ser piloto um dia.

Uma manh bem cedo, na primavera de 1933, Otto entrou no meu quarto. O seu rosto estava sombrio. Faz as malas. Vamos embora.

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Fiquei sem perceber.

Onde vamos?

Vamos voltar para Chicago. No podia acreditar.

Ns vamos embora de Denver?

Exactamente.

Mas...

Ele j desaparecera. Vesti-me e fui ter com Natalie.

O que foi que aconteceu?

O teu pai e Harry tiveram um... desentendimento.

Olhei em volta da casa onde pensara viver o resto da minha vida.

Ento e esta casa?

No a vamos comprar.

O nosso regresso a Chicago no foi nada alegre. Nem Otto nem Natalie queriam falar sobre o que se passara. Depois de Denver, Chicago parecia ainda menos amistosa 
e agradvel. Mudmo-nos para um pequeno apartamento e eu estava de volta  realidade,  triste lembrana de que no tnhamos dinheiro e que era impossvel encontrar 
um emprego decente. Otto estava de volta  estrada e Natalie trabalhava como vendedora num armazm. O meu sonho de ir para a universidade morreu. No tnhamos dinheiro 
para as propinas. As paredes do apartamento fechavam-se sobre mim. Tudo me parecia cinzento.

Eu no sou capaz de passar o resto da minha vida a viver assim, pensei. A pobreza em que vivamos parecia agora bem pior, depois da breve e saborosa experincia 
da afluncia de Denver, e ns precisvamos desesperadamente de dinheiro. Trabalhar como moo de recados de uma drugstore no era futuro para mim.

Foi nessa altura que decidi suicidar-me e Otto me conseguiu convencer a no o fazer, dizendo-me que eu tinha de continuar a virar as pginas. Mas elas no se queriam 
virar e no havia nada a que pudesse aspirar. A promessa de Otto no passara de palavras vazias.

Quando chegou Setembro, matriculei-me no liceu Senn. Otto estava de novo na estrada, tentando fazer os seus mega-negcios. Natalie trabalhava a tempo inteiro numa 
loja de roupas, mas o dinheiro que entrava no chegava. Eu tinha de arranjar uma maneira de ajudar...

Lembrei-me de Sam, o irmo mais velho de Natalie, e das inmeras concesses de bengaleiros que ele tinha em vrios hotis no Loop. Os bengaleiros estavam apinhados 
de mulheres lindas e escassamente

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vestidas e de arrumadores. Os clientes eram generosos com as gorjetas que davam as mulheres. No faziam ideia que o dinheiro ia parar  gerncia.

Apanhei o comboio de superfcie em direco  baixa da cidade, para falar com o meu tio Sam. Encontrei-o no seu escritrio no hotel Sherman.

Saudou-me calorosamente.

Ora, ora. Mas que agradvel surpresa. O que posso fazer por ti, Sidney?

Preciso de um emprego.

Sim?

Tinha esperana de que talvez pudesse trabalhar como arrumador num dos bengaleiros de um dos hotis.

Sam conhecia bem a nossa situao financeira. Olhou pensativo para mim. Por fim respondeu:

E porque no? Pareces mais velho do que os teus dezassete anos. Acho que o hotel Bismarck precisa de algum.

E comecei logo a trabalhar nessa semana.

O trabalho era simples. Os clientes entregavam os casacos e os chapus s empregadas, que por sua vez lhes davam um papel com um nmero. Em seguida, ela entregava-me 
o casaco e o chapu e eu pendurava-os no cabide com o nmero correspondente. Quando o cliente voltava, o processo invertia-se.

Tinha agora um novo horrio. Ia  escola at s trs e a seguir apanhava o El para sul, em direco ao Loop, saa na estao perto do hotel Bismarck e ia trabalhar. 
Fazia o turno das cinco at ao fecho, que muitas vezes era  meia noite ou mais tarde, dependendo se havia alguma festa especial. O meu salrio era de trs dlares 
por noite. Entregava todo o dinheiro que recebia a Natalie.

Os fins de semana tinham mais movimento, com as festas no hotel, por isso acabava a trabalhar sete noites por semana. As pocas festivas eram emocionalmente difceis 
para mim. As famlias vinham ao hotel passar o Natal e a passagem de Ano e eu via as crianas a celebrarem com os pais e sentia inveja. Natalie estava a trabalhar, 
Otto estava ausente, por isso eu e Richard estvamos sozinhos e no tnhamos ningum com quem celebrar. As oito da noite, quando todos se deleitavam com os seusjantares 
de festa, eu corria apressado at uma cafetaria ou um snack bar, comia rapidamente qualquer coisa e regressava ao trabalho.

O ponto alto da rotina das minhas noites era quando a minha tia Francs, a efervescente irm mais nova de Natalie, vinha trabalhar

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uma ou outra noite no bengaleiro do Bismarck. Era uma morena baixinha e alegre, com um vivo sentido de humor, e os clientes adoravam-na.

Uma nova empregada do bengaleiro, Joan Vitucci, veio trabalhar para o Bismark. S tinha mais um ano do que eu e era muito bonita. Senti-me atrado por ela e comecei 
a fantasiar a seu respeito. Comearia por lev-la a sair. Embora eu no tivesse dinheiro, ela acabaria por ver os aspectos positivos em mim. amo-nos apaixonar e 
acabaramos por casar e ter filhos maravilhosos.

Uma noite ela disse-me:

Os meus tios fazem um almoo de famlia todos os domingos. Acho que ias gostar deles. Se estiveres livre este domingo, queres vir almoar connosco?

A fantasia estava a tornar-se realidade.

Aquele domingo acabou por tornar-se uma experincia extremamente agradvel. Era uma reunio de uma calorosa famlia italiana, que juntava cerca de uma dzia de adultos 
e crianas em volta de uma enorme mesa de jantar cheia de bruschetta, sopa fagioh, frango cacciatore e lasanha no forno.

O tio de Joan era um homem afvel e gregrio chamado Louie Alterie e era o chefe do sindicato dos porteiros. Quando chegou a hora de me vir embora, agradeci a todos 
e comentei ajoan o quanto apreciara o seu convite. Era verdadeiramente o incio da nossa relao.

Na manh seguinte, Louie Alterie foi abatido a tiros de metralhadora ao sair do edifcio onde tivramos o nosso almoo.

Joan desapareceu da minha vida.

A fantasia acabou.

Entre a escola durante o dia, as noites passadas no bengaleiro e os sbados na drugstare, tinha muito pouco tempo para mim.

Algo de estranho se passava em minha casa. Havia tenso, mas era de um tipo diferente. Natalie e Otto sussurravam umas coisas um ao outro e tinham um aspecto sombrio.

Uma manh, Otto chegou junto de mim e disse:

Filho, vou para uma quinta. Parto hoje.

Fiquei espantado. Eu nunca estivera numa quinta e pensei que podia ser divertido.

Gostava de poder ir contigo, Otto. Ele abanou a cabea.

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Lamento muito, mas no te posso levar comigo.

Mas...

No, Sidney.

Est bem. E quando  que voltas?

Daqui a trs anos. E foi-se embora.

Trs anos? No podia acreditar. Como  que ele nos podia abandonar durante trs anos para ir viver numa quinta? Natalie entrou no quarto. Virei-me para ela.

O que  que se passa?

Infelizmente tenho ms notcias para ti, Sidney. O teu pai meteu-se com gente m explicou. Vendia mquinas de distribuio automtica a lojas. O que o teu pai no 
sabia  que no havia mquinas. Os homens para quem trabalhava ficaram com o dinheiro e fugiram. Mas foram apanhados e o teu pai foi considerado culpado, juntamente 
com eles. Vai para a cadeia.

Fiquei chocado. Ento a quinta era essa.

Por trs anos?

No sabia o que dizer. O que amos ns fazer sem ele durante trs anos?

A verdade  que no precisava de me ter preocupado.

Doze meses depois de Otto ter sido internado na priso estadual de Lafayette, estava de volta a casa, um heri.

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CAPTULO 4

Tnhamos lido nos jornais a histria do herosmo de Otto e ouvimo-la vezes sem conta na rdio. Eu no fazia a mnima ideia do que a priso fazia a um homem, mas, 
por qualquer razo, tinha a sensao que ele voltaria mudado, plido e vergado. Aguardava-me uma agradvel surpresa.

Quando ele entrou pela porta da frente do nosso apartamento, ostentava um sorriso de orelha a orelha e estava alegre.

Voltei saudou. Choveram os abraos.

Queremos saber o que aconteceu. Otto sorriu.

Tenho todo o prazer em contar tudo.

E sentou-se  mesa da cozinha e comeou a contar:

Eu estava a trabalhar no recinto da priso, juntamente com a equipa de limpeza. A cerca de mil e quinhentos metros, h um enorme reservatrio que armazena a gua 
que abastece a priso, cercado por um muro com uns trs metros de altura. Olhei para cima e vi um garoto a sair de um dos edifcios. Devia ter trs ou quatro anos. 
A equipa acabara o trabalho e eu estava sozinho.

Quando voltei a olhar para cima, o garoto subia os degraus do muro do reservatrio e estava quase a chegar ao topo. Era muito perigoso. Olhei em volta  procura 
de quem estava a tomar conta dele, mas no vi ningum. Enquanto eu olhava em redor, o garoto chegou ao cimo. Escorregou e caiu dentro do reservatrio. Um guarda 
numa das torres viu o que se passou, mas eu sabia que ele nunca ia conseguir chegar a tempo ao garoto. Levantei-me e corri como um louco at ao muro. Subi o mais 
depressa que fui capaz. Quando cheguei ao cimo, olhei para dentro e vi o garoto a afundar-se. Atirei-me  gua e consegui apanh-lo. Debatia-me para conseguir manter-nos 
aos dois a flutuar.

"Logo a seguir, chegaram os socorros e tiraram-nos de l de dentro. Puseram-me no hospital durante uns dias, porque eu engolira uma data de gua e tinha algumas 
contuses por me ter atirado.

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Estvamos presos as palavras dele.

Quis a sorte que o garoto fosse o filho do director da priso. Ele e a mulher foram ao hospital visitar-me.

Otto olhou para ns e sorriu.

E a histria acabaria aqui se no fosse um pormenor.  que descobriram que eu no sabia nadar e ento a partir da foi a loucura. De repente passei a ser um heri. 
Estava nosjornais e na rdio. A priso foi inundada por telefonemas, cartas e telegramas a oferecerem-me emprego e a pedirem clemncia para mim. O director e o governador 
tiveram uma reunio e decidiram que, dado o meu delito no ser srio, seria uma boa poltica perdoarem-me Otto estendeu os braos. E aqui estou eu.

ramos de novo uma famlia.

Pode ter sido coincidncia, mas, subitamente, uma bolsa  qual concorrera um ano atrs, da B'nai Brith uma organizao judaica filantrpica foi-me concedida.

Era um milagre. Eu seria o primeiro da minha famlia a frequentar a universidade. Uma pgina fora virada. Admiti que, afinal, talvez pudesse existir um futuro para 
mim algures. Mas, mesmo com a bolsa, continuvamos desesperados com falta de dinheiro.

Seria eu capaz de aguentar o bengaleiro sete noites por semana, a drugstareAfremow aos sbados e um horrio completo na universidade?

Logo se veria.



A Northwestern University situa-se em Evanston, em Illinois, a dezoito quilmetros de Chicago. A universidade, cujos terrenos ocupam cento e quarenta acres nas margens 
do Lago Michigan, era espectacular. s nove da manh de uma segunda-feira, entrei na secretaria.

Estou aqui para entrar na universidade.

O seu nome?

Sidney Sheldon.

A funcionria pegou num livro enorme e procurou.

Ora c est. Que cursos quer frequentar?

Todos. Olhou para mim.

Como?

Quero dizer, todos os que me forem permitidos. Enquanto aqui estiver, quero aprender tudo o que puder.

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E o que  que mais lhe interessa?

Literatura.

Fiquei a olhar enquanto ela procurava no meio de uma srie de panfletos. Tirou um e deu-mo.

Aqui tem uma lista dos nossos cursos. Analisei-a.

Isto  ptimo.

Marquei todos os cursos que queria e em seguida devolvi-lha. Ela olhou para a lista.

Est a marcar o nmero mximo de cursos?

Exactamente. Franzi o sobrolho. Mas o Latim no est a e eu estou muito interessado em tirar Latim.

Olhou outra vez para mim.

Acha mesmo que consegue lidar com tudo isto? Sorri.

Claro.

Ela escreveu "Latim".

Da secretaria passei para a cozinha da cafetaria.

Vocs precisam de um ajudante?

Sempre.

Bom, j tinha mais um emprego, mas ainda no chegava. Sentia-me impelido a fazer mais, como se tentasse recuperar tempo perdido. Nessa tarde, dirigi-me aos escritrios 
do Daily Northwestern, o jornal da universidade.

Chamo-me Sidney Schechtel disse ao homem por detrs de uma secretria com um letreiro que dizia "Redactor". Gostava muito de trabalhar num jornal.

Lamento, mas j temos o quadro preenchido. Tenta para o ano.

Para o ano ser demasiado tarde. Fiquei parado a pensar. Tm alguma seco dedicada ao mundo do espectculo?

Uma seco dedicada ao mundo do espectculo?

Sim. H sempre celebridades a vir a Chicago para fazer espectculos. No tm ningum do jornal que as entreviste?

No. Ns...

Faz ideia de quem est neste momento na cidade, desejosa de ser entrevistada? A Katherine Hepburn!

Ns no estamos...

O Clifton Webb.

Ns nunca tivemos uma...

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O Walter Pidgeon.

Posso falar com algum, mas receio que...

O George M. Cohan.

Ele comeava a demonstrar interesse.

Conheces toda essa gente? Eu no ouvi a pergunta.

No h tempo a perder. Quando os espectculos deles chegarem ao fim, vo-se embora.

Est bem. Vou dar-te uma oportunidade, Schechtel. Ele no fazia ideia de como eu estava excitado.

Essa  a melhor deciso que alguma vez j tomou.

Veremos. Quando podes comear?

J comecei. Vai ter a primeira entrevista para a prxima edio. Olhou para mim, surpreso. J? E quem vai ser?

 surpresa.

Era surpresa tambm para mim.

No pouco tempo que tinha, entrevistei muitas celebridades menores para o jornal. A minha primeira entrevista foi feita a Guy Kibbee, um actor sem importncia da 
poca. As grandes estrelas eram demasiado importantes para serem entrevistadas por um jornal universitrio.

Eu trabalhava no bengaleiro, na drugstore, inscrevera-me na universidade no maior nmero possvel de cursos incluindo Latim, tinha um emprego como ajudante de cozinha 
e pertencia ao quadro do Daily Northwestern. Mas, mesmo assim, ainda no me chegava. Era como estivesse possudo. Pensei no que mais podia fazer. A Northwestern 
tinha uma excelente equipa de futebol e no havia qualquer razo para que eu no fizesse parte dela. Tinha a certeza de que os WzTd Cas teriam todo o interesse 
em me terem na equipa deles.

Na manh seguinte, dirigi-me ao campo de futebol onde a equipa treinava. Pug Rentner, que veio a ter uma gloriosa carreira na NFL, era a estrela da equipa nesse 
ano. Dirigi-me ao treinador, que estava numa das linhas laterais a observar o treino.

Posso falar um minuto consigo?

O que  que queres?

Gostava de fazer testes para a equipa. Ele analisou-me.

National FootballLeague (N. da T.)

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Gostavas, era? s bem constitudo. Onde  que jogaste antes? No respondi.

No liceu? Na universidade?

No, senhor.

Na preparatria?

No, senhor.

Ele olhava fixamente para mim.

Tu nunca jogaste futebol?

No, mas sou muito rpido e...

E gostavas de pertencer a esta equipa? Filho, esquece. E a ateno dele voltou para os jogadores.

Foi o fim das minhas aspiraes futebolsticas.

Os professores em Northwestern eram maravilhosos e as aulas eram excitantes. Eu estava sedento de aprender tudo o que podia. Na semana depois de ter iniciado as 
aulas, passei por um letreiro no corredor que dizia "Audies hoje  noite. Equipa deDebate da Northwestern". Estaquei e fiquei a olhar. Sabia que era uma loucura, 
mas no entanto sentia-me impelido a experimentar.

H uma mxima que diz que a morte  o segundo maior medo que as pessoas tm e que falar em pblico  o primeiro. Era, sem dvida, o meu caso. Para mim, no h nada 
mais aterrorizador do que falar em pblico. Mas eu estava obcecado. Tinha de fazer de tudo. Tinha de continuar a virar pginas.

Quando entrei na sala destinada aos testes, esta estava cheia de rapazes e raparigas que aguardavam a sua vez. Encontrei uma cadeira e sentei-me a ouvir. Todos os 
oradores me soavam espantosos. Eram articulados e falavam fluentemente, com uma enorme confiana.

Por fim, chegou a minha vez. Ergui-me e dirigi-me para junto do microfone.

O responsvel perguntou:

Como te chamas?

Sidney Schechtel.

E qual vai ser o tema? Eu antecipara isto.

O capitalismo versus comunismo. Ele anuiu.

Ento avana.

Comecei a falar e pareceu-me que estava a ir muito bem. Quando

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cheguei a meio do meu tema, parei. Estava esttico. Fez-se uma longa e nervosa pausa. Murmurei qualquer coisa para pr fim ao meu discurso e escapuli-me dali para 
fora, praguejando para mim mesmo. Um aluno que estava  porta perguntou:

Tu no s um caloiro?

Sou.

E ningum te disse nada?

Sobre o qu?

 que no so permitidos caloiros nos debates. Tens de estar em anos mais avanado.

Ora, boa, pensei para comigo. Agora j tenho uma boa justificao para o meu falhano!

No dia seguinte de manh, os nomes dos vencedores foram afixados no quadro das informaes. Por pura curiosidade, deitei uma olhadela. Um dos nomes era "Shekter". 
Algum com um nome parecido com o meu fora escolhido. Na zona inferior do quadro estava um aviso para que todos os seleccionados se dirigissem s trs e meia da 
tarde para junto do orientador de debates.

As quatro, recebi um telefonema.

Shekter, o que  que te aconteceu?

No fazia ideia de que  que ele estava a falar.

O qu? Nada.

No viste o aviso para virem ter com o orientador de debates? Shekter. Eles tinham percebido mal o meu nome.

Sim, mas pensei...  que eu sou caloiro.

Eu sei. Mas decidimos abrir uma excepo para o teu caso. Mudmos as regras.

E assim tornei-me o primeiro caloiro alguma vez aceite na Equipa de Debate da Northwestern. Outra pgina que fora virada.

Embora me forasse a estar ocupado, havia ainda qualquer coisa que me faltava. De uma certa forma, sentia-me como se no estivesse realizado. Tinha uma profunda 
sensao de vazio, ansiedade e isolamento. No campus da universidade, ao observar as hordas de estudantes que se apressavam a entrar e a sair das aulas, pensava 
para mim: "So todos annimos. Quando morrerem, ningum saber que viveram sobre a Terra." Uma enorme onda de depresso abateu-se sobre mim. "Eu quero que as pessoas 
saibam que estive aqui", pensei. "Quero que saibam que vivi. Quero marcar a diferena."

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No dia seguinte, a minha depresso estava mais profunda. Sentia-me atabafado por pesadas nuvens negras. Por fim, desesperado, marquei consulta no psiclogo da universidade, 
para ver se ele descobria o que havia de errado em mim.

No caminho, sem qualquer justificao, fui invadido por uma tal sensao de alegria que comecei a cantar alto. Quando cheguei  entrada do edifcio onde o psiclogo 
tinha o gabinete, estaquei.

"Eu nopreciso de falar com ele", pensei. "Estou feliz. O homem vaipensar que sou maluco".

Foi uma m opo. Se tivesse ido falar com ele, teria ficado logo nesse dia a saber aquilo que s vim a descobrir muitos anos mais tarde.

A minha depresso voltou e no mostrava sinais de regredir.

O dinheiro era cada vez mais escasso. Otto tinha dificuldade em conseguir emprego e Natalie trabalhava como vendedora num grande armazm seis dias por semana. Eu 
trabalhava todas as noites no bengaleiro e na drugstore Afremow nas tardes de sbado, mas, mesmo com aquilo que Otto e Natalie ganhavam, o dinheiro no chegava. 
Por volta de Fevereiro de 1935, estvamos com a renda bastante atrasada.

Uma noite, ouvi Otto e Natalie a conversarem.

No sei o que vamos fazer. Estamos a ser pressionados por toda a gente. Talvez seja melhor tentar arranjar um trabalho  noite dizia ela.

No, pensei. A minha me j tinha um trabalho a tempo inteiro e vinha para casa, e fazia o jantar, e limpava o apartamento. No podia permitir que ela fizesse mais 
do que fazia.

Na manh seguinte, desisti da Northwestern.

Quando contei a Natalie o que acabara de fazer, ela ficou horrorizada.

Sidney, tu no podes desistir da universidade. Tudo se vai compor. Tinha os olhos cheios de lgrimas.

Mas eu sabia que nada se ia compor. Comecei imediatamente  procura de outro emprego, mas em 1935 a Depresso estava no seu auge e no havia empregos disponveis. 
Tentei agncias de publicidade, jornais e estaes de rdio, mas ningum estava a contratar.

No caminho para outra entrevista numa estao de rdio, passei por um grande armazm chamado Mandei Brothers. L dentro, pareciam muito ocupados. Meia dzia de vendedores 
assistiam os clientes. Decidi que no tinha nada a perder, entrei e olhei em volta. Comecei a vaguear pela loja. Era enorme. Passei pelo departamento de sapatos 
de senhora e parei. Isto ia ser fcil.

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Um homem aproximou-se.

Em que posso ser til?

Gostava de falar com o gerente.

O meu nome  Young, sou o gerente. Em que lhe posso ser til?

Estou  procura de trabalho. Tem alguma vaga? Olhou para mim por momentos.

Na realidade, tenho, sim. Tem alguma experincia na venda de sapatos de senhora?

Sim, sim.

E onde  que trabalhou antes?

Lembrei-me do nome de uma loja onde comprara uns sapatos.

Na Thom McCann, em Denver.

Pois muito bem. Acompanhe-me ao meu escritrio. Deu-me um formulrio. Preencha isso.

Quando terminei, pegou nele, leu-o e em seguida olhou para mim.

Primeiro que tudo, senhor Schechtel, McCann no se escreve "M-I-C-K-A-N". E, em segundo lugar, no fica nesta rua.

Eu precisava desesperadamente deste emprego.

Se calhar mudaram respondi apressadamente. E sou pssimo a ortografia. Sabe...

S espero que seja melhor a vender do que  a mentir. Acenei com a cabea, deprimido, e virei-me para partir.

De qualquer das maneiras, muito obrigado.

Espere. Est contratado. Olhei para ele, espantado.

Estou? Mas, porqu?

O meu patro acha que s uma pessoa com experincia  que consegue vender sapatos de senhoras. Eu por mim acho que qualquer pessoa  capaz de aprender rapidamente. 
Voc vai ser uma experincia.

Muito obrigado respondi, agradecido. No o vou decepcionar.

Fui trabalhar cheio de optimismo. Quinze minutos mais tarde estava despedido. O que aconteceu  que cometi um pecado imperdovel. A minha primeira cliente era uma 
senhora muito bem vestida, que me abordou no departamento de sapatos.

Posso ajudar?

Quero um par de sapatos rasos pretos, tamanho 40. Dei-lhe o meu melhor sorriso de vendedor.

Com certeza.

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Dirigi-me s traseiras, ao local onde guardavam os sapatos em prateleiras. Havia centenas de caixas, todas marcadas pelo lado de fora... 35,36,37,38,39,41. Nenhum 
40. Comecei a ficar desesperado. Havia um 41. "Ela nunca vai dar pela diferena", pensei. Tirei os sapatos da caixa e levei-lhos.

Ora aqui tem.

Calcei-lhos nos ps. Ela olhou para eles durante um momento.

Isto  um 40?

Sim, minha senhora. Observou-me durante algum tempo.

Tem a certeza?

Tenho, sim.

Tem a certeza que isto  um 40?

Absoluta.

Quero falar com o gerente.

E foi o fim da minha carreira no departamento de sapatos de senhora. Nessa tarde, fui transferido para a retrosaria.

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CAPTULO 5

Embora estivesse a trabalhar seis dias por semana na retrosaria do Mandei Brothers e sete noites por semana nos bengaleiros dos hotis da baixa da cidade, o dinheiro 
continuava a no chegar. Otto arranjou um emprego a meio tempo a trabalhar num centro de telemarketingno South Side, cujo objectivo era vender produtos a desconhecidos 
por telefone.

Esta operao decorria numa enorme sala nua, com uma dzia de homens, cada um com um telefone, a falarem ao mesmo tempo com potenciais clientes, tentando vender-lhes 
poos de petrleo, aces da bolsa ou o que quer que fosse que pudesse parecer um bom investimento. Era um trabalho de grande tenso. Os nomes e os nmeros de telefone 
dos potenciais clientes eram obtidos de uma longa lista que era vendida a quem quer que dirigisse um centro de telemarketing. Os vendedores recebiam uma comisso 
pelas vendas que faziam.

Otto voltava  noite para casa e falava excitadamente sobre o que l se passara. Como estava aberta sete dias por semana, decidi passar por l e dar uma vista de 
olhos, para ver se conseguia ganhar mais algum dinheiro extra aos domingos. Otto conseguiu que me deixassem tentar e no domingo seguinte fui trabalhar com ele. Quando 
l cheguei fiquei parado na temida sala a ouvir as conversas dos vendedores.

"...senhor Collins, ainda bem que o consegui apanhar. O meu nome jason Richards e tenho excelentes notcias para si. O senhor e a sua famlia acabaram de ganhar 
uma viagem grtis s Bermudas. A nica coisa que precisa de fazer  mandar-me um cheque e..."

"... senhor Adams, tenho excelentes notcias para si. O meu nome  Brown, Jim Brown. Sei que investe em aces e tive conhecimento de um negcio que vai ter um aumento 
de cem por cento nas prximas seis semanas. No h muitas pessoas a terem conhecimento disso, mas, se estiver interessado em ganhar bom dinheiro..."

"... senhora Doyle, fala Charlie Chase. Muitos parabns. A senhora, o seu marido, a pequena Amanda e o Peterforam escolhidos para uma viagem grtis a..."

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E por a fora.

Espantava-me com a quantidade de pessoas que caam no conto do vigrio oferecido pelo vendedor. Por alguma razo, os mdicos pareciam ser os mais crdulos. A maior 
parte dos produtos que eram vendidos tinham defeito, eram mais caros, de qualidade inferior ou nem sequer existiam.

Naquele domingo, tive a minha conta daquele centro e nunca mais l voltei.

O meu trabalho no Mandei Brothers era aborrecido e fcil, mas eu no andava  procura de coisas fceis. Queria um desafio, algo que me desse a possibilidade de crescer. 
Sabia que se me sasse bem ali tinha a oportunidade de poder subir. Um dia at podia chegar a chefe do departamento. O Mandei Brothers tinha uma cadeia de lojas 
por todo o pas, por isso, com o tempo, at podia tornar-me director regional e, quem sabe, chegar a presidente.

Numa manh de domingo, o meu chefe, o senhor Young, veio falar comigo.

Schechtel, tenho ms notcias para ti. Eu olhava fixamente para ele.

O que ?

Vou ter que te despedir. Tentei parecer calmo.

Fiz alguma coisa de errado?

No. Todos os departamentos receberam ordens para cortarem no pessoal. Tu foste o ltimo a ser admitido, por isso tens de ser o primeiro a partir.

Senti-me como se algum tivesse agarrado o meu corao e mo tivesse apertado. Eu precisava desesperadamente daquele emprego. Ele no fazia ideia de que no estava 
simplesmente a despedir um empregado do departamento de retrosaria, mas o futuro presidente da empresa.

Sabia que tinha que encontrar um outro emprego, o mais depressa possvel. As dvidas acumulavam-se. Devamos na mercearia, o senhorio comeava a ficar agressivo 
e a gua, a luz e o gs, que j tinham sido cortados vrias vezes, estavam prestes a ser cortados de novo.

Lembrei-me de algum que talvez pudesse ajudar.

Charley Fine, um amigo de h muitos anos do meu pai, era executivo numa grande empresa industrial. Perguntei a Otto se ele via

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algum problema em que eu falasse com Charley para lhe pedir um emprego.

Otto pensou durante um pouco e em seguida olhou para mim e respondeu:

Eu prprio falo com ele.

Na manh seguinte, atravessei os enormes portes da Stewart Warner, o maior fabricante do mundo de peas para automveis. A fbrica estava instalada num edifcio 
com cinco andares e ocupava um quarteiro inteiro. Um guarda acompanhou-me atravs da fbrica, cheia de enormes e misteriosas mquinas, semelhantes a monstros pr-histricos. 
O barulho que faziam era incrvel.

Otto Karp, um homem baixo e robusto, com um forte sotaque alemo, estava  minha espera.

Ento vens trabalhar para c? perguntou.

Sim, senhor. Pareceu ficar desapontado.

Vem comigo.

E, comemos a caminhar ao longo da enorme fbrica. Todas as mquinas trabalhavam  mxima velocidade.

Quando nos aproximmos de uma delas, Karp disse:

Esta aqui faz engrenagens e bichas para velocmetros. Fazem girar o veio flexvel que faz mover o velocmetro. Ests a perceber?

Eu no percebera uma palavra.

Pois.

Levou-me at outra mquina junto daquela.

Aquilo que vs sair deste lado so engrenagens que so comprimidas contra o veio de sada da transmisso. A mais comprida  a bicha que  inserida num determinado 
ngulo para engrenar na roda dentada da transmisso.

Fiquei a olhar para ele e interroguei-me: Chins Swahili? Dirigimo-nos a outra mquina.

Aqui fazem engrenagens que esto fixas ao cubo das rodas da frente. A ponteira  fixada ao disco do travo. Ests a ver?

Acenei que sim.

Levou-me junto de outra mquina.

Esta substitui engrenagens gastas. Este sistema de transmisso h uns tempos que est estandardizado. A vantagem dos sistemas de transmisso frontal  que podemos 
obter vrias desmultiplicaes sem afectar o desempenho do velocmetro. Percebeste?

 swahili conclu. Claro que sim.

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Bom, agora vou mostrar-te o teu departamento. Levou-me ao departamento de pequenas encomendas, do qual eu ia ficar encarregue.

As mquinas que me tinham sido apresentadas eram gigantescas e tinham sido construdas para responderem a grandes encomendas dos construtores de automveis, meio 
milho de peas ou mais de cada vez. O departamento das pequenas encomendas tinha trs mquinas muito mais pequenas.

Otto Karp explicou:

Se algum encomendar cinco ou dez peas, no nos podemos dar ao luxo de ligar uma das grandes mquinas para uma encomenda to pequena. Mas estas mquinas aqui esto 
concebidas para produzirem quantidades to pequenas como uma ou duas peas. Assim que entra uma encomenda pequena, tu tomas conta dela e  imediatamente tratada.

E como  que fao isso?

Primeiro, do-te uma ordem de compra. A encomenda pode ser de uma a uma dzia de engrenagens. Em seguida, passas a ordem de compra ao maquinista. Quando as peas 
esto prontas, tens de lev-las para o departamento de tmpera, onde vo ser endurecidas. A paragem seguinte  a inspeco e, por fim, o departamento de embalagem.

Parecia razoavelmente fcil.

Fiquei a saber que o meu antecessor s dava aos homens que trabalhavam no departamento de pequenas encomendas seis encomendas por dia. As restantes guardava-as e 
os homens ficavam por ali sentados metade do dia, sem fazerem nada. Quanto a mim, era um desperdcio. Ao fim de um ms, conseguira aumentar a nossa capacidade de 
resposta em cinquenta por cento. Por altura do Natal, recebi a minha recompensa. Otto Karp deu-me um cheque de catorze dlares e disse:

Aqui tens. Bem mereces. Tens um dlar de aumento.

Otto andava na estrada, Natalie trabalhava seis dias por semana numa loja de roupas e Richard ia  escola. Os meus dias na Stewart Warner a trabalhar no montono 
ambiente da fbrica, rodeado por mquinas irreais, tinham-se tornado entorpecedores. As minhas noites eram igualmente ms. Apanhava o El para o Loop, ia a p at 
ao hotel onde estava a trabalhar e passava as horas seguintes a receber e

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a entregar casacos. A minha vida transformara-se numa rotina cinzenta e feia e no havia sada  vista.

Uma noite em que regressava j tarde a casa no El vindo do trabalho, um anncio no The Chicago Tribune chamou-me a ateno.

Paul Ash patrocina concurso amador. Inicie a sua carreira no mundo do espectculo.

Paul Ash, regente de um grupo musical conhecido em todo o pas, ia estar no teatro Chicago. O anncio foi como mel para mim. No fazia ideia de qual era o concurso 
amador, mas sabia que queria entrar.

No sbado, antes de ir trabalhar na drugstore, parei no teatro Chicago e pedi para falar com Paul Ash. O empresrio dele saiu de um gabinete.

O que posso fazer por si?

Gostava de entrar no concurso amador respondi. Ele consultou um papel.

Ainda no temos um apresentador. Acha que  capaz?

Oh, sim! Claro que sim!

ptimo. E qual  o seu nome?

Qual era o meu nome? Schechtel no era um nome apropriado para o mundo do espectculo. As pessoas estavam sempre a escrev-lo mal e a pronunciarem-no mal. Precisava 
de um nome que fosse fcil de recordar. As hipteses passaram rapidamente pela minha mente. Gabble, Cooper, Grant, Stewart, Powett...

O homem olhava para mim.

No sabe como se chama?

Claro que sei! respondi imediatamente.  Sidney Sh... Sheldon. Sidney Sheldon.

Ele anotou-o.

Muito bem, Sheldon, esteja c no prximo sbado. As seis em ponto. Vai transmitir do estdio numa estao da WGN.

Fosse l o que isso fosse.

Certo.

Corri para casa para dar a notcia aos meus pais e ao meu irmo Richard. Ficaram muito excitados. Havia mais uma coisa que eu tinha de lhes dizer.

Vou usar um nome diferente.

Que queres dizer com isso?

Bom, Schechtel no  um bom nome para o espectculo. De agora em diante serei Sidney Sheldon.

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Olharam um para o outro e encolheram os ombros.

Est bem.

Tive dificuldade em dormir nas noites que se seguiram. Sabia que aquilo seria o princpio. Eu ia ganhar o concurso. Paul Ash dar-me-ia um contrato para viajar com 
ele pelo pas. Sidney Sheldon ia viajar pelo pas com ele.

Quando sbado relutantemente entrou no calendrio, regressei ao teatro Chicago e fui conduzido a um pequeno estdio, juntamente com mais outros jovens concorrentes. 
Havia um comediante, um cantor, uma pianista e um tocador de acordeo.

O director disse, dirigindo-se a mim:

Sheldon...

Senti um arrepio. Era a primeira vez que algum me chamava pelo meu novo nome.

Diga, senhor?

Assim que eu apontar na tua direco, diriges-te ao microfone e ds incio ao programa. Vais dizer Boa noite, minhas senhoras e meus senhores. Sejam bem vindos ao 
Concurso para Amadores Paul Ash. Eu sou o vosso apresentador e chamo-me Sidney Sheldon. Este vai ser um programa emocionante, por isso no saiam da. Percebeste?

Sim, senhor.

Quinze minutos mais tarde, o director olhou para o relgio do estdio que estava na parede e ergueu o brao.

Silncio, todos.

E comeou a contar. Apontou para mim, e eu estava preparado. Nunca antes em toda a minha vida estivera to calmo, porque sabia que isto era o incio de uma carreira 
maravilhosa. E ia comear com o meu novo nome artstico.

Com grande compostura, aproximei-me do microfone, respirei fundo e disse na minha melhor voz de locutor:

Boa noite, minhas senhoras e meus senhores. Sejam bem-vindos ao Concurso para Amadores Paul Ash. Eu sou o vosso apresentador, Sidney Schechtel.

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CAPTULO 6

Consegui recompor-me a tempo de apresentar os outros concorrentes. O espectculo correu bem. O tocador de acordeo executou uma alegre melodia, seguido pelo comediante, 
que cumpriu o seu papel como um verdadeiro profissional. O cantor cantou lindamente. Nada correu mal at que chegou a vez da ltima concorrente, a pianista, ser 
apresentada. Assim que anunciei o seu nome, ela entrou em pnico, comeou a chorar e fugiu apressadamente, deixando-nos com trs minutos de tempo de antena vazio. 
Sabia que tinha de preencher este tempo. Eu era o apresentador.

Aproximei-me do microfone.

Senhoras e senhores, todos ns comeamos na vida como amadores mas,  medida que vamos avanando, tornamo-nos profissionais.

Fiquei to embrenhado nas minhas prprias palavras que continuei a falar at que o director me fez sinal para parar.

Samos do ar. Eu sabia que salvara o espectculo e que todos me ficariam gratos por isso. Talvez me oferecessem um emprego como...

O director aproximou-se de mim.

Que raio se passa contigo,  tu, que no sei como te chamas? gritou. Excedeste o tempo em quinze segundos.

A minha carreira na rdio terminara.

Paul Ash no me convidou para viajar pelo pas com ele, mas este concurso de Paul Ash teve uma consequncia interessante. Otto, Natalie, Richard, Seymour, Eddie, 
Howard e Steve, todos eles mudaram o apelido para Sheldon. O nico Schechtel que restou foi o tio Harry.

No princpio de Maio, o meu primo Seymour espantou-nos a todos anunciando que ia casar.

Ele s tinha dezanove anos, mas parecia-me que fora adulto quase toda a vida.

Eu conhecera a noiva, Sidney Singer, quando vivera em Denver.

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Sidney era umajovem e atraente secretria que trabalhara no escritrio de corretagem do tio Harry, onde Seymour a conheceu. Achara-a calorosa e inteligente, com 
um sentido de humor simptico.

O casamento foi simples, apenas com os membros da famlia presentes. Quando a cerimnia terminou, dei os parabns a Seymour.

 uma rapariga espectacular. Guarda-a bem disse.

No te preocupes,  o que tenciono fazer.

Seis meses mais tarde, atravessavam um divrcio complicado.

O que foi que aconteceu? perguntei a Seymour.

Ela descobriu que eu tinha um caso.

E pediu o divrcio?

No. Perdoou-me.

Ento, porque  que...

Apanhou-me com outra pessoa. Foi a que pediu o divrcio.

Costumas v-la?

No. Ela odeia-me. Disse-me que nunca mais me queria ver. Partiu para Hollywood. Tem um irmo que vive l. Arranjou um emprego na MGM como secretria de uma directora. 
A Dorothy Arzner.

A minha curta incurso na rdio deixara-me um agradvel sabor na boca e fiquei excitado com as possibilidades que oferecia. A rdio podia muito bem ser a profisso 
que eu procurava. Em todos os minutos livres que tinha visitava a WBBM e outras estaes de rdio de Chicago  procura de um emprego como locutor. No havia empregos, 
ponto final. Tive de encarar o facto de que estava de regresso  velha armadilha, sem qualquer perspectiva de futuro.

Uma tarde de domingo, quando todos tinham sado do apartamento, sentei-me ao pequeno piano. Fiquei ali, a compor uma melodia. Conclu que no era m e criei uma 
letra para ela. Chamei-lhe "My Silent Self. Olhei para ela e pensei "e agora?" Podia deix-la no banco do piano ou podia tentar fazer alguma coisa com ela.

Optei por tentar fazer alguma coisa.

Nesse ano de 1936, os maiores hotis do pas tinham orquestras nos seus sales de baile que eram transmitidas por rdio por todo o pas. No hotel Bismarck, o chefe 
de orquestra era um simptico msico chamado Phil Levant. Eu nunca falara com ele, mas, de vez em quando, quando ele passava pelo bengaleiro a caminho do salo, 
costumvamos acenar com a cabea um ao outro.

Decidi mostrar-lhe a minha msica. Quando nessa noite ele passou pelo bengaleiro, chamei-o:

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Desculpe, senhor Levant. Compus uma msica e gostava de saber se estaria interessado em lhe dar uma olhadela.

A expresso no seu rosto deu-me uma ideia do nmero de vezes que j ouvira esta proposta, mas ele foi muito educado.

Terei muito gosto respondeu.

Dei-lhe uma cpia da folha da msica. Ele olhou-a de relance e seguiu o seu caminho. E acabou-se, pensei.

Uma hora mais tarde, Phil Levant estava de volta ao bengaleiro.

Aquela tua msica... comeou a dizer. Eu nem conseguia respirar.

Sim?

Gosto dela.  original. Parece-me que pode ser um sucesso. Importavas-te que eu a orquestrasse e a tocssemos?

Importar?

No, claro que no. Isso ...  maravilhoso respondi. Ele gostara da minha msica!

Na noite seguinte, enquanto eu pendurava chapus e casacos, dos lados do salo de baile ouvi a minha msica, "My Silent Self", a ser tocada. Fiquei extasiado. Como 
a orquestra tinha difuso nacional, haveria pessoas a ouvir a minha msica em todo o pas. Era uma sensao arrebatadora.

J era tarde quando, nessa noite, terminei o meu trabalho. Fui para casa e, como estava exausto, decidi tomar um banho quente.

Exactamente no momento em que comeava a relaxar, Otto entrou a correr na casa de banho.

Tens uma chamada para ti. A esta hora?

Quem ?

Diz que se chama Phil Levant.

Saltei da banheira, agarrei numa toalha e corri para o telefone.

Senhor Levant?

Sheldon, tenho aqui um editor da Harms Music Company. Ouviram a tua msica na rdio, em Nova Iorque. Querem edit-la.

Quase deixei cair o telefone.

Podes vir at c agora? Ele est  tua espera.

Estou a caminho.

Sequei-me apressadamente e vesti-me num pice. Apanhei uma cpia da folha da msica.

Que  que se passa? quis Otto saber. Expliquei-lhe.

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Posso levar o carro?

Claro e deu-me as chaves. Tem cuidado.

Corri pelas escadas abaixo, entrei no carro e dirigi-me para a Outer Drive, a caminho do hotel Bismarck. A minha cabea girava com a excitao de poder vir a ter 
a minha primeira msica editada quando, de repente, me apercebi do som de uma sirene mesmo atrs de mim e vi as luzes vermelhas a girar. Enquanto me chegava para 
o lado, o polcia saiu da moto e dirigiu-se ao carro.

Qual  a pressa?

Senhor guarda, eu no me apercebi que estava com excesso de velocidade. Estou a caminho de um encontro com um editor de msica no hotel Bismarck. Trabalho l, no 
bengaleiro. H uma pessoa interessada em editar a minha msica e...

Carta de conduo?

Mostrei-lhe a minha carta. Meteu-a no bolso.

Muito bem. Acompanhe-me. Fiquei a olhar para ele.

Acompanho-o onde? Passe-me uma multa. Eu estou cheio de...

Agora as regras so outras respondeu. J no passamos multas. Agora levamos os prevaricadores directamente para a esquadra.

O corao caiu-me aos ps.

Senhor guarda, eu tenho de ir a esta reunio. Se me pudesse passar a multa, eu teria muito gosto em...

Eu disse para me acompanhar. No tinha outra hiptese.

Ele ps a moto a funcionar e colocou-se  minha frente. Segui-o. Em vez de me ir encontrar com o meu novo editor, estava a caminho de uma esquadra de polcia.

Cheguei  esquina seguinte no momento exacto em que a luz passou de amarelo para vermelho. Ele passou. Eu parei,  espera que mudasse outra vez para verde. Quando 
comecei a avanar, o polcia na moto no se via em lado nenhum. Andei devagarinho, para ter a certeza de que ele no ia pensar que eu tentava escapar. E quanto mais 
avanava, mais optimista ia ficando. Ele desaparecera. Esquecera-se de mim. Andava  procura de outra pessoa para mandar para a cadeia. Aumentei a velocidade e dirigi-me 
ao Bismarck.

Parei o carro na garagem e apressei-me at ao bengaleiro. No podia acreditar no que estava a ver. O polcia estava l dentro  minha espera, e estava furioso:

Pensou que se livrava de mim?

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Eu no sabia o que dizer.

Eu no estava a tentar fugir de si. Dei-lhe a minha carta e disse-lhe que vinha para aqui...

Est bem. J c est. Agora vamos para a esquadra ordenou. Eu estava desesperado.

Deixe-me telefonar ao meu pai. Ele abanou a cabea.

J perdi demasiado tempo...

S demora um segundo.

Est bem, mas despache-se. Marquei o nmero de casa. Otto atendeu.

Estou?

Otto?

Ento, como  que correu?

Estou a caminho da esquadra de polcia expliquei-lhe a situao.

Deixa-me falar com o polcia pediu Otto.

O meu pai quer falar consigo. Ele pegou no telefone, relutante.

Sim... no, no tenho tempo para ouvir. Vou levar o seu filho para a esquadra... O qu?... Ai ? Isso  interessante... Sim, sei o que quer dizer. Para falar verdade, 
sim... Tenho um cunhado que precisa de um emprego... Ai sim? Deixe-me apontar.

E puxou de uma caneta e de um bloco e comeou a escrever.

 muito simptico da sua parte, senhor Sheldon. Vou mand-lo de manh. Olhou de relance para mim. E no se preocupe com o seu filho.

Eu ouvia a conversa de boca aberta. O polcia desligou o telefone, devolveu-me a carta de conduo e disse:

Eu que no te apanhe outra vez em excesso de velocidade. Fiquei a olhar, enquanto ele se ia embora.

Virei-me para a empregada do bengaleiro e perguntei:

Onde est Phil Levant?

Est a dirigir a orquestra, mas est uma pessoa  tua espera no escritrio do gerente respondeu.

No escritrio do gerente encontrei um homem muito bem vestido e elegante que parecia andar pelos cinquenta anos. Assim que entrei, ele disse.

Ento, este  ojovem Maravilha. O meu nome  Brent. Trabalho para a TB Harms.

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A TB Harms era uma das maiores editoras de msica do mundo.

Ouviram a sua msica em Nova Iorque e gostariam de a editar informou.

O meu corao cantava.

Mas h um problema hesitou.

Qual ?

Eles acham que Phil Levant no  um nome suficientemente importante para apresentar a sua msica. Gostavam de ter outra pessoa mais importante a toc-la.

O corao caiu-me aos ps. Eu no conhecia ningum mais importante.

Horace Heidt est a tocar no hotel Drake. Talvez pudesse ir falar com ele e mostrar-lhe a msica sugeriu.

Horace Heidt tinha uma das orquestras mais populares do pas.

Claro.

Deu-me o carto dele.

Diga-lhe que me telefone.

Com certeza prometi.

Olhei para o relgio. Era um quarto para a meia noite. Horace Heidt ainda devia estar a tocar. Entrei no carro de Otto e conduzi bem devagarinho at ao hotel Drake. 
Quando cheguei, dirigi-me ao salo de baile onde ele dirigia a orquestra.

Assim que entrei, o chefe de mesa perguntou-me:

Tem mesa reservada?

No. Estou aqui para falar com o senhor Heidt.

Pode aguardar aqui.

E apontou para uma mesa vazia junto a uma parede. Esperei quinze minutos e, quando Horace Heidt saiu do palco, interpelei-o:

Senhor Heidt chamo-me Sidney Sheldon. Tenho aqui uma msica que...

Lamento muito, mas no tenho tempo... retorquiu.

Mas a Harms quer que... Ele comeou a afastar-se.

A Harms quer edit-la fui dizendo alto mas querem algum como o senhor a toc-la.

Ele parou e voltou para junto de mim.

Deixe l ver. Dei-lhe a partitura.

Estudou-a como se a ouvisse na cabea.

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 uma msica bonita.

Est interessado? perguntei. Olhou para mim.

Estou. Quero cinquenta por cento. Eu ter-lhe-ia dado cem por cento.

Excelente!

E entreguei-lhe o carto que Brent me dera.

Vou fazer uma orquestrao. Volte c amanh.

Na noite seguinte, quando voltei ao hotel Drake, ouvi a minha msica a ser tocada por Horace Heidt e a sua orquestra, e soava ainda melhor do que o arranjo que Phil 
Levant fizera. Sentei-me e aguardei at ele estar livre. Ele aproximou-se da mesa onde eu estava sentado.

J falou com o senhor Brent? perguntei.

Sim. Vamos fazer um contrato.

Sorri. A minha primeira msica ia ser editada.

Na manh seguinte, Brent veio ter comigo ao bengaleiro do Bismarck.

Est tudo tratado? perguntei.

Infelizmente no.

Mas...

O Heidt est a pedir um avano de cinco mil dlares e ns nunca demos esse montante por uma msica nova.

Fiquei abismado. Quando terminei o meu trabalho, fui ao hotel Drake para falar com Horace Heidt outra vez.

Senhor Heidt, eu no quero saber do avano. S quero a minha primeira msica publicada expliquei.

Ns vamos public-la sossegou-me. No te preocupes com isso. Eu prprio a vou publicar. Para a semana parto para Nova Iorque. A msica vai receber muito tempo de 
antena.

Alm da sua emisso nocturna, Horace Heidt era o apresentador de um popular programa semanal chamado Horace Heidt and His Alemite Brigadiers.

"My Silent Self" seria transmitida de Nova Iorque e ouvida por todo o pas.

Durante as semanas seguintes, consegui ouvir as emisses de Horace, e ele tinha toda a razo. "My Silent Self" teve muito tempo de antena, tanto nas emisses da 
noite, como no programa Alemite. Ele usou a minha msica, mas nunca a editou.

Eu no me senti desencorajado. Se era capaz de compor uma

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msica que despertara a ateno de um grande editor, ento ia compor uma dzia delas. E foi exactamente o que fiz. Passei todo o meu tempo livre sentado ao piano 
a compor canes. Pensei que doze msicas seria um bom nmero para enviar para Nova Iorque. No me podia dar ao luxo de l ir pessoalmente, porque precisava de me 
manter nos meus empregos para ajudar a famlia.

Natalie ouvia as minhas msicas e ficava encantada e entusiasmada.

Querido, so melhores do que as de Irving Berlin. Muito melhores. Quando  que as vais levar a Nova Iorque?

Abanei a cabea.

Natalie, eu no posso ir a Nova Iorque. Tenho trs empregos aqui. Se eu...

No, tens de ir interrompeu ela com firmeza. Eles no vo sequer ouvi-las se as mandares pelo correio. Tens de ir pessoalmente.

No temos dinheiro... disse eu. Se...

Querido, esta  a tua grande oportunidade. No te podes dar ao luxo de a deixares passar.

Eu no fazia ideia que ela estava a viver atravs de mim.

Nessa noite, tivemos uma conversa em famlia. Relutante, Otto acabou por concordar que eu devia ir a Nova Iorque. Arranjaria um trabalho at as minhas msicas comearem 
a vender.

Decidimos que eu devia partir no sbado seguinte.

A prenda de Natalie foi um bilhete de autocarro para Nova Iorque.

Nessa noite, quando eu e Richard estvamos deitados nas nossas camas, ele perguntou-me:

Tu vais ser um compositor to importante como o Irving Berlin? E eu respondi-lhe a verdade:

Sim.

Com todo o dinheiro que comearia a entrar, Natalie nunca mais teria de trabalhar.

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CAPTULO 7


Antes da minha viagem para Nova Iorque, em 1936, eu nunca estivera numa estao de autocarros. Esta tinha uma atmosfera de excitao, com pessoas que partiam e chegavam, 
vindas de cidades de todo o pas. O meu autocarro parecia enorme, com um lavabo e assentos confortveis. O percurso at Nova Iorque ia durar quatro dias e meio. 
A longa viagem poderia ser aborrecida, mas eu estava demasiado ocupado a pensar e sonhar com o meu fantstico futuro para me importar.

Quando entrmos na estao dos autocarros em Nova Iorque, eu tinha trinta dlares no bolso, dinheiro que sabia com toda a certeza que Natalie e o Otto no podiam 
dispensar.

Eu telefonara antecipadamente para o YMCA para reservar um quarto. Este revelou-se pequeno e sombrio, mas a verdade  que s custava quatro dlares por semana. Mesmo 
assim, sabia que os meus trinta dlares no durariam muito tempo.

Pedi para falar com o gerente do YMCA.

Preciso de um trabalho disse-lhe e preciso dele j. Sabe de algum que...?

Temos um servio de empregos para os nossos hspedes informou.

Excelente. H alguma coisa disponvel neste momento? Ele tirou uma folha de papel da secretria e leu-a rapidamente.

H uma vaga para arrumador no RKO Jefferson Theatre, na rua Catorze. Est interessado?

Interessado? Naquele momento, a minha nica ambio era ser arrumador no RKO Jefferson da rua Catorze.

-  exactamente do que ando  procura! exclamei.

Ele escreveu qualquer coisa num pedao de papel e entregou-mo.

Leve isto amanh de manh ao cinema.

Estava em Nova Iorque h menos de um dia ej tinha um emprego! Telefonei a Natalie e a Otto para lhes contar as novidades.

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Isso  um excelente sinal. Tu vais ser um grande sucesso respondeu ela.

Passei a primeira tarde e noite a explorar Nova Iorque. Era um lugar mgico, uma cidade em ebulio que fazia com que Chicago parecesse provinciana e triste. Tudo 
ali era maior, os edifcios, os toldos das lojas, as ruas, os sinais, o trnsito, a multido. A minha carreira.

O ROJefferson Theatre, na rua Catorze, que fora em tempos uma casa de vaudeville, era uma velha estrutura com dois andares e uma bilheteira na frente. Fazia parte 
de uma cadeia de cinemas, a RKO. Era normal passarem dois filmes ao mesmo tempo e os clientes podiam ver dois filmes de ponta a ponta pelo preo de um.

Caminhei trinta e nove quarteires desde o YMCA at ao cinema e entreguei ao gerente o papel que me tinham dado.

Este olhou para mim e perguntou:

J alguma vez foi arrumador?

No, senhor. Encolheu os ombros.

No tem importncia.  capaz de andar?

Sim, senhor.

E sabe como acender uma lanterna?

Sim, senhor.

Ento pode ser arrumador. O seu salrio  de catorze dlares e quarenta por semana. Trabalha seis dias. O horrio  das quatro e vinte  meia noite.

Muito bem. Isso significava que tinha as manhs e parte das tardes livres para passar no Brill Building, a sede das editoras discogrficas.

V ao bengaleiro do pessoal e veja se consegue encontrar um uniforme que lhe sirva.

Sim, senhor.

Experimentei um uniforme de arrumador e o gerente olhou para mim e comentou:

Serve perfeitamente. Mantenha sempre o balco debaixo de olho.

O balco?

Depois ver. Comea amanh.

Sim, senhor. E amanh darei incio  minha carreira de compositor.

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O Brill Building, com os seus muitos andares, era o santo dos santos do negcio da msica. Situado no nmero 1619 da Broadway, na rua Quarenta e Nove, era o centro 
da Tin Pan Alley1, o lugar onde os importantes editores de msica do mundo tinham o seu quartel general.

Quando entrei no edifcio e vagueei pelos corredores, ouvi os acordes de A Fine Romance... I've Got Ymi UnderMy Skm... PennwsfromHeaven... Os nomes nas portas deixaram 
o meu corao sobressaltado: Jerome Remick... Robbins Music Corporation... M. Witmark & Sons... Shapiro Bernstein & Company... e TB Harms, todos os gigantes da indstria 
da msica. Esta era a fonte do talento musical. Cole Porter, Irving Berlin, Richard Rodgers, George e Ira Gershwin, Jerome Kern... Todos eles tinham comeado aqui.

Entrei nos escritrios da TB Harms e cumprimentei o homem sentado atrs de uma secretria.

Bons dias. O meu nome  Sidney Shech... Sheldon.

Em que lhe posso ser til?

Escrevi O Meu eu Silencioso". Parece que vocs estavam interessados em o editar.

Um olhar de reconhecimento percorreu-lhe o rosto.

Ah, sim! Pois foi, estivemos. Estivemos?

J no esto?

Bem, ela tem sido muito ouvida. O Horace Heidt tem-na tocado muito. Tem alguma coisa nova?

Fiz que sim com a cabea.

Sim, tenho. Posso voltar com novas msicas amanh de manh, senhor...?

Tasker.

s quatro e vinte daquela tarde, eu estava vestido com o meu uniforme de arrumador, subindo e descendo as coxias para acompanhar as pessoas at aos seus lugares. 
O gerente tinha razo. A nica coisa que fazia com que no fosse aborrecido eram os filmes que passavam.

1 Nome por que era conhecida a zona onde se concentravam os aspirantes a msicos, principalmente durante a depresso dos anos 30.

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Quando as coisas estavam calmas, podia sentar-me na ltima fila do cinema e ver os filmes.

A primeira dupla de filmes que vi foi A Day atthe Roces com os irmos Marx e o Mr. Deeds Ges to Town. As novidades que se seguiam eram o A Star is Bom com Janet 
Gaynor e Frederic March e o Dodsworth com Walter Huston.

 meia noite, quando o meu turno terminou, regressei ao hotel. O quarto j no me parecia nem pequeno, nem triste. Sabia que o ia transformar num palcio. De manh, 
levaria as minhas msicas  TB Harms, e a nica questo que se levantava era qual delas iam querer editar primeiro, se The Ghost ofMy Love, I Will ifYou Want to, 
A Handful ofStars, ou When Love Hs Gone.

As oito e trinta da manh seguinte eu estava em frente  TB Harms  espera que as portas se abrissem. As nove, o senhor Tasker chegou.

Viu o enorme envelope que eu tinha na mo.

Estou a ver que trouxe as suas msicas. Sorri.

Sim, senhor.

Entrmos no escritrio dele. Dei-lhe o envelope e preparei-me para me sentar.

Ele fez-me sinal para parar.

No precisa de esperar. Vou v-las assim que tiver oportunidade. Porque no volta c amanh? sugeriu.

Fiz-lhe o meu melhor aceno de compositor de msicas profissional.

Com certeza.

Ia ter de esperar mais vinte e quatro horas para o meu futuro poder comear.

s quatro e vinte estava de volta ao meu uniforme no RKO Jefferson. O gerente tinha toda a razo quanto ao balco. Ouviam-se muitos risinhos l em cima. Na ltima 
fila estavam sentados um jovem e uma jovem. Assim que me aproximei, ele afastou-se e ela puxou apressadamente para baixo o curto vestido. Afastei-me e nunca mais 
l voltei. Que se lixasse o gerente. Eles que se divertissem.

Na manh seguinte s oito da manh, estava no escritrio da Harms, no se desse o caso de o senhor Tasker chegar mais cedo. Ele chegou s nove e abriu a porta.

Bom dia, Sheldon.

Tentei avaliar pelo tom da voz dele se tinha gostado ou no das minhas msicas. Fora um "bom dia" normal, ou ser que detectara um toque de entusiasmo na voz dele?

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Entrmos no escritrio.

Teve oportunidade de ouvir as minhas msicas, senhor Tasker?

Tive, sim. So muito agradveis.

O meu rosto iluminou-se. Aguardei,  espera de ouvir o que mais tinha ele para dizer. Mas permaneceu silencioso.

De qual delas gostou mais? perguntei.

Infelizmente, nenhuma delas  o que andamos  procura neste momento.

Esta foi a frase mais depressiva que ouvi em toda a minha vida.

Mas com certeza que... alguma delas... comecei a dizer. Ele tirou o meu envelope de trs da secretria e devolveu-mo.

Terei sempre todo o gosto em ouvir o que tiver de novo.

E foi o fim da entrevista. Mas isto no  o fim, pensei para comigo.  s o princpio.

Passei o resto da manh e parte da tarde a entrar em todos os outros editores de msica que havia no edifcio.

Alguma vez teve alguma msica editada?

No, senhor. Mas, eu...

Ns no recebemos novos compositores. Volte quando tiver alguma coisa editada.

Como  que eu ia conseguir editar uma cano se os editores no queriam editar nenhuma cano enquanto no tivesse nenhuma cano editada? Nas semanas que se seguiram, 
sempre que no estava no cinema estava no meu quarto a compor.

No cinema, adorava ver os maravilhosos filmes que eram passados. Vi The Great Ziegfield, San Francisco, My Man Godfrey e Shall We Dance, com Fred Astaire e Ginger 
Rogers. Transportavam-me para outro mundo, um mundo de fascnio e de excitao, de elegncia e de riqueza.

O meu dinheiro estava a acabar. Recebi um cheque de vinte dlares de Natalie e devolvi-lho. Eu sabia que, sem a minha contribuio e Otto sem trabalho, a vida devia 
ser ainda mais difcil para eles. Interroguei-me se eu no estaria a ser egosta, a pensar em mim quando eles precisavam de ajuda.

Assim que o meu novo grupo de msicas ficou pronto, levei-as aos mesmos editores. Olharam para elas e deram-me a mesma desesperante resposta:

Volte quando tiver alguma coisa editada.

Num dos trios fui invadido por uma onda de depresso. Tudo me parecia sem soluo. No tencionava passar o resto da minha vida como arrumador e ningum estava interessado 
nas minhas msicas.

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Este  um excerto de uma das cartas que escrevi aos meus pais, com data de 2 de Novembro de 1936.

Quero que sejam o mais felizes possvel. A minha felicidade  um balo que me foge e que espera que eu o consiga apanhar, escapando de um lado para o outro, sobre 
oceanos, enormes prados verdes, por entre rvores e regatos, por cenas pastorais e por passeios varridos pelo vento. Primeiro l no alto, mal o conseguindo ver, 
em seguida c por baixo, quase ao meu alcance, soprado daqui e dali pelos caprichos do vento, num momento um vento cruel e sdico, e no momento seguinte cheio de 
compaixo.  o vento do destino e nele se baseiam as nossas vidas.

Uma manh, no trio do YMCA, vi um jovem mais ou menos com a minha idade sentado num sof a compor furiosamente. Trauteava uma melodia e parecia estar a escrever 
a letra de uma msica. Aproximei-me, curioso.

Escreve msicas? perguntei. Olhou para cima.

Escrevo.

Eu tambm. O meu nome  Sidney Sheldon. Ele estendeu a mo.

Sidney Rosenthal.

Foi o incio de uma longa amizade. Passmos a manh toda a conversar e parecamos almas gmeas.

No dia seguinte, quando fui trabalhar, o gerente do cinema chamou-me ao escritrio dele.

O nosso anunciador est doente. Quero que vistas o uniforme dele e o substituas at ele voltar. Vais trabalhar de dia. S tens de andar de um lado para o outro na 
frente do cinema e dizer alto: "Muitos lugares. No precisa esperar". E ganhas mais.

Fiquei encantado. No devido  promoo, mas por causa do aumento. Ia mandar o dinheiro a mais para casa.

E quanto  que ganho?

Quinze e quarenta por semana. Um dlar a mais por semana.

Quando vesti o uniforme, parecia um general do exrcito russo. Eu no tinha nada contra o meu trabalho como anunciador, mas no aguentava o aborrecimento de dizer 
vezes sem conta "Muitos lugares. No precisa esperar". Decidi dar um toque teatral.

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Comecei a gritar numa voz estrondosa: "Uma excitante sesso dupla, The Texas Rangers e The Man Who Lived Twice. Como  que um homem vive duas vezes, senhoras e senhores? 
Entrem e descubram. Vo ter uma tarde que jamais esquecero. No h que esperar por lugares. Apressem-se! Est quase a esgotar!"

O verdadeiro anunciador nunca mais apareceu e eu fiquei com o trabalho dele. A nica diferena  que eu agora trabalhava manhs e princpios da tarde. Ainda tinha 
tempo para ir visitar os editores de msica que no estavam interessados nas minhas msicas. Eu e Sidney Rosenthal escrevemos vrias msicas juntos. Foram muito 
elogiadas, mas nunca conseguimos um contrato.

No final da semana, dava normalmente por mim com dez cntimos no bolso. Precisava de ir do cinema ao Brill Buiding e tinha de optar entre comer um cachorro quente 
por cinco cntimos e uma Coca-Cola por cinco cntimos e percorrer a p os trinta e cinco blocos, ou comer um cachorro, no beber a Coca-Cola e apanhar o metropolitano 
por um nquel. Estava habituado a alternar a rotina.

Alguns dias depois de ter comeado a trabalhar como anunciador, o negcio no cinema comeou a aumentar.

Eu andava l fora a gritar de um lado para o outro "No percam a oportunidade de ver Conquest com a Greta Garbo e o Charles Boyer. E h mais, Nothing Sacred com 
Carok Lombard e Frederich Match. Estes so os maiores amantes do mundo que vos vo ensinar como devem agir. Uma entrada s por trinta e cinco cntimos. Duas lies 
no amor por trinta e cinco cntimos. Apressem-se. Apressem-se. Comprem os vossos bilhetes j!".

E os clientes entravam.

Com os filmes seguintes, diverti-me ainda mais.

"Venham ver a dupla mais fantstica da histria do cinema Night Must Fali com Robert Montgomery e Rosalind Russell. No dispam os vossos casacos pois vo ter muitos 
arrepios. E, como bnus, tm o novo filme do Tarzan", e nessa altura eu lanava um grito  Tarzan e ficava a ver as pessoas a um quarteiro de distncia virarem-se 
para ver o que se estava a passar e a darem meia volta para o cinema e comprarem bilhetes. O gerente estava de p do lado de fora do teatro a observar-me.

No final da semana seguinte, um desconhecido aproximou-se de mim.

Onde est o filho da me de Chicago? No gostei do tom de voz dele.

Porqu?

Porque o gerente da cadeia RKO mandou todos os anunciadores virem ver o sacana a trabalhar e a aprenderem a fazer o que ele faz.

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Eu digo-lhe quando ele voltar.

E virei-me e anunciei num tom de voz normal:

Lugares disponveis. No precisam esperar. Lugares disponveis. No precisam esperar.

A vantagem de trabalhar durante o dia  que continuava a ter tempo para visitar os editores de msica e passara a ter as noites livres, de forma que, pelo menos 
trs noites por semana, ia ao teatro ver peas, sentando-me nos lugares mais baratos do segundo balco. Vi Room Service, Abie's Irish Rose, Tobacco RoaA, You Can't 
Take it With You... A variedade era infinita.

Sidney Rosenthal, o meu novo amigo, arranjara um emprego e um dia sugeriu:

Porque no juntamos o nosso dinheiro e samos daqui?

Excelente ideia.

Uma semana mais tarde samos do YMCA e mudmo-nos para o hotel Grand Union, na rua Trinta e Dois. Tnhamos dois quartos e uma salinha e, depois do pequeno quarto 
do YMCA, parecia o mximo do luxo.

Numa carta que recebi de Natalie, esta chamava a minha ateno para o facto de termos um primo afastado que vivia em Nova Iorque e que era dono de uma concesso 
no casino Glen Cove, em Long Island, Sugeria que lhe telefonasse. Chamava-se Clifford Wolfe. Telefonei-lhe e ele no podia ter sido mais cordial.

Soube que estavas algures em Nova Iorque. O que fazes? Expliquei.

Que tal vires trabalhar para mim no bengaleiro, trs noites por semana?

Ia adorar respondi. E tenho um amigo que...

Podes traz-lo.

E assim, trs noites por semana, Sidney Rosenthal e eu amos at Long Island, ao casino Glen Cove, e ganhvamos trs dlares cada um a pendurar casacos e chapus. 
Surripivamos tambm toda a comida que conseguamos da mesa do bufete.

Um carro que transportava outros empregados do casino apanhava-nos e levava-nos at Long Island, a uma hora e meia de distncia. No final da noite, quando acabvamos 
de trabalhar, ramos transportados de volta ao nosso hotel. O dinheiro extra, enviava-o todo para Natalie. Invariavelmente, ela devolvia-mo.

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Uma noite, quando entrava para o bengaleiro Clifford Wolfe parou a olhar para mim, de sobrolho franzido.

Esse fato que tens vestido...

Estava amarrotado e com ar pouco cuidado.

Sim?

No tens nada melhorzinho?

Abanei a cabea, embaraado. O meu guarda roupa cabia dentro de uma maleta.

Receio que no.

Vou tratar disso respondeu.

Na noite seguinte, quando cheguei ao Glen Cove, Clifford Wolfe deu-me um fato em sarja azul e disse:

Quero que vs ao meu alfaiate e o mandes pr  tua medida. A partir desse dia, sempre que fui ao Glen Cove, usava o fato de Clifford Wolfe.

As minhas inexplicveis alteraes de humor persistiam. Ou estava extremamente excitado ou  beira do suicdio. Num excerto de uma carta que mandei a Natalie e a 
Otto, com data de 26 de Dezembro de
1936, escrevi:

"De momento, no me sinto com grande fora para continuar esta luta. No fao ideia se vou conseguir vencer. Se estivesse mais seguro das minhas capacidades, tudo 
seria muito mais fcil."

Um ms mais tarde, escrevi:

"Bom, no que diz respeito s msicas, parece que somos capazes de ter acertado. Chappel ouviu uma das novas, mandou-nos compor de novo o refro e que a levssemos 
de volta. Eles so muito esquisitos, e terem gostado das nossas msicas  encorajador."

Houve duas ocasies em que os meus discos saram do stio e, de ambas as vezes, tive de ficar de cama durante trs dias. Foi num dos perodos de euforia que o meu 
futuro se abriu perante mim. Durante uma das minhas incurses ao Brill Building, encontrei um homem baixinho ejanota com um sorriso simptico. No fazia a mnima 
ideia quem ele era. Por acaso estava no escritrio da Remick na altura em que o gerente ouvia uma das minhas msicas.

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O gerente abanou a cabea.

No  o que andamos  procura...

Mas pode vir a ser um enorme sucesso... implorei. " When lave is gone, lave is gone, the stars forget to glow, and we can hear much sadder songs than we were meant 
to hear..."

"Quando o amar se foi, o amor se foi, as estrelas esquecem de brilhar e acabamos por ouvir canes mais tristes do que as que devamos ouvir...", O gerente encolheu 
os ombros. O desconhecido com o sorriso simptico estudava-me.

Deixe-me c ver isso.

Dei-lhe a folha de papel com a msica e ele analisou-a.

Bom, a letra  muito boa comentou. Como se chama?

Sidney Sheldon. Estendeu a mo.

Eu sou Max Rich.

Conhecia o nome. Ele tinha duas canes populares que eram no momento um sucesso. Uma chamava-se "Smile, Dam Ya, Smile" e a outra era uma novidade, " The Girl in 
the Little Green Hat".

Sidney, j alguma vez lhe editaram alguma msica? Sempre a mesma pergunta. Eu estava desanimado.

No. Eu olhava para a porta. Ele sorriu.

Ento, vamos mudar isso. Gostaria de trabalhar comigo? Fiquei estupefacto. Esta era exactamente a oportunidade pela qual eu tanto ansiara.

Eu... eu ia gostar muito respondi. Mal conseguia falar.

Tenho o meu escritrio aqui neste edifcio, no segundo andar. Venha ter comigo amanh de manh, pelas dez horas, e comeamos a trabalhar.

ptimo!

Traga todas as letras que tiver em casa. Engoli em seco.

C estarei senhor Rich.

Eu estava num estado de euforia.

Assim que contei a Sidney Rosenthal o que acontecera, ele respondeu:

Parabns! Isso  que ! O Max Rich consegue editar tudo.

Eu posso mostrar-lhe tambm algumas das tuas msicas propus. E...

Trata das tuas primeiro.

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Est bem.

Nessa noite, Sidney Rosenthal e eu tivemos um jantar de celebrao, mas eu estava demasiado excitado para ser capaz de comer. Tudo aquilo que eu um dia ansiara estava 
prestes a tornar-se realidade. Msicas de Max Eich e Sidney Sheldon. Os nomes soavam bem juntos.

Tinha a sensao de que Max Rich era um excelente homem com quem trabalhar e tinha a certeza que algumas das minhas letras lhe iam agradar.

Comecei a fazer um telefonema para Natalie e Otto, mas pensei que era melhor esperar at ter comeado.

Nessa noite, quando fui para a cama, pensei:

"Porque  que Max Rich quer compor comigo quando pode compor com qualquer pessoa que lhe apetea?Eu no sou ningum. Ele s est a ser simptico. Imaginou em mim 
um talento que eu no tenho e vai ter uma desiluso. No sou suficientemente bom para trabalhar com ele."

E, de repente, vinda do nada, a nuvem negra descera sobre mim.

"Fui recusado por todos os editores do Brill Building e eles so profissionais. Sabem reconhecer o talento quando ele existe. Vou fazer papel de parvo junto de Max 
Rich".

E assim, s dez da manh, enquanto Max Rich esperava no seu escritrio no Brill Building para colaborar comigo, eu estava num autocarro a caminho de Chicago.

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CAPTULO 8

Em Maro de 1937 regressei a Chicago, um falhado. Otto, Natalie e Richard foram muito compreensivos com a minha falta de sucesso como compositor.

Eles no reconhecem uma boa cano quando a ouvem.

A situao econmica em casa no melhorara. Com relutncia, voltei ao trabalho no bengaleiro do Bismarck. Consegui um emprego durante o dia a arrumar carros num 
restaurante no North Side, em Rogers Park. As minhas irracionais alteraes de disposio continuavam. No as conseguia controlar. De repente, sem qualquer justificao, 
ficava em xtase, e deprimia-me em momentos em que as coisas estavam a correr bem.

Uma noite, Charley Fine, o meu mentor na Stewart Warner e a mulher, foram jantar l a casa. Por razes econmicas servimos um jantar barato, que eu conseguira arranjar 
num restaurante chins da vizinhana, mas os Fines fingiram no dar por nada.

Durante o jantar, Vera disse:

Para a semana que vem vou de carro a Sacramento, na Califrnia.

Califrnia. Hollywood. Era como se uma porta se tivesse aberto de repente para mim. Pensei em todas as horas mgicas que passara no RKO Jefferson Theatre a resolver 
crimes com William Powell e Myrna Loy em After the Thin Man, a cavalgar com John Wayne na carroa coberta a caminho da Califrnia em The Oregon Trail, a olhar, impotente, 
enquanto Robert Montgomery aterrorizava Rosalind Russell em Night Must Fall, a saltar de galho em galho com o Tarzan no filme Tarzan Escapes e a jantar com Cary 
Grant, Clark Gable ejudy Garland. Respirei fundo e disse:

Gostava de a guiar at l.

Todos olharam espantados para mim.

Isso  muito simptico da tua parte, Sidney, mas eu no quero de forma nenhuma impor... respondeu Vera Fine.

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Seria um prazer respondi, entusiasmado. Virei-me para Natalie e Otto.

Gostava de poder levar a Vera  Califrnia. Fez-se um silncio desconfortvel.

Retommos a conversa depois dos Fines se terem ido embora.

Tu no podes ir outra vez assim embora. Ainda agora voltaste. argumentou Otto.

Mas, se eu conseguisse arranjar um emprego em Hollywood...

No. Vamos tentar arranjar-te qualquer coisa aqui.

Eu sabia o que havia para fazer em Chicago. Bengaleiros, drugstores e arrumar carros, e eu j estava farto disso tudo. Depois de um curto silncio, Natalie disse:

Otto, se isto  o que Sidney quer, acho que lhe devamos dar essa oportunidade. J sei. Vamos fazer um acordo. E virou-se para mim.

Se em trs semanas no conseguires um emprego, voltas para c.

Aceito respondi, feliz.

Tinha a certeza de que ia conseguir arranjar um emprego em Hollywood. Quanto mais pensava nisso, mais loucamente optimista ficava.

Esta ia ser finalmente a minha oportunidade.

Cinco dias depois, estava a fazer as malas, pronto para conduzir Vera e a sua jovem filha, Carmel, a caminho de Sacramento.

Richard estava perturbado.

Porque  que te vais embora outra vez? Ainda agora voltaste! Como  que eu lhe ia poder explicar todas as coisas maravilhosas que estavam prestes a acontecer?

Eu sei, mas isto  importante. No te preocupes que eu depois chamo-te para vires ter comigo respondi.

Ele estava quase a chorar.

Prometes? Abracei-o.

Est prometido. Vou sentir a tua falta, companheiro.

Demormos cinco dias a chegar a Sacramento e, quando chegmos, disse adeus a Vera e a Carmel e passei a noite num hotel barato. Na manh seguinte, bem cedo, apanhei 
um autocarro para So Francisco, onde mudei para outro em direco a Los Angeles.

Cheguei a Los Angeles com uma maleta e cinquenta dlares no bolso. Na estao de autocarros, comprei um exemplar do Los Angeles

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Times e procurei a pgina dos anncios de empregos e de quartos para alugar.

O meu interesse foi imediatamente despertado pelo anncio de uma penso que tinha quartos a quatro dlares e cinquenta por semana, com o pequeno almoo includo. 
Ficava na zona de Hollywood, a poucos quarteires do famoso Sunset Boulevard.

Revelou-se uma encantadora casa antiga numa zona residencial bem agradvel, numa rua sossegada, o nmero 1928 da rua Carmen.

Quando toquei  campainha, a porta foi-me aberta por uma mulher baixinha, de rosto simptico, que parecia andar pelos quarenta anos.

Boa tarde. Posso ajudar?

Boa tarde. O meu nome  Sidney Sheldon e ando  procura de um lugar onde ficar durante alguns dias.

Chamo-me Gracie Seidel. Entre.

Peguei na minha mala e entrei no trio. Era bvio que a casa fora transformada de uma grande residncia familiar numa penso. Tinha uma sala de estar grande, uma 
sala de jantar e uma cozinha. Havia doze quartos, a maior parte deles ocupados, e quatro casas de banho comuns.

Pelo que percebi, a renda so quatro dlares e cinquenta por semana, com pequeno almoo includo disse eu.

Gracie Seidel contemplou o meu fato amarrotado e a camisa j gasta e respondeu:

Bom, se insistir muito comigo, posso baixar para quatro dlares por semana.

Olhei para ela e senti dentro de mim uma vontade terrvel de lhe responder "Eu pago os quatro dlares e cinquenta", mas o pouco dinheiro que me sobrava no duraria 
muito tempo. Engoli o meu orgulho e respondi:

Estou a insistir. Sorriu-me, um sorriso caloroso.

Pois muito bem. Vou mostrar-lhe o seu quarto.

O quarto era pequeno mas limpo, com uma moblia atraente, e gostei logo dele.

Virei-me para Gracie:

 excelente.

ptimo. Depois dou-lhe uma chave da porta da frente. Uma das nossas regras  que no  permitido trazer mulheres.

No se preocupe respondi.

Deixe-me apresent-lo a alguns dos outros hspedes.

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E levou-me  sala onde estavam reunidos os outros hspedes. Conheci quatro escritores, um aderecista, trs actores, um realizador e uma cantora.  medida que o tempo 
foi passando, percebi que eram todos pretendentes, desempregados, em busca de sonhos maravilhosos que nunca se tornariam realidade.

Gracie tinha um filho com doze anos, bem educado, chamado Billy, cujo sonho era vir a ser bombeiro. Era provavelmente o nico sonho dentro daquela penso que se 
iria concretizar.

Liguei a Natalie e a Otto e disse-lhes que tinha chegado bem.

Lembra-te, se dentro de trs semanas no tiveres encontrado um emprego, queremos que voltes para c avisaram.

Com certeza.

Nessa noite, os hspedes de Gracie sentaram-se na sala de estar a contar as suas histrias.

Sheldon, este  um mundo difcil. Todos os estdios tm um porto e do outro lado os produtores anseiam por encontrar talentos. E gritam que precisam freneticamente 
de actores, de realizadores e de argumentistas. Mas, se estiveres do lado de fora do porto, eles nem sequer te deixam entrar. Os portes esto cerrados para os 
que no pertencem ao meio.

Talvez, mas todos os dias h sempre algum que os consegue cruzar, pensei.

Aprendi que a Hollywood que eu imaginara no existia. A Columbia Pictures, a Paramount e a RKO estavam instaladas em Hollywood, mas a Metro-Goldywn-Mayer e o Selznick 
International Studios eram em Culver City. A Universal Studios estavam na Universal City, os estdios Disney em Silverlake, a Twentieth-Century-Fox na Century City 
e os Republic Studios em Studio City.

Gracie, simpaticamente, subscrevia a Variety, o jornal do mundo do espectculo, e este ficava  disposio na sala de estar como se fosse uma Bblia, para todos 
podermos consultar e sabermos que trabalhos havia disponveis e que filmes estavam a ser produzidos. Peguei nele e verifiquei a data. Eu tinha vinte e um dias para 
encontrar um trabalho, e o relgio no parava. Sabia que, de alguma forma, tinha de conseguir encontrar maneira de passar aqueles portes.

Na manh seguinte, enquanto tomvamos o pequeno almoo, o telefone tocou. Atender o telefone naquela casa era quase um acontecimento olmpico. Todos corriam para 
o atender porque, como nenhum de ns se podia dar ao luxo de ter qualquer vida social, um telefonema para l s podia ter a ver com trabalho.

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O actor que o atendeu escutou por instantes, virou-se para a Gracie e disse:

-  para si.

Soaram suspiros de desapontamento. Cada um dos hspedes tinha esperana que fosse para ele. Aquele telefone era a linha da vida que os ligava aos seus futuros.

Trouxera comigo um guia turstico de Los Angeles e, dado que a Columbia Pictures era o estdio que ficava mais perto da penso da Gracie, decidi comear por l. 
Na frente do Columbia no havia porto.

Entrei pela porta da frente. Um guarda idoso estava sentado atrs de uma secretria, a trabalhar num relatrio. Assim que entrei, olhou para cima.

- Posso ajudar?

Bem comecei a dizer, chamo-me Sidney Sheldon. Quero ser escritor. Com quem devo falar?

Ele olhou para mim por instantes.

Tem hora marcada?

No, mas...

Sendo assim, no vai ser recebido por ningum.

Mas deve haver algum que...

No, a no ser que tenha hora marcada respondeu com firmeza e voltou ao seu relatrio.

Aparentemente, o estdio no precisava de um porto.

Passei as duas semanas seguintes a dar a volta a todos os estdios. Ao contrrio de Nova Iorque, Los Angeles era uma cidade bastante dispersa, no era de forma nenhuma 
uma cidade para se andar a p. Os elctricos iam at ao centro de Santa Monica Boulevard e havia autocarros em todas as ruas principais. Depressa me adaptei aos 
seus horrios e aos seus percursos.

Enquanto cada estdio era aparentemente diferente, os guardas, esses, eram sempre iguais. De facto, comecei mesmo a pensar se no seria sempre o mesmo homem.

Quero ser escritor. Com quem devo falar?

Tem hora marcada?

No.

Ento no vai ser recebido por ningum.

Hollywood era um cabar e eu tinha fome. Mas eu estava de fora a olhar para dentro e todas as portas pareciam fechadas.

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Estava a ficar sem os meus parcos fundos, mas, pior do que isso, estava a ficar sem tempo.

Quando no assediava os estdios, estava no quarto a trabalhar em histrias, na minha velha e muito batida mquina de escrever.

Um dia, Gracie fez um anncio pouco apetecido.

Lamento, mas de hoje em diante no h mais pequenos almoos informou.

Ningum perguntou porqu. A maior parte de ns tinha a renda atrasada e ela no podia continuar a sustentar-nos.

Acordei na manh seguinte cheio de fome e sem um tosto. No tinha dinheiro para o pequeno almoo. Estava a tentar trabalhar numa histria, mas no me conseguia 
concentrar. Tinha demasiada fome. Por fim, desisti. Fui at  cozinha. Gracie estava na cozinha a limpar o fogo.

Viu-me e virou-se.

Sim, Sidney? Eu gaguejava.

Gracie, eu sei da nova regra sobre o pequeno almoo, mas estava a pensar se... seria possvel eu comer alguma coisa hoje de manh. Tenho a certeza que nos prximos 
dias...

Ela olhou duramente para mim e respondeu, rspida:

Porque no vais para o teu quarto?

Senti-me arrasado. Voltei para o meu quarto e sentei-me, humilhado, na frente da mquina de escrever, embaraado por me ter posto nesta situao. Tentei continuar 
a trabalhar na histria, mas no valia a pena. S conseguia pensar que tinha fome, que estava sem um tosto e desesperado.

Quinze minutos mais tarde ouvi baterem  porta. Levantei-me e fui abrir. Gracie estava de p do lado de fora, com uma bandeja com um enorme copo de sumo de laranja, 
uma cafeteira cheia de caf a fumegar e um prato com ovos, presunto e torradas.

Come enquanto est quente disse.

Esta deve ter sido a melhor refeio que alguma vez comi. Foi com certeza a mais memorvel.

Quando, uma tarde, regressei  penso depois de mais um dia ftil a fazer a volta dos estdios, tinha uma carta de Otto. Continha um carto e um bilhete de autocarro 
para Chicago. Foi o pedao de papel mais deprimente que alguma vez vi. O carto dizia Estamos  tua espera para a semana em casa. Todo o meu amor, Pai.

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Tinha quatro dias e mais nenhum stio onde ir. Os deuses deviam estar a rir de mim.

Nessa noite, eu e o grupo da Gracie estvamos sentados na sala a conversar quando um deles disse:

A minha irm acabou de arranjar um emprego como leitora na MGM.

Leitora? O que  isso? perguntei.

Todos os estdios tm leitores explicou. Fazem a sinopse da histria para os produtores, o que faz com que no tenham de ler uma data de porcarias. Se o produtor 
gostar da sinopse, d uma olhadela ao livro todo ou  pea. Alguns estdios tm grupos de leitores. Outros usam leitores de fora.

Eu pensava rapidamente. Acabara de ler a obra prima de Steinbeck, OfMice and Men, e...

Trinta minutos mais tarde, folheava o livro e batia  mquina uma sinopse.

No dia seguinte ao meio dia j fizera cpias suficientes num mimegrafo emprestado para mandar a meia dzia de estdios. Imaginei que demoraria um dia ou dois para 
as entregar a todas e que pelo terceiro dia teria notcias.

Quando o terceiro dia chegou, o nico correio que recebi foi do meu irmo Richard a perguntar quando  que eu o mandaria chamar. O quarto dia trouxe uma carta de 
Natalie.

O dia seguinte era quinta-feira e o meu bilhete de autocarro era para domingo. Mais um sonho que morria. Disse a Gracie que me ia embora na manh de domingo. Ela 
olhou para mim com olhos sbios e sensatos:

H alguma coisa que eu possa fazer? perguntou. Dei-lhe um abrao.

A Gracie tem sido maravilhosa. As coisas no correram to bem quanto eu esperava.

Nunca pares de sonhar pediu-me. Mas eu parara.

Na manh seguinte, o telefone tocou. Um dos actores correu e atendeu. Levantou o auscultador e, na sua melhor voz de actor, disse:

Bom dia. Posso ser til? Quem? O tom de voz mudara. Do escritrio de David Selznick?

A sala ficou completamente silenciosa. David Selznick era o produtor com mais prestgio em Hollywood. Fora ele que produzira A Star is Born, Dinner atlight, A Tale 
of Two Cities, Viva Villal, David Copperfield e dzias de outros filmes.

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O actor disse:

Sim, ele est aqui.

Naquele momento, todos parmos de respirar. Quem seria ele? Virou-se para mim.

 para ti, Sheldon.

Devo ter batido o recorde da penso de rapidez em atender o telefone.

Sim?

A voz aguda de uma mulher perguntou do outro lado:

Estou a falar com Sidney Sheldon?

Percebi imediatamente que no estava a falar com o prprio David Selznick.

Exactamente.

Daqui fala Anna, a secretria de David Selznick. O senhor Selznick tem um romance do qual pretende uma sinopse. O problema  que nenhum dos nossos leitores esto 
disponveis.

Est disponvel, pensei automaticamente. Mas quem era eu para corrigir a pessoa que podia ser a lanadora da minha carreira?

O senhor Selznick precisa da sinopse esta tarde s seis.  uma novela com quatrocentas pginas. Normalmente as nossas sinopses tm trinta pginas com um sumrio 
de duas e um comentrio de um pargrafo. Mas tem de ser entregue hoje s seis. Pode faz-la?

No havia qualquer hiptese de eu ir aos estdios de Selznick, ler um romance com quatrocentas pginas, desencantar algures uma mquina de escrever decente, escrever 
uma sinopse de trinta pginas e ter tudo pronto s seis da tarde.

Respondi:

Claro que sim.

Muito bem. Pode vir buscar o livro ao nosso estdio em Culver City.

Estou a caminho. E pousei o telefone. Selznick International Studios. Olhei para o relgio. Eram nove e trinta da manh. Culver City ficava a hora e meia de distncia. 
Havia mais problemas. Eu no tinha transporte. Sou um mau dactilgrafo e bater uma sinopse com trinta pginas ia levar-me uma eternidade, e esta eternidade ainda 
nem inclua o tempo para ler um romance com quatrocentas pginas. Se eu chegasse ao estdio de Culver City s onze, tinha exactamente sete horas para fazer um milagre.

Mas eu tinha um plano.

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CAPTULO 9

Tive de apanhar um elctrico e dois autocarros para conseguir chegar a Culver City. No segundo autocarro, olhei em volta para os passageiros e sentia uma vontade 
enorme de lhes dizer que me ia encontrar com David Selznick. O autocarro deixou-me a dois quarteires dos Selznick International Studios.

Tratava-se de uma estrutura georgiana impressionante, com fachada para a rua Washington. Reconheci-a imediatamente, poisj a vira nos crditos da abertura dos filmes 
de David Selznick.

Entrei apressadamente e disse  mulher que estava sentada por detrs de uma secretria:

Tenho hora marcada com a secretria do senhor Selznick. Pelo menos agora ia encontrar-me com David Selznick.

Como se chama?

Sidney Sheldon.

Ela procurou na secretria e tirou para fora um pacote grosso.

Isto  para si.

Oh, pensei que ia poder ver o senhor Selznick e...

No. O senhor Selznick  um homem muito ocupado. Ento veria David Selznick mais tarde.

Segurando o pacote, deixei o edifcio e comecei a correr pela rua abaixo, em direco aos estdios da MGM, a seis quarteires dali, a rever o meu plano enquanto 
corria. Surgira da conversa que tivera com Seymour sobre Sidney Singer, a sua ex-mulher.

Costumas v-la?

No. Foi para Hollywood. Arranjou emprego como secretria na MGM para uma directora. Dorothy Arzner.

Eu ia pedir a Sidney Singer para me ajudar. Era um tiro no escuro, mas era a minha nica hipteses.

Quando cheguei aos estdios da MGM, dirigi-me ao guarda que estava  secretria no trio.

O meu nome  Sidney Sheldon. Quero falar com Sidney Singer.

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Sidney... Ah! A secretria de Dorothy Azner. Acenei afirmativamente.

Exactamente.

Ela est  sua espera?

Sim respondi com segurana.

Ele pegou no telefone e marcou o nmero de uma extenso.

O senhor Sidney Sheldon est aqui para falar consigo... E repetiu devagarinho: Sidney Sheldon. Ouviu por momentos. Mas ele disse...

Eu estava a ouvir, completamente paralisado. Diz que sim. Diz que sim. Diz que sim.

Certo e desligou. Ela vai receb-lo. Sala nmero 230. O meu corao recomeou a palpitar.

Muito obrigado.

Por aquele elevador ali.

Apanhei o elevador e apressei-me pelo corredor do segundo andar. O gabinete de Sidney era ao fundo. Quando entrei, ela estava sentada atrs da secretria.

Ol, Sidney.

Ol.

No havia qualquer cordialidade na voz dela. E, de repente, lembrei-me do resto a conversa com Seymour. Ela no quer saber de mim. Disse a toda a gente que nunca 
mais me queria ver. Onde  que eu me metera? Ia dizer para me sentar? No.

O que  que ests aqui a fazer?

Oh! Sabes, resolvi aparecer por c para te pedir que passasses a tarde a trabalhar para mim de borla.

...  uma longa histria.

Ela olhou para o relgio de pulso e ergueu-se.

Ia agora almoar.

No!

Ficou a olhar fixamente para mim.

No posso ir almoar? Respirei fundo.

Sidney... eu estou com um problema...

E debitei toda a minha histria, a comear com o fiasco de Nova Iorque, com a minha ambio de me tornar escritor, a minha incapacidade de passar para l dos guardas 
dos portes dos estdios e o telefonema da manh de David Selznick.

Ela ouviu e, quando terminei de contar a minha histria, mantinha os lbios cerrados.

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Tu aceitaste o trabalho do Selznick porque estavas  espera que eu passasse a tarde a bater  mquina para ti?

Foi um divrcio difcil. Ela odeia-me.

Eu... eu... no estava  espera... S tive esperana que... gaguejei. No conseguia respirar. Agira de forma muito estpida. Sidney, desculpa ter-te vindo aborrecer. 
Eu no tinha o direito de te vir pedir isto.

No, no tinhas. E agora, o que vais fazer?

Vou levar este livro de volta a Selznick. Amanh de manh regresso a Chicago. De qualquer das maneiras, muito obrigado. Foi muito simptico da tua parte teres-me 
ouvido, Sidney. Adeus.

E dirigi-me para a porta, desesperado.

Espera l. Voltei-me.

Isto  muito importante para ti, no ?

Acenei que sim com a cabea. Estava demasiado perturbado para conseguir falar.

Vamos l abrir esse pacote e dar uma olhadela. Levei um momento a perceber as suas palavras. Eu disse:

Sydney...

Cala-te. Deixa-me ver o livro.

Queres dizer que...

O que tu fizeste  a coisa mais doida que alguma vez ouvi. Mas admiro a tua determinao. Ela sorriu pela primeira vez. Vou ajudar-te.

Um sentimento de alvio percorreu todo o meu corpo. No conseguia deixar de sorrir de orelha a orelha. Fiquei a olhar enquanto ela folheava o livro.

Isto  comprido. Como  que ests a pensar ter a sinopse pronta at s seis da tarde? perguntou.

Boa pergunta.

Devolveu-me o livro. Olhei para a folha de apresentao para ter uma ideia rpida do que se tratava. Era um romance de poca, o tipo de histria que Selznick gostava 
muito de filmar.

Como  que vamos fazer isto? perguntou.

Eu folheio as pginas expliquei e quando chegar a um ponto importante da histria, dito-te.

Ela concordou.

Vamos l a ver no que d.

Sentei-me numa cadeira na frente dela e comecei a folhear as

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pginas. Nos quinze minutos que se seguiram, fiquei com uma ideia bastante razovel da histria. Comecei a folhear o livro e ia ditando sempre que me parecia encontrar 
algo de pertinente para a trama. Ela ia batendo  mquina enquanto eu falava.

At hoje, desconheo o que  que fez com que a Sidney tivesse aceite ajudar-me. Fora porque eu me metera numa situao sem sada ou porque o meu olhar era de desespero? 
Nunca o saberei. Mas sei que se sentou  secretria durante toda aquela tarde, a datilografar aquelas pginas, enquanto eu ia folheando o livro.

O relgio corria velozmente. S tnhamos coberto cerca de meio livro quando ela me avisou:

So quatro da tarde.

Comecei a ler mais depressa e a falar ainda mais depressa.

Quando terminei de ditar a sinopse de trinta pginas, o sumrio de duas pginas e o comentrio de uma pgina, faltavam exactamente dez minutos para as seis.

Quando ela me entregou as folhas dactilografadas, agradeci-lhe calorosamente:

Se alguma vez puder fazer alguma coisa por ti... Sorriu.

Com um almoo ficamos quites!

Beijei-a na face, enfiei as pginas no envelope juntamente com o livro e sa a correr do escritrio. Corri todo o caminho at aos Selznick International Studios 
e quando l cheguei faltava exactamente um minuto para as seis.

Disse  mesma mulher atrs da secretria:

O meu nome  Sheldon. Quero falar com a secretria do senhor Selznick.

Ela tem estado  sua espera respondeu.

Enquanto me apressava pelo corredor, sabia que aquilo era apenas o princpio. Lera algures que Selznick se iniciara como leitor na MGM, por isso tnhamos algo em 
comum sobre que falar.

O Selznick vai dar-me um lugar na empresa. Vou ter um escritrio aqui. Espera s at Natalie e Otto saberem que estou a trabalhar para ele.

Cheguei ao gabinete da secretria. Quando entrei, ela olhou para o relgio.

Estava a comear a ficar preocupada consigo comentou.

No houve problema respondi com ar desprendido. Dei-lhe o pacote e fiquei a v-la folhear as pginas.

Isto est muito bem feito. E entregou-me um envelope. Aqui tem dez dlares.

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Muito obrigado. Estou pronto para fazer a prxima sinopse, assim que...

Lamento muito respondeu, mas o nosso leitor habitual estar de volta amanh. Normalmente o senhor Selznick no usa leitores externos. Na verdade, o senhor foi chamado 
por engano.

Engoli em seco.

Por engano?

Sim. Nem sequer faz parte da nossa lista normal de leitores. Afinal eu no ia pertencer  equipa de Selznick. No teramos uma agradvel conversa sobre os tempos 
dele como leitor. Aquele dia frentico fora o princpio e o fim. Naquela altura, devia ter ficado extremamente deprimido. Mas, por estranho que parea, sentia-me 
feliz. Porqu? No fazia a mnima ideia.

Quando cheguei  penso da Gracie, os outros hspedes estavam todos  minha espera.

Viste o Selznick?

Que tal  ele?

Vais trabalhar l?

Foi uma tarde muito interessante, muito interessante mesmo respondi. E fui para o meu quarto e fechei a porta.

Vi o bilhete de autocarro sobre a mesa junto  cama. Era o smbolo do meu falhano. Significava voltar para os vestirios, e a drugstare, e os parques de estacionamento, 
e toda a vida  qual pensava ter conseguido escapar. Chegara a um beco sem sada. Peguei no bilhete de autocarro e a minha vontade era rasg-lo. Como  que eu ia 
conseguir transformar este falhano num sucesso? Tem de haver uma forma. Tem de haver uma forma.

De repente, soube o que tinha a fazer. Telefonei para casa. Natalie atendeu o telefone.

Ol, meu querido. Estamos ansiosos por te ver. Ests bem?

Estou ptimo. Tenho boas notcias. Acabei de fazer uma sinopse para David Selznick.

Verdade? Isso  maravilhoso! E ele foi simptico?

Foi. No podia ter sido mais simptico. E isto  s o princpio. As portas finalmente abriram-se, Natalie. Daqui para a frente tudo vai ser excelente. S preciso 
de mais uns dias.

Ela nem hesitou.

Mas  claro, meu querido. Depois diz-nos quando  que voltas para casa.

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Eu no vou voltar para casa.

Na manh seguinte, fui  estao de autocarros e troquei o bilhete que Otto me mandara por dinheiro. Passei o resto do dia a escrever cartas aos departamentos literrios 
de todos os estdios importantes.

O texto dizia mais ou menos:

"A seu pedido pessoal, acabei de fazer uma sinopse de um romance para David O.Selznick e encontro-me livre para poder fazer outras sinopses...".

Os telefonemas comearam a chegar dois dias depois. A primeira a ligar foi a Twentieth-Century-Fox, depois a Paramount. A Fox precisava de uma sinopse de um livro 
e a Paramount queria que fizesse uma sinopse de uma pea de teatro. Cada sinopse pagava cinco ou dez dlares, dependendo da extenso.

Como cada estdio tinha o seu prprio grupo de leitores, a nica altura em que contratavam pessoal de fora era quando estavam sobrecarregados. Eu s conseguia fazer 
uma sinopse por dia. Esse era o tempo que precisava para poder ir ao estdio apanhar a obra, regressar  penso da Gracie, ler o livro, dactilografar a sinopse e 
levar tudo de volta ao estdio. Estava com uma mdia de dois a trs telefonemas por semana. E j no tinha a Sydney na minha vida.

Para aumentar os meus parcos rendimentos, telefonei a um homem que nunca vira. Vera Fine falara nele durante a viagem para a Califrnia. Chamava-se Gordon Mitchell. 
Era o chefe do Departamento Tcnico da Academy of Motion Pictures Arts and Sciences.

Liguei, mencionei o nome de Vera Fine e disse-lhe que andava  procura de um emprego. Ele foi muito simptico.

Para falar verdade, tenho uma coisa que poder fazer. Fiquei excitado. Eu ia trabalhar para a conceituada academia. Na manh seguinte, encontrmo-nos no escritrio 
dele.

Chegou na altura certa. Vai trabalhar aqui  noite, a ver filmes na nossa sala de projeco informou-me.

Excelente. E qual  a minha funo? perguntei.

Ver filmes na nossa sala de projeco. Eu olhava para ele. Ele explicou.

A Academia est a experimentar vrios tipos de preservantes de filmes. Revestimos vrias seces dos filmes com qumicos diferentes. A sua funo  ficar sentado 
na sala de projeco e registar o nmero de vezes que um filme  passado. E, acrescentou, como se pedisse desculpas: Lamento dizer, mas o pagamento so trs dlares 
por dia.

Aceito.

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O primeiro filme que vi vezes sem conta foi The Man Who Lived Twice e pouco tempo depois j sabia de cor todas as falas. Passava as noites a ver os mesmos filmes 
e os dias a aguardar que o telefone tocasse.

No fadado dia de 12 de Dezembro de 1938, recebi um telefonema da Universal Studios. Acabara de fazer algumas sinopses para eles.

Sidney Sheldon?

Sim.

Pode vir aos nossos estdios hoje de manh? Mais trs dlares.

Claro.

Por favor, dirija-se ao gabinete do senhor Townsend.

Al Townsend era o editor snior da Universal. Quando cheguei aos estdios, fui conduzido ao escritrio dele.

Li as sinopses que escreveu para ns. So muito boas.

Muito obrigado.

Estamos a precisar de um leitor interno. Est interessado no lugar?

Interroguei-me se ele ficaria ofendido se eu lhe desse um beijo.

Estou, sim foi a minha resposta.

Tem um salrio de dezassete dlares por semana. Trabalhamos seis dias por semana. O seu horrio ser das nove s seis. Comea na segunda-feira.

Liguei para o escritrio de Sidney para lhe dar as notcias e para a convidar para jantar.

Uma voz desconhecida atendeu:

Sim?

Queria falar com Sidney Singer.

Ela no est c.

Quando volta?

No volta.

Como...? Quem fala?

Dorothy Arzner.

Oh! Por acaso tem o endereo dela, menina Arzner?

No deixou nenhum.

Nunca mais voltei a ver a Sidney, mas nunca me esqueci da dvida que tenho para com ela.

A Universal era um estdio que fazia filmes categoria B. Fora fundada em 1912 por Cari "Papa" Laemmle, e era conhecida pela

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sua economia. Uns anos antes, o estdio telefonara para o agente de uma grande estrela de filmes westem e dissera que estavam interessados em contrat-lo para um 
filme de oramento reduzido. O agente riu-se.

Vocs no lhe podem pagar. Ele ganha mil dlares por dia.

Est bem respondeu o director da empresa. Ns pagamos. O filme era sobre um bandido mascarado. No primeiro dia da produo, o realizador filmou inmeros close-ups 
da estrela em vrios locais e, ao final do dia, disseram-lhe que no precisavam mais dele. O que fizeram a seguir foi substituir o actor por um outro mais barato, 
que usou uma mscara durante o resto do filme.

Na segunda-feira de manh, quando cruzei os portes e entrei pela primeira vez nos terrenos de um estdio, senti-me invadir por uma sensao de espanto. Passei por 
fachadas de cidades do Oeste, por casas vitorianas, por ruas de So Francisco e de Nova Iorque, e senti a magia.

Al Townsend explicou-me as minhas funes. O meu trabalho consistia em ler dzias e dzias de guies, que tinham sido escritos para filmes mudos e tentar desencantar 
os que podiam ser recuperados para filmes falados. Quase todos eram irrecuperveis. Lembro-me de uma linha memorvel que descrevia um vilo "Ele tinha um saco de 
ouro no olhar."

Durante a poca do Papa Laemmle, a Universal era um estdio com um ambiente fcil, do tipo mangas arregaadas. No se sentia qualquer presso. Era como se fosse 
uma famlia grande.

Eu agora ganhava um cheque semanal e conseguia pagar regularmente a Grade. Ia para os estdios seis dias por semana, e nunca deixei de sentir a mesma ao passar pelos 
terrenos onde os sonhos eram criados todos os dias. Sabia que era simplesmente o princpio. Entrara na Universal como leitor, mas ia recomear a trabalhar em histrias 
originais e conseguiria vend-las aos estdios. Escrevi a Natalie e a Otto para lhes contar como corriam as coisas. Eu agora tinha um emprego permanente em Hollywood.

Um ms depois, Papa Laemmle vendeu a Universal e, juntamente com todos os outros, fui despedido.

No me atrevi a contar a Natalie ou a Otto o que acontecera, porque sabia que iam insistir para que eu regressasse a Chicago. Eu sabia que era ali que estava o meu 
futuro. Tinha de procurar outro emprego um emprego qualquer at conseguir regressar a um estdio.

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Li os anncios de ofertas de emprego. Um deles chamou a minha ateno:



Precisa-se operador central telefnica. No se exige experincia. $20 por semana. Hotel Brandi.

O hotel Brandi era um hotel chique perto de Hollywood Boulevard. Quando l cheguei, a nica pessoa no trio era o gerente.

Vim por causa do anncio para telefonista disse eu. Estudou-me por momentos.

A nossa telefonista despediu-se. Precisamos de algum imediatamente. J alguma vez trabalhou com uma central telefnica?

No, senhor.

Bem, no tem nada de especial. E levou-me atrs de uma secretria onde estava um grande painel com aspecto complicado.

Sente-se pediu.

Sentei-me. O painel era composto por duas filas de cavilhas verticais e cerca de trinta buracos onde elas podiam ser enfiadas, cada um pertencendo a um quartos numerado.

Est a ver estas cavilhas?

Sim.

So aos pares, uma por cima da outra. A de baixo tem o nome de cavilha irm. Quando a luz do painel se acende, coloca a cavilha da frente nesse buraco. Quem chama 
vai dizer-lhe que nmero de quarto pretende e voc pega na cavilha irm e enfia-a no respectivo nmero pedido, e em seguida prime este boto aqui, para tocar no 
quarto.  s isto.,

Anui.

 fcil.

Dou-lhe uma semana  experincia. Vai trabalhar de noite.

Tudo bem respondi.

Quando pode comear? J comecei.

O gerente tinha razo. Gerir uma central telefnica era fcil. Passou a ser automtico. Quando uma luz se acendia, eu enfiava uma cavilha na fila da frente.

O senhor Klemann, por favor.

Consultava o livro de registos dos hspedes. O senhor Klemann estava no quarto 231. Enfiava a cavilha no buraco do 231 e premia o boto para tocar no quarto. Era 
to simples quanto isto.

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Tinha a sensao de que operar uma central telefnica era o princpio de qualquer coisa. Eu podia ser promovido a gerente da noite e depois, quem sabe, talvez a 
gerente e, como o hotel pertencia a uma cadeia, nunca se sabia at onde eu podia subir, e ia escrever uma pea sobre hotis com conhecimento de causa, vend-la a 
um estdio e acabar por chegar onde afinal pretendia chegar.

Duas noites depois de ter comeado, um dos hspedes ligou para a central s trs da manh.

Preciso que me ligue para um nmero em Nova Iorque. E deu-me o nmero.

Retirei a cavilha correspondente ao quarto e fiz a ligao para Nova Iorque.

Ao fim de uma dzia de toques, respondeu uma mulher:

Est l?

Tenho uma chamada para si informei.  s um momento, que vou passar.

Tirei a cavilha que entrava nos nmeros dos quartos e fiquei a olhar para o painel. No tinha a mnima ideia de qual fora o hspede que me pedira a chamada. Olhei 
para os buracos no painel,  espera de alguma inspirao. Sabia mais ou menos de que zona viera a chamada. Comecei a ligar para todos os quartos dessa seco, na 
esperana de acertar. Acabei por acordar uma dzia de hspedes.

Tenho em linha a chamada que pediu para Nova Iorque.

No conheo ningum em Nova Iorque.

Tenho em linha a chamada que pediu para Nova Iorque.

Voc est doido? So trs da manh!

Tenho em linha a chamada que pediu pra Nova Iorque.

No  para mim, seu idiota!

Na manh seguinte, quando o gerente chegou, comentei:

Ontem passou-se uma coisa engraada...

J sei e no achei nada engraado. Est despedido.

Era bvio que no estava destinado a ser gerente de uma cadeia de hotis. Chegara a hora de seguir em frente.

Vi um anncio de um part-time como instrutor numa escola de conduo e decidi concorrer ao lugar. A maior parte dos alunos eram assustadores. Os sinais vermelhos 
no tinham qualquer significado para eles e todos pareciam ficar confusos quanto  diferena entre o acelerador e o travo. Eram nervosos, cegos ou potenciais suicidas. 
Cada vez que ia trabalhar sentia que estava a pr a minha vida em risco.

Mantinha a sanidade fazendo leituras para vrios estdios, sempre

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que os leitores deles estavam ocupados. Um dos estdios para quem fiz algumas sinopses foi a Twentieth-Century-Fox. O editor chefe chamava-se James Fisher e era 
um inteligente jovem de Nova Iorque. Um dia, ao final da tarde, telefonou-me:

Est livre amanh?

Estou. Mau trs dlares.

Vejo-o s dez.

Est bem.

Talvez fosse um livro grande. Dez dlares. Os meus fundos estavam outra vez a ficar muito fracos.

Assim que cheguei ao escritrio, Fisher estava  minha espera.

Que  que acha de um trabalho efectivo aqui? perguntou. Eu nem conseguia articular as palavras.

Eu... eu ia gostar muito.

Ento, est contratado. Vinte e trs dlares por semana. Estava de volta ao mundo do espectculo.

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CAPTULO 10

Trabalhar na Twentieth-Century-Fox era radicalmente diferente de trabalhar nos estdios da Universal. Enquanto na Universal tudo era descontrado e informal, a Fox 
era um estdio gerido de forma prtica e eficiente. A razo principal era Daryl F. Zanuck, o chefe de produo. Contrariamente  maior parte dos outros directores 
dos estdios, Zanuck era um executivo que tinha tudo sob controle. Era um brilhante homem do mundo do espectculo, que se envolvia em cada fase de todos os filmes 
que o estdio fazia e que sabia exactamente o que queria. Tinha tambm um profundo sentido de quem era. Uma vez, numa reunio de produo do estdio virou-se para 
o assistente e disse-lhe:

No diga "sim" antes de eu acabar de falar.

Daryl Zanuck tinha um enorme respeito pelos escritores. Disse uma vez: "O sucesso de um filme tem a ver com trs coisas: a histria, a histria, a histria. S no 
deixem que os escritores se apercebam de como so importantes."

Havia doze leitores na Fox, que variavam em idades dos trinta e cinco aos sessenta anos. Na sua maioria, eram familiares dos executivos dos estdios, que estavam 
na folha de pagamentos como uma espcie de sinecura.

Julian Johnson, um dos executivos mais importantes dos estdios Fox, chamou-me ao seu gabinete uma manh. Johnson era uma figura imponente, alto e robusto. Em tempos 
fora casado com Texas Guinan, a famosa rainha dos clubes nocturnos.

Sidney, de hoje em diante, s vais trabalhar em sinopses para o senhor Zanuck. Sempre que ele estiver interessado num livro ou numa pea nova, quero que sejas tu 
a tratar disso.

ptimo.

Cada sinopse ser um trabalho rpido...

No se preocupe.

Para dizer a verdade, eu estava encantado. A partir daquele momento, poderia ler os melhores romances e peas que seriam propostas ao estdio.

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Como Zanuck se sentia sempre pressionado para conseguir bater todos os outros estdios no que dizia respeito a material novo, tive muitas vezes que trabalhar at 
depois da meia-noite. Eu gostava do meu trabalho, mas estava impaciente por me tornar um escritor. O estdio iniciara uma seco de escritores assistente e eu comentei 
com Julian Johnson que gostaria de poder fazer parte dela. Ele foi compreensivo, mas no me encorajou:

Ests a trabalhar para o Zanuck. Isso  mais importante respondeu.

O meu pequeno gabinete era num edifcio velho, com madeiras que rangiam, situado nos fundos dos terrenos.  noite tudo ficava deserto e por vezes eu no me sentia 
muito  vontade quando l tinha de ficar sozinho a trabalhar, imerso nas trevas. Uma noite, trabalhava  pressa num livro no qual Zanuck estava muito interessado. 
Era uma histria de fantasmas bastante assustadora.

Tinha acabado de escrever  mquina a frase "Ele abriu a porta do armrio e, quando o cadver sorridente que l se encontrava comeou a cair em cima dele...", quando 
a porta do meu armrio se abriu para trs, os livros comearam a voar pelos ares e a sala comeou a abanar. Bati todos os recordes de velocidade, ao sair dali para 
fora.

Foi o meu tremor de terra mais memorvel.

No princpio de Setembro, um desconhecido entrou no meu gabinete e apresentou-se:

O meu nome  Alan Jackson. Sou leitor na Columbia.

Prazer em conhecer. Apertmos as mos. Que posso fazer por si?

Queremos formar uma associao de leitores e precisamos da sua ajuda.

Para qu?

Para convencer os leitores que c trabalham de que precisamos de uma associao e que nos devemos unir. Se conseguirmos que os leitores de todos os estdios se juntem, 
podemos formar uma comisso, que passar a negociar com os estdios. Neste momento no temos qualquer fora. Estamos todos mal pagos e assoberbados de trabalho. 
Est disposto a ajudar-nos?

Eu no me sentia nem mal pago nem assoberbado de trabalho, mas sabia que era essa a situao da maioria dos leitores.

Vou ver o que posso fazer.

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- ptimo.

Mas  possvel que haja um problema avisei-o.

Qual ?

-  que quase todos os leitores que trabalham aqui na Fox so familiares de um executivo do estdio. No me parece que estejam interessados em envolver-se, mas vou 
tentar.

Para meu grande espanto, todos os leitores dos estdios concordaram em fazer parte da associao, assim que esta estivesse formada. Quando contei as novidades a 
Alanjackson, ele respondeu:

Mas isso  excelente. J temos todos os outros leitores dos outros estdios. Vamos criar uma comisso de negociaes. A propsito, voc faz parte dela.

As nossas negociaes tiveram lugar numa sala de conferncias dos estdios da Metro-Goldwyn-Mayer. A comisso era formada por seis leitores de vrios estdios. Sentados 
na nossa frente, a uma enorme mesa, estavam quatro executivos. Seis carneiros e quatro lees.

Eddie Manix, um duro irlands que era um dos quatro executivos da Metro-Goldwyn-Mayer iniciou a reunio, rugindo:

Mas, afinal, qual  o vosso problema? Um dos do nosso grupo falou:

Senhor Manix, ns no estamos a ganhar um ordenado decente. Eu recebo dezasseis dlares por semana e no tenho possibilidade de...

Eddie Manix ps-se bruscamente de p e gritou:

Eu no vou ficar aqui a ouvir estas merdas! e saiu de rompante da sala.

Ns os seis permanecemos sentados, petrificados. A reunio terminara.

Um dos outros executivos abanou a cabea e disse:

Vou ver se o consigo convencer a voltar!

Uns minutos mais tarde, regressou com um Manix furioso. Ns ficmos sentados a observ-lo com um ar intimidado.

Mas que raio querem vocs? exigiu saber. E recomemos as nossas negociaes.

Duas horas mais tarde, havia uma Associao de Leitores oficial que seria reconhecida por todos os estdios. A comisso concordara com um ordenado base de vinte 
e um dlares e cinquenta cntimos por semana para os leitores que fizessem parte do quadro da empresa e um aumento de vinte por cento para os leitores externos. 
Fui eleito presidente da associao.

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Foi s anos mais tarde, quando o voltei a encontrar, que percebi o brilhante papel que Eddie Manix desempenhara. Telefonei a Natalie e a Otto para lhes contar o 
que acontecera. Ficaram encantados. Mais tarde soube que, depois de eu ter desligado, Otto sara de casa e fora ter com os seus amigos para lhes contar que eu sozinho, 
sem a ajuda de ningum, salvara os estdios de Hollywood de uma greve ruinosa.

Um dos novos hspedes da Gracie era um jovem tmido chamado Ben Roberts. Tinha a minha idade, era baixo, de pele escura, cabelo fino e um rosto sorridente. Era dono 
de um sentido de humor seco e lacnico. Depressa nos tornmos amigos.

Ben era escritor, mas o seu nico crdito era uma curta metragem de Leon Errol. Comemos a falar em colaborao. Todas as noites, dirigamo-nos para a drugstore 
na. esquina e comamos uma sanduche como jantar, ou ento optvamos por um restaurante chins dos baratos. Trabalhar com Ben era fcil. Ele tinha imenso talento 
e, em poucas semanas, tnhamos terminado uma histria original. Mandmo-la por correio para todos os estdios importantes e ficmos ansiosos  espera que as propostas 
entrassem em catadupa pela porta dentro.

Mas nada chegou.

Deitmo-nos ao trabalho numa outra histria, com o mesmo resultado. Conclumos que era bvio que os estdios no reconheciam talento quando o viam.

Uma terceira histria tambm no foi comprada. Comemos a sentir-nos desencorajados.

Um dia eu disse:

Tenho uma ideia para um policial. Vamos chamar-lhe Dangerous Holiday. Expliquei-lhe qual era a minha ideia e ele gostou. Escrevemos um resumo e envimos cpias pelo 
correio aos estdios. Mais uma vez, no obtivemos qualquer resposta.

Uma semana depois de termos mandado a nossa histria, cheguei  penso e o Ben estava  minha espera, muito excitado.

Dei a nossa histria a um produtor meu conhecido, o Ted Richards. Trabalha na PRC.

Era um dos estdios mais pequenos, a Producers Releasing Corporation.

Ele adorou Dangerous Holiday continuou. Ofereceu-nos quinhentos dlares por ela. Inclui escrevermos o argumento. Eu respondi-lhe que ia falar contigo e que depois 
lhe dava uma resposta.

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Fiquei encantado. Era claro que amos faz-lo. Em Hollywood, o crdito mais importante era sempre o primeiro que se conseguia. Fez-me lembrar a minha primeira experincia 
em Nova Iorque.

J tem alguma msica editada?

No.

Ento volte depois de ter alguma coisa editada.

Agora era:

Tem algum crdito no cinema?

No.

Ento volte quando tiver.

Bom, pois agora j tnhamos. Dangerous Holiday.

Uns meses antes, eu travara conhecimento com Ray Crossett, que estava encarregue do departamento literrio da Leland Hayward, uma das principais agncias de talentos 
de Hollywood. Por alguma razo, Crossett acreditava em mim e prometera que um dia ia ser o meu representante.

Telefonei-lhe a contar as boas notcias acerca de Ted Richmond.

Eu e o Ben acabmos de vender a nossa primeira histria disse eu. Chama-se Dangerous Holiday.

Aqum?

 PRC.

O que  isso?

Fiquei desapontado. Ray Crossett era um dos maiores agentes deste negcio e nunca tinha ouvido falar na PRC!

-  um estdio chamado Producers Releasing Corporation. Um produtor de l chamado Ted Richmond ofereceu-nos quinhentos dlares, incluindo o argumento que vamos ter 
que escrever.

J fecharam o negcio?

Bom, dissemos que depois lhe dizamos, mas...

Eu j te ligo respondeu, e desligou. Duas horas mais tarde, Ray estava ao telefone.

Acabei de vender a vossa histria  Paramount. Eles pagam-vos mil dlares e no tm de escrever nenhum argumento.

A minha primeira reaco foi ficar chocado, mas sabia o que acontecera. Todos os estdios tm uma sinopse de todas as histrias que lhes so apresentadas. Quando 
Ray ligou para a Paramount e lhes disse que Dangerous Holiday tinha sido comprada por outro estdio, eles morderam o isco.

Ray disse eu isso ... isso  ptimo., mas no podemos aceitar.

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De que  que ests a falar?  o dobro do dinheiro e num estdio importante.

No posso. Sinto que tenho obrigao para com o Ted Richmond e...

Olha. Telefona-lhe e conta-lhe o que se passou. Tenho a certeza que ele vai compreender.

Bom, vou tentar foi a minha resposta.

Mas eu tinha a certeza que Ted Richmond no ia compreender. Liguei para o escritrio dele. A secretria respondeu-me:

O senhor Richmond est na sala de montagem. No pode ser incomodado.

 capaz de lhe pedir para me ligar?  muito importante.

Eu dou-lhe o seu recado. Uma hora mais tarde voltei a ligar.

Preciso de falar com o senhor Richmond.  urgente.

Lamento muito, mas ele no pode ser incomodado. Dei-lhe o seu recado.

Nessa tarde tentei ligar-lhe trs vezes e por fim acabei por desistir. Telefonei para Ray Crossett.

Richmond no responde aos meus telefonemas. Vai em frente e faz o negcio com a Paramount.

J o fiz h quatro horas.

Quando Ben chegou, pu-lo a par do que se passara.

Ficou excitado.

Isso  fantstico exclamou. A Paramount  muito importante. Mas agora o que dizemos ns ao Ted Richmond?

Boa pergunta. O que amos ns dizer agora ao Ted Richmond. Nessa noite, liguei para casa de Ted e ele atendeu. Como tinha um sentimento de culpa, entrei a matar.

Liguei-lhe hoje uma boa meia dzia de vezes. Porque  que no me telefonou?

Peo desculpa, mas estive na sala de montagem e...

Pois devia ter-me ligado. Por sua causa eu e Ben quase perdamos um bom negcio.

De que  que est a falar?

A Paramount acabou de comprar Dangerous Holiday. Fizeram-me uma proposta e, como no conseguamos falar consigo, acabmos por lhes vender a histria.

Mas eu j a pus na nossa programao e...

No se preocupe com isso respondi, Est com sorte. Temos

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uma histria muito mais interessante do que Dangerous Holiday, Chama-se South of Panam.  um drama, com uma histria de amor, suspense e muita aco.  uma das 
melhores coisas que j escrevemos. Fez-se uns segundos de silncio.

Muito bem respondeu. Venha ento ter comigo e Alex amanh s oito da manh, ao Pig & Whistle.

Alex era o director da PRC.

L estarei respondi e, pousando o auscultador, virei-me para Ben: No temos tempo parajantar. Temos de inventar um enredo que tenha uma histria de amor, suspense 
e muita aco. Temos at s sete da manh.

Trabalhmos a noite toda, a discutir ideias, a tentar encontrar um enredo, a acrescentar e retirar personagens. Ia ficando cada vez mais cansativo. Terminmos South 
of Panam s cinco da manh.

Conseguimos! exclamou Ben. Vais-lhes mostrar isto de manh.

Concordei. Pus o despertador para as sete. Ia ter duas horas para dormir, antes da reunio.

Quando o despertador tocou, levantei-me meio grogue e reli a nossa histria. Era pssima. Odiei o enredo, as personagens e os dilogos. Mas mesmo assim tinha de 
ir  reunio e enfrentar Alex e Ted.

As oito em ponto enfiei-me no Pig & Whisde. Ted e Alex estavam sentados num reservado  minha espera. Trouxera comigo duas cpias da histria.

Mal posso esperar por ler isto comentou Alex. Ted anuiu com a cabea.

Eu tambm.

Sentei-me e dei uma cpia a cada um. Comearam imediatamente a ler. Eu no tinha coragem para olhar para eles. Viravam as pginas. E no faziam nenhum comentrio. 
Mais pginas. Silncio.

 merecido, pensei. Como  que  possvel escrever sob uma presso assim?

Acabaram os dois ao mesmo tempo. Alex olhou para mim.

 brilhante.

Espectacular corroborou Ted. Tinhas razo.  muito melhor do que Dangerous Holiday.

Eu no acreditava no que estava a ouvir.

Pagamos quinhentos dlares disse Alex. E tm de escrever o argumento.

Respirei fundo.

Negcio fechado.

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Ben e eu tnhamos feito um milagre. Conseguramos vender duas histrias num perodo de vinte e quatro horas.

Nessa noite, eu e Ben fomos celebrar ao Musso &: Frank's, um dos clssicos restaurantes de Hollywood. Era a primeira vez que tnhamos dinheiro para o fazer. Foi 
um dia depois de fazer vinte e quatro anos.

South of Panam foi filmado pela Producers Releasing Corporation e teve como actores Roger Pryor e Virgnia Vale. A Paramount filmou Dangerous Holiday e chamou-lhe 
Fly-by-Night, com Richard Carlson e Nancy Kelly.

Eu e Ben estvamos metidos numa onda. A primeira coisa que fiz foi despedir-me do meu trabalho como leitor na Fox. O senhor Zanuck teria de passar sem mim. Pouco 
depois de deixar a Fox, eu e Ben vendemos outra histria chamada Borrowed Hero  Monogram, um pequeno estdio que fazia filmes de categoria B, e Dangerous Lady e 
Gambling Daughters  PRC. Por cada histria e cada argumento recebamos quinhentos dlares, que dividamos entre ns. Seria despropositado estar a dizer que eram 
histrias memorveis, mas pelo menos comemos a ser reconhecidos como escritores.

Leonard Fields, um produtor da Republic Studios, a primeira da lista dos filmes B, comprou-nos uma histria chamada Mr. Distinct Attarney in the Crter Case. Pela 
histria e pelo argumento, os dois recebemos a magnfica soma de seiscentos dlares.

O filme acabou por ser um xito e Leonard Fields chamou-me:

Estamos interessados em fazer um contrato convosco.

ptimo!

Quinhentos dlares por semana.

Para cada um?

Para a equipa.

Trabalhmos os dois na Republic durante um ano a fazer guies, at o nosso contrato chegar ao fim. No Natal, Leonard Fields mandou-nos chamar.

Vocs esto a fazer um excelente trabalho. Tencionamos renovar o contrato.

Isso so excelentes notcias, Leonard. O nico problema  que eu e Ben pretendemos receber seiscentos dlares por semana.

Leonard Fields anuiu.

Depois entro em contacto convosco. Nunca mais tivemos notcias de Leonard Fields.

89
Falei com Ray Crossett e perguntei-lhe porque  que ele ainda no tinha conseguido arranjar um contrato com uma das grandes empresas.

Receio que os vossos crditos no sejam muito impressionantes. Teria mais hipteses se nunca tivessem escrito nenhum desses filmes.

Assim, continumos a escrever e a vender filmes de categoria B. Era uma forma de ganhar a vida.

Fui a casa pelo dia de Aco de Graas e foi maravilhoso rever Richard e os meus pais. Otto fez questo de convidar os vizinhos, para que eles pudessem ver o seu 
filho, que controlava Hollywood.

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CAPTULO 11

Era maravilhoso estar de volta a casa. Richard crescera. Terminara o liceu e estava pronto para entrar na faculdade. A nica coisa que ensombrou a minha visita a 
casa foi o facto de Natalie e Otto continuarem a brigar. E desta vez era Richard que era apanhado no meio.

Falei com eles sobre o assunto, mas o azedume entre eles era demasiado profundo para serem capazes de parar de discutir. Eram simplesmente incompatveis.

Decidi que chegara o momento de levar Richard comigo para Hollywood. Eu e Ben vendamos suficientes histrias para me poder sustentar a mim e ao meu irmo.

Que achas de ires comigo para Hollywood? perguntei. Ele olhava fixamente para mim.

Ests a falar a srio?

Claro que estou.

Fez-se um silncio e em seguida ouviu-se um grito de tal forma poderoso que pensei que me ia romper os tmpanos.

Uma semana mais tarde, Richard mudou-se para a penso de Grade e apresentei-o a todos os outros hspedes. Nunca antes o vira to feliz, e percebi o quanto sentramos 
a falta um do outro.

Trs meses depois de eu e Richard termos sado de Chicago, Natalie e Otto divorciaram-se. Fiquei um pouco incomodado, mas conclu que era o melhor para todos.

Uma manh recebi um telefonema.

Sidney?

Sim.

Ol, amigo, fala Bob Russell.

No s eu no era amigo dele como nunca antes ouvira aquele nome. Provavelmente um vendedor.

Desculpe, mas no tenho tempo para... comecei a dizer.

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Devias ter feito umas canes com Max Rich.

Por momentos fiquei sem saber o que dizer. Como  que ele sabia? Percebi imediatamente de quem se tratava.

Sidney Rosenthal!

Bob Russell emendou. Vou at Hollywood para te ver.

ptimo!

Bob Russell chegou uma semana depois e foi ocupar o ltimo quarto disponvel na penso de Gracie. Era maravilhoso voltar a v-lo. Continuava entusistico como sempre.

Continuas a escrever canes? perguntei.

Podes apostar. E tu no devias ter desistido ralhou. Richard, que era do tipo gregrio, j fizera amigos em Hollywood

Por vezes trazia-os at  penso de Gracie e outras vezes era convidado para as casas deles.

Uma noite em que fomos convidados para um jantar, eu estava a tomar um duche e, quando me estiquei para apanhar o sabonete, a hrnia deu um sinal e ca ao meio do 
cho com dores horrveis. Fiquei de cama nos trs dias seguintes. Conclu que, quer gostasse quer no, era uma coisa com que teria de viver para o resto da minha 
vida.

Uma noite, Natalie telefonou.

Querido, tenho notcias para ti. Vou-me casar.

Fiquei encantado por ela. Desta vez esperava que ela fosse tratada como merecia.

E quem  ele? Conheo-o?

Chama-se Martin Leeb.  fabricante de brinquedos e  um amor.

Parece-me muito bem. Quando  que o vou conhecer? perguntei, entusiasmado.

Ns vamos a visitar-vos.

Quando contei as novidades a Richard ele ficou to entusiasmado quanto eu.

O telefonema seguinte, na semana seguinte, veio de Otto:

Sidney, era s para te dizer que me vou casar.

Ai sim? Fui apanhado de surpresa. Algum que eu conhea?

No. Chama-se Ann Curtis.  muito boa pessoa.

Ainda bem. Fico muito feliz por ti. Espero que sejas feliz.

Eu sei que vou ser. Tive algumas dvidas.

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Com Bob Russel connosco, era como se estivssemos em casa. Trouxera com ele a ltima cano que escrevera.

 uma cano de amor no correspondido. V o que consegues fazer com ela pediu Bob.

Toquei-a ao piano e comentei:

-  linda. Tive uma ideia. H uma cantora que vai comear a actuar no prximo sbado num clube do East Side. Tenho a certeza que ela pode usar isto. Importas-te 
que lha mostre?

Ests  vontade.

No dia seguinte, fui ao clube onde a cantora estava a ensaiar e mostrei-lhe a cano.

Gosto. Dou-lhe cinquenta dlares. Foi a resposta dela.

Aceito.

Quando entreguei o dinheiro a Bob, este mostrou um enorme sorriso.

Muito obrigado. Agora j sou um profissional.

Hollywood tinha todos os dias as suas temperamentais minitempestades, mas na Europa uma enorme tempestade estava em gestao. Comeara em 1939 quando a Alemanha 
e a Unio Sovitica invadiram a Polnia. Em seguida, a Inglaterra, a Frana e a Austrlia declararam guerra  Alemanha. Em 1940, a Itlia juntou-se  Alemanha e, 
neste momento, uma dzia dos pases europeus estavam em guerra. A Amrica afirmara a sua neutralidade. Mas por pouco tempo.

No dia 7 de Dezembro de 1941, Pearl Harbour foi atacado pelos japoneses e, no dia seguinte, o presidente Franklin D. Roosevelt declarou guerra ao Japo.

Uma hora depois de Roosevelt ter declarado guerra, Louis B. Mayer, o director da Metro-Goldwyn-Mayer, que foi indicado pelo presidente da MGM Nicholas Schenk, convocou 
todos os seus produtores e realizadores mais importantes para uma reunio. Assim que todos se encontravam reunidos, Mayer disse com ar solene:

Todos vocs j tm conhecimento do que se passou ontem em Pearl Harbour. Pois ns no vamos aceitar isso. Vamos lutar. E olhou em redor da sala. Sei que posso contar 
convosco para se juntarem a mim no apoio ao nosso presidente, o senhor Nicholas M. Schenk.

Ben, Bob e eu estvamos em idade de recrutamento e sabamos que em breve seramos convocados.

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H uma unidade de instruo em filmes em Fort Dix, na Nova Jrsia, e eu vou-me alistar e ver se consigo entrar disse Ben.

Alistou-se como voluntrio no dia seguinte e o Exrcito ficou muito satisfeito por o receber. Uma semana depois estava a caminho do leste.

Que vais tu fazer? perguntei a Bob.

Ainda no sei. Sofro de asma. No me vo aceitar no exrcito. Vou voltar para Nova Iorque e ver o que posso fazer para ajudar. E tu, que pensas fazer?

Vou alistar-me no Air Corps.

Em 26 de Outubro de 1942, inscrevi-me no Army Air Corps.

Para que a minha inscrio fosse aceite, eram necessrias trs cartas de recomendao de trs pessoas importantes. Eu no conhecia ningum importante. Comecei a 
escrever cartas aos membros do Congresso, a dizer-lhes que estava decidido a servir o meu pas e que precisava da ajuda deles. Levei dois meses para conseguir finalmente 
reunir as trs cartas.

O passo seguinte era marcar um encontro no Federal Building, na baixa de Los Angeles, para me submeter a um exame escrito. Havia cerca de duzentos candidatos na 
sala. O teste, que abrangia lgica,.; vocabulrio, matemtica e cultura geral, demorou quatro horas.

A parte da matemtica escapou-me completamente. Como mudara tantas vezes de escola, a verdade  que nunca aprendera os seus princpios bsicos. Falhei a maior parte 
das perguntas dessa parte e fiquei com a certeza que ia chumbar.

Trs dias mais tarde recebi uma notificao para me apresentar no Air Corps, para fazer um exame mdico. Para meu grande espanto, passara o teste escrito. Mais tarde 
fiquei a saber que s trinta candidatos de todo o grupo tinham sido aceites.

Fui mandado para um depsito de armas, na parte alta da cidade, para fazer o meu exame mdico, com a certeza de que ia passar com distino.

Quando o exame terminou, o mdico perguntou:

Tem alguns problemas de ordem fsica de que eu deva saber?

No, senhor... Mal acabei de dizer isto, lembrei-me da minha hrnia discal e interroguei-me se seria importante. Eu...

Sim, diga?

Sabia que estava a pisar um terreno perigoso.

Bom, eu tenho um pequeno problema, mas  de pouca importncia. Tenho uma hrnia discal que de vez em quando me incomoda, s que...

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Ele estava a escrever na minha ficha "hrnia discal". Fiquei a olhar, vi-o pegar num carimbo de borracha com a palavra "INAPTO" em letras vermelhas.

Espere! pedi. Levantou o olhar para mim.

Diga?

Eu no ia permitir que nada se atravessasse no meu caminho.

Essa hrnia no me incomoda h muito tempo. Est curada. Nem sequer me lembro de quando foi a ltima vez que me incomodou. Eu s falei nela porque foi uma coisa 
que tive em tempos.

Eu no sabia o que estava a dizer, mas sabia que se ele carimbasse a minha ficha com o carimbo de tinta vermelha, eu estava acabado. Continuei a falar at que ele 
acabou por pousar o carimbo.

Est bem. Se tem a certeza...

Na minha voz mais sincera, respondi:

Doutor, tenho a certeza absoluta.

Muito bem.

Eu ia entrar! S faltava o exame aos olhos, e a no havia problema.

Fui mandado a outro gabinete onde me deram dois cartes, cada um deles com o nome de um optometrista que podia aprovar a minha inscrio.

Leve este carto a um destes mdicos disseram-me. Quando tiver passado o seu exame oftalmolgico, pea que o assinem. Depois traga-os de volta.

Voltei para a penso de Gracie e contei a Richard como as coisas estavam a correr bem. Tudo levava a crer que eu ia conseguir entrar para o Air Corps.

Richard ficou desolado por eu ir partir.

Vou ficar aqui sozinho!

A Gracie toma conta de ti. E no tarda nada vem a a me e o Marty. De qualquer das maneiras, a guerra no vai durar muito tempo assegurei.

Sidney, o Profeta.

Na manh seguinte fui ver o doutor Fred Severn, cujo nome constava do primeiro carto. A sala de estar estava cheia de homens que aguardavam a vez para fazerem testes 
aos olhos. Sentei-me e ali fiquei durante uma hora. Por fim, l fui conduzido ao gabinete do Dr. Severn.

Sente-se.

Ele olhou para o carto que lhe dei e acenou com a cabea.

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Piloto?

Sim, senhor.

Bom, vejamos se tem a viso vinte/vinte que eles exigem. Conduziu-me a uma sala mais pequena que tinha na parede um enorme cartaz. O doutor Severn escureceu a sala.

Comece a ler de cima para baixo.

Era fcil, at que cheguei s duas ltimas linhas. No conseguia ler uma nica letra. Mas com certeza que ter chegado ali to perto devia bastar. As luzes acenderam-se.

O mdico escrevia qualquer coisa num papel. Eu conseguira!

D isto  recepcionista pediu.

Muito obrigado, doutor.

Quando me encaminhava para a porta olhei para o carto. O meu nome estava l e, na parte inferior do carto, o mdico escrevera "Inapto por razes de ordem fsica. 
Viso deficiente". Assinado, Doutor Fred Severn.

No podia acreditar. No podia aceitar aquilo. Nada me ia impedir de entrar para o Air Corps.

Comecei a sair com o carto na mo.

A recepcionista pediu:

Senhor, importa-se de me dar o seu carto? Continuei a andar, fingindo que no a ouvira.

Senhor...

Eu j estava na rua.

Ainda tinha um mdico a visitar. Mas como  que eu ia ter a certeza que ia conseguir passar no teste?

Uma hora mais tarde, estava no gabinete do meu optometrista habitual, o doutor Samuel Peters. Contei-lhe o que se passara.

Para uma viso vinte/vinte explicou ele precisa de ser capaz de ler todas as linhas.

H alguma forma de me ajudar a conseguir isso? Pensou durante uns momentos.

H, sim.

Abriu uma das gavetas e tirou para fora um par de culos com lentes que pareciam fundos de garrafa.

O que  isso?

Isto  o que vai conseguir fazer com que seja aceite no Air Corps.

Como?

Antes de fazer o seu prximo teste, use-os durante um bocado.

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Vo inibir a sua viso fazendo com que os seus olhos se tenham de esforar para conseguir ver alguma coisa. Por isso, quando for fazer o teste, a sua viso estar 
melhor do que nunca.

Excelente respondi. Apertei-lhe a mo, agradeci e sa. Marcara com o segundo mdico, o Doutor Edward Gale, as dez da manh do dia seguinte.

Entrei no trio do edifcio onde ele tinha o consultrio e sentei-me num banco. Coloquei os culos grossos e aguardei que efectuassem a sua magia.

Trinta minutos antes da minha hora, tirei os culos e entrei na recepo do consultrio do doutor Gale.

Senhor Sheldon, o doutor est  sua espera para lhe fazer o teste disse a enfermeira.

Sorri com ar satisfeito.

Muito obrigado.

Entrei no consultrio e entreguei o carto ao doutor Gale. Este olhou para ele e comentou:

Air Corps? Sente-se.

O mdico escureceu a sala e apareceu um quadro iluminado.

Muito bem. Comece a ler do topo.

Havia um pequeno problema. Eu no conseguia ver uma nica letra no quadro.

Ele continuava  espera.

Pode comear.

Na primeira linha havia qualquer coisa que podia ser um A grande, mas no tinha a certeza. Resolvi arriscar.

A.

Sim, continue.

No conseguia fazer mais nada. Eu estava quase cego.

Eu no consigo...

O mdico olhava fixamente para mim.

Qual  a linha seguinte?

Eu... eu no consigo ler.

Est a brincar comigo? Ele estava zangado. No consegue ler nenhuma daquelas linhas?

No, eu...

E quer voar com o Air Corps? Esquea! Pegou no carto e comeou a escrever.

A minha ltima hiptese tinha acabado de ir por gua abaixo. Comecei a entrar em pnico. E gaguejei:

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Espere pedi. No escreva nada agora. Ele olhou para mim, espantado.

Doutor, o senhor no compreende. H uma semana que no durmo. Tenho tido que tomar conta da minha me. Os meus olhos esto cansados. No tenho andado bem. O meu 
tio preferido acabou de morrer. Tem sido horrvel. Tem que me dar outra oportunidade.

Ele ouvia-me. Mas quando falou, disse:

Lamento muito, mas no vejo como...

S uma oportunidade.

Ele conseguia perceber o desespero na minha voz. Abanou a cabea.

Bom, podemos experimentar amanh. Mas quanto a mim est a perder... 

Oh, muito obrigado! C estarei respondi, e corri de volta ao meu optometrista.

Muito obrigado. Disse eu amargamente. E contei-lhe o que se passara no consultrio do doutor Peters.

Durante quanto tempo  que usou os culos? perguntou.;

Vinte ou trinta minutos.

S os devia ter usado durante dez minutos. Agora  que ele dizia!

Isto  muito importante para mim expliquei-lhe. Tenho de fazer qualquer coisa.

Sentou-se na cadeira por momentos a pensar.

Ele escureceu a sala quando estava a ler o quadro?

Sim.

ptimo.

Dirigiu-se a um armrio e veio de l a segurar um quadro.

Oh, excelente. Eu vou decor-lo e... comecei a dizer.

No pode ser. Quadros diferentes tm letras diferentes.

Ento, para qu...?

O que vai fazer  o seguinte. Pratique neste quadro. Semicerre os olhos para ler as letras. Vai ajud-lo a ver melhor. Faa-o at conseguir ler as letras das ltimas 
linhas. No escuro ele no vai perceber o que est a fazer.

Eu estava cptico.

Tem a certeza que...?

Isto  consigo. Boa sorte.

Passei a noite toda a semicerrar os olhos para conseguir ler as letras todas do quadro. Parecia estar a resultar, mas eu no sabia muito bem como me iria comportar 
perante o doutor Gale.

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s dez da manh do dia seguinte, estava de volta ao consultrio do doutor Gale. Assim que ele me viu, comeou a dizer:

- No sei porque nos estamos a dar a este trabalho. Depois do que aconteceu ontem...

Deixe-me experimentar. Suspirou.

Muito bem.

Voltmos para a mesma sala e ele apagou as luzes.

Ora ento, queira comear.

Eu estava sentado na cadeira e semicerrei os olhos para absorver as letras do quadro. O doutor Peters tinha razo. Conseguia ver as letras claramente. Li tudo, incluindo 
a ltima linha. As luzes acenderam-se.

O doutor Gale olhava fixamente para mim, espantado.

Eu no acredito. Nunca vi uma coisa assim comentou. Falhou algumas letras nas duas ltimas linhas. Tem uma viso de vinte/ vinte e dois. Vamos a ver o que o Air 
Corps diz sobre isto. Assinou o carto e devolveu-mo.

De manh, apresentei-me a um oficial do Exrcito, no edifcio Federal. Ele olhou para o carto e disse:

Vinte/vinte e dois. No  nada mau, mas no lhe podemos dar treino de combate. Para isso precisava de ter uma viso vinte/vinte.

Fiquei chocado.

Quer dizer que eu... eu no vou poder...

Digo-lhe o que pode fazer. J alguma vez ouviu falar no War Training Service?

No, senhor.

 um departamento novo do Army Air Corps. Costumava chamar-se Civil Air Patrol. No War Training Service, ser treinado para levar avies para a Europa ou para ser 
instrutor de voo. Mas no recebe treino de combate. Por acaso, estaria interessado?

Sim, senhor. Afinal seria mesmo um piloto do Air Corps.

Como no vai pertencer ao corpo normal do Air Corps, o uniforme ter de ser pago do seu bolso. Recebe um pagamento igual ao de um cadete e -lhe dado um stio para 
viver. Acha bem?

Sim, senhor.

O treino de voo ser feito em Richfield, no Utah. Ter de se apresentar de segunda-feira a uma semana.

Nunca me sentira to excitado.

Natalie veio  cidade com o marido e eu e Richard tivemos finalmente a possibilidade de conhecer Marty. Era baixo, forte, com cabelo

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grisalho e um rosto simptico. Gostei imediatamente dele. Jantmos todos e eu informei-os das novidades.

Ento, vais precisar de um uniforme observou Marty. Muito bem, sendo assim vamos s compras.

No precisa de...

Eu sei que no preciso, mas fao questo.

Como no havia regulamento a respeito dos nossos uniformes, Marty levou-me a um armazm do Exrcito e da Marinha e comprou-me um lindssimo e muito bem cortado uniforme 
de oficial e um casaco de aviador em couro. Eu comprei um leno branco para pr ao pescoo, de forma a ficar o mais parecido possvel com um s da aviao.

Estava pronto para ajudar a Amrica a ganhar a guerra.

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CAPTULO 12

Richfield, no Utah, era uma pequena cidade com uma populao de seis mil e quinhentos habitantes, rodeada pelas montanhas Monroe. Na rua principal havia um agradvel 
hotel. De acordo com as instrues, ns, os cadetes, instalmo-nos nos nossos quartos e em seguida voltmos ao trio. ramos catorze ao todo. Estvamos no trio 
h uns trinta minutos quando um homem alto, de cara rugosa e em uniforme entrou. Observou-nos.

J esto todos instalados?

Sim, senhor respondemos em coro:

Muito bem. Sou o capito Anderson, o vosso instrutor chefe. O hotel fica a quinze minutos do aeroporto. Todas as manhs um autocarro vem-vos buscar s seis em ponto. 
Durmam bem. Vo precisar. E foi-se embora.

Na manh seguinte, um autocarro do Exrcito veio-nos buscar e levou-nos at ao campo de aviao. Era muito mais pequeno do que estava  espera.

O capito Anderson aguardava-nos.

Sigam-me ordenou.

Dirigiu-se a um edifcio perto e ns seguimo-lo e entrmos. O edifcio fora transformado numa escola, os quartos em salas de aula. Quando nos sentmos, o capito 
Anderson comeou a falar: Vocs vo embarcar num curso de voo de seis meses. Fez uma pausa. Mas, como estamos em guerra, vamos ter de o fazer em trs. Tero aulas 
de leitura de mapas, aerodinmica, meteorologia, navegao, planeamento de voos de navegao de longa distncia e teoria mecnica. Vo aprender cdigo Morse e a 
dobrarem e arrumarem os vossos pra-quedas. Cada aula ter um instrutor diferente. Dvidas?

No, senhor.

A nossa primeira aula foi de aerodinmica. Durou uma hora. Quando acabou, o instrutor disse:

Vou dar-vos os vossos manuais de aerodinmica. Quero que

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respondam s perguntas de cada CAPTULO, da um  vinte. Esse  o vosso trabalho de casa. Amanh tragam-me as respostas. Podem sair.

Folheei o manual. Depois de cada CAPTULO havia longas perguntas Pelos vistos, ia ficar acordado at bem tarde.

A aula seguinte foi de navegao. Uma hora mais tarde, quando a aula terminou, o instrutor disse:

Levem os vossos manuais e trabalhem as pginas um a cinquenta. Respondam a todas as perguntas.

Olhmos uns para os outros. Comeava a ser uma carga bem pesada.

A terceira aula foi de teoria mecnica. Era muito tcnica e tirei imensos apontamentos. Quando a aula finalmente acabou, o instrutor disse:

O vosso trabalho de casa  ler o texto e responder s perguntas da pgina um at  pgina cento e vinte.

Por pouco no desatei a rir s gargalhadas. No havia hiptese de conseguirmos lidar com esta montanha de trabalhos de casa e ainda nem tnhamos chegado ao fim das 
aulas do dia. A ltima que tivemos foi de dobragem de pra-quedas, uma tarefa complicada e aborrecida, difcil de aprender no final de um longo dia.

Comevamos a perceber o que o capito Anderson queria dizer com " um curso de seis meses, mas vamos ter de o fazer em trs". Imagino que todos os cadetes ficaram 
acordados at s quatro ou cinco da manh a tentar fazer o trabalho de casa.

Todos os dias a rotina era a mesma. Acabvamos as aulas e amos para o campo de aviao para conhecer os nossos avies. Eu ia voar Piper Cubs, avies a hlice, com 
o instrutor e o aluno sentados lado a lado.

Todos estvamos ali porque queramos aprender a voar, mas o trabalho de casa tornou-se de tal forma pesado, mantendo-nos acordados at s trs ou quatro da manh 
todas as noites, que todos ansivamos que os voos fossem adiados, de forma a conseguirmos terminar o nosso trabalho.

Eu ficara com o capito Anderson. Este observou enquanto eu, dobrava o meu pra-quedas para o meu primeiro voo e o punha s costas. Subimos para o avio.

Observa tudo o que fao avisou.

Observei enquanto ele descolava com toda a facilidade.

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- H duas coisas muito importantes que tens sempre de ter em
conta. A primeira  girar. Mantm sempre a cabea a girar, a olhar em redor para veres se h outros avies perto de ti. A segunda  teres a velocidade coordenada 
com a altitude, para nunca correres
o risco de te despenhares.

Enquanto subamos cada vez mais, fui vendo que o campo de aviao estava completamente rodeado por montanhas. Assim que chegmos aos sete mil e quinhentos ps de 
altitude, o capito Anderson disse:

Agora vamos fazer uns parafusos.

E o avio comeou a descer em crculos rpidos. Foi nessa altura que soube que tinha um problema. Enjoei e vomitei.

O capito Anderson olhou para mim repugnado. Eu estava corado de vergonha.

No dia seguinte fizemos outros exerccios e vomitei outra vez.

Quando aterrmos, o capito Anderson perguntou:

Tomaste pequeno-almoo esta manh?

Sim, senhor.

De hoje em diante nunca mais comes nada at  hora de almoo. Isso significava que no podia comer nada entre o jantar da vspera e a uma e meia da tarde seguinte.

Na primeira vez que o capito Anderson me passou os comandos, todos os enjoos me passaram imediatamente. Da em diante, sempre que eu pilotava o avio, sentia-me 
maravilhosamente bem, concentrado naquilo que estava a fazer.

Todas as semanas telefonava a Richard e a Natalie e Marty, para que soubessem que eu estava bem. Tudo me parecia bem e afiancei-lhes que ia ser o grande s da Segunda 
Grande Guerra.

Um dia, Richard telefonou:

Tenho notcias para ti, Sidney. Acabei de me alistar.

Por um instante, o meu corao parou. Ele era demasiado novo para... e de repente percebi que ele j no era um rapazinho.

Richard, estou orgulhoso de ti respondi.

Uma semana mais tarde, ele estava a caminho da caserna.

Era vulgar, durante o treino de voo, o capito Anderson desligar a ignio, sem qualquer pr aviso.

O teu motor foi-se, Sidney. Faz uma aterragem de emergncia.

Olhei para baixo. No havia onde aterrar. Mas percebi pela expresso dele que no era isso que queria ouvir. Fui perdendo altitude aos POUCOS, at que avistei um 
lugar aceitvel para aterrar.

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Quando me preparava para o fazer, o capito ligou a ignio:

Est bom. Agora sobe.

Um dia, o capito Anderson disse:

Sheldon, ests pronto para voar sozinho. Fiquei muito excitado.

Assegura-te sempre que a altitude e a velocidade esto coordenadas.

Anu, apertei o pra-quedas e entrei pela primeira vez sozinho no avio. Os outros grupos de voo observavam. Comecei a taxiar pela

pista e, momentos mais tarde, estava no ar. Foi uma sensao fantstica,
uma sensao de liberdade. Como se tivesse quebrado os laos com a terra e mergulhado num mundo novo. Uma sensao de no enjoado.

Atingi a altitude padro de sessenta e um mil ps e dei incio s minhas manobras de rotina.

Recebera ordens para me manter no ar durante pelo menos vinte minutos. Olhei para o relgio. Estava na altura de mostrar aos que estavam l em baixo o que era uma 
aterragem perfeita. Empurrei a manete de comando para a frente e iniciei a descida. Via os homens l em baixo, no campo de aviao,  minha espera.

As regras de aterragem so rgidas e as velocidades para determinadas altitudes foram-nos enfiadas na cabea. Enquanto me aproximava do cho, olhei para o altmetro 
e de repente percebi que no me lembrava a que velocidade devia estar. A verdade  que tudo o que aprendera sobre voar desaparecera completamente da minha cabea.

Em pnico, puxei de novo a manete para ganhar altitude e evitar esmagar-me no cho. Freneticamente, tentei lembrar-me da frmula para altitude e velocidade, mas 
o meu crebro estava vazio. Se cometesse um erro na aterragem, despenhar-me-ia e morreria. Voei em crculos, a tremer, enquanto tentava recordar o que devia fazer. 
Pensei em saltar de pra-quedas, mas sabia que o Air Corps no se podia dar ao luxo de perder um avio. E a verdade  que no podia ficar l em cima para sempre. 
Ia chegar uma altura em que tinha mesmo que aterrar.

Reiniciei a minha descida, tentando em vo lembrar-me de qual devia ser a minha velocidade  aproximao da pista. Desci at os mil ps a uma velocidade de cinquenta 
milhas por hora... Ser que estava com velocidade a mais? Voei por trs vezes em crculos sobre o campo, aproximando-me aos poucos do cho. Cinquenta milhas por 
hora, velocidade a mais, velocidade a menos? Respirei fundo e concentrei-me.

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O avio tocou na pista, saltou, tocou na pista de novo, saltou outra vez e por fim ficou no cho enquanto eu puxava a manete e atacava os traves. Quando sa c 
para fora, todo eu tremia.

O capito Anderson, que ia a caminho da cidade, assim que se apercebeu do que se estava a passar, parou e voltou a toda velocidade para o campo de aviao. Chegou 
junto de mim a correr.

Que raio  que te passou pela cabea? exigiu saber. Eu suava por todos os poros.

Eu... eu no sei... Da prxima vez ser...

Qual prxima vez! J! Fiquei perplexo. -J?

Isso mesmo. Entra outra vez naquele avio e leva-o j l para cima.

Achei que estava a brincar.

Estou  espera!

Ento, era mesmo verdade. Eu conhecia o ditado "Se cares de um cavalo, tens de voltar a montar logo de seguida." O capito Anderson, pelos vistos, pensava o mesmo 
no que dizia respeito aos avies. Estava a mandar-me para uma morte certa. Olhei-o nos olhos e optei por no argumentar. Voltei para o avio, sentei-me e tentei 
controlar a minha respirao. Se eu morresse, a culpa seria toda dele.

Todos olhavam enquanto eu taxiava pela pista.

Estava de novo no ar. Tentei relaxar e concentrar-me e lembrar-me de tudo o que me tinham ensinado sobre altitude, velocidade e ngulos de voo. Graas a Deus, de 
repente, a minha mente clareou. Fiquei l em cima mais uns quinze minutos e, desta vez, eu estava pronto. Fiz uma aterragem quase perfeita.

Quando saa apressadamente do avio, o capito Anderson rosnou:

Isso mesmo. Assim est melhor. Amanh repetes.

O resto do meu treino de voo decorreu sem incidentes, excepto num dia memorvel, perto do final do curso.

Nessa manh, quando me preparava para levantar voo, o capito Anderson disse.

Sheldon, recebemos informao de que se aproxima uma grande tempestade. Mantm-te atento. Assim que a vires aproximar, aterra imediatamente.

Sim, senhor.

105
Descolei, atingi a minha altitude e comecei a descrever crculos em redor das montanhas, fazendo os meus parafusos e as minhas perdas. Aproxima-se uma grande tempestade... 
Assim que a vires aproximar, aterra imediatamente...

E se eu fosse apanhado por ela e no conseguisse ver um stio para aterrar? Imaginei os cabealhos "Piloto apanhado numa tempestade".

As notcias sairiam na rdio e na televiso. O mundo suspenderia a respirao enquanto aguardava para saber se o jovem cadete se conseguia safar ou no. O campo 
de aviao l em baixo estaria cheio de ambulncias e de equipamento de bombeiros. Fiquei completamente embrenhado nestes pensamentos, a deleitar-me com a minha 
coragem perante este enorme desastre, quando de repente me apercebi que tudo escurecera  minha volta. Isso porque o meu avio estava exactamente no meio da tempestade. 
Eu voava s cegas, rodeado por terrveis e sinistras nuvens negras. No s no via a pista de aterragem como no conseguia ver absolutamente nada. A nica coisa 
que sabia era que estava cercado por todos os lados por terrveis picos montanhosos e que a qualquer segundo me arriscava a esmagar-me contra um deles. Perdera todo 
o sentido de orientao. O campo de aviao estava na minha frente? Atrs? Dos lados?

O avio comeou a ser sacudido de um lado para o outro pelo vento. Os cabealhos que imaginara estavam quase a transformar-se em verdadeiros. Num esforo para evitar 
as montanhas que me cercavam, comecei a voar em pequenos crculos, perdendo aos poucos altitude, sacudido de um lado para o outro, a tentar manter-me sempre na mesma 
rea segura. Quando atingi os trinta ps, vi finalmente o campo de aviao. Os outros tripulantes estavam todos l em baixo a observar.

Assim que aterrei, o instrutor chegou furioso junto de mim.

Que diabo se passa contigo? Eu avisei-te para estares atento  tempestade.

Peo desculpa. Sim, senhor. Ela chegou e eu no reparei. Recebi as minhas asas exactamente trs meses depois de ter chegado a Richfield.

O capito Anderson reuniu-nos.

Esto prontos para receber treino de vrios motores, os BT-19 e os DAT-6. Infelizmente, de momento, as escolas de avies mais avanados esto completamente cheias. 
Por isso vo ter de ficar a aguardar. A qualquer momento podem abrir vagas. Enquanto esperam, no precisam de ficar aqui, mas deixem um telefone de contacto com 
o sargento onde possam ser contactados, quer de dia quer de noite.

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"Assim que alguma dessas escolas tenha vagas, entraremos imediatamente em contacto convosco. Boa sorte.

Lembrei-me imediatamente de Ben Roberts. Decidi que enquanto aguardava por uma vaga iria at Nova Iorque. Fiz uma reserva num hotel em Manhattan e dei o nmero de 
telefone ao sargento. Tinha o pressentimento de que no momento exacto em que l chegasse receberia uma mensagem com instrues para regressar.

Despedi-me dos meus companheiros de voo e nessa mesma tarde estava a bordo de um avio para Nova Iorque, ao encontro de Ben.

107


CAPTULO 13

Foi um voo calmo e agradvel. Eu ia sentado num enorme avio comercial cheio de passageiros, no meu uniforme do Air Corps, com as minhas novas asas, e a ficar cada 
vez mais enjoado e com todos os passageiros a olharem para mim. Tenho a impresso de que se me tivesse sido permitido voar em combate a guerra teria sido muito mais 
curta. Mas ns  que tnhamos perdido!

Chegmos a Nova Iorque,  terra do Brill Building, do RKOJefferson e de Max Rich, e as recordaes que entraram em catadupa pareciam pertencer a um outro mundo, 
a uma outra poca.

Ben Roberts estava no aeroporto  minha espera com um enorme abrao. A caminho do hotel, foi-me pondo a par das suas actividades.

Estou destacado em Fort Dix a escrever filmes de treino de guerra explicou. Tu nem acreditas no que so. Num deles passamos dez minutos a mostrar aos recrutas como 
abrir o capo de um carro.  como se estivssemos a escrever para crianas de cinco anos. Quanto tempo vais ficar em Nova Iorque?

Abanei a cabea.

Tanto posso ficar uma hora como uma semana. Mas imagino que ser mais perto de uma hora e expliquei-lhe a minha situao. Estou  espera de um telefonema para me 
mandarem apresentar de volta no Air Corps, e pode ser a qualquer momento.

Chegmos ao hotel onde tinha a reserva e dirigi-me  recepo.

Estou  espera de um telefonema de longa distncia muito importante informei o recepcionista.  mesmo muito importante. Por favor, certifique-se de que o recebo 
imediatamente.

Combinmos jantar no dia seguinte.

Na manh seguinte, liguei para a Califrnia para o meu agente, Louis Schur. Disse-lhe que estava em Nova Iorque e que tinha tempo livre at a abertura de uma vaga 
na escola de voo.

Porque no passas no escritrio e falas com o meu scio, Jules Zeigler? sugeriu. Pode ser que tenha alguma coisa para fazeres, enquanto a estiveres.

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Jules Zeigler, chefe do escritrio de Nova Iorque, era um homem moreno, de uns quarenta anos e com uma energia rpida e nervosa.

O Louie disse-me que vinha c. Anda  procura de algum projecto? perguntou.

Bom, eu...

Tenho uma coisa interessante. J alguma vez ouviu falar em Jan Kiepura?

No. Que ? Alguma espcie de festividade?

Jan Kiepura  uma grande estrela de pera na Europa. Assim como a mulher, a Marta Eggerth. Fizeram inmeros filmes por l. Querem montar um espectculo na Broadway, 
The Merry Widow.

The Merry Widow, uma opereta famosa de Franz Lehr contava a histria de um prncipe de um pequeno reino que corteja uma viva rica para a convencer a manter o dinheiro 
dela no pas dele. Estava sempre em cena algures por todo o mundo.

Pretendem algum que lhes actualize o livro. Est interessado em encontrar-se com eles?

Para qu? Eu no ia sequer ficar em Nova Iorque tempo suficiente para escrever uma carta, quanto mais um espectculo da Broadway.

No creio que...

Bom, pelo menos faa uma coisa. Encontre-se com eles.

Encontrei-me com Jan Kiepura e Marta Eggerth na sua suit no hotel Astor. Quando Kiepura me abriu a porta, olhou para o meu uniforme e ficou intrigado:

 o escritor?

Sou.

Entre.

Jan era um homem forte que rondava os quarenta anos e tinha um forte sotaque hngaro. Marta era magra e atraente, com cabelo em ondas at aos ombros e um sorriso 
acolhedor.

Sente-se pediu Jan. Sentei-me.

Pretendemos fazer The Merry Widow, mas precisa de ser actualizada. Jules diz que  um bom escritor. O que  que j escreveu?

Fly-By-Nigh, South of Panam... e fui nomeando alguns dos filmes de categoria B que fizera com Ben.

Olharam um para o outro com um ar inexpressivo. Jan Kiepura disse:

109
Depois entramos em contacto consigo. Pronto, acabou. E ainda bem.

Trinta minutos mais tarde, estava de volta ao escritrio de Jules Ziegler.

Eles acabaram de ligar. Querem que lhes escreva o espectculo informou.

A nuvem negra desceu sobre mim. No havia qualquer hiptese de eu o fazer. A Broadway era a Meca a que todo o escritor aspirava. O que sabia eu sobre escrever um 
espectculo para a Broadway? Nada, absolutamente nada. Ia fazer figura de parvo e arruinar a produo. De qualquer das maneiras, eu estava  espera a qualquer momento 
do telefonema para regressar ao Air Corps.

Jules Ziegler observava-me.

Sente-se bem?

No tive coragem de lhe explicar que no ia fazer o espectculo.

Claro que sim.

Regressei ao meu quarto no hotel. Teria de inform-los de que no havia forma de o fazer. Mas, enquanto pensava no assunto, ocorreu-me que havia uma maneira. Ben 
Roberts. Ele podia escrever o espectculo por mim. E quando, no meio do projecto, eu fosse chamado pelo Air Corps, ele podia termin-lo.

Liguei-lhe para Fort Dix.

Ento, novidades? perguntou.

J te conto as novidades. Vamos escrever uma verso moderna de TheMerry Widow. Fez-se um silncio.

No sabia que bebias.

Estou a falar a srio. Estive a conversar com as estrelas do espectculo. Eles querem-nos.

Ele ficou sem fala.

No dia seguinte, fui ao teatro onde TheMerry Widowi ia estrear. O espectculo seria produzido pela New Opera Company, encabeada pela Yolanda Mero-Irion, uma mulher 
baixinha, rolia e de meia idade, com uma voz aguda e esganiada.

Era uma produo de primeira categoria. A coreografia estava a cargo do lendrio George Balanchine, um dos mais importantes coregrafos do sculo. Balanchine era 
de estatura mdia com o corpo bem desenvolvido de um bailarino. Tinha um sorriso amigvel e um leve sotaque russo.

O director era o brilhante Felix Brentano e o maestro, Robert Stolz,



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um maravilhoso compositor por direito prprio. A primeira bailarina seria Milada Mladova, uma jovem bailarina europeia absolutamente espantosa.

Tive uma reunio com Balanchine, Stolz e Brentano e discutimos o libreto.

Tem de ser o mais moderno possvel, mas sem perder o sabor de poca pediu o director.

Agradvel e divertido acrescentou Balanchine.

Leve comentou Robert Stolz.

Certo. Moderno, mas mantendo o sabor de poca, agradvel, divertido e leve.

Muito bem.

Eu e Ben tnhamos arranjado uma forma para podermos colaborar. Como ele estava destacado em Fort Dix, na Nova Jrsia, vinha  noite a Nova Iorque, onde jantvamos 
e trabalhvamos at  uma ou duas da manh.

Os meus receios quanto a escrever um espectculo para a Broadway tinham-se evaporado. Trabalhar com Ben fazia com que tudo parecesse fcil. Ele era incrivelmente 
criativo e dava-me a confiana que me faltava.

Quando terminmos de escrever o primeiro acto, levei-o  produtora, Yolanda Mero-Irion. Fiquei a olhar, ansioso, enquanto ela folheava as pginas.

Ela olhou para mim.

Isto  pssimo. Isto  uma porcaria ladrou de forma agressiva. Fiquei sem palavras.

Mas... ns fizemos tudo o que...

Vocs escreveram um desastre! Um desastre! Est-me a ouvir? O tom de voz dela era maldoso.

Peo desculpa. Diga-me, por favor, do que  que no gosta que eu e o Ben voltamos a escrever e...

Ela levantou-se, olhou para mim e foi-se embora.

Eu estava de volta  minha primeira sensao. O que  que me passara pela cabea para pensar que era capaz de escrever um espectculo para a Broadway?

Enquanto ali estava sentado a contemplar o desastre que estava eminente, George Balanchine e Felix Brentano entraram no escritrio.

Ouvi dizer que j tem o primeiro acto. Acenei lugubremente que sim.

 verdade.

Vamos l dar uma olhadela a isso.

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Senti-me tentado a no os deixar ver nada.

Claro.

Comearam a ler e eu s desejava estar longe dali, bem longe. Ouvi uma risada. Viera de Felix Brentano. E em seguida uma gargalhada. Fora o Balanchine. Estavam os 
dois a sorrir enquanto liam. Estavam a gostar! Quando terminaram, Felix Brentano virou-se para mim:

Est ptimo, Sidney.  exactamente aquilo que precisvamos. George Balanchine apoiou:

Se o segundo acto for to bom quanto este... Mal podia esperar para dar as novidades a Ben.

No hotel, mantive-me sempre perto do telefone  espera de um telefonema do Air Corps e quando andava por fora deixava sempre instrues de onde podia ser contactado.

Para os solteiros, Nova Iorque pode ser uma cidade muito solitria. Tivera algumas conversas casuais com a nossa primeira bailarina, Milada Mladova, e dvamo-nos 
bem. Um domingo em que no havia ensaio, convidei-a para jantar e ela aceitou.

Queria impression-la, por isso levei-a ao Sardi's, o restaurante favorito dos do mundo do espectculo. Eu continuava fardado.

Durante o jantar discutimos o espectculo e ela confidenciou-me como se sentia excitada por tomar parte nele.

Por fim, o jantar terminou. Pedi a conta. Eram trinta e cinco dlares. Um preo aceitvel. O problema  que eu no tinha trinta e cinco dlares. Fiquei a olhar para 
a conta durante o que me pareceu uma eternidade. Na poca ainda no havia cartes de crdito.

Passa-se alguma coisa? perguntou Milada.

No respondi apressadamente, e tomei uma deciso. J venho.

Levantei-me e dirigi-me  entrada onde Vincent Sardi, o proprietrio se encontrava.

Senhor Sardi...

Sim?

Aquilo ia ser complicado. Vincent Sardi no criara o seu negcio a dar de comer a tesos.

 sobre a minha conta... comecei a dizer nervosamente. Ele olhava para mim, a estudar-me. Ele sabe reconhecer um teso quando o v.

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Passa-se alguma coisa de errado com a sua conta?

No. Est tudo bem. O problema  que...  que... eu no tenho o dinheiro. Perguntei-me se Milada estaria a observar. Rapidamente, acrescentei: Senhor Sardi, eu sou 
o escritor da pea que vai estrear no Majestic Theatre, do outro lado da rua. Mas ainda no estreou. De momento... eu no tenho dinheiro que chegue... ser que pode 
confiar em mim at a pea estrear?

Ele anuiu.

Claro. No h qualquer problema. E quero que saiba que ser sempre bem vindo aqui, em qualquer altura.

Fiquei muito mais aliviado.

Muito obrigado.

No tem de qu.

Estendeu-me a mo. Vinha acompanhada por uma nota de cinquenta dlares.

Yolanda, a nossa produtora, odiava tudo o que eu e Ben escrevamos. Tinha mesmo a impresso que ela odiava tudo mesmo antes de ler.

O espectculo vai ser um fiasco. Vai ser um fiasco no parava de dizer.

Eu s rezava para que ela no fosse adivinha.

Por seu lado, George Balanchine, Felix Brentano e Robert Stolz adoravam o que escrevamos.

Durante os ensaios, Yolanda saltitava pelo palco como um enorme gafanhoto, a ladrar ordens a toda a gente. Os profissionais estavam demasiado ocupados para se incomodarem.

Um dia, durante um intervalo a meio do ensaio, Balanchine aproximou-se:

Gostava de falar consigo.

Com certeza. Passa-se alguma coisa, George?

No. Um amigo meu, Vinton Freedley, est a produzir uma pea nova. Anda  procura de um escritor. Falei-lhe em si e ele disse que gostava muito de o conhecer.

Obrigado. Tenho muito gosto em conhec-lo respondi, grato. Balanchine olhou para o relgio.

Para falar a verdade, voc tem um encontro com ele  uma da tarde.

Dois espectculos na Broadway ao mesmo tempo? Inacreditvel.

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Vinton Freedley era um dos produtores mais importantes da Broadway. Entre os seus crditos contava-se Funny Face, Grel Crazy e pelo menos mais meia dzia de xitos. 
Freedley era um produtor eficiente, um homem de negcios que ia direito ao assunto.

O George diz-me que o senhor  bom.

Esforo-me por isso.

Vou fazer um espectculo chamado Jackpot.  sobre uma jovem que faz rifas de si prpria para conseguir angariar fundos para o esforo de guerra, e a rifa vencedora 
pertence a trs soldados.

Parece divertido comentei.

J tenho um escritor, Guy Bolton, mas ele  ingls e acho que precisa de um americano a trabalhar com ele. Quer o lugar?

Claro que sim e acrescentei: A propsito, eu tenho um colaborador que se chama Ben Roberts. Ele vai trabalhar comigo.

Freedley concordou.

Por mim, no tem problema. A msica est a ser escrita por Vernon Duke e Howard Dietz.

Dois grandes nomes da Broadway.

E quando  que podem comear? perguntou Vinton Freedley.

Imediatamente.

Tentei parecer convincente, mas na minha cabea estava sempre a lembrana de que o telefonema podia chegar a qualquer momento que eu teria de me apresentar para 
o meu treino de voo avanado.

Freedley falava:

J comemos a fazer os testes. At este momento temos Allan Jones e Nanette Fabray. Deixe-me mostrar-lhe o cenrio.

Achei estranho o cenrio ter sido construdo antes da pea estar escrita. Freedley levou-me at ao Alvin Theatre e entrmos.

No palco havia uma enorme casa sulista toda branca com uma vedao de tbuas.

Olhei para ele, confuso:

Tinha-me dito que o espectculo era sobre soldados americanos que ganham uma jovem numa...

Este  o cenrio da minha ltima pea explicou. O espectculo foi um fiasco, por isso estamos a usar o cenrio para esta. Vou poupar uma data de massa.

Interroguei-me como  que amos conseguir enfiar uma manso gtica sulista numa histria de guerra actual.

Voltemos para o gabinete. Quero apresentar-lhe Guy.

Guy Bolton revelou-se um simptico ingls com uns cinquenta anos, e escrevera vrias peas com P.G. Woodhouse, o cone britnico.

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Eu receava que ele no gostasse de ter outro escritor metido na sua pea, mas respondeu-me logo:

Fico encantado por irmos trabalhar juntos. Sabia que nos amos dar bem.

Quando voltei para o hotel, perguntei na recepo se havia alguma mensagem e sustive a respirao enquanto o empregado procurava.

No h nada, senhor Sheldon.

ptimo. Ainda no havia vagas em nenhuma escola mais avanada.

Corri para o quarto e telefonei a Ben, em Fort Dix.

Vamos escrever um musical para o Vinton Freedleyinformei.

Fez-se um longo silncio.

J no estamos na Merry Widm

No  isso. Ns vamos fazer a Merry Widow  a pea do Freedley.

Meu Deus. Como  que conseguiste isso?

No fui eu. Foi Balanchine. Vamos trabalhar com um escritor ingls chamado Guy Bolton.

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CAPTULO 14

Eu andava atarefado e contente, mas continuava  espera daquele to importante telefonema.

Nas trs semanas seguintes, passei as manhs a trabalhar na Merry Widow, as tardes a trabalhar nojackpot e  noite trabalhava com Ben nos dois espectculos. Comeava 
a sentir-me cansado. Decidi que precisava de relaxar.

Um domingo, fui ao USO, um centro de divertimento em Nova Iorque destinado aos soldados de licena. Havia msica, lindas mulheres, dana e comida. Era um osis da 
guerra.

Uma bonita hospedeira aproximou-se:

Quer danar, soldado? Se queria e de que maneira.

Assim que comemos a danar, senti uma mo a bater-me no ombro. Resmunguei:

Ei! Ainda agora comemos! Espere um pouco... e virei-me. Na minha frente estavam dois enormes PMs.

Soldado, est preso. Acompanhe-nos, Preso?

Qual  o problema?

Fazer-se passar por oficial.

Do que  que esto a falar?

Tem vestida uma farda de oficial. Onde est a sua insgnia?

No tenho. Eu no sou oficial.

 por isso mesmo que est preso. Acompanhe-nos. E cada um deles segurou-me num brao.

Esperem l. Vocs esto a cometer um erro enorme. Eu estou autorizado a usar isto.

E quem foi que lhe deu autorizao? A sua me? E comearam a arrastar-me pela pista de dana.

Eu estava em pnico.

No esto a perceber. Eu perteno a um ramo especial do Air Corps. E...

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Pois.

Continuei a falar enquanto me arrastavam em direco  porta.

Estou a falar a srio. No ouviram falar de uma diviso do Exrcito chamada War Training Service?

No.

Samos. Na curva estava parado um carro oficial.

Entra. Finquei os ps.

No entro nada. Vocs tm de fazer um telefonema. Estou-vos a dizer que estou no Army Air Corps, numa diviso que se chama War Trainig Service, e ns estamos autorizados 
a usar aquilo que muito bem entendermos.

Os dois PMs olharam um para o outro.

Eu acho que  maluco, mas est bem. Vou fazer o tal telefonema. A quem devo ligar? perguntou um deles.

Dei-lhe o nmero. Virou-se para o companheiro.

Tu ficas aqui com ele. Vamos acus-lo de "resistir  ordem de priso". J volto.

Vinte minutos mais tarde, o PM regressou, com ar espantado.

O que aconteceu? perguntou o outro PM.

Falei com um general e levei um raspanete por no saber da existncia de uma diviso chamada War Training Service.

Queres dizer que existe mesmo e que  legal?

Se  legal, no sei, s sei que  real.  uma diviso do Army Air Corps.

O outro PM soltou-me o brao.

Desculpe. Parece que nos enganmos. Acenei com a cabea.

No faz mal.

Voltei para dentro. A minha hospedeira danava com outro.

Era um prazer trabalhar com Guy Bolton. Escrevera muitas peas de sucesso e conhecia bem o teatro. Falava com expresses tipicamente inglesas e o nosso papel era 
passar o que ele dizia para frases americanas. Lembrei-me da frase de George Bernard Shaw "Os americanos e os ingleses encontram-se divididos por uma lngua comum.
Guy alugara uma casa maravilhosa em Long Island e, nos fins de semana, eu e Ben trabalhvamos l com ele. Era uma pessoa socivel e tinha um grupo interessante de 
amigos.

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Uma noite, numjantar, fiquei sentado ao lado da mais bela mulher que alguma vez vira na vida.

O Guy disse-me que vocs os trs esto a escrever um musical para a Broadway disse ela.

-  verdade.

Isso  muito interessante.

O que  que faz? perguntei.

Sou actriz.

Desculpe, mas no fixei o seu nome.

Chamo-me Wendy Barrie.

Wendy era britnica e fizera meia dzia de filmes em Inglaterra. Tinha como padrinho J. M. Barrie, que usara o nome dela no Peter Pan. Achei-a fascinante, mas ela 
parecia preocupada.

Quando o jantar terminou, perguntei-lhe:

Sente-se bem? Abanou a cabea.

Vamos dar uma volta.

Samos e comemos a andar ao longo de um caminho de seixos iluminado pela lua. Enquanto passevamos, ela comeou a chorar, de repente.

Estaquei.

Que se passa?

Nada... Tudo... No sei o que fazer.

Mas, o que  que se passa?

-  o meu... o meu namorado. Ele... ele bate-me. Mal conseguia articular as palavras.

Fiquei indignado.

Porque no o deixa? Ningum tem o direito de se comportar dessa maneira. Porque no o deixa? perguntei.

Eu... eu... eu no sei...  difcil... e comeou a soluar. Pus o brao em volta dela.

Wendy, oua. Se ele lhe bate agora, pode ter a certeza que isso s vai piorar. Deixe-o, antes que seja tarde de mais.

Eu sei que tem razo respondeu, e respirou fundo. Eu vou deix-lo.

Isso mesmo.

J estou melhor. Muito obrigada.

No tem de qu. Vive em Nova Iorque?

Sim.

Tem alguma coisa para fazer amanh  noite?

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Olhou para mim e respondeu:

No.

Ento, vamos jantar.

Com muito gosto.

Na noite seguinte, eu e Wendy Barriejantmos no Sardi's e sentimos grande prazer na companhia um do outro. Samos juntos durante as duas semanas seguintes.

Uma sexta-feira de manh, recebi um telefonema.

Sidney?

Sim.

Gosta de viver?

Muito, porqu?

Se gosta, deixe de sair com a Wendy Barrie.

O que  que quer dizer com isso?

Por acaso sabe quem  que lhe paga a renda da casa?

No. Ns nunca... ela nunca me disse.

Bugsy Siegel.

O assassino da Mfia.

Nunca mais sa com Wendy Barrie.

L

Conheci as nossas duas estrelas dojackpot, Allan Jones e Nanette Fabray. Allan Jones era o atraente gal do cinema, com quase um metro e oitenta, um fsico poderoso 
e sorriso perverso. Cantava com uma voz maravilhosa e era um cone na gravao. Nanette Fabray era encantadora. Tinha vinte e poucos anos, um corpo maravilhoso, 
uma personalidade optimista e era uma actriz nata, perfeita para o papel.

Eu sentia que o espectculo ia ser um sucesso.

Um dia, depois do ensaio, Roy Hargrave, o director de jackpot, disse:

Rapazes, vocs esto a fazer um excelente trabalho com o argumento.

Lembrei-me logo da Yolanda Mero-Irion. Um fiasco.

Obrigado, Roy.

Tenho um amigo que est a produzir um musical e anda  procura de um escritor. Falei-lhe em vocs. Esto interessados em ter um encontro com ele?

Impossvel. Eu e Ben j estvamos a escrever dois espectculos e eu ia ser chamado para o Air Corps no tardava nada.

Temos muito gosto.

Chama-se Richard Kollmar e  casado com a Dorothy Kilgallen.

119
Eu costumava ler a famosa coluna que ela tinha no jornal. Ela e o Kollmar constituam um casal poderoso no mundo do espectculo da Broadway.

Vou telefonar-lhe e marcar um encontro entre vocs. Roy Hargrave fez um telefonema e, quando terminou, disse:

Amanh de manh s dez.

Richard Kollmar tinha produzido, dirigido e entrado em vrios musicais de sucesso da Broadway e ainda s tinha trinta e poucos anos. Era magro, entusistico e simptico.

O Roy disse-me que voc  mesmo um bom escritor. Eu vou fazer um musical de fantasia, uma produo com belos cenrios e guarda-roupa.  sobre uma escritora de telenovelas 
que adormece e sonha que  Xerazade e que tem de contar continuamente histrias ao sulto para no morrer.

Parece interessante. E quem faz o papel de Xerazade?

Vera Zorina.

A bailarina mundialmente famosa que se transformara em estrela da Broadway e que, por acaso, era casada com George Balanchine.

O Ronald Graham contracena com ela. Quer escrever a pea com a Dorothy?

Gostava muito. A propsito, eu tenho um colaborador. Ele acenou com a cabea.

Eu sei, Ben Roberts. Quando podem comear?

-J

Eu e Ben teramos tempo para dormir depois da guerra.

Telefonei-lhe assim que cheguei ao hotel.

Estamos a escrever um musical para Richard Kollmar, chamado Dream with Music.

Espera l! interrompeu Porque  que os outros j no nos querem?

Mas eles querem-nos. Continuamos a faz-los.

Estamos a escrever trs espectculos para a Broadway ao mesmo tempo?

No  o que toda a gente faz?

Eu continuava a usar a minha farda, sempre  espera do telefonema a chamar-me para me apresentar na escola de treino de voo avanado. Mas agora andava to ocupado 
a escrever os trs espectculos que s pedia para que ele no chegasse nessa altura. S precisava de dois ou trs meses.

Os deuses deviam estar a rir.

120
Duas horas depois de me encontrar com Richard Kollmar e aceitar a tarefa, o telefonema chegou.

Sidney Sheldon?

Sim.

Fala o Major Baker. Tem instrues para se apresentar amanh de manh s 09:00, ao capito Burns, no quartel general do Exrcito, no Bronx.

O corao caiu-me aos ps. O momento no podia ser pior. Abandonvamos trs espectculos. Ben s estava livre  noite e eu estaria no estrangeiro, algures.

O capito Burns era um homem alto, careca, que usava um uniforme cuidadosamente engomado. Ergueu os olhos assim que entrei no gabinete.

Sheldon?

Sim, senhor.

Sente-se.

Sentei-me. Estudou-me por momentos. Terminou o treino de voo bsico?

Sim, senhor.

Deitou uma olhadela a um papel que tinha sobre a secretria.

E inscreveu-se para entrar numa escola secundria de voo?

Sim, senhor.

Esses planos foram alterados. Fiquei intrigado.

Alterados?

Sim, a guerra sofreu uma evoluo. Passmos  ofensiva. Agora vamos atrs dos filhos da me. O que precisamos  de pilotos de combate. O senhor no est habilitado 
para isso devido aos seus problemas de viso. Temos instrues para licenciar todos os que pertencem  unidade do War Training Service.

Levei algum tempo a digerir.

O que significa...?

Todos os voluntrios no WTS tm agora a possibilidade de escolher. Pode apresentar-se a uma unidade de infantaria como soldado no Exrcito, ou podemos passar o seu 
nome para a seco de recrutamento.

A escolha de Hobson. Mas eu precisava do tempo. O mais natural  que a seco de recrutamento levasse pelo menos um ms a processar

121
os meus papis antes de me mandarem para fora, e eu poderia usar esse tempo para trabalhar nos espectculos.

Prefiro a seco de recrutamento, senhor. Ele tomou nota.

Muito bem. Entraro em contacto consigo.

No tinha qualquer dvida. A questo era: quando? Quanto tempo teria para trabalhar com Ben, Guy e Dorothy, para pr os espectculos a andar? Sabia que num ms podamos 
fazer muito, se trabalhssemos sete dias por semana. Se ao menos o Exrcito me desse um ms...

Quando regressei ao hotel, liguei imediatamente a Ben.

Hoje  noite vamos trabalhar at muito tarde.

O que foi que aconteceu?

Quando chegares, eu conto-te.

Acabmos por trabalhar at s trs da manh, hora a que Ben cambaleou finalmente para fora do meu quarto de hotel e regressou a Fort Dix.

Ficara to consternado com as notcias como eu. Tentei acalm-lo.

No te preocupes. O recrutamento trabalha devagar. Durante os trs dias seguintes, trabalhei febrilmente, indo de teatro em teatro, trabalhando contra o momento 
em que ia receber o telefonema para me apresentar.

No quarto dia, quando regressava ao hotel, o recepcionista entregou-me uma carta. Comeava com um Saudaes.

O corao caiu-me aos ps. Tinha de me apresentar no dia seguinte na seco de recrutamento do Bronx. A minha carreira como escritor terminara mesmo antes de comear. 
Eu desertava de trs espectculos que contavam comigo e ia para fora enfrentar uma morte provvel. Mas, de repente, senti-me invadido por uma estranha sensao de 
jbilo.

Eu sabia que as minhas emoes estavam completamente descontroladas. No fazia a mnima ideia de qual era o meu problema. Olhei para a idiota cara de felicidade 
que via reflectida no espelho e desatei a chorar.

s nove em ponto da manh seguinte, apresentei-me para o meu exame mdico no quartel general de recrutamento do Exrcito. O exame era igual ao que fizera na Califrnia. 
Terminou em trinta minutos e mandaram-me ir ao gabinete do mdico.

Este estudava uma folha de papel.

122
Segundo o seu relatrio mdico, tem uma hrnia discal.

Sim, senhor. Mas eles sabiam disso quando fiz o meu primeiro exame mdico e...

Ele interrompeu-me.

No o deviam ter aceite. Se sofresse um ataque durante um momento de combate, ia pr em risco no s a sua vida como a de todos  sua volta. Isto no  aceitvel.

Mas...

Vou dar-lhe um 4F. Eu estava sem palavras.

Vou participar ao recrutamento da Califrnia. Est dispensado.

Fiquei sentado por um longo momento, aparvalhado, a tentar perceber o que acabara de acontecer. Em seguida levantei-me para sair.

Quando me dirigia para a porta, o mdico disse:

E dispa esse uniforme. Eu era de novo um civil.

Foi com uma sensao de irrealidade que, nessa tarde, entrei numa loja de roupas e comprei dois fatos, cuecas, camisas e gravatas. Estava pronto para voltar ao meu 
trabalho como dramaturgo.

A 4 de Agosto de 1943, a pea The Meny Widow estreou no Majestic Theatre e acabou por ser uma das mais bem sucedidas reposies que a Broadway alguma vez vira. As 
crticas foram fantsticas.

New York Times: "Uma digna reposio".

Herald Tribune: "D  cidade algo de que se orgulhar e congratular."

Mirror: "Belo, opulento, de bom gosto e afinado."

Do Journal-American: "Uma encantadora, relaxante e hilariante histria de amor."

Walter Winchell "Agosto teve uma estreia retumbante. Reposio de The Meny Widow esgotou."

Howard Barnes, "A nova poca abriu com uma deliciosa reposio. The Merry Widow foi trazida  cena no Majestic com bom gosto, eloquncia de melodias e esplendor."

Frank Sullivan, "Sinto-me feliz de informar que a obra The Merry Widow se libertou do seu p e foi toda ela renovada e modernizada pelas destras mos dos senhores 
Sidney Sheldon e Ben Roberts."

Uma j estava, s faltavam duas.

O espectculo esteve em cena na Broadway durante quase um

123
ano e andou em tourne outros dois. Na noite da estreia, depois do espectculo, toda a companhia foi celebrar ao Sardi's. Vincent Sardi estava de p  porta.

Dirigi-me a ele:

Senhor Sardi, finalmente j lhe posso pagar.

Sorriu:

J me pagou. Fui ver o seu espectculo esta noite.

124
CAPTULO 15

Dorothy Kilgallen era uma mulher criativa com um sentido de humor engraado. Era um prazer colaborar com ela.

Encontrara a fama inicialmente como jornalista criminal e depois como uma poderosa colunista da Broadway e de Hollywood. Mais tarde, regressaria  sua marca registada 
de reportagem de investigao e teve um papel primordial em conseguir um segundojulgamento para o doutor Sam Shepard, cujo caso de assassnio serviu de base para 
a popular srie de televiso O Fugitivo.

Enquanto Dorothy e Ben trabalhavam em Dream with Music, eu e Guy Bolton terminvamos o libreto de jackpot. Vinton Freedley decidira mandar o espectculo em tourne 
antes de estrear na Broadway e acabou por ser uma longa e rentvel experincia. Alm de Allan Jones e Nanette Fabray, o espectculo contava agora com a cooperao 
de Jerry Lester e Betty Garrett.

No dia 13 de Janeiro de 1944, no Alvin Theatre, jackpot estreou na Broadway. A maior parte dos crticos adorou.

Herald Tribune: "Jackpot dana a um compasso gil, uma produo elegante."

Mirror: "Jackpot tem canes que ficam no ouvido e um elenco  altura. Nanette Fabray  encantadora. Jerry Lester e Benny Baker uns hilariantes provocadores".

New York Post. "Mais outro xito da fbrica de Freedley".

Eu e Ben tnhamos outro triunfo. Fomos celebrar ao Sardi's. Faltava um ms para o meu vigsimo stimo aniversrio.

Todos sabamos que o nosso maior xito vinha a.

Desde o princpio que era bvio para todos que Dream with Music estava destinado a ser um gigantesco sucesso. Ao contrrio de Vinton Freedley, Richard Kollmar no 
olhava a despesas para criar uma das produes mais elaboradas que a Broadway alguma vez vira. Stewart

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Chaney concebeu os complicados cenrios, Miles White os maravilhosos fatos de poca. George Balanchine era o coregrafo. A produo inclua um tapete voador, no 
qual Ronald Graham, o nosso protagonista masculino, fazia a entrada em cena. Uma enorme roda giratria circundava o palco e os cenrios incluam um palcio de Bagdade, 
um bazar e uma reserva cheia de cor com animais danantes.

Eu e Ben mantivemos o mesmo horrio de trabalho. Durante o dia, eu escrevia com Dorothy Kilgallen na sua maravilhosa penthouse e  noite, no meu quarto de hotel, 
eu e Ben trabalhvamos sempre que ele conseguia escapar de Fort Dix.

Uma noite em que escrevamos, deixei cair uma caneta e, quando me baixei para a apanhar, o meu disco deslizou e eu ca ao cho em agonia, incapaz de me mexer. Ben 
chamou uma ambulncia e passei os trs dias seguintes no hospital. M altura. Tnhamos muito trabalho pela frente.

Quando sa do hospital, recomemos e terminei o libreto.

Eu, Dorothy e Ben estvamos sentados no teatro a assistir aos ensaios, que eram de cortar a respirao. Sobre o palco, uma imensido de fatos coloridos, cenrios 
maravilhosos e a dana maravilhosa de Vera Zorina.

As cenas romnticas entre Vera Zorina e Ronald Graham, o actor principal, funcionavam bem. Richard Kollmar observou atentamente o ensaio geral e anunciou:

Estamos prontos.

Natalie e Marty vieram a Nova Iorque para a noite de estreia. Sentmo-nos todos na primeira fila, nos lugares destinados  casa. A sala encheu rapidamente. Por uma 
misteriosa qumica, os amantes de teatro sabem sempre quando esto a assistir  estreia de um espectculo que vai ser um sucesso. Um frmito de excitao percorria 
a audincia. Eu e Ben olhmos um para o outro e sorrimos. Trs xitos de uma assentada.

A orquestra atacou a abertura, enchendo a sala com a bela e meldica msica de Clay Warnick e de Edward Eager. O espectculo comeara.

Stewart Chaney conseguira mandar pr um enorme lao de seda rosa do lado de fora do pano de cena.

A abertura terminou e o pano comeou a subir. Sentamos a antecipao na assistncia. A cortina ia a meio quando o lindssimo lao rosa ficou preso numa trave, rasgou-se 
ruidosamente e caiu, desabando

126


no poo da orquestra. A audincia arquejou. O que nenhum de ns naquele momento sabia era que isto era o melhor de tudo o que ia acontecer nessa noite.

Dream with Music era composto por dois actos e treze cenas e a primeira cena abria com uma dzia de maravilhosas jovens afro-americano, nuas da cintura para cima, 
caminhando alegremente pela enorme roda, mas, momentos depois da cena comear, a roda comeou a girar a toda a velocidade e as jovens caam no palco uma a uma. Os 
espectadores olhavam, sem poder acreditar.

E foi s o comeo. As coisas ainda iam piorar.

Vera Zorina, uma das mais aplaudidas bailarinas do mundo, que danara na perfeio durante o ensaio, iniciou o seu bailado e, a meio de um jet, escorregou e caiu, 
espalhando-se ao comprido no meio do palco. Os espectadores olhavam, horrorizados. Eu e Ben afundvamo-nos nos assentos. Mas as desgraas ainda no tinham acabado.

Duas cenas depois, Vera Zorina e Ronald Graham, com os seus lindos fatos de poca, entraram e caminharam at ao meio do palco para executarem a cena de amor, sob 
a suave luz do luar, com o maravilhoso cenrio de um bosque atrs deles. A cena decorria bem e os espectadores ouviam atentamente o que diziam.

De repente, todas as luzes no teatro se apagaram. A audincia e os actores ficaram mergulhados na total escurido. Zorina e Graham permaneceram no meio do palco, 
sem saberem bem o que deviam fazer. Tentaram prosseguir com o dilogo e depois pararam, confusos, interrogando-se se deviam ou no continuar ou se deviam aguardar 
que as luzes voltassem.

Nesse momento, de uma das coxias, surgiu o director de palco, de mangas da camisa arregaadas, com uma lanterna na mo. Correu para o meio do palco e colocou a lanterna 
por cima das cabeas dos dois amantes. Era to incongruente ver o contraste entre os maravilhosos fatos dos actores e o homem em mangas de camisa, que os espectadores 
comearam a rir baixinho. Os actores continuaram corajosamente a cena de amor. De repente, todas as luzes no teatro se acenderam, brilhantes.

Aquela noite foi provavelmente a estreia mais desastrosa de toda a histria da Broadway. No houve comemorao no Sardi's. Natalie, Marty, eu e Ben fomos a um restaurante 
calmo, estoicamente a aguardar as crticas.

Algumas delas tentaram ser simpticas.

"Que fusvel consciencioso no se fundiria sob o peso da responsabilidade de iluminar Dream with Music..."

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"Enrgico e ambicioso. Uma extravagncia...".

"A temporada no tem nenhuma comdia musical to agradvel ao olhar comoDream with Music...".

Mas a maior parte das crticas foram hostis.

"Ela viveu, mas o espectculo morreu..."

"Suficiente para fazer o mais sensato chorar..."

"Bonito, mas terrivelmente aborrecido..."

"Um longo, maravilhoso e carssimo aborrecimento..."

Natalie leu as crticas e comentou:

So mistas.

O espectculo saiu de cena ao fim de quatro semanas. Mas, durante a sua curta vida, Ben e eu tivemos trs espectculos em cena ao mesmo tempo na Broadway.

Pouco depois da sada de cena de Dream with Music, recebi um telefonema muito estranho. Um homem com um forte sotaque hngaro disse:

Fala Ladislaus Bush-Fekete. George Haley sugeriu que entrasse em contacto consigo.

George Haley era um escritor de Hollywood que eu conhecia.

Senhor Bush-Fekete, em que lhe posso ser til?

Gostava de falar consigo. Ser que podemos almoar?

Com certeza.

Assim que desliguei, liguei imediatamente para George Haley.

O que  um Ladislaus Bush-Fekete? perguntei. Riu.

 um dramaturgo hngaro, famoso na Europa. Teve muitos sucessos por l.

E o que  que ele quer de mim?

Tem uma ideia para um espectculo. Veio ter comigo, mas estou cheio de trabalho e lembrei-me de ti. Precisa de algum que fale ingls muito bem. De qualquer das 
maneiras, no perdes nada em falar com ele.

Almomos no meu hotel. Ladislaus Bush-Fekete era um homem afvel, com cerca de um metro e sessenta de altura e que devia pesar pelo menos uns cento e vinte quilos. 
Com ele vinha uma morena com ar simptico e aspecto de matrona.

Marika, a minha mulher.

Apertmos as mos. Quando nos sentmos, Bush-Fekete disse:

128
- Somos dramaturgos. Fizemos muitos trabalhos na Europa.

- Eu sei... Falei com George Haley.

- Eu e Marika temos uma ideia fantstica para uma pea e ficaramos muito felizes se a escrevesse connosco.

- Qual  a ideia? - perguntei, cauteloso.

-  sobre um soldado que volta da guerra para a sua pequena terra natal e para um amor. O problema  que o soldado apaixonou-se por outra pessoa enquanto estava 
na frente de batalha.

No me parecia nada de excitante.

- Lamento, mas no me parece que... - comecei a dizer.

-A peculiaridade  que o soldado que volta para a pequena cidade  uma mulher.

- Ah!

Quanto mais pensava, mais me agradava.

- Ela vai ter de escolher entre o noivo e o soldado que conheceu.

- Est interessado? - perguntou Marika.

- Estou interessado. Mas quero que saiba que tenho um parceiro com quem trabalho.

Ladislaus Bush-Fekete respondeu:

- Tudo bem, mas a parte dele tem de sair da sua. Concordei.

- Com certeza.

Nessa noite telefonei a Ben e contei-lhe o que se passara.

- Lamento muito, mas parece-me que vais ter de trabalhar sem mim. O meu comandante est aborrecido porque passo muito tempo fora do meu posto. De agora em diante, 
estou aqui preso - respondeu.

- Que chatice! Vou sentir a tua falta!

- Eu tambm, companheiro. Boa sorte.

Eu, Laci, como ele me pediu que lhe chamasse, e Marika comemos a trabalhar. O sotaque dela no era muito mau, mas Laci era difcil de compreender. Demos  pea 
o nome de Star in the Window.

Terminmos a pea em quatro meses e o meu agente mostrou-a a uma produtora, a Choate & Elkins, que ficou entusiasmada com a possibilidade de a produzir. O director 
chamava-seJoseph Calleia. Demos incio aos testes. Peggy Conklin, uma excelente actriz da Broadway, ficou com o papel principal. Testmos uma srie de homens, mas 
estvamos com problemas em encontrar um para o papel do actor principal. Um dia, um agente mandou-nos um jovem actor.

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Importa-se de ler? pedi-lhe.

Claro que no.

Dei-lhe cinco pginas do argumento. Ele e Peggy Conklin comearam a ler a cena. Estavam a ler h uns dois minutos quando eu disse ao actor:

Muito obrigado.

O queixo dele subiu e ele respondeu, zangado:

Como queira.

Atirou-me com as pginas e comeou a sair do palco.

Espere! O papel  seu chamei. Ele parou, confuso.

O que disse?

Isso mesmo.

Ele captara imediatamente a essncia da personagem e eu sabia que ia ser perfeito para o papel.

Como  que se chama? perguntei.

Kirk Douglas.

Os ensaios decorriam bem e a Peggy Conklin e o Kirk Douglas revelaram-se a combinao perfeita. Quando os ensaios terminaram, levmos a pea para fora da cidade. 
Washington DC foi a nossa primeira paragem e as crticas justificaram plenamente o nosso entusiasmo.

"Star in the Window brilha no firmamento."

"Peggy Conklin faz de tenente com muito esprito e vivacidade."

"Kirk Douglas  encantador no papel de sargento Steve, sempre seguro de si e nunca perdendo um compasso no seu desempenho."

"A audincia de ontem  noite considerou que Star in the Window  divertida e alegre e concedeu-lhe uma entusistica salva de palmas que no permitia que a cortina 
descesse de vez."

Fiquei encantado. Depois do colapso de Dream with Music seria maravilhoso ter outro xito na Broadway. Antes da estreia em Nova Iorque, os produtores decidiram mudar 
o nome para Alice in Arms.

A pea estreou na Broadway a 31 de Janeiro de 1945. Tudo correu sem sobressaltos. Quando a cortina desceu na noite de estreia, fomos todos ao Sardi's para comemorar 
as crticas. O New York Times foi o primeiro que vimos:

"Uma praga na casa. O dilogo  to denso que no se consegue penetrar".

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Daily News: "Um erro".

Herald Tribune. "Um desastre."

PM: "Incuo, mas frouxo."

E estas eram as crticas mais positivas.

Fechei-me no meu quarto do hotel nos trs dias seguintes, recusando-me a atender o telefone. Lia e revia sistematicamente as crticas, uma vez e outra. "O dilogo 
 to denso que no se consegue penetrar... um desastre... frouxo...".

Os crticos tinham razo. Eu no era suficientemente bom para a Broadway. O meu sucesso devera-se a pura sorte.

Acontecesse o que acontecesse, eu sabia que no podia passar o resto dos meus dias enfiado dentro de um quarto de hotel a sentir pena de mim prprio. Decidi voltar 
para Hollywood. Ia conceber uma ideia original, tentar vend-la e depois escrever o argumento. O problema  que estava sem ideias para histrias. No passado surgiam-me 
com facilidade, mas agora a minha mente estava demasiado preocupada para me conseguir concentrar. Nunca tentara forar uma ideia antes, mas estava desesperado e 
a precisar de um novo projecto.

Na manh seguinte bem cedo, coloquei uma cadeira de espaldar alto e direito no meio do quarto e sentei-me com um grosso bloco de papel e uma caneta na mo, decidido 
a no me levantar dali at ter alguma coisa de que gostasse. Fui pondo de lado ideia atrs de ideia at que, duas horas mais tarde, tive uma que me pareceu passvel 
de ser trabalhada.

Escrevi as linhas gerais e chamei-lhe Suddenly it Spring. Estava pronto para Hollywood.

A caminho de Los Angeles, parei em Chicago para visitar Natalie e Marty.

Ela recebeu-me  porta com um enorme abrao e um beijo.

O meu escritor.

Eu no comentara nada sobre as crticas de Alice in Arms, mas, de alguma forma, ela tinha conhecimento delas. Ela ps o dedo no preciso problema da pea.

Eles nunca lhe deviam ter mudado o nome.

Passei os dias seguintes em Chicago a visitar as minhas tias Fran, Emma e Pauline, que tinha vindo de Denver. Era maravilhoso estar outra vez com elas e ver o orgulho 
que sentiam em mim. At parecia que Dream with Music e Alice in Arms eram os maiores xitos que a Broadway alguma vez vira.

Por fim, chegou o momento de dizer adeus e dei por mim num avio a caminho de Hollywood.

131
Parecia que estivera fora durante uma eternidade, mas s se tinham passado dois anos. Mas tanto acontecera durante esse tempo. Aprendera a voar e fora licenciado 
do Air Corps. Escrevera dois xitos e tivera dois fracassos na Broadway.

Com a guerra ainda a decorrer, o espao habitacional era pouco, mas tive sorte. Uma das actrizes de jackpot tinha um pequeno apartamento em Beverly Hills e concordara 
em mo alugar. O apartamento era em Palm Drive e, quando l cheguei, a porta foi-me aberta por um jovem enrgico. Olhou para a chave que eu tinha na mo.

Ol.

Ol.

Posso ajudar?

Quem  voc?

Chamo-me Bill Orr.

Eu sou Sidney Sheldon. O rosto dele iluminou-se.

Ah! Helen disse-me que vinha a.

Ele abriu a porta e eu entrei. Era um apartamento pequeno e amoroso, mobilado com muito gosto, com um quarto, uma sala de estar pequena, um escritrio e uma kitchenette.

Lamento causar-lhe problemas, mas...

No se preocupe. Eu estava a preparar-me para ir embora. Percebi porqu assim que li o Los Angeles Times da manh seguinte.

Bill Orr estava prestes a casar com a filha de Jack Warner e viria a ser mais tarde o presidente da Warner Television.

A minha paragem seguinte foi na penso da rua Carmen para visitar Gracie. Nada mudara a no ser as caras. Os quartos estavam cheios de novos actores em perspectiva, 
as estrelas de amanh, os futuros realizadores e operadores de cmara, todos eles a aguardarem pelo "telefonema".

Gracie no mudara em nada. Continuava atarefada, a tratar e a cuidar dos seus hspedes, a aconselhar e a encorajar todos os que desistiam e se iam embora.

Recebi um enorme abrao e um "Ouvi dizer que agora s famoso!" Eu no tinha a certeza se era famoso ou infame.

Esforo-me por isso.

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Passmos umas boas horas a falar dos velhos tempos e por fim disse-lhe que tinha que me ir embora. Ia ter com o meu agente.

Fizera um contrato com a Agncia William Morris, uma das maiores agncias de Hollywood, que estava entregue a Sam Weisbord, um agente baixinho e dinmico, com um 
eterno bronzeado que mais tarde fiquei a saber era reforado de vez em quando com algum tempo passado no Hava. Sammy comeara como moo de recados na William Morris 
e, com os anos e muito trabalho, conseguira chegar a presidente.

Apresentou-me a alguns dos outros agentes e a Johnny Hyde, o vice-presidente da agncia.

Tenho ouvido falar de si. Vamos fazer umas coisas interessantes juntos comentou.

Nesse momento, a secretria dele entrou.

Esta  a Dona Holloway.

Era linda, alta e magra, com uns inteligentes olhos cinzentos e um sorriso caloroso. Estendeu-me a mo:

Como est, senhor Sheldon? Estamos felizes por ter vindo trabalhar connosco.

Ia gostar desta agncia.

Escrevi um original que trouxe comigo disse a Sammy e a Johnny Hyde.

ptimo respondeu Sammy. Que acha de comear j a trabalhar?

Acho uma excelente ideia.

Um dos nossos clientes, Eddie Cantor, tem um filme acordado com a RKO. O problema  que ele no consegue apresentar um argumento que receba a aprovao do estdio. 
O contrato termina daqui a trs meses e, se at l no conseguir apresentar nada, o contrato termina. Ele gostava muito que criasse qualquer coisa. Mil dlares por 
semana.

E s chegara a Hollywood h um dia.

Excelente.

Ele quer v-lo hoje  tarde.

No fazia ideia do que me aguardava.

133
CAPTULO 16

Eddie Cantor participara em meia dzia de filmes e era sem sombra de dvida um dos actores mais populares no pas. Entrara na Broadway numa pea de Florenz Siegfeld 
e em Whoopee, e Roman Saudais fizera dele uma estrela do cinema. Tinha o seu prprio programa de rdio,

um enorme sucesso.

Encontrei-o na sua grande e vasta casa de Roxbury, em Beverly Hills. Era um homem baixo e dinmico que estava sempre em movimento. Enquanto falava, andava de um 
lado para o outro. Quando ouvia, andava de um lado para o outro. Achei mesmo que, quando se sentava para almoar, continuava a andar mentalmente de um lado para 
o outro.

Sidney, no sei se lhe explicaram, mas o que se passa  o seguinte. A RKO recusou trs guies que os meus rapazes prepararam.

"Os seus rapazes" eram os seus escritores da rdio.

Estou a ficar sem tempo. Preciso de um argumento que o estdio aceite nos prximos trs meses, seno fico sem contrato. Acha que consegue apresentar uma histria 
de sucesso?

Gostava de tentar.

ptimo. Vai ter de trabalhar  presso para conseguir ter o argumento pronto a tempo. Mas, assim que acabar o primeiro rascunho e o estdio o aprovar, ento ter 
todo o tempo do mundo para polir os dilogos, para os focar, para fazer seja l o que for que queira fazer. Ser todo seu.

Parece-me bem respondi.

Entretanto, estamos com prazo marcado. Vamos ter de trabalhar oito dias por semana.

Pensei na presso que tivera com os espectculos da Broadway.

Estou habituado.

O telefone tocou e ele atendeu.

Fala Eddie Cantor.

E, at hoje, jamais voltei a ouvir um homem a dizer o seu nome com tanto orgulho.

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Comemos a trabalhar. Debatemos uma base de trabalho a partir de uma ideia que eu tinha, que contaria com Eddie e Joan Davis como estrelas. Ele gostou e comecei 
a escrever. Normalmente, escrevia em casa dele, comeando de manh bem cedo e vindo-me embora por volta das sete da tarde, incluindo sbados e domingos.

As noites pertenciam-me e eu podia relaxar. Conheci uma jovem muito atraente que parecia gostar de mim e comemos ajantar juntos. O problema  que ela s se podia 
encontrar comigo de duas em duas noites.

Eu estava cheio de curiosidade.

O que fazes tu nas noites em que no samos? perguntei.

Sidney,  que eu saio com outra pessoa. Gosto muito de ambos e tenho de tomar uma deciso.

Quem seria o outro?

Chama-se Jos Iturbi. E quer casar comigo.

Jos Iturbi era um famoso pianista e maestro que dava concertos por todo o mundo e que fora o artista convidado de vrios musicais na Broadway, da MGM, da Paramount 
e da Fox. No havia forma de eu poder competir com um homem to famoso como Iturbi.

O Jos disse que tu s uma Coca-Cola comentou ela, virando-se para mim.

Pestanejei.

Eu sou o qu?

Uma Coca-Cola. Disse que h milhes como tu e s um como ele.

Nunca mais voltei a v-la.

Trs dias antes do contrato de Eddie Cantor com a RKO expirar, entreguei o meu argumento. Sammy Weisbord enviou-o para a RKO e, no dia seguinte, foi aprovado. Agora 
finalmente podia demorar o tempo que quisesse para polir os dilogos e condensar o texto. Havia vrias coisas que eu queria fazer e que no pudera devido  corrida 
contra o tempo.

Sammy Weisbord chamou-me:

Sidney, lamento ter que to dizer mas foste tirado do filme. No tinha a certeza se percebera bem.

O qu?

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O Cantor vai trazer os seus escritores da rdio para acabarem o texto.

Pensei em todos os longos dias e longos fins de semana que trabalhara. "Vai ter de trabalhar  presso para conseguir ter o argumento pronto a tempo. Mas, assim 
que acabar o primeiro rascunho e o estdio o aprovar, ento ter todo o tempo do mundo para polir os dilogos, para os focar, para fazer seja l o que for que queira 
fazer. Ser todo seu."

Bem-vindo a Hollywood.

No dia 2 de Setembro de 1942, os japoneses renderam-se formalmente. Richard estava a caminho de regresso a casa. Estava ansioso por voltar a v-lo.

Finalmente, na vspera de Natal, o barco dele atracou em So Francisco. Na sua primeira noite em Los Angeles jantmos juntos. Parecia mais magro e fisicamente em 
forma. Eu estava ansioso por ouvir tudo o que se passara com ele. Sabia onde  que andara. Na Nova Guin, Morotai, Leyte, Luzon...

Ento, como foi?

O meu irmo olhou para mim durante um bom bocado.

Por favor, nunca mais falemos nisso.

Tudo bem. Tens ideia do que vais fazer a seguir?

O Marty Leeb ofereceu-me um emprego. Eu vou aceitar. Assim posso passar mais tempo com a me.

Fiquei encantado. Sabia que ele e Marty se iam dar muito bem.

Sam Weisbord ligou no dia seguinte.

Tens duas ofertas para Suddenly it's Sprng.

ptimo. E de quem so? perguntei, excitado.

Uma  de Walter Wanger. Ele produzira muitos filmes conceituados, incluindo Stagecoach, Foreign Correspondente The Long Voyage Home.

E a outra?

De David Selznick.

O meu corao parou. David SelznicK?

Ele gostou muito do teu texto. O Dore Schary vai co-produzir. Wanger oferece quarenta mil dlares. O Selznick oferece trinta e cinco mil e cada uma das ofertas tem 
como condio que sejas tu a escrever o argumento.

Eu no estava preocupado com o dinheiro. A ideia de trabalhar com Selznick era excitante. Alm disso, no fora ele que me iniciara

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no trabalho? Seria bom poder estar de novo com o meu companheiro leitor.

Aceita a oferta do Selznick.

Na manh seguinte, conheci David Selznick e Dore Schary. Selznick era um homem alto, imponente, sentado atrs de uma enorme secretria, num escritrio lindo e muito 
bem decorado. Dore Schary era moreno, magro e visivelmente inteligente. Apertmos as mos.

Sheldon, sente-se. Tenho muito gosto em conhec-lo disse Selznick.

"Pensei que ia poder ver o senhor Selznick!

No. O senhor Selznick  um homem muito ocupado".

Gostei da sua histria.  excelente. Espero que o seu argumento se revele to bom quanto a histria inicial e a base.

Tenho a certeza que sim disse Dore. Selznick observou-me durante uns segundos.

Ouvi dizer que teve uma outra oferta do Wanger. Fico satisfeito por ter aceite a minha. Falei com o seu agente. Pagamos trinta e cinco mil dlares pelo original 
e o argumento.

De repente lembrei-me da secretria de Selznick a entregar-me um envelope. Aqui tem dez dlares.

Comecei a trabalhar na manh seguinte. Deram-me um gabinete nos estdios RKO, onde amos fazer o Suddenly it's Spring. A RKO era um estdio muito importante. Estavam 
a filmar It's a Wonderful Life, The Farmer's Daughtere Dick Tracy. No refeitrio vi James Stewart, Robert Mitchum e Loretta Young, e, como os vira tantas vezes nos 
filmes, pareciam-me velhos amigos. Mas nunca tive coragem para falar com eles.

Eu estava a gostar de escrever o argumento. A histria inclua um playboy, umajovem e a irm desta, umajuza. Quando escrevi a histria base pensei em Cary Grant, 
mas ele estava sempre to ocupado que tinha a certeza que no ia ser possvel t-lo.

Sentia que o argumento estava a sair bem. Conhecia perfeitamente a tendncia de Selznick para contratar escritor atrs de escritor para escrever o mesmo projecto 
e sentia-me lisonjeado por ele no ter tentado substituir-me. Mas um dia deparei com um memorando dele para Dore Schary que dizia:

"Porque no despedimos o Sheldon e arranjamos outro escritor?"

137
Diga-se em abono de Dore que elejamais mo mencionou e aparentemente conseguiu dar a volta ao pedido de Selznick.

A minha disposio continuava irregular. Passava de perodos de exaltao a perodos de prostrao, sem qualquer transio. Uma noite, estava no restaurante Brawn 
Derby e vi um amigo meu acompanhado por uma jovem. Acenou-me.

Sidney, gostava de te apresentar Jane Harding.

Jane era de Nova Iorque. Era divertida e inteligente, e tinha uma incrvel vitalidade. Fiquei imediatamente cativado por ela. Comemos a sair e, ao fim de dois 
meses, estvamos casados.

No havia tempo para uma lua de mel. O estdio comeara os testes para Suddenly it's Spring e Dore insistiu comigo para que eu terminasse rapidamente as minhas alteraes.

Infelizmente, ao fim de um ms, eu e ajane chegamos  concluso de que tnhamos cometido um erro. Os nossos interesses e as nossas personalidades eram completamente 
opostas. Passmos os nove meses seguintes a tentar em vo fazer com que o casamento resultasse. Quando por fim chegmos  concluso que no havia soluo, concordmos 
com o divrcio. A dor foi terrvel. No dia em que nos divorcimos, sa e embebedei-me pela primeira vez na vida.

Se as coisas em casa eram um desastre, no estdio corriam lindamente. Eu conclura o argumento.

David Selznick chamou-me ao seu escritrio.

Mandmos o argumento ao Cary Grant.

Ah! E... o que foi que ele disse?

Selznick fez uma pausa para dar maior dramatismo:

Ficou louco com ele. Vai faz-lo. Fiquei encantado.

Mas isso  fantstico!

Temos tambm Shirley Temple e Myrna Loy Era o elenco perfeito.

O Irving Reis vai ser o realizador e Cary Grant quer conhec-lo.

Cary Grant era sempre a primeira escolha de todos quando se tratava de uma comdia. No havia segunda escolha. Se no se conseguia t-lo, o nvel descia vrios pontos.

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Gostei imediatamente dele. Alm de ser incrivelmente bonito, era inteligente e possua uma mente rpida e inquiridora. Ao contrrio de muitas estrelas com quem trabalhei 
posteriormente, Cary no tinha qualquer vaidade em relao  sua pessoa.

O seu nome de baptismo era Archibald Alexander Leach, e vinha de uma famlia de classe mdia baixa de Bristol, em Inglaterra. Comeara no circo em Coney Island, 
apresentando-se sobre andas, e passara pelos espectculos de variedades em pequenos papis.

Quando Archie Leach tinha nove anos, a me foi internada numa instituio para doentes mentais. Disseram-lhe que fora para uma estncia balnear. Nunca mais a viu 
at aos seus vinte e muitos anos.

Cary Grant era uma lenda, suave, sofisticado e tranquilo.

Uma vez, disse: "Toda a gente quer ser Cary Grant. At eu quero ser Cary Grant."

Quando conheci Shirley Temple, era uma adulta de dezoito anos, e um verdadeiro encanto. Em criana, fora a maior estrela do cinema, com os seus filmes a darem lucros 
de centenas de milhes de dlares. Apesar da fama, tornara-se, ao crescer, umajovem normal e atraente.

O elenco ficou completo com Myrna Loy, uma experiente artista. Myrna entrara na srie The Thin Man, no The Best Years ofourLives, em Arrowsmith e em dezenas de outros 
filmes.

Eu estava entusiasmado com o elenco. Estvamos quase prontos para iniciar as filmagens.

Uma semana antes de comearem as filmagens de Suddenly it's Spring, eu e Cary estvamos a almoar na cantina do estdio.

Estamos com dificuldade em arranjar um actor para o actor secundrio. J fizemos testes a meia dzia de pessoas e nenhuma  o que se pretende. Sabes quem  que era 
ideal para esse papel?

Eu estava com curiosidade.

No. Quem?

Tu. Estarias interessado em fazer um teste comigo?

Olhei para ele, espantado. Eu queria ser actor? Nunca pensara nisso. Mas, porque no? Podia ser um actor/argumentista. Noel Coward e alguns outros j o tinham feito.

Ento, Sidney, ests interessado?

Estou.

Sabia que representar era simples. Fora eu que escrevera a histria original, o argumento e a cena de teste, por isso sabia todos os dilogos. S tinha que os dizer. 
E qualquer um era capaz de o fazer.

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Cary levantou-se da mesa e telefonou a Dore Schary, e, quando terminmos o almoo, fomos at ao local das filmagens. A cena de teste era s entre mim e Cary. Era 
uma cena simples, com cerca de uma dzia de linhas.

Enquanto olhava para ele, interroguei-me sobre o que a fama faria de mim, porque tinha a certeza de que representar ao lado de Cary Grant modificaria a minha vida 
para sempre. Ia comear a receber ofertas e propostas para entrar em outros filmes. Seria internacionalmente famoso. A partir daquele momento, nunca mais teria privacidade, 
nem tempo para mim. A minha vida passaria a pertencer ao pblico. Mas eu estava preparado para fazer esse sacrifcio.

Estvamos no estdio de gravao. Irving Reis disse:

Todos no estdio. Silncio!

De repente, todos se calaram, a olhar para ns.

Cmara! disse Irving Reis em voz alta. Aco!

Cary deu-me a minha deixa. Eu fiquei a olhar para ele durante um longo, longo momento, enquanto ele esperava que eu falasse. Olhei para aquilo que me parecia milhes 
de pessoas a olharem para mim e, de repente estava de volta  minha escola, na minha pea, de p no meio do palco, a rir histericamente. Entrei em pnico e, sem 
dizer uma s palavra, virei-me e fugi para longe do estdio de gravao.

Foi o fim da minha carreira como actor. Agora que o fardo do estrelato j no pesava mais sobre os meus ombros, podia voltar ao trabalho no meu argumento.

Dore contratara Rudy Vallace para me substituir e Suddenly it's Spring comeou a ser filmado. Todos pareciam satisfeitos com a forma como os trabalhos decorriam.

Um dia, David Selznick chamou-me ao seu escritrio.

Quero que me faas uma coisa.

Com certeza, David.

Estamos na semana da National Brotherhood. Todos os anos, um estdio diferente faz um curto filme que junta todas as religies.

Eu tinha conhecimento. Quando o pequeno filme acabava, as luzes nas salas de cinema acendiam-se e os arrumadores subiam e desciam as coxias a recolher dinheiro para 
as obras de caridade.

Este ano, somos ns que vamos fazer. Quero que escrevas o argumento.

Muito bem.

140
Temos uma meia dzia de estrelas dispostas a colaborar. Vais escrever cerca de dois minutos para cada uma.

Vou tratar disso.

No dia seguinte, levei um argumento com cerca de duas pginas que escrevera para Van Johnson, o primeiro a ser filmado. Selznick leu-o.

Muito bem. Leva-lho. Ele est num bangal nas traseiras. Levei as duas pginas a Van Johnson. Assim que me viu, ele abriu a porta e eu apresentei-me. Na poca, ele 
era uma das maiores estrelas da MGM.

Estas so as suas pginas. Estamos prontos para comear a filmar assim que estiver disse eu.

Muito obrigado. E acrescentou com ar lgubre: A noite passada tive um sonho pssimo.

Ento?

Sonhei que uma grande estrela da Metro-Goldwyn-Mayer estava a estudar o seu texto e que eles estavam sempre a mud-lo e ela entrava em pnico.

Ri-me.

No se preocupe. Esse  o seu texto. Ele sorriu e deitou uma olhadela ao texto.

Estarei pronto dentro de minutos. Voltei para o escritrio de Selznick.

Est tudo pronto informei.

Tive uma ideia disse ele. Quero que mudes o texto do Van Johnson.

David, acabei de o deixar, E o homem est nervoso. Teve um pesadelo qualquer sobre mudarem-lhe o texto.

Ele que se lixe. Isto  o que quero. E deu-me uma nova orientao para a cena.

Corri para o meu gabinete, escrevi tudo de novo e mostrei-o a Selznick.

Muito bem.  isso mesmo respondeu.

Corri de volta ao bangal do Van Johnson. Ele abriu a porta.

Estou pronto.

Van, h um pequeno problema. O senhor Selznick acha que isto  melhor. E dei-lhe as pginas novas. Ele empalideceu.

Sidney, eu no estava a brincar com o meu sonho. Eu realmente...

Van, so s duas pginas. Suspirou fundo.

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Est bem.

Voltei para o escritrio de David Selznick.

Tive outra ideia. Seria melhor se usssemos outro ngulo com o Van Johnson...

Fiquei horrorizado.

David, ele j est em pnico. No podemos passar o tempo a alterar-lhe o texto.

Ele  actor, no ? Pois que aprenda o texto.

E disse-me o que queria. Relutante, voltei para o meu gabinete e escrevi toda a cena de novo.

O pior era encarar Van Johnson outra vez.

Dirigi-me ao bangal. Ele ia a dizer qualquer coisa, mas viu a minha cara.

No me mudou...

Van, so s duas pginas. Esta  a ltima alterao.

Maldio. Que  que me est a fazer? Por fim, l o consegui acalmar.

Assim que estiver pronto, venha para o estdio pedi.

No voltei ao escritrio de David Selznick. O resto da parte de Van Johnson correu sem incidentes.

No dia seguinte, Richard telefonou-me.

Mano?

Era muito bom ouvir de novo a voz dele.

Richard, ento como vais?

No sei como fui at aqui, mas agora vou ter queir por dois. Vou-me casar.

Fiquei encantado.

Mas que notcias maravilhosas! E eu conheo-a?

Conheces.  a Joan Stearns.

Richard e Joan tinham andado juntos na escola em Chicago.

E quando  o casamento?

Daqui a trs semanas.

Bolas! Vou ter de sair do pas para filmar o projecto da semana da National Brotherhood.

Conhece-la quando voltares. Vamos a visitar-te.

Tal como prometido, Richard e a sua maravilhosa e suave mulher chegaram a Los Angeles um ms mais tarde. Passmos uma encantadora semana juntos at que finalmente 
chegou a hora de voltarem para Chicago.

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Na manh seguinte, quando cheguei ao meu gabinete, a minha secretria disse-me:

O senhor Selznick quer falar consigo. Ele estava  minha espera.

Sidney, tenho novidades para ti.

O que ?

Vou mudar o nome do filme. No se vai chamar Suddenly it's Spring.

Eu ouvia o que ele dizia.

Ento como se vai chamar?

The Bachelor and the Boby-Soxer.

Fiquei a olhar por instantes para ele a pensar que estava a brincar. Mas no, estava a falar a srio.

David, ningum vai pagar um tosto para ver um filme chamado The Bachelor and the Boby-Soxer.

Felizmente, o futuro demonstrou que eu estava errado.

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CAPTULO 17

The Bachelor and the Boby-Soxer estreou no Radio City Music Hall, uma sala com capacidade para seis mil espectadores, o maior cinema do mundo. Esteve em cena durante 
sete semanas e foi o filme que mais dinheiro ganhou em toda a histria daquela sala de cinema. Em Inglaterra s foi batido por Gone with the Wind. As crticas deixaram-me 
encantado. "Por favor, no percam The Bachelor and the Boby-Soxer..." "Uma das melhores comdias a chegar a esta cidade h mais de um ano..."

"Uma extraordinria mistura de alegria, fantasia e sentimento..." "Uma comdia de primeira categoria. Vai rir  gargalhada..." "Sidney Sheldon criou um filme extremamente 
agradvel..." O elenco foi elogiado, o realizador enaltecido. As crticas unnimes. O filme recebeu o Box Office Blue Ribbon Award e fui nomeado para um Oscar. Agora 
sabia que nada me impediria de avanar. As carreiras profissionais em Hollywood assemelhavam-se aos elevadores, subiam e desciam. O truque era no abandonar o elevador 
quando ele estava em baixo.

Decididamente, para mim, o elevador estava a subir. Eu estava no topo do mundo.

Escrevi um original sobre um casamento com problemas chamado Orchidsfor Virgnia. Eddie Dmytryk, editor na RKO, gostou dele.

Vou pedir ao estdio que o compre. Quero que escreva o argumento. Pago-lhe trinta e cinco mil dlares.

Excelente.

Fiquei mais do que satisfeito, porque precisava do dinheiro.

Uma semana mais tarde, Dore Schary foi nomeado produtor executivo responsvel pela produo da RKO. Chamou-me ao seu gabinete e eu sabia que ele me queria dar os 
parabns pelo Orchidsfor

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Virgnia. Tencionava perguntar-lhe quando  que podia comear a escrever o argumento para o filme.

Eddie Dmytryk quer realizar a tua histria comentou. Sorri.

Sim.  ptimo.

Eu no vou deixar o estdio compr-la. Levei uns segundos a perceber.

O qu? Porqu?

Porque no vou fazer um filme sobre um homem que  infiel  mulher e planeia assassin-la.

Mas, Dore...

Ponto final. Vamos devolver-te a histria. Fiquei de rastos.

Muito bem.

Teria de arranjar outro projecto para trabalhar. No fazia ideia que o facto de Dore ter rejeitado o meu argumento ia mudar a minha vida.

Sammy Weisbord, o meu agente, telefonou-me:

Acabei de fazer um negcio entre ti e a MGM com uma garantia de duas semanas. Querem que escrevas Orgulho e Preconceito.

H anos que eu no lia o livro. A nica coisa de que me lembrava  que era de Jane Austen, pr-vitoriano, um clssico da sociedade inglesa sobre cinco filhas que 
procuravam marido.

A ideia de trabalhar na MGM era excitante. Era a Tiffany dos estdios de Hollywood. A sua lista de filmes inclua clssicos como Gone with the Wind, Meet me in St. 
Louis, The Wizard of Oz, The Philadelphia Story, The Great Ziegfeld e dzias de outros filmes fantsticos.

Eu tinha vinte e nove anos quando entrei nas instalaes da MGM pela primeira vez. Fiquei maravilhado. A MGM era uma verdadeira cidade. Tinha o seu prprio abastecimento 
de electricidade, comida e gua. A empresa respondia a toda e qualquer necessidade.

O estdio, como os seis outros grandes estdios, produzia em mdia um filme por semana. Havia 150 escritores sob contrato, entre eles famosos romancistas e argumentistas.

No primeiro dia almocei na enorme cantina. Convidaram-me para me sentar na mesa dos escritores, onde j estavam reunidos cerca de uma dzia deles. Faziam um grupo 
simptico e deram-me logo uma srie de conselhos.

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No te preocupes se alguns dos teus argumentos no forem produzidos. Aqui, em regra geral, se conseguires que produzam um em cada trs anos,  bom sinal...

Tenta entrar num filme com Arthur Freed. Ele  que  o grande produtor c dentro...

Quando o teu contrato estiver quase a acabar, v se consegues ser destacado para uma tarefa, para que te escolham e...

No lhes expliquei que o meu contrato tinha uma garantia de somente duas semanas.

Deram-me um gabinete pequeno e uma secretria.

Vamos fazer o Pride and Prejudice informei-a.  capaz de me arranjar um exemplar do livro? Gostava de o ler outra vez.

Com certeza.

Marcou um nmero e disse:

O senhor Sheldon quer um exemplar do Pride and Prejudice. O livro foi-me entregue meia hora depois.

Esta foi a minha apresentao ao sistema do estdio. Cada estdio tinha uma biblioteca, um departamento de pesquisa, um departamento de audies, um departamento 
de estdio, um departamento cinematogrfico e um departamento financeiro. Era quase bblico. Tudo o que pedssemos era-nos dado.

Na manh seguinte, Sammy Weisbord entrou no meu gabinete.

Ento, como  que isso vai? perguntou.

Estou a comear respondi.

Arthur Freed quer falar contigo. Fiquei espantado.

Porqu?

Ele j to diz. Est  tua espera.

Ouvira muitas histrias sobre Arthur Freed. Comeara a vida como vendedor de seguros e ficara famoso com canes como TheBroadway Melody, Good Moming, On a Saturday 
Afternoon e Singing in the Rain.

Tornara-se amigo de Louis B. Mayer e este fizera dele um produtor.

Dizia-se dele que tinha de ser sempre o primeiro a saber das coisas. Um dos escritores contou-me a seguinte histria:

"Um amigo convidou-o para a estreia de uma pea. Ele respondeu:

J a vi.

Noutra ocasio, um amigo perguntou-lhe se ele queria ir nessa noite a um jogo de basebol.

J o vi respondeu ele."

Eu e Sammy atravessmos o trio e apanhmos o elevador at ao

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terceiro piso, onde Arthur Freed tinha o seu enorme escritrio. Estava sentado  secretria. Era um homem robusto, nos cinquenta anos, com cabelo grisalho que comeava 
a rarear.

Sheldon, sente-se. Sentei-me.

Temos um problema. Tenho aqui um argumento que pelos vistos no conseguimos distribuir. Todos o rejeitam.  um musical e est bem escrito, mas a trama est toda 
errada.  demasiado densa. Necessita de ser aligeirada. Acha que consegue fazer alguma coisa?

Bom, eu estou a trabalhar no Pride and Prejudice, mas... J no est. Agora trabalha neste respondeu Freed.

E como  que se chama?

Easter Parade. Vai trabalhar com Irving Berlin.

Aquele foi um momento mgico. Era o meu terceiro dia na MGM e ia trabalhar com o lendrio Irving Berlin.

Tenho muito prazer respondi.

Judy Garland e Gene Kelly vo ser as estrelas. Tentei parecer descontrado.

Ai sim?

E quero que o filme entre em produo o mais depressa possvel.

Com certeza.

D uma olhadela ao argumento e veja o que consegue fazer com ele. Amanh vai ter uma reunio com o Irving.

Eu flutuava quando sa do gabinete dele. Weisbord observava-me e sorria.

Se fores bem sucedido com este, tens a vida feita comentou. Eu irradiava felicidade.

Eu sei respondi.

Decididamente, o meu elevador estava a subir.

O argumento original de Easter Parade fora escrito pela equipa de marido e mulher de Albert Hackett e Francs Goodrich. Eram uns escritores maravilhosos que anos 
mais tarde deslumbrariam a Broadway com The Dimy ofAnne Frank.

Mas Freed tinha razo. O que o argumento precisava era de um pouco de humor e de um toque de leveza. A histria que os Hacketts tinham escrito era demasiado sria 
para um musical. Sentei-me e comecei a escrever uma nova histria.

Na manh seguinte fui chamado ao escritrio de Arthur Freed. Com ele estava um homem baixo, com um rosto de querubim e olhos inquiridores.

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Apresento-lhe Irving Berlin.

Em pessoa. O gnio que escrevera Alexander's Ragtime Band, God Bless America, There's no Business Lihe Show Business, Puttin on the Ritz e Top Hat. Um dia algum 
perguntara a Jerome Kern qual era, na sua opinio, o lugar de Irving Berlin na msica americana.

Ele respondera simplesmente:

Irving Berlin  a msica americana.

Sidney Sheldon respondi, fingindo que no estava deslumbrado.

O senhor Berlin estendeu a mo.

Prazer em conhecer. J sei que vamos trabalharjuntos. Tinha uma voz aguda.

Exactamente.

No mencionei a minha experincia de Nova Iorque, onde quase o substitura como o maior criador de canes da Amrica, porque amos trabalharjuntos e no o queria 
deixar nervoso.

Quando comemos a trabalhar em Easter Parade, Irving Berlin tinha sessenta anos e o entusiasmo de um adolescente.

Nascera na Rssia, chamava-se Israel Baline e viera para os Estados Unidos com cinco anos. Iniciara a carreira como empregado de mesa cantor, no Chinatown Caf, 
em Nova Iorque. Nunca aprendera a tocar piano num piano normal. S usava as teclas pretas e tinha um instrumento que mudava as teclas sob o movimento de uma alavanca.

Irving Berlin tinha perguntas e comentrios, enquanto eu ia falando sobre as vrias possveis orientaes que a pea podia levar, mas, estranhamente, Arthur Freed 
parecia no estar interessado naquilo que ns fazamos. Estava calado. S mais tarde  que vim a saber porqu.

Senhor Berlin... comecei a dizer. Fez-me sinal para parar.

Irving.

Muito obrigado. Gostava de lhe dizer como me sinto entusiasmado por poder trabalhar consigo.

Ele sorriu.

Vai ser divertido.

O trabalho avanava bem. Lembro-me das palavras de Sam Weisbord. Se fores bem sucedido com este, tens a vida feita.

Vrias vezes durante a semana, enquanto eu estava atarefado a escrever o argumento, Irving Berlin entrava pelo meu gabinete.

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Diga-me o que pensa disto pedia, entusiasmado. E, na sua voz estridente, comeava a cantar a cano que acabara de escrever. O problema  que ele no conseguia manter 
a afinao e eu acabava por no fazer a mnima ideia de como a cano soava. Ele no tocava piano e no sabia cantar. Tudo o que tinha era o seu gnio.

Eu almoava todos os dias na cantina, na mesa dos escritores, e, normalmente, um deles convidava-me para visitar o estdio dele depois do almoo. Os filmes que estavam 
a ser filmados eram The Best Years of my Life, com Myrna Loy e Frederich March, o Saratoga Trunk, com Gary Cooper e Ingrid Bergman e The Secret Life of Walter Mitt, 
com Danny Kaye e Virgnia Mayo.

Eu ia aos estdios e ficava a ver as estrelas a representarem as suas cenas, apenas a alguns metros de mim. Estas eram as mesmas estrelas que eu vira na ltima fila 
do RKO Jefferson Theatre, quando era arrumador. Agora, todas as semanas, via as maiores estrelas de Hollywood a fazerem os seus filmes, e foi uma poca maravilhosa 
para mim.

Estava a acabar o argumento de EasferParadequando Sammy Weisbord entrou no meu gabinete.

Sidney, tenho boas notcias. Recebi um telefonema da MGM. Querem negociar um contrato a longo prazo contigo.

Mas isso  excelente exclamei.

Era o sonho de qualquer escritor em Hollywood.

Ainda no tratei dos pormenores. Ainda h muitas coisas para discutir, mas no te preocupes. Isto vai acontecer. E sorriu.

Eu estava nas nuvens. Entreguei o meu argumento a Arthur Freed e fiquei  espera do comentrio dele. Silncio. Ele detestou, pensei.

Outro dia se passou. Voltei a ler o argumento. A crtica de Nova Iorque tem razo sobre a minha falta de talento. O dilogo  to denso que no se consegue penetrar.

No era para espantar que Arthur Freed no quisesse falar comigo.

Finalmente, uma semana depois de lhe ter entregue o argumento, a secretria dele telefonou-me.

O senhor Freed quer que esteja amanh s dez horas no escritrio dele, para conhecer Judy Garland e Gene Kelly.

Uma terrvel sensao de pnico invadiu-me. Eu pura e simplesmente no podia ir conhec-los. Acabariam por perceber a fraude que eu era. Iam todos odiar o meu argumento. 
Sabia que no podia ir quela reunio. J passara por aquilo. Max Rich a dizer: "Venha ter

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comigo amanh de manh, pelas dez horas, e comeamos a trabalhar" e Irving Reis a dizer "Cmara... aco..." e eu a fugir do teste com Cary Grant. Sabia que tinha 
de fugir outra vez.

Pouco dormi nessa noite. Tive sonhos bem reais de Arthur Freed a gritar comigo por causa da fraca qualidade do meu argumento.

De manh, tinha tomado uma deciso. Ia  reunio, mas no diria uma palavra. Ouviria as crticas depreciativas deles e, quando tivessem terminado, apresentaria a 
minha demisso. Passei a hora antes da reunio a embalar as coisas que tinha no gabinete, preparando-me para abandonar o estdio.

As dez, dirigi-me ao escritrio de Arthur Freed. Ele estava sentado  secretria.

Acenou com a cabea.

Um argumento interessante.

O que quer que isso significava. Seria um eufemismo para "Est despedido"? Porque  que no era frontal e dizia claramente o que pensava?

Nesse momento, Judy Garland entrou e a minha disposio imediatamente exultou. Era como se revisse uma velha amiga. Ela era a Betsy Booth, a namorada do personagem 
de Mickey Rooney na srie de Andy Hardy. Ela era a Dorothy em The Wizard ozOz. Era a Esther Smith em Meet me in St. Louis. Quando trabalhei como arrumador, vira 
os filmes dela vezes sem conta.

Judy Garland, que nascera Francs Gumm, estava na MGM desde a adolescncia.

O filme The Wizard of Oz fizera dela uma estrela aos quinze anos. Tornara-se to popular que o estdio a usara em filme atrs de filme, no lhe dando descanso. Em 
nove anos, fez dezanove filmes.

Para manter a energia, comeara a tomar barbitricos e ficara viciada, tomando estimulantes durante o dia e barbitricos durante a noite. Tentara suicidar-se e, 
coisa que eu no sabia quando a vi, acabara de ter alta da clnica Meninger.

As suas primeiras palavras foram:

Ol, Sidney. Adorei o argumento.

Por momentos, fiquei estupefacto. Em seguida, abri um sorriso, como um perfeito idiota.

Muito obrigado.

 bom, no ? disse Arthur Freed. Foi o primeiro comentrio que lhe ouvi sobre o meu argumento.

A porta abriu-se e Gene Kelly entrou. Eu comeara a relaxar. Gene

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Kelly era outra cara conhecida. Vira-o em Thousands Cheers, Comer Girl e Anchors Aweight. Era como se fosse um velho amigo.

Cumprimentou Judy e Arthur e depois virou-se para mim:

Autor, autor disse ele. Fez um excelente trabalho.

Fez, no fez? disse Arthur Freed.

De repente, fiquei exttico. Tanta preocupao por nada.

Quaisquer sugestes que tenham... comecei a dizer.

Por mim, no precisa de nada respondeu Judy.

Para mim, est perfeito acrescentou Gene Kelly. Arthur Freed sorria.

Pelos vistos, vai ser uma reunio muito curta. Estamos todos prontos. Comeamos a filmar na segunda-feira.

A seguir  reunio, voltei para o meu gabinete e comecei a desempacotar as minhas coisas.

A minha secretria observava-me, intrigada.

Posso perguntar o que  que se est a passar?

Mudei de ideias.

Na sexta-feira, Arthur Freed chamou-me ao seu escritrio.

Temos um problema disse. Deixei de respirar.

H alguma coisa errada no argumento?

No,  Gene Kelly. Partiu o tornozelo ajogar voleibol no fim de semana.

Engoli em seco.

Isso quer dizer que vamos ter de adiar as filmagens?

Mandei o argumento ao Fred Astaire. Afastou-se do cinema no ano passado, mas, se gostar, faz o filme.

Abanei a cabea.

O Fred Astaire tem quarenta e oito anos. AJudy tem vinte e cinco. Os espectadores vo torcer para que eles no fiquem juntos. Nunca vai dar bom resultado.

Vamos a ver o que  que ele diz disse ele, tolerante.

Fred Astaire respondeu que sim. Encontrei-o no escritrio de Artur Freed, no dia seguinte.

Muito obrigado pelo seu maravilhoso argumento. Vai ser muito excitante faz-lo.

Ao olhar para ele, todas as minhas dvidas desapareceram. Tinha um aspecto jovem, enrgico e atento. E a reputao de ser um

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perfeccionista. Num filme que fez com Ginger Rogers, ensaiou um nmero novo vezes sem fim at que os ps dela comearam a sangrar. Na segunda-feira, primeiro dia 
de filmagens de Easter Parade, eu estava no estdio de gravao. Fred Astaire estava ao fundo do estdio onde iam filmar a primeira cena e eu na outra ponta a contar 
uma histria a Judy. No meio, o assistente de realizador apressou:

Menina Garland, estamos prontos. Comecei a levantar-me.

No, acabe primeiro a histria pediu Judy.

Est bem.

Comecei a falar rapidamente porque sabia o quanto custava manter uma equipa de filmagens  espera. Olhei para a outra ponta do estdio onde estavam todos prontos 
a aguardar por ela e disse:

Judy, eu acabo a histria depois. No  importante e...

No insistiu. Acabe-a agora. Parecia preocupada.

Judy, no quer fazer esta cena? Abanou a cabea.

No.

Porqu?

Hesitou uns segundos e disse rapidamente:

Porque nesta cena tenho de beijar o senhor Astaire e nem sequer o conheo.

Todos tinham partido do princpio que as duas superestrelas se conheciam. Naquele momento, percebi como ela era vulnervel.

Venha comigo. E, pegando-lhe na mo, levei-a at ao outro lado do estdio onde estavam todos impacientes para iniciarem as filmagens.

Fred disse eu esta  a Judy Garland. Ele sorriu.

E ela com certeza. Sou um grande f seu.

E eu sua respondeu ela a sorrir. Chuck Walters, o realizador, ordenou:

As vossas posies.

E Easter Parade comeou a ser filmado.

Um dia, fui por acaso ver o palco de ensaios onde Fred trabalhava sozinho num novo nmero de dana. A sapatear e a rodopiar sobre o palco, no se apercebeu da minha 
presena. Dirigi-me silenciosamente

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at junto dele e, quando ele parou por uns momentos, toquei-lhe no ombro. Virou-se.

Disse-lhe com toda a pacincia.

No, Fred, no  assim.  assim. E fiz uns desajeitados passos de sapateado.

Ele sorriu.

Muito bem. Era assim que eu danava. Pouco provvel.

Pouco antes de as filmagens comearem, Arthur Freed contratara Jules Munshin, um actor de Nova Iorque, para fazer uma parte cmica. Eu criara-lhe um papel como maitre 
d. Um dia antes de ele comear a filmar, a minha hrnia discal saltou outra vez. Estava em casa na cama, a sofrer horrores, quando o telefone tocou. Era Jules Munshin.

Sidney, preciso de lhe falar.

Agora no  possvel. Daqui a trs dias j estou fora da cama e...

No. Eu tenho de o ver hoje. J.

A dor era to intensa que eu mal conseguia falar.

Jules, no  uma boa altura. Eu no me sinto nada bem. Eu...

A sua secretria deu-me a sua morada. Estou a daqui a quinze minutos.

Tomei outro comprimido para as dores e cerrei os dentes. Quinze minutos depois, Jules Munshin estavajunto  minha cama.

Est com bom aspecto comentou ele alegremente. Eu olhava-o fixamente.

O estdio fez-me vir de Nova Iorque e eu s tenho uma cena que podia ter feito por telefone. Preciso que faa qualquer coisa com aquela cena.

Havia um pequeno problema. Eu estava com tantas dores que mal me lembrava do nome dele.

Filmo a cena amanh lembrou.

Fechei os olhos e tentei recordar qual a cena que escrevera para ele. Fazia o papel de um maitre d'arrogante, que se orgulhava da forma como mexia uma salada, com 
os gestos exagerados de um conhecedor snobe.

A cena no tem nada disse ele.

De repente, ocorreu-me como fazer qualquer coisa com ela. Jules, a resposta  muito simples.

Qual?

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No h salada. Vai faz-la em mmica.

Acabou por ser uma das cenas mais divertidas de todo o filme.

EasterParade conquistou o Box Office Blue Ribbon e o WGA Screen para o Melhor Argumento para Musical de 1948, um prmio que partilhei com Francs Goodrich e Albert 
Hackett.

Easter Parade revelou-se um dos musicais mais famosos que a MGM alguma vez fez. Passa na televiso em todas as Pscoas dos ltimos cinquenta e sete anos.

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CAPTULO 18

Em Setembro de 1947 comeou um dos episdios mais infelizes da histria da Amrica. Um raio vingativo estava prestes a atingir Hollywood,

A aliana da Amrica com a Rssia terminara e a "Ameaa Vermelha" varreu os Estados Unidos. Joseph McCarthy, um ambicioso senador, apercebeu-se da oportunidade para 
se tornar importante. Um dia, anunciou que havia comunistas no Exrcito.

E quantos? perguntaram.

Centenas.

A resposta de McCarthy gerou um enorme furor e ele apareceu nas pginas das revistas e nas primeiras pginas dosjornais por todo o lado.

Passou depois a afirmar que tinha descoberto que havia comunistas na Marinha e nas indstrias de defesa e, cada vez que dava uma entrevista  imprensa, os nmeros 
eram constantemente alterados cada vez maiores.

Foi formada uma comisso de investigao, da qual fazia parte J. Parnell Thomas e um pequeno grupo de congressistas. Chamou-se HUAC, House Un-American Activities 
Committee.

A comisso escolheu como alvo inicial um grupo de argumentistas de Hollywood e acusou-os de serem membros do Partido Comunista e de inserirem propaganda comunista 
nos seus argumentos. Vrias testemunhas foram intimadas para se apresentarem em Washington perante a comisso.

A fama de McCarthy foi crescendo e ele tornou-se cada vez mais ousado. Pessoas inocentes acusadas de serem comunistas perderam os seus empregos, sem qualquer hiptese 
de se defenderem. As indstrias de defesa e outras empresas tambm foram investigadas pela comisso, mas Hollywood era mais visvel e a comisso explorou-a.

Os escritores, os produtores e os realizadores que eram chamados a depor tinham trs hipteses. Admitiam que eram comunistas e

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denunciavam nomes, negavam ser comunistas ou recusavam-se a testemunhar e arriscavam ir para a cadeia. A comisso era implacvel. Se as pessoas levadas perante eles 
admitissem ser comunistas, tinham que indicar os nomes dos companheiros comunistas.

Dez escritores que foram acusados e se recusaram a responder s perguntas da comisso foram mandados para a cadeia. Alm disso,
324 pessoas foram colocadas na lista negra na indstria e centenas de vidas inocentes foram assim destrudas.

Em Hollywood, os dirigentes dos estdios tiveram uma reunio secreta para decidirem como apresentar a melhor cara perante tudo o que se estava a passar. Fizeram 
uma comunicao onde diziam que no dariam trabalho a ningum que fizesse parte do Partido Comunista. Foi o incio de uma lista negra que durou dez anos.

Dore Schary, que dirigia os estdios da RKO, declarou audaciosamente que preferia demitir-se a despedir um escritor acusado de ser comunista. Pouco depois destas 
suas declaraes, quando a comisso indicou o nome de um escritor que trabalhava para a RKO, Schary despediu-o. Os membros da Associao de Argumentistas ficaram 
furiosos. Schary pediu que lhe dessem a oportunidade de explicar a sua posio. O auditrio da associao encheu-se.

Quero lembrar a todos que eu tambm sou escritor comeou a dizer. Foi assim que comecei. Imagino que muitos estavam  espera que eu me demitisse como director da 
RKO quando me obrigaram a despedir um dos meus escritores. A razo por que no o fiz foi porque senti que, mantendo-me na direco da RKO, posso fazer mais para 
vos proteger.

Foi a que ele perdeu o controle da assembleia. O seu discurso interesseiro e egosta deu origem a uma terrvel pateada e a reunio terminou abruptamente.

Uma manh no meio de tudo isto, Marvin Schenck, um executivo do estdio que era parente de Nicholas Schenck, chamou-me ao seu gabinete. Ningum sabia muito bem qual 
era, de facto, a sua funo, mas corria o rumor de que recebia trs mil dlares por semana para olhar pela janela e lanar o alarme se visse um glaciar a aproximar-se 
do estdio.

Marvin andava pelos quarenta e muitos anos, era baixo e careca e tinha o carisma de um cangalheiro.

Sente-se, Sidney. Sentei-me.

Ele olhou para mim e disse, acusadoramente:

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Ontem  noite, na reunio da Associao de Argumentistas, voc votou no Albert Maltz?

Tivramos uma reunio na noite anterior para eleger uma nova direco. Fora uma reunio  porta fechada, mas fiquei to espantado com a pergunta que nem me ocorreu 
perguntar-lhe como  que sabia em quem eu votara.

Sim, votei respondi.

Porque  que votou em Maltz?

Porque acabei de ler um livro dele, Thejourney ofSimon McKeever.  um livro que est muito bem escrito e ns precisamos de bons escritores na direco da associao.

Quem foi que lhe disse para votar nele? Comecei a ficar zangado

Ningum me disse para votar nele. J lhe expliquei porque foi que o fiz.

Algum lhe deve ter dito para votar nele. O meu tom de voz subiu.

Marvin, acabei de lhe dizer que votei nele porque  um excelente escritor.

Estudou uma folha de papel que tinha na frente e em seguida levantou os olhos.

Nos ltimos dias voc andou pelo estdio a angariar fundos para as crianas dos Dez de Hollywood?

Foi ento que me passei. O que ele dizia era verdade. Comeara pela minha contribuio pessoal e em seguida partira pelo estdio para angariar dinheiro para ajudar 
a sustentar as crianas cujos pais tinham sido presos.

No costumo perder as estribeiras, mas, quando me acontece,  a srio.

Sou culpado, Marvin. No o devia ter feito. As crianas que morram  fome. Se os pais esto na cadeia, os filhos no merecem comer. Eles que morram todos! gritei.

Acalme-se! pediu. Acalme-se! Quero que v para casa e tente lembrar-se quem foi que lhe disse para votar no Albert Maltz. Amanh de manh volto a falar consigo.

Sa que nem uma fria do gabinete. Sentia-me violado. A indignidade do que estava a acontecer era dilacerante.

Nessa noite no consegui dormir. Dava voltas e mais voltas na cama e por fim tomei uma deciso. s nove da manh, fui directo ao gabinete de Marvin Schenck.

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Demito-me. Pode rasgar o meu contrato. No quero trabalhar mais neste estdio disse e dirigi-me para a porta.

Espere l. No se precipite. Liguei hoje de manh para Nova Iorque. Eles disseram que se assinar uma declarao em como no  comunista e que nunca fez parte do 
Partido Comunista tudo isto ser esquecido. E deu-me uma folha de papel. Assina?

Olhei para a folha e comecei a ficar mais calmo.

Sim, assino. Porque no sou comunista e nunca fui respondi. Foi uma experincia humilhante, mas nada que se comparasse com o que muitos inocentes sofreram durante 
aquela poca.

Nunca esquecerei as dzias de amigos cheios de talento que nunca mais encontrariam trabalho em Hollywood.

Em Fevereiro de 1948, as nomeaes para os prmios da Academia foram anunciadas. Eu era um dos cinco nomeados, por ter escrito o argumento original de The Eachelar 
and The Bobby-Soxer. Comecei a receber os parabns dos meus companheiros de trabalho, do meu agente e dos meus amigos, mas eu sabia uma coisa que eles desconheciam. 
No tinha qualquer hiptese de ganhar o Oscar.

Os filmes contra os quais eu concorria eram extremamente populares. Incluam Monsieur Verdoux, de Chaplin, ADoubkLife, Body andSoule o forte filme estrangeiro Shoeshine. 
Ser um dos nomeados j era honra suficiente. Perguntava-me qual deles ganharia.

Recebi um telefonema de Dona Halloway a dar-me os parabns pela minha nomeao. Vrias vezes tnhamos ido juntos ao teatro ou a um concerto, e era uma companhia 
muito agradvel.

Na manh dos scares, Dona telefonou. Deixara recentemente a William Morris e passara para a Columbia como assistente pessoal de Harry Cohn, e eu achava que ele 
tinha muita sorte em t-la a trabalhar com ele.

Pronto para ir aos scares? perguntou.

Eu no vou. Ficou chocada.

Que ests a dizer?

Dona, eu no tenho a mnima hiptese de ganhar. Porque  que hei-de ir e ficar para ali sentado e embaraado?

Se todos pensassem assim, nunca estaria l ningum para receber um Oscar respondeu. Tu tens que ir. O que dizes?

Pensei um pouco. Porque no ser um desportista e ir e aplaudir quem ganhasse?

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Queres vir comigo?

Podes apostar que sim. Quero ver-te em cima daquele palco. A vigsima edio anual dos prmios da Academia teve lugar no Shrine Auditorium. Na poca, a sesso no 
era transmitida pela televiso, mas era difundida por duzentas estaes de rdio ABC e pela rede de difuso das Foras Armadas. O auditrio estava  cunha. Eu e 
a Dona sentmo-nos nos nossos lugares.

Ests nervoso? perguntou.

A resposta era no. Esta no era a minha noite. Esta noite pertencia a um dos outros escritores que ia receber o Oscar. Eu era simplesmente um espectador. No tinha 
qualquer razo para me sentir nervoso.

A cerimnia comeou. Os vencedores comearam a subir ao palco para receberem os scares e eu recostei-me, relaxado, a gozar o espectculo.

Por fim, chegaram ao prmio para o melhor argumento original. George Murphy, um actor que tomara parte em muitos filmes musicais, anunciou:

Os nomeados so... Abraham Polonsky, com Body and Soul... Ruth Gordon e Garson Kanin, A Double Life... Sidney Sheldon, The Bachelor and the Bobby-Soxer... Charles 
Chaplin, Monsieur Verdoux... e Srgio Amidei, Adolfo Franci, Cesare Giulio Viola e Cesare Zavattini com Shoeshine.

George Murphy abriu o envelope.

E o vencedor ... Sidney Sheldon, com The Bachelor and the Bobby-Soxer

Fiquei sentado, gelado, na minha cadeira. Qualquer nomeado que tivesse um mnimo de crebro teria preparado um discurso, para o caso de... Eu no preparara nada. 
Nada.

George Murphy chamou outra vez pelo meu nome.

Sidney Sheldon! Dona empurrava-me.

Levanta-te e vai!

Levantei-me, atordoado, e fui cambaleando at ao palco, enquanto a audincia aplaudia. Subi os degraus e George Murphy apertou-me a mo.

Parabns!

Obrigado consegui responder.

Senhor Sheldon, em nome do interesse da cincia e da posteridade,  capaz de nos dizer onde foi buscar esta ideia original?

Como  que eu no preparara nada? Qualquer coisa?

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Olhava fixamente para ele.

Bem... pois... quando estava em Nova Iorque, havia muitas, sabe como jovens de soquetes e ao v-las bem... ocorreu-me que talvez se pudesse fazer um filme sobre 
isso. E depois eu... foi o que fiz.

No podia acreditar na burrice do que estava a dizer. Senti-me como um verdadeiro idiota. Mas l me consegui recompor a tempo e agradecer  equipa e a Irving Reis. 
Pensei em Dore Schary e interroguei-me se devia ou no mencionar o seu nome. Ele portara-se muito mal e eu estava zangado com ele. Por outro lado, fora co-produtor 
do filme.

... e Dore Schary acrescentei.

Aceitei o meu Oscar e sa atabalhoadamente do palco. Quando cheguei ao meu lugar, Dona disse:

Isto  maravilhoso. Como te sentes?

Como  que me sentia? Sentia-me mais deprimido do que alguma vez me sentira em toda a minha vida. Sentia-me como se tivesse roubado algo a algum que o merecia mais 
do que eu. Sentia-me um impostor.

Os prmios continuaram a ser atribudos, mas, daquele momento em diante, o que se passava no palco era como se estivesse envolto numa nvoa. Ronald Colman tinha 
um Oscar na mo e falava de A DoubkLife. Loretta Young agradecia a todos pelo The Farmer's Daughter. Tudo parecia arrastar-se. Estava impaciente por sair dali para 
fora. Naquela que devia ter sido a noite mais feliz da minha vida, eu sentia-me  beira do suicdio.

Tenho de ir a um psiquiatra, pensei. H algo de muito errado em mim.

O nome do psiquiatra era Judd Marmer. Fora-me recomendado por amigos que o tinham consultado. Sabia que ele tinha muitos doentes do mundo do espectculo.

O doutor Marmer era um homem grande e intenso, com cabelo cor de prata e uns olhos azuis inquiridores.

Senhor Sheldon, o que posso fazer por si?

Relembrei o momento em que fugira da consulta com o psiquiatra na Northwestern.

No sei respondi com toda a sinceridade.

Porque foi que me veio consultar?

 que tenho um problema e no sei qual . Tenho um emprego de que gosto na MGM. Estou a ganhar muito dinheiro. Recebi um

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Oscar h uns dias e... encolhi os ombros, no me sinto feliz. Sinto-me deprimido. Trabalhei muito para chegar aqui, e consegui e... no h um "aqui".

Percebo. Sente-se deprimido com frequncia?

As vezes, mas isso acontece a toda a gente. Provavelmente estou a faz-lo perder o seu tempo respondi.

No se preocupe. Eu tenho muito tempo. Fale-me de algumas das coisas que o deixaram deprimido no passado.

Pensei em todas as vezes em que me devia ter sentido feliz e, em vez disso, me senti infeliz, e em todas as vezes em que devia ter ficado deprimido e fiquei feliz.

Bem, quando estava em Nova Iorque, um compositor chamado Max Rich... fui falando e ele ouvia.

Alguma vez sentiu vontade de se suicidar?

Os barbitricos da drugstore Afremow... No lhe adianta impedir-me agora, porque fao-o amanh...

Sim.

Sente uma perda de auto-estima?

Sim.

Tem a sensao de que no serve para nada?

Sim.

Sente que o seu sucesso no  merecido? Parecia que ele estava a ler o que me ia no esprito.

Sim.

Tem sentimentos de inadequao e culpa?

Sim.

Com licena. Chegou-se  frente e premiu um boto do intercomunicador.

Menina Cooper, informe, por favor, o doente seguinte de que haver um atraso.

Senti um arrepio de frio.

O doutor Marmer virou-se e olhou para mim.

Senhor Sheldon, est a sofrer de uma psicose manaco depressiva.

No gostei nada do som daquelas palavras.

E o que  que isso quer dizer, exactamente?

 um desvio do crebro que envolve episdios de mania e de depresso srios, onde a disposio muda da euforia ao desespero. Parece-lhe que existe um tecido muito 
fino a separ-lo do mundo. De forma que, no fundo, est do lado de fora a olhar para dentro.

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Senti a boca a ficar seca.

E  grave? perguntei.

As doenas manaco depressivas podem ter um efeito devastador sobre as pessoas. H pelo menos dois milhes de americanos que sofrem dela, uma em cada dez famlias. 
Por alguma razo parece ter maior incidncia junto dos artistas. Vincent Van Gogh, Herman Melville, Edgar Allen Poe, Virginia Wolf, s para falar de alguns.

Isso no me deu qualquer conforto. O problema era deles, no meu.

Quanto tempo demora a ser curada? perguntei. Ele fez uma longa pausa.

No tem cura. Entrei em pnico.

O qu?

O melhor que podemos fazer  tentar control-la por meio de medicamentos. Hesitou. O problema  que por vezes eles tm efeitos colaterais. Em mdia, uma em cada 
cinco pessoas que sofrem de psicose manaco depressiva acabam por se suicidar. Vinte a cinquenta por cento tentam o suicdio pelo menos uma vez.  um importante 
factor em trinta mil suicdios por ano.

Fiquei sentado, a ouvir, sentindo-me mal.

De vez em quando, sem qualquer aviso, perdera o controle das suas palavras e dos seus actos.

Comecei a sentir dificuldade em respirar. O doutor Marmer continuou:

Esta doena pode apresentar-se de vrias formas. Algumas pessoas conseguem passar semanas, meses ou at mesmo anos sem sentirem altos ou baixos. Tem perodos de 
disposio normal. Esse tipo tem o nome de eutimia. Creio que  o seu caso. Infelizmente, como j lhe disse, no tem cura.

Bom, pelo menos agora aquilo que se passava comigo tinha um nome. Ele deu-me uma receita e sa do consultrio, abalado. Mas depois pensei: Ele no faz ideia do que 
est a dizer. Eu estou bem. Eu estou bem.

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CAPTULO 19

O Oscar est rodeado por mitos e rumores. Se o ganhamos, nunca mais nos falta trabalho. Se o ganhamos, nunca mais temos trabalho.

Uma semana depois de ter recebido o meu Oscar, Sam Weisbord parou no meu gabinete.

Mais uma vez, parabns. Onde  que o vais guardar?

No quero dar nas vistas. O que  que achas se o puser no topo do telhado de minha casa, com uma meia dzia de holofotes a apontarem para ele?

Riu-se.

Acho uma excelente ideia!

Sammy, tenho que te confessar que ganh-lo foi um choque para mim.

Eu sei. Ouvi o teu discurso respondeu, secamente. E, sentando-se, disse casualmente: A propsito, venho do escritrio do Benny Thau. Benny Thau era o homem da MGM 
que fazia os negcios. Tens um contrato de sete anos. Deram-nos tudo o que pedimos.

Eu no queria acreditar.

Mas isso  maravilhoso. O poder do Oscar.

Uma das coisas em que cederam foi no teu pedido para poderes tirar trs meses por ano em qualquer altura que desejes.

ptimo.

Queria estar livre para poder fazer outras coisas.

Mudara-me para uma pequena casa em Westwood. Tinha um quarto pequeno, um escritrio pequeno, uma sala de estar pequena, uma cozinha pequena e duas casas de banho 
pequenas. A garagem era maior do que toda a casa. Tony Curtis e a sua lindssima mulher, Janet Leigh, ambos actores talentosos, viviam num apartamento a poucas portas 
de distncia. Tinham carro, mas no tinham onde o estacionar.

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Uma noite, durante um jantar, Tony perguntou-me:

Estamos com problemas de estacionamento na nossa rua. Podemos alugar a tua garagem?

No a podem alugar, mas podem us-la  vontade.

E, desse dia em diante, o carro deles passou a estar estacionado na minha garagem.

A minha casa era demasiado pequena para dar festas, mas eu no sabia disso, por isso dei imensas. Tive a sorte de conseguir encontrar um espectacular cozinheiro 
filipino que tambm servia ao bar e me limpava a casa. Desde que comeara a trabalhar na MGM, conhecera uma srie de gente interessante. Fiz um jantar com Ira Gershwin 
e a mulher, Lee. Kirk Douglas, Sid Caesar e Steve Allen tambm l jantaram, acompanhados pelas respectivas caras metades. Era uma lista longa e maravilhosa. Jules 
Stein, dirigente da MCA, a mais poderosa agncia de talentos de Hollywood, veio jantar mais do que uma vez com a mulher, Doris. Muitas vezes tivemos que nos sentar 
no cho porque no tinha cadeiras que chegassem, mas ningum parecia importar-se.

Um dos homens mais interessantes que conheci foi Robert Schiffer, director de maquilhagem nos estdios Disney. Era ingls e voara com a Royal Air Force durante a 
Segunda Grande Guerra. Tinha um iate e viajava por todo o mundo.

Em 1946, Schiffer estava a trabalhar num filme da Rita Hayworth. Ela estava prestes a iniciar um filme para Harry Cohn. Em vez disso, ela e Schiffer decidiram fugir 
juntos para o Mxico. O filme foi suspenso at terminarem as suas frias romnticas. Harry Cohn ia dando em doido porque no os conseguia localizar.

Todas as tardes de sbado, eu fazia um jogo de gin em minha casa, com uma dzia de habituais. Jerry Davis, um produtor-argumentista, era um deles, assim como o realizador 
Stanley Donen, Bob Schiffer e vrios outros. Elizabeth Taylor, na altura com os seus vinte anos, andava com Stanley, e todos os sbados aparecia para nos fazer o 
almoo enquanto jogvamos.

Elizabeth era baixa e sensual, com uns incrveis olhos violeta e um toque da magia que mais tarde veio a fazer dela uma lenda. Custa a acreditar que todos os sbados 
tinha esta beldade na minha cozinha a fazer sanduches.

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Cyd Charisse fora contratada pela MGM. Ela era sensual e talentosa. Entrara para o Ballet Russo aos treze anos e era uma espantosa bailarina. Sa algumas vezes com 
ela. Um sbado  noite tnhamos um encontro marcado quando ela me telefonou a cancelar.

Passa-se alguma coisa? perguntei. Foi evasiva.

Na segunda feira explico-te melhor.

No precisou de o fazer. Saiu em todos os jornais. No fim de semana, casara-se com o famoso cantor Tony Martin. Cyd telefonou-me.

Imagino que j tenhas visto as notcias.

Vi, sim. Espero que tu e o Tony sejam muito felizes.

Tentei esquecer Cyd embrenhando-me no trabalho. Estava pronto para outro desafio.

Kenneth McKenna, director do departamento de guies da MGM, chamou-me ao gabinete dele. McKenna andava pelos cinquenta e tal anos, era um homem direito que nem um 
fuso, um general de cabelo grisalho que geria o seu departamento como propriedade sua.

No me cumprimentou.

Tenho um trabalho para si, Show Boat.

Era um trabalho fantstico. Show Boat era um musical importante. Tinha uma partitura brilhante e um libreto maravilhoso. Eu adorava-o. Mas tinha um problema.

Kenneth, acabei de fazer duas adaptaes. Gostava de trabalhar em algo original.

Ele ergueu-se na cadeira.

Voc faz exactamente aquilo que eu lhe disser para fazer. Tem um contrato com este estdio. At lava o cho, se eu lho ordenar.

Nunca escrevi Show Boat. Nas semanas seguintes, andei demasiado ocupado a lavar o cho.

Para os meus trs meses de folga desse ano, planeara uma viagem  Europa, e estava muito excitado com a perspectiva. Marcara uma passagem no Liberte, um navio francs 
que ouvira dizer que era fantstico.

Telefonei a Natalie, Marty, Richard e Joan para me despedir e voei at Nova Iorque para embarcar.

Entre os passageiros estava Charles MacArthur, que eu j conhecia.

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Era um argumentista brilhante que juntamente com Ben Hecht, escrevera The Front Page, Jumboe Twentieth Century. Com ele encontrava-se a mulher, a proeminente actriz 
americana Helen Hayes.

Na primeira vez que Charles a vira numa festa ficara imediatamente fascinado. Pegara numa taa cheia de amendoins e oferecera-lha, dizendo:

Como gostava que fossem diamantes.

Casaram-se pouco tempo depois. No ano seguinte, no aniversrio dela, Charles deu-lhe uma pequena taa de diamantes e disse:

Como gostava que fossem amendoins.

Os outros passageiros incluam Rosalind Russel e o marido, o produtor Fred Brisson, e Elsa Maxwell, a famosa organizadora de festas. No primeiro dia no mar, Charles 
veio ter comigo:

A Elsa Maxwell teve conhecimento que ganhaste um Oscar. Quer convidar-te para o jantar que d hoje. Eu expliquei-lhe que tu no gostas de conviver.

Charlie! Eu adoraria ir  festa dela! Ele sorriu.

Tens que te fazer difcil. Vou dizer-lhe que ficaste de dar uma resposta.

Mais tarde, a prpria Elsa Maxwell veio ter comigo e disse:

Senhor Sheldon, vou dar um pequeno jantar esta noite. Tinha muito gosto que se juntasse a ns.

Com muito prazer.

O jantar foi muito simptico e os convidados pareciam divertidos. No final da refeio, quando me levantei para sair, um criado abordou-me:

Desculpe, senhor Sheldon. So trs dlares para a mesa. Abanei a cabea.

Eu sou convidado da senhora Maxwell.

Eu sei. So trs dlares. Fiquei furioso.

Charlie tentou acalmar-me.

No me importo com a ideia, o que me incomoda  o dinheiro expliquei.

Charlie riu.

Sidney, a especialidade dela  juntar as pessoas. Ela nunca paga por nada.

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Quando cheguei a Londres, registei-me no lendrio hotel Savoy. Embora a guerra tivesse acabado, Inglaterra ainda sofria dos seus efeitos. Havia racionamento e faltava 
tudo.

Quando o empregado do servio de quartos veio ter comigo de manh, pedi:

Quero uma toranja, ovos mexidos com presunto e torradas. Ele olhou para mim com ar contrito.

Lamento muito, senhor, mas no temos nada do que pretende. Pode escolher entre cogumelos e arenque.

Oh! Escolhi os cogumelos.

Nessa noite, fui a um restaurante e a ementa no tinha quase nada que fosse comestvel.

Na manh seguinte fui surpreendido por um telefonema de Tony Martin.

No nos disseste que estavas c.

Tenho tido imenso que fazer.

Quero que venhas ao meu espectculo, hoje  noite.

No tinha qualquer inteno de me encontrar com o homem que se casara com a mulher de quem eu gostava.

No posso... eu...

Vou deixar um bilhete para ti na bilheteira. E acrescentou: Vem ter connosco aos bastidores e desligou.

Eu no estava nada interessado em ver o espectculo dele. Iria aos bastidores dizer-lhe como era brilhante e sairia imediatamente.

Mas acabei por ir ver o espectculo e era espantoso. A audincia adorou-o. Fui ao camarim dele nos bastidores para lhe dar os parabns e Cyd estava l. Recebi um 
enorme abrao e ela apresentou-nos.

Hoje vens cear connosco disse ele. Abanei a cabea.

Muito obrigado, mas...

Vamos embora.

Tony Martin revelou-se um dos homens mais simpticos que alguma vez conheci.

A ceia foi num clube privado. O que eu no sabia era que os clubes privados em Inglaterra estavam imunes ao racionamento.

O empregado informou:

Hoje temos uns bifes excelentes. Todos encomendmos bifes.

O empregado perguntou-me:

Deseja um ovo com o seu bife, senhor?

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E este foi o primeiro ovo que comi desde que chegara a Londres. A partir da, passei todas as outras noites com Cyd e Tony, divertindo-me imenso na lua-de-mel deles.

Uma noite, ele virou-se para mim e disse:

Partimos amanh de manh para Paris. Faz as malas. Vens connosco.

Nem discuti.

Vomos para Paris e foi maravilhoso. Tony alugou uma limusina para nos levar a ver os locais tursticos do costume, o Arco do Triunfo, o Louvre, o Tmulo de Napoleo... 
e comemos refeies deleitosas.

Um domingo de manh, Tony contratara uma limusina para nos levar a Longchamps para ver as corridas. Infelizmente, todos tnhamos apanhado uma intoxicao alimentar 
na vspera e estvamos muito mal.

Ele telefonou-me.

Eu e Cyd sentimo-nos muito mal. No vamos poder ir s corridas.

Nem eu, Tony, estou...

Est uma limusina l em baixo  tua espera. Aproveita.

Mas, Tony...

Aproveita... e aposta num cavalo por ns.

Fui at Longchamps sozinho e mais ou menos inconsciente. Junto ao guich das apostas, havia uma fila enorme. Quando chegou, finalmente, a minha vez, o homem atrs 
do vidro perguntou:

OMZ?

Eu no falava francs. Lancei umas notas pela abertura e mostrei-lhe um dedo, "Nmero une" e toquei no meu nariz. Ele respondeu algo ininteligvel e empurrou o dinheiro 
na minha direco.

Voltei a insistir.

Nmero une e, mostrando-lhe um dedo, levei-o ao nariz. No nariz, para ganhar.

Ele empurrou outra vez o dinheiro na minha direco. As pessoas atrs de mim comeavam a ficar impacientes. Um homem saiu da fila e aproximou-se.

Qual  o problema? perguntou em ingls.

Estou a tentar apostar este dinheiro no nmero um, para ganhar. O homem falou em trances com o caixa e virou-se para mim.

O nmero um foi riscado. Escolha outro cavalo.

Escolhi o nmero dois, recebi um monte de bilhetes e cambaleei dali para fora, para ver a corrida.

O nmero dois ganhou e eu, Tony e Cyd, dividimos o dinheiro.

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Aquela viagem foi algo que nunca esqueci, e resolvi ir  Europa todos os anos.

Nesse ms de Agosto, Dore Schary demitiu-se do lugar de director da RKO, depois de aceitar uma proposta de Louis B. Mayer para passar a director de produo da MGM. 
O meu antigo patro era agora o meu novo patro.

Fui destacado para escrever o argumento de Nancy Ges to Rio, que teria como actores principais Ann Sothern, Jane Powell, Barry Sullivan, Carmen Miranda e Louis 
Calhem.

O filme era produzido por Joe Pasternak, um produtor hngaro de meia idade, dono de um forte sotaque. Antes de vir para a MGM, produzira pequenos filmes na Universal, 
um estdio que se encontrava  beira da falncia. Uma jovem actriz chamada Deanna Durbin foi libertada do seu contrato com a MGM e foi para a Universal. Joe Pasternak 
foi designado pela Universal para fazer um filme com Deanna chamado Three Smart Girls.

Para grande surpresa do estdio, o filme foi um sucesso de bilheteira. De um dia para o outro, Deanna Durbin transformou-se numa grande estrela e a Universal foi 
salva. Pouco tempo depois, Joe Pasternak aceitou uma oferta de emprego da MGM como produtor.

Um dia, Dore Schary convocou uma reunio de todos os produtores.

Quando todos estavam sentados no seu gabinete, Dore comeou a falar:

Temos um problema. Acabei de comprar uma pea chamada Tea and Simpathy.  um sucesso da Broadway, mas o departamento de censura no nos deixa fazer o filme porque 
inclui um homossexual. Temos de o fazer chegando l de outra maneira. Quero ouvir as vossas sugestes.

Fez-se um silncio pensativo. Um dos produtores aventou:

Em vez de um homossexual, podemos fazer dele um alcolico. Outro sugeriu:

Pode ser um drogado.

Pode ser aleijado.

Uma dzia de ideias diferentes foram sugeridas por todos, mas nenhuma era satisfatria.

Depois de algum silncio, Joe Pasternak falou:

 muito simples, mantemos a pea exactamente como est. Ele

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 homossexual. E depois acrescentou com ar triunfante mas, no final, tudo no passa de um sonho. E a reunio acabou ali.

Uma das vantagens de trabalhar em Nancy Ges to Rio foi conhecer Louis Calhem. Comeara no teatro e era um actor brilhante. Tinha uma aparncia imponente, era alto, 
de nariz curvo e dono de uma voz poderosa. Tivera trs breves casamentos com trs actrizes e ia a caminho do quarto. Possua um maravilhoso sentido de humor e era 
um encanto estar com ele. Acabara de desempenhar o papel principal em The Magntficient Yankee, a histria de Justice Oliver Wendell Holmes.

Sempre que vinha jantar a minha casa, mal passava a porta, dizia logo em voz alta:

Onde raio est a comida?

Um dia mandou-me um telegrama que dizia:

"Soube que a minha mulher foi convencida a marcar um encontro entre ns os dois no prximo sbado dia quatro,  noite. Encontro-me consigo no teatro depois de se 
apagarem as luzes. No esteja  espera de ser visto em pblico comigo. Calhem".

Um agente apresentou-me uma linda e jovem actriz sueca que viera para os Estados Unidos para fazer um teste na Universal. Era encantadora e tivemos um romance.

Umas semanas mais tarde, um domingo de madrugada, estava eu a dormir, a campainha da porta comeou a tocar. Eram quatro da manh. Os toques eram cada vez mais insistentes. 
Relutante, levantei-me, vesti um robe, dirigi-me  porta e abri-a.

Um desconhecido com uma arma na mo empurrou-me para o lado e entrou na sala.

O meu corao comeou a bater, desenfreado.

Se isto  um assalto, leve tudo o que... comecei a dizer.

Filho da me! Eu vou mat-lo! No era um assalto.

Em momentos como este, um escritor devia pensar: Que material espectacular! Mas a nica coisa em que pensei foi: Vou morrer!

Eu no o conheo!

Pois no! Mas conhece a minha mulher gritou. Tem andado a dormir com ela.

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Eu sabia que ele se enganara. Nunca tinha casos com mulheres casadas.

Oua comecei a dizer. No fao ideia do que  que est para a a dizer. Eu no sei quem  a sua mulher!

A Ingrid! e levantou a arma.

Mas... eu... No era um engano. Espere a! Mas a Ingrid nunca me disse que era casada!

A cabra casou comigo para conseguir um visto para entrar neste pas.

Calma. Eu no sei de nada disso. Ela no usa aliana e nunca me falou em nenhum marido, como  que eu podia saber? Sente-se e

vamos conversar.

Ele hesitou uns segundos e deixou-se cair numa cadeira. Ambos suvamos profusamente.

Eu no sou assim, mas eu amo-a e ela usou-me.

No o culpo por estar perturbado. Acho que ambos precisamos de um copo e, preparei duas bebidas bem fortes para os dois.

Cinco minutos mais tarde, contava-me a histria da vida dele. Era escritor e conhecera Ingrid na Europa. No conseguia arranjar trabalho em Hollywood.

Precisa de trabalho? Deixe que eu trato disso. Falo com o Kenneth McKenna, da Metro.

O rosto dele iluminou-se.

A srio? Ficava-lhe muito grato.

Cinco minutos depois, ele e a arma tinham sumido.

Apaguei as luzes, voltei para a cama ainda a arquejar e tinha finalmente acabado de adormecer quando ouvi de novo baterem  porta.

Ele est de volta, pensei. Mudou de ideias. Est decidido a matar-me.

Levantei-me, fui  porta e abri-a. Ingrid estava de p do lado de fora. Levara uma enorme sova. Tinha o rosto pisado, dois olhos negros e sangrava do lbio. Puxei-a 
para dentro.

Ela mal conseguia falar.

Tenho que te dizer...

No tens que me dizer nada. O teu marido esteve c. Deita-te. Vou chamar um mdico.

Consegui acordar o meu mdico e, uma hora mais tarde, ele apareceu e cuidou de Ingrid. Ela tinha uma costela partida e ndoas negras por todo o corpo.

Quando o mdico saiu, ela disse:

No sei o que fazer. Tenho um teste esta manh na Universal.

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Abanei a cabea.

J no tens. No podes aparecer assim. Vou telefonar e cancelar o teste.
E foi o que fiz. IIngrid foi-se embora nessa noite e nunca mais a vi.

Em 1948, Cy Feuer e Ernie Martin, uma nova equipa produtora, apareceram no estdio para falarem comigo.

Estamos a fazer um espectculo na Broadway que se chama Where's Charley fe baseado no clssico Charley's Aunt. Queremos que o escreva. J aprovmos o seu nome junto 
do Brandon Thomas Estate. Frank Loesser vai escrever a msica, Ray Bolger  o actor principal.

Frank Loesser escrevera vrias msicas populares, mas nunca fizera nenhum espectculo na Broadway. Eu conhecia o enredo de Charley's Aunt e gostava dele. Achei que 
podia ser um grande xito.

Gostava de conhecer o Frank.

Vamos tratar disso.

Frank Loesser era um dnamo. Tinha trinta e muitos anos, talento e ambio. Escrevera o xito do tempo da guerra Prinse the Lord and Pass the Ammumtion e vrias 
outras canes populares, incluindo The Moon ofMankoora, On a Slow Boat to China, The Boys in the Back Room e Kiss the Boys Goodbye.

Tenho umas ideias excelentes. Podemos fazer disto um estrondoso xito disse Frank.

Tambm acho.

Eu trabalho no libreto consigo.

Frank, isso vai ser maravilhoso e eu trabalho nas msicas consigo. Fez um enorme sorriso.

Deixe estar.

Fui falar com Dore Schary.

Vou tirar os meus trs meses de licena para fazer um espectculo na Broadway informei-o.

Que espectculo?

O Where's Charley.  uma reposio de Charley's Aunt. Dore abanou a cabea.

A Broadway  arriscada. Ri-me.

Eu sei, Dore. J por l andei.

No acho que seja boa ideia.

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Bom, eu j me comprometi e...

Fao um trato consigo. Que tal escrever o argumento de Annie Get Your Gun?

O qu?

Se no fizer esse espectculo, eu destaco-o para escrever Annie. Annie Get Your Gun era o maior xito da Broadway. Estava em cena

h trs anos e tinha quatro companhias por fora.

Em 1945, Herbert e Dorothy Fields tinham abordado Richard Rodgers e Oscar Hammerstein e sugerido fazerem um espectculo sobre Annie Oakley. Dorothy Fields escreveria 
as letras e Jerome Kern concordara em fazer a msica.

Trs dias depois de chegar a Nova Iorque, Kern sofreu um ataque cardaco e poucos dias depois morreu. Rodgers e Hammerstein decidiram que Irving Berlin escreveria 
a msica. O espectculo tinha uma dzia de sucessos, incluindo o tradicional There's no Business Like Show Business. A MGM pagara seiscentos mil dlares pelos direitos 
de Annie Get Your Gun, o preo mais elevado pago at ali por um musical.

O que me diz? perguntou Dore.

Pensei no assunto. Eu tinha a certeza que Where's Charley ia ser um sucesso, mas estava excitado com a possibilidade de voltar a trabalhar com Irving Berlin. Era 
impossvel dizer que no  oferta de Dore.

Aceito respondi.

Nessa tarde telefonei a Feuer, e a Martin, e a Frank Loesser e expliquei-lhes a minha deciso.

Sei que vo ter um grande sucesso comentei. E tinha razo.

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CAPTULO 20

Carlos Eduardo

Era muito excitante trabalhar outra vez com Irving Berlin. Ele no perdera nem um pouco da energia. Entrou pelo meu gabinete a danar, sorriu e disse:

Isto ainda vai ser melhor do que a pea. Vamos falar com o Arthur.

Arthur Freed estava no seu gabinete, sentado  secretria. Olhou para ns quando entrmos.

Isto vai ser um enorme sucesso disse ele. O estdio apoia a cem por cento.

Arthur, j tem algum em mente? perguntei.

Judy Garland far o papel de Annie e um jovem e talentoso actor e cantor chamado Howard Keel, o de Frank. Louie Calhem ser Buffalo Bill e George Sidney  o realizador.

Eu ia trabalhar de novo com a Judy. E ia poder estar com o Louie Calhem.

Arthur Freed virou-se para mim.

Agora tens de voar para Nova Iorque e Chicago para veres a pea.

Em Nova Iorque, o papel de Annie era desempenhado pela Ethel Merman e em Chicago pela Mary Martin.

Quando queres que parta?

O teu avio parte amanh, s nove da manh.

Annie Get Your Gun era um excelente entertenimento. O livro, escrito por Herbert e Dorothy Fields, era rpido e espirituoso e o desempenho de Ethel Merman era enrgico, 
vistoso e descarado. Na manh seguinte voei at Chicago para ver Mary Martin.

Esta abordara o papel de uma forma diferente. A Annie dela era tmida e envolvida numa pungente doura. O meu desafio era criar uma personagem que combinasse os 
melhores elementos de ambas.

Trabalhar num xito como Annie Get Your Gun tinha os seus perigos. No me podia afastar muito do tema original e, no entanto, era preciso

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abrir um pouco a pea para o ecr. Muitas das cenas resultavam bem no palco mas no resultariam na tela. Tinha de criar cenas novas.

O maior problema era o hiato entre o primeiro e o segundo acto. No palco, o primeiro acto terminava com Annie a partir para a Europa. O segundo comeava com o seu 
regresso. O problema estava em decidir o que fazer ao argumento para ligar os dois.

Podia mostrar uma montagem de breves cenas de Annie em diferentes pases ou podia circunscrever-me a um pas s. O intervalo deveria ser longo ou curto? Estas decises 
no eram minhas, porque filmar essas cenas envolveria muito dinheiro. Era uma deciso que competia ao produtor.

Liguei para o escritrio de Arthur Freed e marquei uma hora para falar com ele. Uma hora depois, a secretria ligou-me a cancelar a marcao. Marquei outra hora 
para o dia seguinte. A secretria voltou a ligar e a cancelar. Isto aconteceu durante trs dias seguidos. Na tarde do terceiro dia, Sammy Weisbord apareceu no meu 
gabinete.

Acabo de vir do escritrio de Arthur Freed. Ele est muito desapontado contigo.

Senti o pnico a invadir-me.

O que foi que eu fiz?

Arthur diz que tu ainda no lhe entregaste nada, nem uma pgina.

Mas... Eu estou farto de tentar marcar reunies com ele para discutirmos... De repente percebi o que se passava. Arthur Freed no estava interessado em discutir 
o argumento. S estava interessado nos aspectos musicais do filme, na msica, nos bailados, nas jovens. Eu tinha a sensao de que ele no era capaz de visualizar 
como as cenas sairiam. Lembrei-me da forma como reagira ao meu argumento para o Easter Parade. No emitira qualquer comentrio at ter ouvido a opinio das estrelas.

O seu dom residia em ser capaz de seleccionar a pea ideal e em contratar os melhores para a fazerem. Respirei fundo. Sem ningum para me orientar, seria eu a tomar 
as decises, por isso comecei a escrever o argumento. Estava a correr bem e s esperava continuar sem problemas.

Terminei o roteiro, entreguei-o e fiquei  espera. Estava curioso em ver quem ia ser o primeiro a contactar-me.

No dia seguinte, George Sidney, que realizava o filme, entrou no meu gabinete.

Queres que eu te lisonjeie ou preferes a verdade?

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A minha boca ficou seca.

A verdade.

George Sidney abriu um sorriso e respondeu:

Adorei! Fizeste um trabalho espantoso. Vamos ter um filme sensacional. Os seus olhos brilhavam.

Depois eu de ter ouvido comentrios sobre o meu argumento de todos os que entravam no filme, Arthur Freed comentou:

Sidney, captou muitssimo bem o tom da pea.

Judy gravou a trilha sonora e a produo comeou. De vez em quando, em alturas em que no estava a filmar, Judy aparecia no meu gabinete para conversar um pouco.

Est a correr bem, no est, Sidney? Ela parecia nervosa.

Est a correr lindamente, Judy!

Est, no est? perguntou.

Observei-a com ateno. Parecia tensa e interroguei-me qual seria o seu aspecto debaixo da maquilhagem.

Comecei a ouvir uns rumores inquietantes. Judy estava sempre atrasada e no sabia o texto. A produo era interrompida. Ela telefonava a George Sidney s duas da 
manh para lhe dizer que no tinha a certeza se ia conseguir aparecer no estdio no dia seguinte ou no.

Por fim, a produo parou mesmo e nesse dia o estdio anunciou que ela fora substituda. Fiquei triste. Quando ouvi as novidades, tentei telefonar-lhe, mas ela partira 
para a Europa, arrasada.

O papel de Annie foi dado a Betty Garrett, uma jovem actriz cheia de talento que protagonizara a minha pea jackpot e que era casada com Larry Parks, que fizera 
o papel de Jolson em Thejolson Story.

Benny Thau encontrou-se com o agente de Garrett.

Queremos uma opo para os prximos trs filmes da Betty. O agente dela abanou a cabea.

S a podem ter para este filme e no h opes.

Assim, graas ao seu agente, Betty Garrett perdeu o papel da vida dela. Betty Hutton foi contratada para o papel de Annie e a produo continuou sem mais incidentes.

Uma manh, durante as filmagens, Irving Berlin entrou no meu gabinete:

Sidney, porque  que ns nunca fizemos um espectculo da Broadway juntos?

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O meu corao deu um salto. Escrever um musical com Irving Berlin era virtualmente garantia de sucesso. Tentei soar descontrado:

Irving, teria o maior prazer em fazer um espectculo consigo.

ptimo! Tenho uma ideia.

E comeou a andar de um lado para o outro enquanto me contava a sua ideia.

Dei uma olhadela ao relgio.

Irving, tenho imensa pena de o interromper, mas tenho um almoo marcado para o meio dia e meia e preciso de sair agora. Porque no falamos quando eu voltar? perguntei.

Onde  o almoo?

 em Berverly Hills, no Brown Derby.

Eu acompanho-o at l.

E Irving Berlin entrou para o meu carro e fez o percurso todo comigo at ao restaurante, enquanto o seu motorista nos seguia, para poder ir falando sobre a ideia 
que tinha, em vez de ter de esperar uma hora at que eu voltasse do almoo. Nunca vira um entusiasmo to grande.

Nessa mesma tarde, Irving disse que ia a Los Angeles porque um cantor novo ia cantar uma das suas canes. Este era Irving Berlin aos sessenta anos, um gnio cheio 
de dinamismo, no topo da sua criatividade.

Os anos no lhe foram favorveis. Aos noventa anos, comeou a ficar paranico. Um dia, Tommy Tune, o talentoso produtor e coregrafo da Broadway, telefonou-lhe:

Irving, gostava de fazer um musical baseado em algumas das suas canes.

No. No pode ser. Tommy Tune ficou espantado.

Porqu?

Porque j h demasiadas pessoas a cantarem as minhas canes respondeu baixinho.

Com grande pena minha, nunca chegmos afazer o tal musical juntos.

Um dos maiores prazeres de escrever Annie GelYoui Gun foi conhecer Howard Keel, um homem alto e dominador com uma voz incrvel. Devido a uma cena do filme, Howard 
teve de aprender a atirar aos pratos, por isso costumvamos ir a uma carreira de tiro e competamos um com o outro.

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Ele ganhou-me sempre.

A produo sob a direco de George Sidney corria bem e a ps-produo estava quase pronta.

Quando, em 1950, Annie Get Your Gun estreou, as crticas foram unnimes e excelentes. Os crticos de Nova Iorque chamaram-lhe "O grande musical do ano".

"Annie Get Your Gun volta a pr o cinema na primeira linha."

"O filme Annie  ainda melhor do que a pea."

"Graas a Berlin e aos Fields, um estrondoso xito."

Betty Hutton recebeu o prmio Photoplay para a actriz mais popular e eu recebi o prmio do Writers Guild of America Screen pelo meu argumento.

Em 1950, a Variety publicou uma lista dos nomes dos filmes com as maiores receitas de bilheteiras de todos os tempos. Da lista constavam trs filmes escritos por 
mim: The Bachelor and the Bobby-Soxer, Easter Parade e Annie Get your Gun.

Os meus perodos de depresso tinham parado e parti do princpio de que o psiquiatra se enganara quanto  minha psicose manaco-depressiva. Eu estava bem. Continuei 
a sair com Dona Holloway e gostava muito da companhia dela.

Uma noite, ao jantar, ela perguntou-me:

Gostavas de conhecer a Marilyn Monroe?

Claro que gostava respondi.

Muito bem, vou tratar disso respondeu.

Marilyn Monroe era um smbolo sexual, uma super-estrela. O seu passado complicado inclua uma me louca, o ter crescido em casas de acolhimento, um casamento falhado 
e uma longa batalha contra o lcool e os barbitricos. Mas tinha uma coisa que ningum lhe podia tirar: talento.

No dia seguinte, Dona telefonou-me.

Na sexta-feira vais jantar com a Marilyn Monroe. Vai busc-la ao apartamento dela. E deu-me a morada.

Aguardei por sexta-feira com grande expectativa. Marilyn fizera vrios filmes de sucesso: Gentlemen Prefet Bkmdes, Haw to Many a Millionaire e Monkey Business, com 
o Cary Grant.

A noite no correu como eu imaginara.  hora marcada, cheguei ao apartamento dela e uma mulher que lhe fazia companhia abriu-me a porta.

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A menina Monroe vem ter consigo dentro de poucos minutos. Est a acabar de se vestir.

Os poucos minutos transformaram-se em quarenta e cinco. Quando finalmente emergiu do quarto, estava espantosa. Pegou na minha mo e disse em voz suave:

Tenho muito gosto em conhec-lo, Sidney. Admiro muito o seu trabalho.

Jantmos num restaurante de Beverly Hills.

Fale-me de si pedi.

E ela comeou a falar. Para meu grande espanto, o tema da conversa girou  volta de Dostoievsky, Pushkin e vrios outros escritores russos. O que dizia parecia-me 
to incongruente vindo desta maravilhosa jovem mulher que era como se estivesse ajantar com duas pessoas totalmente diferentes. Percebi no entanto que o seu conhecimento 
no era profundo. S mais tarde  que soube que ela saa com Arthur Miller e Elia Kazan e que eles eram os seus mentores. Foi uma noite muito agradvel, mas no 
lhe voltei a telefonar.

Pouco tempo depois do nosso jantar, ela casou com Arthur Miller.

Numa noite de Agosto de 1962, fui convidado parajantar em casa de Liy Engelberg, o meu mdico. De repente, a meio do jantar, ele foi chamado ao telefone. Voltou 
 mesa e explicou:

Tenho uma urgncia. J venho. Passaram-se duas horas at que finalmente voltou.

Peo imensa desculpa, mas era uma doente minha... Hesitou. A Marilyn Monroe. Morreu.

Ela tinha trinta e seis anos.

Eu vira pela primeira vez Harry Cohn, o chefe de produo da Columba Pictures, com Dona Holloway. Cohn tinha a reputao de ser o executivo mais duro de Hollywood. 
Uma vez ele gabara-se:

Eu no tenho lceras, fao-as aos outros.

Era voz corrente que s temia uma pessoa, Louis B. Mayer. Um dia, este ligou-lhe e disse:

Harry, est tramado. Receoso, Cohn perguntou:

Qual  o problema, L. B.?

Voc tem sob contrato um actor que eu quero.

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Aliviado, Cohn respondeu:

Leve-o, L. B., leve quem quiser.

Durante a Segunda Guerra Mundial, havia um ditado: "Todo o escritor da Columbia que se despea para ir para o Exrcito  um cobarde."

Quando Harry Cohn tinha uns vinte e poucos anos, o seu melhor amigo era Harry Ruby e trabalhavam juntos num elctrico em Nova Iorque. Harry Cohn como condutor e 
Harry Ruby como revisor. Eram inseparveis.

Anos mais tarde, quandoj estavam ambos em Hollywood, saram juntos, cada um com uma mulher, e falaram dos velhos tempos. Harry Cohn dirigia agora um estdio e Harry 
Ruby era um compositor de sucesso.

Os elctricos desapareceram como os dinossauros disse Harry Ruby. Quando ns trabalhvamos neles, era bem divertido.

Harry Ruby virou-se para as jovens e acenou em direco a Cohn.

Ele ganhava dezoito dlares por semana e eu ganhava vinte. Cohn ficou vermelho.

Eu ganhava vinte, tu  que ganhavas dezoito rosnou. Harry Ruby nunca mais viu Harry Cohn.

Eu vira Harry Cohn em vrios jantares. A primeira vez que nos encontrmos, ele dizia coisas aviltantes sobre os escritores, e como eram preguiosos.

Eu obrigo os meus escritores a entrarem todas as manhs s nove, tal como as secretrias.

Se pensa que com isso vai conseguir bons argumentos, devia estar noutra profisso respondi.

O que raio sabe o senhor acerca disso?

E comemos a discutir. Quando voltei a v-lo numa festa, ele veio logo ter comigo. Gostava de discusses. Convidou-me para almoar.

Sabe, Sheldon, antes de contratar um produtor eu pergunto-lhe sempre qual  o handicapdele no golfe.

Porque  que isso lhe interessa?

Porque se o handicap dele for baixo eu no o quero. S quero produtores que estejam apenas interessados em produzir para mim. Noutra ocasio, disse-me: Sabe quando 
 que eu contrato um produtor caro? Quando acabou de ter um falhano. O preo dele desce.

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Um dia, quando eu estava no escritrio de Harry Cohn, a voz do director de estdio ouviu-se no intercomunicador:

Harry, tenho a Donna Reed ao telefone. O regimento do Tony vai ser mandado para o estrangeiro e ela quer ficar com ele em So Francisco at  partida.

Tony Owen, marido da Donna, era produtor.

Ela no pode ir respondeu, e virou-se de novo para mim. Um minuto mais tarde, o director de estdio voltou a ligar.

Harry, a Donna est muito perturbada. Podem passar-se anos at ela voltar a ver o marido e neste momento ns no precisamos dela.

A resposta  no respondeu.

O director de estdio ligou uma terceira vez.

Harry, a Donna est lavada em lgrimas. Diz que vai de qualquer forma.

Harry Cohn abriu um sorriso.

Muito bem. Fica suspensa.

Fiquei a olhar para ele, sem palavras, e interroguei-me com que tipo de monstro  que eu estava a lidar.

Li um livro brilhante de George Orwell chamado 1984, o qual previa o futuro das ditaduras russas com trinta e cinco anos de antecedncia. Era um cenrio horrendo. 
Achei que podia ser uma pea maravilhosa para a Broadway. Escrevi a Orwell pedindo-lhe os direitos para o palco e ele cedeu-mos.

Fui ter com Dore Schary e disse-lhe que ia fazer 1984. Dore, o liberal, respondeu:

J li o livro.  muito bom, mas  anti-russo. No devia fazer uma pea dessas.

Dore, esta pode ser uma pea muito importante.

Porque  que no escreve a Orwell e lhe diz que no devia ser anti-russo, s anti-ditadura? Por outras palavras, de forma a que se possa adaptar a qualquer pas.

Pensei nas palavras dele por um momento.

Muito bem. Vou fazer isso. Escrevi a Orwell e ele respondeu-me:

Caro senhor Sheldon,

Muito obrigado pela sua carta de 9 de Agosto. Parece-me que a sua interpretao da tendncia poltica do livro se encontra muito perto

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daquilo que eu pretendia dizer. Ele baseia-se acima de tudo no comunismo porque essa  a forma dominante de totalitarismo, mas o que eu pretendia era imaginar como 
seria o comunismo se este estivesse firmemente enraizado em pases de expresso inglesa e no fosse mais uma mera extenso do Ministrio dos Negcios Estrangeiros 
russo. Acima de tudo, o que eu no pretendia  que fosse um ataque ao Partido Trabalhista ingls ou a qualquer economia colectivista em si. No tenho dvidas de 
que no preciso de lho dizer, mas chamo-lhe a ateno porque parte da imprensa americana tem usado este livro como um sermo, sobre aquilo a que o socialismo em 
Inglaterra vai conduzir".

Dore manteve-me to ocupado que acabei por ter de abandonar o meu projecto do 1984.

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CAPTULO 21

Kenneth McKenna destacou-me para escrever Rich, Young and Pretty, um musical que tinha como estrelas Jane Powell, Danielle Darrieux, Wendell Corey e um jovem cantor 
chamado Vic Damone. Um elenco talentoso.

Contava a histria de umajovem que, durante uma viagem a Paris, se apaixona. Uma histria que precisava de muito movimento e de um toque de leveza.

Uma manh, Jules Stein telefonou-me:

Eu e a Doris vamos jantar contigo esta noite. Importas-te que levemos algum connosco?

Claro que no respondi.

Mais uma pessoa no fazia a mnima diferena porque, de qualquer das maneiras, o espao era sempre apertado.

Nessa noite, Jules e Doris chegaram acompanhados por umjovem elegante e com bom aspecto.

Queremos apresentar-te o Fernando Lamas. Vai entrar no teu filme.

O Fernando tinha um sotaque da Amrica do Sul e revelou-se no s um homem encantador como bastante inteligente. Uma vez, foi convidado para o Tonight Show do Johnny 
Carson e, quando este comeou a fazer troa do seu sotaque, o Fernando f-lo parar.

Quando algum tem sotaque fez questo de informar a Carson isso significa que fala mais uma lngua do que voc.

Os espectadores na sala aplaudiram.

No primeiro dia de filmagens, eu estava no estdio de Rich, Yound and Pretty. O argumento fora escrito por mim e por Dorothy Cooper, uma maravilhosa escritora contratada. 
Era o primeiro filme de Vic

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Damone e ele estava compreensivelmente nervoso. O realizador era Norman Taurog, um velho profissional.

Muito bem. Vamos a um take chamou ele. Vic Damone pediu nervosamente:

Desculpe, senhor Taurog, posso beber primeiro um copo de gua?

Norman Taurog olhou para ele e respondeu:

No. Comecem a filmar.

Rich, Young and Pretty comeou a ser filmado.

O filme teve um relativo sucesso nas bilheteiras. Nesse mesmo ano escrevi tambm uma comdia musical chamada Nancy Ges to Rio, com Ann Sothern, Jane Powell e Barry 
Sullivan. Contava a histria de uma me e uma filha que se apaixonam pelo mesmo homem. Quando terminei o argumento, escrevi o No Questions Asked, com Barry Sullivan, 
Arlene Dahl e George Murphy.

Um executivo do estdio fez um dia uma viagem de avio e conheceu Pug Wells, uma assistente de bordo que o deixou fascinado. Era alegre e efervescente e, quando 
o executivo lhe comeou a fazer perguntas sobre a vida privada dela, ficou ainda mais fascinado. No regresso aos estdios, sugeriu a Dore fazermos um filme com base 
na personagem dela. Foi a minha tarefa seguinte.

Eu trabalhava com Ruth Brooks Flippen, uma das escritoras mais importantes do estdio. O produtor era Armand Deutsch, que Dore trouxera com ele da costa leste. Armand, 
ou Ardie, como era conhecido, no tinha experincia de cinema, mas Dore ficara muito impressionado com o seu intelecto.

Quando conheci Ardie, gostei imediatamente dele. Em vez de ter a atitude contida da maior parte dos produtores, era um entusiasta.

Sentei-me para comear a escrever o argumento. Decidi complicar um pouco a vida da personagem Pug Wells, no com um homem, mas com trs. E assim nasceu o meu ttulo, 
Three Cuys Named Mike.

No dia em que mostrei a Ardie o incio do meu argumento, este desatou literalmente aos saltos de excitao. Claro que depois disso eu estava sempre ansioso por lhe 
mostrar mais trabalho. Era maravilhoso trabalhar com ele. Quando terminei o argumento, ele comentou:

Este  um papel espectacular para a Jane Wyman.

E os homens?

Van Johnson, Howard Keel e Barry Sullivan. O meu elenco de sonho.

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Ardie conseguiu o seu elenco de sonho. Comemos a filmar na Primavera de 1950 e o filme correu bem.

Por razes que agora me escapam, decidi que queria entrar como actor no filme e falei com Ardie acerca disso.

Muito bem. E que papel queres tu? perguntou.

Ainda no o escrevi respondi.

Eu sabia como escrever um papel que no poderia ser cortado de um filme. O segredo residia em criar uma personagem que estava com o actor ou a actriz principal no 
momento em que ele ou ela  apresentado. Como no se podia cortar a cena da apresentao da estrela principal, tambm no se podia cortar a cena do outro actor. 
Escrevi para mim um papel bem curto como jardineiro na cena de apresentao de Barry Sullivan.

No dia seguinte, nas visualizaes dirias, quando vi o meu desempenho, teria dado qualquer quantia de dinheiro para no o ter feito. Eu era horrvel.

Fui destacado para was This Once, uma ideia original de Max Trell muito engraada. Tinha como base um perdulrio que levava uma vida louca, gastando a herana que 
recebera. O executor do seu patrimnio estava to preocupado que contratava um curador para controlar os gastos do homem. S que o curador revelou-se uma bela jovem.

Quando terminei o argumento, pensei que seria ideal para Cary Grant. O estdio enviou-lhe o guio, mas ele recusou-o.

O elenco foi formado com Peter Lawford, Janet Leigh e Lewis Stone, que fizera o papel de Juiz Hardy na famosa srie Andy Hardy.

Um ano mais tarde, quando o filme finalmente estreou, Cary telefonou-me.

Sidney, s te quero dizer que cheguei  concluso de que tinhas razo. Eu devia ter aceite aquele papel

At hoje, yes This Once continua a ser um dos meus filmes preferidos.

Em Fevereiro de 1952 Kenneth McKenna mandou-me chamar. Acabmos de comprar uma pea da Broadway chamada Remains to be Seen.

Eu lera as crticas. Era um sucesso da Broadway e fora escrito pela

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talentosa equipa de Howard Lindsay e Russel Crouse. Contava a histria de uma cantora de uma banda de Nova Iorque que vai viver para a casa onde um seu tio rico 
fora assassinado. Assim que a jovem comea a suspeitar quem  o assassino, este decide mat-la.

Vou destacar-te para esta pea disse ele. Assenti.

Muito bem, Kenneth.

Ele no era, de forma nenhuma, um Ken.

Vais a Nova Iorque ver o espectculo e conhecer o produtor, Leland Hayward.

Leland Hayward! Fiquei com a cabea a andar  roda. Ainda me lembrava da lista de clientes da Leland Hayward Agency, quando l estava. Ben Hecht, Charles MacArthur, 
Nunnally Johnson.

Hayward produziria mais filmes de prestgio, The OldMan and The Sea, The Spirit ofSt. Louis e Mister Roberts.

No dia seguinte ao da minha chegada, almocei com Leland Hayward no hotel Plaza. Ele tinha a reputao de ser algum que vivia bem e apreciava a vida. Fora casado 
com Pamela Churchill, Margaret Sullavan e Nancy Hawks, todas umas verdadeiras belezas. Era um homem carismtico, com cabelo grisalho cuidadosamente tratado, e apresentava-se 
sempre elegantemente vestido.

Leland, que j estava sentado  mesa quando eu cheguei, levantou-se para me cumprimentar e disse:

Tenho muito prazer em conhec-lo.

No achei que valesse a pena lembrar-lhe que doze anos antes fora um cliente de dezassete dlares por semana da agncia dele. Comemos a almoar e ele demonstrou-se 
um grande conversador, interessante e espirituoso.

Falmos da pea.

J a li. Acho que  maravilhosa.

ptimo. Fico satisfeito que seja voc a fazer o argumento. Ele tratara de tudo de forma a que eu pudesse ver a pea nessa noite. O elenco era excelente, liderado 
porjackie Cooper, Harry Shaw Lowe, Madeleine Morka e Janis Paige. Faziam parte do elenco dois actores relativamente desconhecidos que anos mais tarde acabaram por 
ter carreiras de sucesso Frank Campanella e Ossie Davis. A noite foi to agradvel quanto eu antecipara.

Voltei para Hollywood para escrever o argumento. Trs meses depois, estava pronto. Entreguei-o ao produtor Arthur Hornblow.

 muito bom. Vamos j p-lo em produo disse ele.

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E tem algum elenco em mente?

O estdio vai assinar com June Allyson e Van Johnson.

Excelente.

Dias mais tarde, Dore chamou-me ao escritrio dele.

O papel de Benjamin Goodman seria perfeito para Louis Calhem.

Concordo.  um excelente actor respondi.

Mas h um problema.

Qual ?

Ele recusou. Diz que o papel  muito pequeno. Pois, tem razo, pensei.

Dore continuou:

Vocs os dois so amigos, no so?

Sim, somos.

Gostaria que o tentasse convencer a fazer este papel. Seria uma mais valia para o filme.

Assim que ouvi estas palavras, percebi que Dore estava cheio de razo.

Na noite seguinte, convidei Calhem parajantar num restaurante. Ele olhou em redor da sala e comentou:

S espero que ningum nos vejajuntos, isso ia estragar a minha reputao. Eu devia usar uma mscara.

Ouvi dizer que recusaste o papel de Benjamin Goodman.

Chamas quilo um papel? desdenhou. A propsito, gostei do teu argumento.

Dei incio ao meu ataque.

Louie, aquele vai ser um grande filme e gostava que entrasses nele. A tua personagem  essencial para o desenrolar da histria. O teu desempenho seria fundamental 
para o filme. E vai ajudar a catapultar a tua carreira para o topo. Seria muito bom para ti...

E assim continuei durante meia hora no meu papel de Otto e, quando acabei, ele respondeu:

Tens razo. Vou aceitar.

As crticas e os resultados de bilheteira no foram nada de especial e o filme no catapultou a carreira de Calhem para o topo.

Uma vez por ano, os distribuidores internacionais e os donos das salas de exibio dos filmes da MGM eram convidados a ir a Culver City para conhecerem os futuros 
projectos. Era um perodo excitante para o estdio. Os representantes de mais de uma dzia de pases de

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todo o mundo eram conduzidos a um enorme estdio para ficarem a conhecer os filmes que iam sair. Dore dirigiu-se  assembleia:

Este vai ser um dos melhores anos que alguma vez tivemos prometeu.

Depois de um curto discurso, comeou a ler a lista dos filmes que iam estrear, dizendo os nomes dos actores principais, dos realizadores e dos argumentistas de cada 
um deles. Contaram-me mais tarde que, depois de ele ter falado de alguns filmes, chegou a um dos meus.

Rich, Young and Pretty, escrito por Sidney Sheldon.

E, foi dizendo o nome de mais alguns filmes. Logo a seguir:

Nancy Ges to Rio, escrito por Sidney Sheldon.

No Questions Asked, escrito por Sidney Sheldon. Os assistentes comearam a rir.

Schary ergueu o olhar e comentou:

Pelos vistos, Sidney Sheldon escreveu a maior parte dos filmes deste ano!

Nessa tarde, Dore chamou-me ao seu escritrio.

Gostaria de vir a ser produtor? perguntou.

Nunca me ocorreu semelhante ideia! respondi, espantado.

Bom, pense nisso porque a partir de hoje  produtor.

Dore! Nem sei o que dizer!

Voc merece. Boa sorte.

Obrigado.

Voltei para o meu gabinete e pensei: Tenho trinta e quatro anos, um Oscar e sou produtor no maior estdio cinematogrfico do mundo.

Era um daqueles momentos em que me devia sentir em xtase, mas, em vez disso, sentia-me tomado por um sentimento de temor. Eu no sabia absolutamente nada sobre 
produo. Dore cometera um erro. Eu nunca seria capaz. Ia telefonar-lhe e dizer-lhe que no podia aceitar. O mais provvel era ele despedir-me, e no tardava nada 
andaria  procura de emprego.

Nessa noite, tentei conciliar o sono, mas no consegui.  meia-noite, levantei-me e fui dar uma volta, a pensar em tudo o que me estava a acontecer. Lembrei-me da 
noite em que Otto me pedira que fosse dar uma volta com ele. Sidney, cada dia  uma pgina diferente que pode estar cheia de surpresas. Nunca sabers o que vem a 
seguir enquanto no virares a pgina. Mas eu detestaria que fechasses o livro to cedo e perdesses a excitao que pode aparecer ao virar de uma pgina.

Na manh seguinte, quando acordei, decidi que pelo menos ia

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experimentar fazer um filme. Se falhasse, podia sempre voltar a ser escritor.

Nessa manh, quando entrei no estdio, constatei que me tinham mudado para um gabinete bem maior. Tambm fiquei a saber que ser produtor na MGM era muito simples. 
O departamento de histrias, que tinha acesso a todos os editores, mandava aos produtores sinopses dos livros que iam sair, bem como das peas e das histrias originais 
que eram submetidas ao estdio. Aquilo que o produtor tinha que fazer era escolher aquela que queria.

Os produtores recebiam uma lista de todos os escritores que estavam disponveis para trabalharem nos seus projectos. Assim que os guies estavam prontos, o departamento 
de audies comeava a funcionar. Davam aos produtores uma lista de actores e realizadores.

Quem  que quer?

O ltimo passo era Benny Thau, que fazia os negcios com os agentes dos escritores, dos actores e dos realizadores. Na Metro, os produtores limitavam-se literalmente 
a ficar sentados nos seus gabinetes e a carregar em botes. Ser produtor ia ser fcil.

Continuava a gostar de dar jantares em minha casa. Os amigos, os actores e os realizadores com quem trabalhava enchiam a minha humilde casa e nunca tive um momento 
aborrecido.

Uma vez, decidi fazer um sero musical e convidei um grupo dos mais talentosos msicos e compositores de Hollywood, todos eles j bem sucedidos e que continuaram 
a ter carreiras de sucesso. Entre os meus convidados estavam:

Alfred Newman, a quem chamvamos Pappy. Era baixo de estatura, mas grande em talento. Foi nomeado para mais scares do que qualquer outro compositor da histria 
do cinema e ganhou nove vezes. Tinha uma lista de mais de duzentos filmes, incluindo Alexander's Ragtime Band, Call me Madam e TheKingandI.

VictorYoung, que foi nomeado para vinte e dois scares. Escreveu a banda sonora dos filmes Wtzard de Oz, The Quiet Man, Around lhe World Eighty Days e Shane.

Dimitri Tiomkin, que escreveu a banda sonora de LostHanzon, It's a Wonderful Life, High Noon e de muitos mais filmes.

Johnny Green, que escreveu mais de uma dzia de canes de

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sucesso, incluindo I Coverthe Waterfront, Out of Nowheree You're Mine. Comps as bandas sonoras de filmes para todos os principais estdios.

Bronislau Kaper, que escreveu a banda sonora de Three Guys Named Mike. Escreveu tambm a banda sonora de Green Mansions, Butterfield 8 e Auntie Mame.

Andr Previn, que encontrou fama como dirigente ou director musical de filmes que incluem Silk Stockings, Kiss meKate, MyFairLady, Porgy and Bess e Gigi.

Era um grupo impressionante. A minha acompanhante nessa noite era uma jovem actriz que estava instalada num motel do outro lado da rua. Depois do jantar, juntmo-nos 
todos na sala de estar. Decidi diverti-los. Sentei-me  espineta e anunciei:

Ando a ter lies de piano por correspondncia.  um sistema novo, aprender a tocar por meio de nmeros.

Comecei a tocar e senti um silncio respeitoso instalar-se na sala. A meio do meu concerto, a minha acompanhante disse baixinho:

Sidney, peo desculpa por ter de te interromper, mas amanh tenho que me levantar cedo...

Ergui-me.

Eu acompanho-te ao motel, Janet. E, virando-me para os meus convidados: J venho.

Acompanhei a minha convidada at ao seu motel e no me demorei mais do que cinco minutos. Quando regressei, preparei-me para me sentar ao piano para terminar a cano. 
No havia piano. Os meus convidados tinham-no mudado para o escritrio.

Olhei em volta para os rostos sorridentes e tive pena deles.

A inveja  uma coisa terrvel.

190


CAPTULO 22

Agora que eu era produtor, comeou a chover no meu gabinete material literrio, peas, guies e histrias originais. Mas no aparecia nada que achasse excitante. 
Decidira que o primeiro filme que ia produzir seria algo de que me orgulharia. Trs semanas mais tarde, depois de ter sido feito produtor, a secretria de Dore Schary 
ligou-me:

O senhor Schary gostava que viesse ao escritrio dele. Dez minutos depois eu estava na frente de Dore.

Este hesitou por uns segundos e em seguida disse:

Harry Cohn ligou-me.

Sim?

Pediu autorizao para negociar consigo a possibilidade de ir dirigir a produo da Columbia...

Fiquei sem saber o que dizer.

No fazia ideia que ele ia...

Falei com o senhor Mayer e conclumos que vamos dizer que no. Por duas razes. Primeiro, porque estamos muito satisfeitos com o seu trabalho aqui. Segundo, porque 
temos ambos a sensao de que Harry Cohn o destruiria. Ele  um homem muito difcil com quem trabalhar. Liguei-lhe e disse-lhe qual era a nossa deciso. E olhou 
para mim com um ar de expectativa. Agora  consigo.

Eu tinha muito em que pensar. Dirigir um estdio importante era um dos trabalhos de maior prestgio em Hollywood. Por outro lado, provavelmente Schary e Mayer tinham 
razo quanto a trabalhar com Cohn. Lembrei-me da cena no escritrio de Cohn. Harry, tenho aDonna Reed ao telefone. O regimento do Tony vai ser mandado para o estrangeiro 
e ela quer ficar com ele em So Francisco at  sua partida.

Ela no pode ir.

Queria passar o resto dos meus dias a trabalhar com um homem assim? Tinha de tomar uma deciso.

Eu sinto-me muito bem aqui, Dore. Dore sorriu.

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Muito bem. Ns no o queremos perder.

Quando voltei para o meu gabinete, Harris Katleman, um agente da MCA, a principal agncia de Hollywood, estava  minha espera.

Ouvi dizer que Harry Cohn quer que v dirigir a Columbia. As notcias andam depressa, pensei.

 verdade. Dore acabou de me dizer.

Sidney, a nossa agncia gostava muito de o poder representar. Podemos arranjar um excelente negcio e...

Abanei a cabea.

Muito obrigado, Harris, mas decidi que no vou aceitar esta oferta.

Ele pareceu espantado.

Nunca ouvi falar de ningum que alguma vez tenha recusado uma oferta para dirigir um estdio.

Pois agora j ouviu.

Ele ali ficou a tentar pensar em alguma coisa para dizer. No havia nada.

No consegui deixar de me interrogar o que teria sido a minha vida caso tivesse aceite a proposta de Cohn, e pensava no lugar onde j conseguira chegar. Lembrei-me 
do guarda  entrada da Columbia Studios. Quero ser escritor. Com quem devo falar?

Tem hora marcada?

No, mas...

Sendo assim, no vai ser recebido por ningum.

Mas, deve haver algum que...

No, a no ser que tenha hora marcada.

Harry Cohn quer que v dirigir a produo da Columbia...

Pouco tempo depois da minha conversa com Dore, estava a almoar um dia na cantina do estdio quando vi Zsa Zsa Gabor sentada numa mesa prxima acompanhada por uma 
morena muito interessante. Conhecera a Zsa Zsa Gabor vrios meses antes e achava que era muito divertida. Ela e as suas irms, Eva e Magda, j eram lendas em Hollywood, 
famosas por serem famosas. Tinham vindo da Hungria, instalando-se rapidamente em Hollywood como mulheres excntricas e talentosas. De momento, era a companheira 
de Zsa Zsa que me interessava. Assim que acabei de almoar, dirigi-me  mesa delas.

Querido... Era o seu cumprimento habitual para toda a gente, incluindo os desconhecidos.

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Ol, Zsa Zsa e trocmos o Hollywoodesco beijo no ar. Ela virou-se para a jovem que a acompanhava.

Quero apresentar-lhe a Jorja Curtright.  uma actriz maravilhosa. Este  Sidney Sheldon.

Jorja acenou com a cabea.

Ol.

Querido, sente-se. Sentei-me. Virei-me para Jorja.

Ento,  actriz? O que foi que j fez? Ela respondeu de forma vaga.

Vrias coisas.

Fiquei espantado. Normalmente as actrizes no perdiam a oportunidade de debitarem aos produtores todos os seus crditos.

Olhei para ela com mais ateno. Tinha algo de magntico. Era uma beldade, com traos clssicos e olhos castanhos, profundos e inteligentes, cheios de promessas 
veladas. A voz era rouca e diferente.

Porque  que no vm as duas ao meu gabinete depois do vosso almoo? sugeri.

Temos muito gosto, querido. Jorja no disse nada.

No caminho para o meu gabinete, parei para falar comjerry Davis, o meu amigo pessoal, que era escritor contratado.

Jerry, acabei de conhecer a mulher com quem me vou casar.

E quem  ela? Quero conhec-la.

Ah, no, ainda no. No quero competio.

Quinze minutos mais tarde, Zsa Zsa ejorja entravam no meu gabinete.

Por favor, sentem-se pedi.

Conversmos disto e daquilo durante alguns minutos, por fim eu disse a Jorja:

Se no anda a sair com ningum, porque no jantamos juntos uma noite destas? E peguei numa caneta. Qual  o seu nmero de telefone?

Desculpe, mas estou muito ocupada respondeu Jorja. Zsa Zsa olhou para ela, horrorizada.

Querida, no seja tonta. O Sidney  produtor...

Desculpe insistiu Jorja, mas no estou interessada... Zsa Zsa adiantou-se e deu-me o nmero de telefone de Jorja. Ela

olhou-a fixamente, obviamente aborrecida.

-  s um jantar disse eu a Jorja. Depois telefono-lhe.

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Ela levantou-se.

Tive muito prazer em conhec-lo, senhor Sheldon. Sentia-se o gelo na sala. Fiquei a olhar enquanto as duas se afastavam. Isto no vai ser fcil, pensei para comigo.

Fui ver os crditos de Jorja Curtright. Eram impressionantes. Aparecera na televiso, em filmes e na Broadway. Acabara de fazer uma tourne desempenhando o papel 
de Stella, num xito da Broadway chamado A Street Car Named Desire. As crticas eram entusisticas.

O New York Times dizia:

"Como Stella, Jorja Curtright  soberba, enrgica e decidida na sua anlise do papel, e brilha com afectividade, piedade e compreenso."

Ela recebera tambm excelentes crticas pelo filme Whistle Stop e por uma dzia de importantes programas de televiso.

Na manh seguinte, telefonei a Jorja e convidei-a para jantar.

Desculpe, mas estou muito ocupada respondeu. Telefonei-lhe nos quatro dias seguintes e tive sempre o mesmo resultado.

No quinto dia, telefonei e disse:

Na sexta-feira vou dar um jantar. Vo l estar muitos produtores e realizadores importantes. Penso que seria bom para a sua carreira encontrar-se com eles.

Fez-se uma longa, longa pausa.

Muito bem.

Fiquei com a sensao de que aceitara porque no estaramos a ss.

Agora tinha de inventar um jantar com produtores e realizadores muito importantes.

No sei como, mas consegui. Alguns dos produtores e realizadores que apareceram conheciam o trabalho de Jorja e foram muito simpticos.

Quando a noite acabou, perguntei-lhe:

Divertiu-se esta noite?

Sim. Muito obrigada.

Vou lev-la a casa. Ela abanou a cabea.

Trouxe o meu carro. Muito obrigada por esta noite to agradvel. E comeou a dirigir-se para a porta.

Espere a. Quer jantar comigo uma destas noites? perguntei. Pensou por uns segundos.

Est bem.

Sentia-se uma notria falta de entusiasmo na voz dela.

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Na manh seguinte liguei-lhe de novo:

Hoje  noite est livre para jantar? Pela primeira vez, ela respondeu:

Estou.

Passo para a apanhar s sete e meia. E foi o incio.

Jantmos no Chasen's. Pela minha experincia, quando se estava com actrizes a conversa normalmente consistia em: "E ento eu disse ao realizador que..." e "Eu disse 
ao operador de cmara que..." e "O actor principal..." Jantar com uma actriz tinha sempre a ver com a indstria. Com Jorja, a indstria nem sequer foi mencionada. 
Ela falou da famlia e dos amigos. Vinha de uma terra pequena Mena, no Arkansas e mantinha as suas razes de terra pequena. Era a anttese de qualquer actriz que 
alguma vez conheci.

Quando nos aproximvamos do fim do jantar, perguntei:

Jorja, porque  que estava to relutante em sair comigo?

Ela hesitou.

Quer uma resposta honesta?

Claro.

Porque tem a reputao de sair com muitas mulheres e eu no tenho qualquer inteno de fazer parte da sua lista.

A Jorja no  s mais uma na lista. Porque no me d a possibilidade de lho demonstrar?

Estudou-me por momentos.

Est bem. Veremos.

E comecei a sair com Jorja todas as noites. Quanto mais a via, mais sabia que estava apaixonado. Ela tinha um sentido de humor mordaz e rimo-nos imenso. Fomo-nos 
aproximando.

Ao fim de trs meses, tomei-a nos meus braos e perguntei:

Vamos casar.

Fugimos para Las Vegas no dia seguinte.

Consegui arranjar forma de Natalie e Marty virem a Hollywood e conhecerem Jorja e todos se deram lindamente. Natalie fez-lhe um milho de perguntas e no fim concluiu 
que estava muito feliz por mim.

Planeei uma lua de mel  Europa. Comprara uma pequena casa perto de Coldwater Canyon, em Beverly Hills.

Otto e a mulher, Ann, viviam em Los Angeles e, quando lhe contei as novidades sobre Jorja, ele deu-me um abrao e disse:

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Isso  maravilhoso. J sei o que vou fazer. Como presente de casamento, vou revestir a tua casa.

A ltima ocupao de Otto era revestir casas, forrando-as com alumnio. Era uma prenda generosa, porque o revestimento era muito caro.

Que bom. Muito obrigado.

Informei Kenneth McKenna de que ia tirar trs meses de licena e partimos para a Europa. Foi uma lua de mel de sonho, que incluiu uma visita a Londres, Paris, Roma 
e a um dos meus locais preferidos no mundo, Veneza. Jamais estivera to feliz. A nuvem negra fazia parte do passado.

Por fim, chegou a altura de regressarmos a casa. Quando chegmos a Los Angeles, Otto estava  nossa espera. Seguamos de carro a caminho de casa quando ele disse:

Acho que vo adorar isto.

E tinha razo. A casa estava maravilhosa, completamente revestida por alumnio brilhante.

... E eu digo-vos o que vou fazer acrescentou, magnnimo. Dou-vos isto a preo de custo.

Jorja fazia muita televiso. Parecia sair de um programa para outro.

Uma noite, sonhou que estava a fazer um discurso apaixonado para salvar um homem de uma multido que o queria linchar. Acordou a meio da noite e sentou-se na cama. 
Gostou tanto do seu discurso que o terminou, j completamente acordada.

De volta  MGM, nos finais da primavera de 1952, encontrei um projecto de que gostei. Chamava-se Dream Wifee era um conto escrito por Alfred Levitt.

O argumento girava  volta da guerra entre os sexos. Um solteiro estava noivo de uma maravilhosa jovem funcionria do departamento de estado, que andava demasiado 
ocupada com uma crise no Mdio Oriente para ter tempo para casar com ele. Farto, ele decide casar com uma maravilhosa princesa que conhecera no Mdio Oriente. Devido 
 crise mundial do petrleo, comeam a surgir as complicaes.

Trouxe um ambicioso jovem escritor, Herbert Baker, para trabalhar comigo no argumento. A escrita corria bem. Tinha em mente Cary Grant para o principal papel masculino, 
mas sabia que ele estava sempre muito ocupado.

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Quando me envolvia num projecto ficava to absorvido que o tempo deixava de ter qualquer significado para mim. Uma noite em que fiquei a trabalhar at tarde no estdio, 
tive de repente uma ideia para uma cena que me deixou excitado. Peguei no telefone e liguei para Herbert Baker:

Podes vir aqui imediatamente? Tenho uma ideia que vais adorar. Desliguei o telefone e continuei a trabalhar.

Uma hora mais tarde ele ainda no aparecera. Voltei a ligar-lhe. Quando pegava no telefone, olhei por acaso para o relgio. Eram quatro da manh.

Assim que o argumento de Dream Wife ficou pronto, eu estava pronto para comear a escolha dos actores.

Quem  que pretende? perguntaram do departamento de audies.

Nem sequer hesitei.

O meu elenco de sonho seria Cary Grant e Deborah Kerr.

Vamos ver o que se consegue.

O guio foi mandado a Cary Grant e, cinco dias depois, recebi uma resposta.

O Cary gostou do guio. Aceitou fazer o filme. Fiquei entusiasmado.

Ele deu-nos uma lista de realizadores com quem est disposto a trabalhar, vou comear j a verificar.

As ms notcias chegaram no dia seguinte.

Todos os realizadores de que Cary falou esto ocupados a dirigir outros filmes. Porque no fala com ele?

Marquei um almoo com Cary.

Cary, estamos com um problema. Os realizadores que queres no esto disponveis. Que queres que se faa?

Ele pensou.

Eu sei quem devia realizar este filme. Fiquei mais aliviado.

Quem?

Tu.

Eu? Abanei a cabea.

Mas, Cary, eu nunca na vida realizei um filme!

Eu sei como funciona a tua cabea. Quero que sejas tu a faz-lo. Fui ter com Dore Schary.

O Cary Grant quer que seja eu a realizar o Dream Wife. Dore Schary concordou.

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Eu sei, ele ligou-me. Se  isso que ele quer, muito bem. Sers tu o realizador.

Era um milagre para mim. Poucos anos se tinham passado desde o tempo em que eu trabalhara como arrumador de cinema e via todas aquelas encantadoras e inacessveis 
estrelas do cinema. E agora, escrevia para elas, produzia e dirigia-as, tocando as vidas delas da mesma forma como elas em tempos tinham tocado a minha.

Eu estava em xtase. Ia fazer parte da lista de talentosos realizadores que tinham trabalhado com Cary, Alfred Hitchcock em Suspicion e Notarimis, George Cukor em 
Holidaye ThePhiladelphia Story, Leo McCarey em The Awful Truth e Once Upon a Honeymoon, e Howard Hawks em Bringing up Baby e His GirlFriday.

Levantei-me para sair.

Sidney, espere um minuto. Assim, vai ser argumentista, realizador e produtor. No precisa de todos esses crditos.

Virei-me e fiquei a olhar para ele.

O que  que tem em mente?

Posso pr o meu nome como produtor alvitrou. Para mim, no me fazia qualquer diferena.

Muito bem concordei.

Foi uma deciso que quase destruiu a minha carreira.

Comemos a fazer o casting. Walter Pidgeon foi escolhido, mas estvamos com dificuldade em encontrar a princesa do Mdio Oriente. Ouvi falar numa actriz chamada 
Betta St. John, que estava em Londres a fazer o filme South Pacific.

Voei at Londres para lhe fazer um teste. Era perfeita para o papel e contratei-a imediatamente. Quando regressei ao estdio, tinha um recado a dizer que Harry Cohn 
me telefonara. Devolvi-lhe o telefonema.

Sheldon, ouvi dizer que vai dirigir um filme com Cary Grant.

 verdade.

Tenha cuidado.

Que quer dizer com isso?

Cary Grant  um matador. Gosta de ser ele a dirigir as coisas. Porque  que acha que ele o escolheu para realizar o filme?

Porque acha que eu...

Ele est a tram-lo. Est a pensar que com um realizador novato consegue escapar com os seus truques. Lembre-se do que lhe estou a

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dizer, Sheldon. S pode haver um director no estdio de filmagens. Diga-lhe isso mesmo.

Eu no tinha qualquer inteno de lho dizer.

Obrigado, Harry.

Cary vinha  minha casa almoar no dia seguinte.

Quero agradecer-te por seres to meu amigo... Quero agradecer-te por teres tido f em mim... Quero agradecer-te por me teres dado uma oportunidade destas... Conto 
contigo para me dares toda a tua ajuda. Sei que no vais permitir que eu faa figura de idiota... Trabalhar contigo vai ser maravilhoso...

Cary entrou a sorrir.

J sei que encontraste a tua princesa em Londres disse.

-  verdade. Ela vai ser ptima. Cary sentou-se e dei por mim a dizer:

Cary, preciso de falar contigo. Num filme s pode haver um realizador. Gostava que isso ficasse claro antes de comearmos. Ests de acordo?

Eu no tivera qualquer inteno de dizer isto a uma das maiores estrelas do mundo, que por acaso tambm era meu amigo. De vez em quando, sem qualquer aviso, perder 
o controle das suas palavras e dos seus actos. Cary, se quisesse, punha-me fora daquele filme em dois segundos.

Ele ficou sentado a olhar para mim, sem dizer uma palavra. Ao fim de alguns momentos, surpreendeu-me, dizendo:

Certo. Errado.

Os problemas comearam ainda nem tnhamos comeado a filmar. Uma manh, Cary entrou no estdio de filmagens e parou em frente de um dos cenrios. Abanou a cabea.

Se eu soubesse que isto ia ser assim, nunca teria concordado em fazer este filme.

Quando cortei trs linhas desnecessrias do texto dele, comentou:

Se eu soubesse que ias cortar essas linhas nunca teria aceite fazer este filme.

Viu o guarda roupa que ia usar.

Se eu soubesse que estavam  espera que eu vestisse estas roupas nunca teria concordado em fazer o filme.

Uma noite antes de iniciarmos as filmagens, Deborah Kerr telefonou-me.

Sidney, queria que soubesses que o Gary veio ter comigo para me convencer que nos devamos unir contra ti. Eu respondi-lhe que no contasse comigo.

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Obrigado, Deborah.

Em que  que eu estava metido?

Na manh seguinte, quando as filmagens comearam, Cary enganou-se na primeira cena.

Corta! disse eu, e Cary virou-se para mim:

Nunca mais digas "corta" quando eu estiver no meio de uma cena. Todos no estdio o ouviram. De ento em diante, a hostilizao continuou e ao fim da tarde comentei 
para o meu director assistente:

Esta  a ltima cena. Eu desisto.

No podes fazer isso. D-lhe mais uma chance. O Cary vai acabar por se acalmar.

Cary acabou por se acalmar, mas todos os dias conseguia de alguma forma pr-me  prova.

Numa cena entre ele e Deborah, esta explicava-lhe que no podiam jantar juntos porque ela tinha de partir para o Mdio Oriente em trabalho para o Departamento de 
Estado. Deborah comeou a dizer o seu texto e de repente desatou a rir.

Corta! Vamos tentar outra vez disse eu. A cmara recomeou a rolar.

Desculpa, mas no posso jantar contigo. Tenho de ir... e desatou outra vez a rir.

Corta! Aproximei-me deles.

Qual  o problema?

Cary respondeu com ar inocente:

Nada.

Est bem. Faz a cena comigo pedi.

Cary olhava para mim com um olhar to penetrante que eu prprio comecei a rir.

Cary pedi, por favor no faas isso. Vamos l filmar a cena. Ele concordou.

Est bem.

Dali em diante a cena prosseguiu sem problemas.

Acabmos o dia de filmagens e fiquei satisfeito com o resultado. Deborah era extraordinariamente talentosa e os dois juntos eram maravilhosos.

Cary era casado com uma jovem actriz chamada Betsy Drake, com quem fizera um filme. Todas as noites, depois de um dia de filmagens,

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quando os dois saamos do estdio de filmagens, Jorja e Betsy estavam l fora  nossa espera. Cary tomava o brao de Jorja e comeava a queixar-se do que eu fizera 
durante o dia. Eu tomava o brao de Betsy e queixava-me do comportamento dele.

Um dia, enquanto filmava uma cena com Walter Pidgeon, Cary moveu as sobrancelhas para cima e para baixo como Groucho Marx.

Corta! Cary, o que ests tu a fazer?

Estou a representar a cena respondeu ele com o ar mais inocente do mundo.

Representa sem as sobrancelhas.

Muito bem.

Aco.

A cena recomeou e os movimentos das sobrancelhas continuaram. Eram to ridculos que eu prprio no me aguentei. Estava por detrs da cmara e no queria estragar 
a cena, por isso optei por morder a minha mo para evitar rir s gargalhadas. Eu no emitira qualquer som, mas, no meio da cena, Cary, que estava de costas para 
mim, virou-se e disse:

Sidney, se te continuas a rir dessa maneira, eu no consigo fazer a cena.

Os dois acabmos por chegar a um entendimento. A verdade  que gostvamos demasiado um do outro para conseguirmos manter uma guerra durante muito tempo.

Um dia, Elvis Presley veio ao estdio para assistir s filmagens. Estava no auge da popularidade e eu no sabia o que esperar. Ele revelou-se uma pessoa extraordinariamente 
educada e modesta. Era "senhor Sheldon" e "sim, senhor" e "no, senhor". Todos ficaram encantados com ele.

O que lhe aconteceu mais tarde foi horrvel. Tomava drogas, arruinou a voz e ficou gordo e feio.

Quando morreu, houve um cnico qualquer que disse:

Foi bom para a carreira dele!

Quando terminmos as filmagens, eu e Cary encontrmo-nos para almoar.

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Sidney, na prxima vez que me quiseres dirigir noutro filme, basta dizeres. Nem sequer preciso de ler o argumento.

Isto era extremamente lisonjeiro, vindo de uma estrela desejada por todos os estdios de cinema.

Dore e os outros executivos viram o filme acabado e ficaram extasiados.

Tenho excelentes notcias. O Radio City Music Hall aceitou o filme. disse ele.

Fiquei entusiasmado. O sonho de qualquer realizador era ter o seu filme no Radio City Music Hall e eu conseguira-o com o primeiro que dirigira.

Estou muito orgulhoso de si. Fez um excelente trabalho comentou Dore.

Eddie Mannix falou:

Senhores, temos um xito entre mos.

Howard Strickling, chefe da publicidade, concordou:

Este pede uma grande campanha publicitria.

Vamos a ela respondeu Dore.

O elevador estava no topo. Nada podia correr mal.

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CAPTULO 23

Uma noite, num jantar, fiquei sentado ao lado de Groucho Marx. Cumprimentei-o e apresentei-me:

O meu nome  Sidney Sheldon.

Ele virou-se e olhou fixamente para mim.

No.

E voltou a ateno para o seu cocktail de camaro. Fiquei intrigado.

No, o qu?

Voc  uma fraude. Eu conheo o Sidney Sheldon.  mais atraente e mais alto do que o senhor e  um grande malabarista. Voc  malabarista?

No.

Est a ver?

Senhor Marx...

No me chame senhor Marx.

Como  que gosta que lhe chamem?

Sally. J li algumas das coisas que escreveu.

Leu?

Li. Devia ter vergonha! E olhou outra vez para mim. Voc  demasiado magro. Seja l quem for, voc e a sua mulher deviam vir a minha casa amanh  noite parajantar. 
s oito horas. E no chegue outra vez atrasado.

Apresentei Jorja a Groucho e ficaram imediatamente ligados. Foi o incio da nossa relao de uma vida com ele.

Nos jantares que dava, havia sempre algumas frases suas para os convidados citarem:

"Acho que a televiso  muito educativa. Cada vez que algum a liga, eu vou para outra sala e leio um livro."

"Fora do co, um livro  o melhor amigo do homem. Dentro de um co, est muito escuro para se ler."

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"Passei uma noite muito agradvel, mas no foi esta."

"O casamento  uma instituio maravilhosa, mas quem  que quer viver numa instituio?"

Uma vez ele teve de ir ao mdico. Uma bela e jovem enfermeira

aproximou-se e disse:

O senhor doutor j o vai receber. Siga-me, por favor. Groucho olhou para as ondulantes ancas dela e respondeu:

Se eu conseguisse segui-la, no precisaria de nenhum mdico." Estvamos com Groucho muitas vezes e,  medida que o fomos conhecendo, apercebi-me de que, de facto, 
as pessoas no o compreendiam. Quando as insultava, achavam-no divertido. Sentiam orgulho em ser o alvo escolhido por ele. S no percebiam que ele dizia exactamente 
o que pensava. Era um misantropo e completamente honesto nos seus sentimentos.

Tivera uma infncia difcil. Fora tirado da escola aos sete anos e posto a trabalhar no palco com os irmos. Os Irmos Marx fizeram catorze filmes juntos. Groucho 
fez mais cinco sozinho. Um dia, caminhvamos os dois ao longo de Rodeo Drive e um homem aproximou-se a correr e disse-lhe:

Groucho, lembra-se de mim?

Tpico da sua atitude para com as pessoas, ele perguntou:

E o que foi que alguma vez fez, para que eu me lembre de si? Groucho tinha um programa de televiso de sucesso que esteve no ar durante uns incrveis onze anos. 
Chamava-se Bet Your Life. Era um sucesso porque ningum sabia o que  que ele ia dizer a seguir. Uma noite, um concorrente disse-lhe que tinha dez filhos.

Porqu tantos? perguntou Groucho.

Eu gosto da minha mulher.

Bom, eu gosto muito do meu charuto, mas de vez em quando tenho de o largar foi a resposta.

Um dia, Melinda, a filha de Groucho, que na altura tinha oito anos, foi convidada por uma colega da escola para ir a um clube de campo. Vestiram os fatos de banho 
e dirigiram-se para a piscina.

O gerente do clube apareceu a correr e disse a Melinda:

Vais ter de sair da piscina. No permitimos a entrada a judeus. Quando Melinda chegou a casa lavada em lgrimas e contou ao pai o que se passara, este ligou para 
o gerente do clube.

Est a ser injusto disse ele. A minha filha s  meio judia. Ser que no h problema se ela entrar na piscina s at  cintura?

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Groucho era casado com den Hartford, umajovem actriz, e, uma noite, eu e Jorja amosjantar com eles. den tinha que se levantar cedo para ir para o estdio e Jorja 
tambm.

Groucho telefonou-me:

Somos s os dois para jantar. Como queres que me vista? Respondi-lhe:

Groucho, ns vamos a um restaurante chique, por isso, por favor, no me envergonhes.

Est bem.

Quando o fui buscar a casa e toquei  campainha, ele abriu a porta vestido uma saia e blusa de den e sapatos de salto alto e a fumar um charuto. Eu nem liguei.

Queres entrar e tomar um copo? perguntou.

Est bem respondi.

Entrmos no escritrio e Groucho preparou umas bebidas. A campainha da porta voltou a tocar. Ele tinha-se esquecido completamente que marcara um encontro com uns 
executivos de uma estao de televiso para falarem sobre o seu programa. Abriu a porta e convidou-os a entrar e ali ficmos um bocado sentados a conversar, at 
que eles saram.

Vou mudar de roupa disse Groucho. E samos para jantar.

Toda a gente no mundo do espectculo tem o mesmo problema, o que dizer a um amigo quando detestmos um trabalho feito por ele. Ao longo dos anos, algumas formas 
resultaram:

"Nunca estars melhor..."

"Que pea..."

"No tenho palavras..."

"Devias ter-te exposto mais..."

"Nunca vi nada semelhante..."

"As pessoas vo-se lembrar desta noite durante muito tempo..."

l

Dream Wifeno seria distribudo pelos cinemas nos prximos meses, por isso decidi que era a altura ideal para levar Jorja para outras frias europeias.

Ela estava to excitada com a viagem como eu. Sentmo-nos e discutimos onde queramos ir. Londres, Paris, Roma... A meio do nosso

205
planeamento, chegou um telefonema. Era Ladislau Bush-Fekete, que me ligava de Munique. Eu no tinha notcias dele desde o fecho de Alice in Arms, h cerca de dez 
anos. Desde ento, Kirk Douglas transformara-se numa grande estrela. Sentia-me feliz por no lhe ter destrudo a carreira.

Sidney, como ests? Eu e Marika temos saudades tuas disse, com o seu forte sotaque hngaro.

Ns estamos bem, Laci. Tambm eu tenho saudades vossas.

Quando pensas vir  Europa?

Por acaso, partimos para a para a semana que vem.

Excelente. Tens de vir a Munique visitar-nos. Podes faz-lo? Pensei durante um segundo.

Claro que sim. Gostava de vos apresentar a Jorja.

ptimo. Depois, diz-me quando chegas.

Com certeza. Desliguei e contei a Jorja.

Era o Ladislau Bush-Fekete. Ela olhou para mim.

Alice in Arms. Ri-me.

Vais gostar dele e a mulher  um amor. E Munique  lindo. Vai ser divertido.

Quando estvamos para partir, Sam Spiegel telefonou.

Era uma das personagens mais extravagantes de Hollywood. Nascera na ustria e viera para Hollywood para vender algodo egpcio. Estivera preso em Brixton por fraude. 
Em Hollywood, decidiu ser produtor e mudou o nome para S. P. Eagle. Tornou-se objecto de riso da cidade. Quando Darryl Zanuck teve conhecimento, comentou:

Pois eu vou mudar o meu nome para Z. A. Nuck.

O riso depressa parou, pois Sam Spiegel acabou por produzir uma longa lista de filmes premiados pela Academia, como Lawrence d'Arbia, On the Waterfront e The Afrcan 
Queen.

Conheci-o numa das sumptuosas festas que costumava dar e tornmo-nos amigos.

A seguir ao seu telefonema, eu e Jorja fomos jantar com ele.

Ouvi falar de um filme estrangeiro que gostava de fazer. Se vo a Paris, ficaria muito grato se o fosses ver e me dissesses depois o que pensas.

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Trs dias mais tarde, vomos at Nova Iorque para passarmos uns dias a bordo do Queen Mary.

A Broadway estava com umas peas interessantes, The Cruable, Wonderful Town, Picnic, TheSeven Yearltche Dial MforMurder. Ao entrar nos trios dos vrios teatros, 
tive sempre uma sensao de dej vu. Alguns dos espectculos estavam em cena em teatros onde eu e Ben Roberts tivramos as nossas peas em exibio. Tanta coisa 
inacreditvel se passara desde ento. Mas o mais incrvel de tudo era que um filme em que eu dirigira Cary Grant ia estrear no Radio City Music Hall.

Uma noite, fomos ver The Crucible, a nova pea de Arthur Miller. O elenco era composto por Arthur Kennedy, E. G. Marshall, Beatrice Straight e Madeleine Sherwood. 
Foi uma noite maravilhosa. A Jorja estava encantada.

Quando o pano desceu, perguntou-me:

Quem foi que dirigiu esta pea?

Jed Harris. Dirigiu Uncle Vanya, A Doll's House, Ovr Town e The Heiress.

Ele  incrvel. Gostava de um dia poder trabalhar com ele disse.

Seria a sorte dele respondi, pegando-lhe na mo.

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CAPTULO 24

Na manh seguinte, o barco partiu para Londres. Foi uma viagem perfeita, calma, e parecia descrever a forma como eu via a minha vida na altura. Estava casado com 
uma mulher que adorava, contratado por um estdio importante a fazer o que gostava de fazer e a caminho da Europa numa segunda lua-de-mel.

Quando o barco atracou, apanhmos o comboio para Londres, passmos l uns dias e em seguida partimos para Paris, onde nos instalmos no maravilhoso hotel Lancaster, 
na rua de Berri. O hotel tinha um jardim maravilhoso onde serviam bebidas e refeies.

A primeira coisa que fiz assim que nos instalmos foi ligar para o escritrio da United Artists em Paris e falar com o senhor Berns, o gerente.

O senhor Spiegel avisou-nos que ia ligar, senhor Sheldon. Quando quer ver o filme?

Em qualquer altura.

Amanh, estaria bem para si? Digamos... pelas dez horas?

Com certeza.

Eu e Jorja passmos o dia num passeio turstico e fomos jantar ao Maxim's.

Na manh seguinte, enquanto me vestia, Jorja ainda estava na cama.

Querida, temos o filme para ver s dez.  melhor despachares-te. Ela abanou a cabea.

Estou um pouco cansada. Porque no vais tu? Eu fico aqui a descansar. Depois,  noite, vamos jantar e ao teatro.

Est bem. No me demoro.

O escritrio da United Artists mandou uma limusina para me levar ao seu quartel general. Conheci o senhor Beins, um homem alto de rosto simptico, com a cabea toda 
branca.

Tenho muito gosto em conhec-lo. Porque no vamos j para o teatro? perguntou.

Caminhmos at ao grande teatro que a companhia usava para

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passar filmes. S l estava outra pessoa. Era um homem magro, baixo e pouco simptico. A nica coisa digna de nota nele eram os olhos, brilhantes e de aspecto inquiridor. 
Fomos apresentados, mas no fixei o nome.

O filme comeou. Era um filme de cowboys francs, muito mal feito, e tinha a certeza de que Sam Spiegel no ia querer faz-lo.

Olhei para o outro lado da coxia e o senhor Berns e o desconhecido estavam embrenhados a conversar.

O desconhecido dizia:

... e eu disse a Zanuck, isso nunca vai resultar, Darryl... Harry Warner tentou negociar comigo, mas ele  um filho da me... e ao jantar, o Daryl disse-me...

Quem diabo era este homem?

Aproximei-me deles.

Desculpe disse ao estranho, mas no percebi o seu nome. Ele olhou para mim e acenou com a cabea.

Harris. Jed Harris.

Devo ter feito um sorriso de orelha a orelha.

Eu sei de uma pessoa que o quer conhecer.

Sim?

Tem alguma coisa para fazer?

Nada de especial respondeu, encolhendo os ombros.

Importa-se de vir comigo at ao meu hotel? Gostava muito de lhe apresentar a minha mulher.

Est bem.

Quinze minutos mais tarde, estvamos nojardim do Lancaster. Liguei  Jorja do trio.

Ol.

Ol. Ests de volta. Ento, que tal o filme?

Decepcionante. Vem at c abaixo, ao jardim. Vamos almoar.

Querido, ainda no estou vestida. Porque  que no comemos qualquer coisa no quarto?

No, no. Tens de vir c abaixo. Tenho aqui algum que vais gostar de conhecer.

Mas...

No h mas!

Quinze minutos depois, Jorja apareceu.

Esta  Jorja disse eu, virando-me para Jed e, olhando para Jorja Jorja, apresento-te Jed Harris. Falei devagarinho e fiquei a ver o rosto dela a iluminar-se.

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Sentmo-nos. Jorja estava encantada por conhecer Jed Harris e falaram de teatro durante meia hora, antes de fazermos o pedido. Jed Harris foi absolutamente encantador. 
Era inteligente e divertido e extremamente bem educado. Senti que tnhamos acabado de fazer um amigo.

Durante a refeio, ele virou-se para mim e perguntou:

Estou impressionado com o seu trabalho. Est interessado em escrever uma pea da Broadway para mim?

Escrever uma pea da Broadway para Jed Harris significava trabalhar com um mestre.

Teria muito gosto respondi, e em seguida hesitei. Mas, de momento, no tenho qualquer ideia para uma pea.

Ele sorriu.

Mas eu tenho.

E comeou a contar-me as vrias tramas que tinha em mente. Eu ia ouvindo e no fim de cada uma delas dizia "no me diz nada" ou "no creio que isso me pudesse interessar" 
ou "parece-me demasiado familiar".

Depois de ter ouvido seis sugestes, ele apresentou uma de que gostei. Era sobre uma consultora que quase destri os funcionrios da firma que vai examinar e que 
no final acaba por se apaixonar e muda completamente.

Essa tem pernas para andar. Infelizmente, eu e ajorja partimos amanh. Vamos fazer uma viagem pela Europa.

No tem problema. Eu vou com vocs e podemos ir trabalhando na pea.

Fiquei espantado.

ptimo.

E para onde vo primeiro?

Vamos a Munique encontrar-nos com uns amigos. Ele  um dramaturgo hngaro chamado...

Detesto os hngaros. As peas deles no tm segundos actos, como as vidas deles.

Jorja e eu olhmos um para o outro.

Ento, Jed, se calhar era melhor no... Ele levantou a mo.

No, no. No se preocupem. Quero avanar com a pea. Jorja olhou para mim e anuiu.

E ficou combinado.

210
Quando os trs nos instalmos no hotel em Munique, Laci e Marika j vinham a caminho para se encontrarem connosco, e eu fiquei um pouco apreensivo. Detesto os hngaros. 
As peas deles no tm segundos actos, como as vidas deles.

Acabei por verificar que no precisava de me preocupar com Jed. Foi o mximo do encanto.

Assim que Laci entrou, Jed colocou o brao sobre o ombro dele e comentou:

Voc  um excelente dramaturgo. Para mim,  mesmo melhor do que Moinar.

Laci quase corou.

Vocs, os hngaros, tm um talento especial.  uma honra para mim conhecer-vos aos dois acrescentou. Jorja e eu trocmos olhares. Laci estava feliz.

Vou levar-vos a um famoso restaurante de Munique. Servem vinhos de quase todos os pases do mundo.

ptimo.

Jed foi para o seu quarto mudar de roupa e Laci, Marika, eu e Jorja ficmos a pr a conversa em dia, falando sobre o que ele andara a fazer desde a ltima vez que 
nos tnhamos visto.

Meia hora mais tarde, entrvamos num restaurante de aspecto elegante  beira do rio Isar. Sentmo-nos para jantar. O empregado deu-nos a carta. Estava repleta de 
vinhos de pases de todo o mundo.

Que tipo de vinho pretendem? perguntou o empregado. Antes que algum tivesse tempo para dizer qualquer coisa, Jed respondeu:

Eu vou beber uma cerveja. O empregado abanou a cabea.

Desculpe, senhor, mas no servimos cerveja. Apenas servimos vinhos.

Jed olhou fixamente para ele e ps-se de p.

Vamos mas  embora daqui.

Eu no queria acreditar no que estava a ouvir.

Mas, Jed...

V. Vamos embora. No estou disposto a comer num restaurante onde no servem cerveja.

Embaraados, levantmo-nos todos e samos.

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Malditos alemes rosnou Jed.

Eu e Jorja estvamos horrorizados. Entrmos todos para um txi e regressmos ao hotel, onde jantmos. Laci pediu desculpa a Jed.

Lamento muito o que aconteceu. Conheo um outro lugar onde servem uma excelente cerveja. Vamos l amanh.

No dia seguinte, eu e Jed trabalhmos na nova pea. Passmos uma parte do tempo a escrever no jardim e outra parte na nossa suite. Comecei a desenvolver cenas com 
base na premissa inicial e Jed ia fazendo sugestes aqui e ali.

Nessa noite, os Bush-Feket vieram buscar-nos.

Vai gostar deste lugar garantiu Laci,

No restaurante, conduziram-nos  nossa mesa e o empregado entregou-nos a carta.

Que gostariam de tomar?

Eu vou beber vinho respondeu Jed. O empregado respondeu:

Lamento muito, senhor, mas aqui s servimos cerveja. Temos cervejas de quase todos os pases do...

Jed ps-se de p.

Vamos mas  embora daqui. Fiquei outra vez chocado.

Mas, Jed, pensei que...

Vamos embora. No vou ficar numa porcaria de um restaurante onde no posso beber aquilo que quero.

E saiu porta fora e todos ns o seguimos. O Sr. Encanto estava a revelar-se um monstro.

No dia seguinte, Jed veio  nossa suite para trabalhar na pea e foi como nada se tivesse passado.

De manh, quando eu e Jorja descemos para tomar o pequeno almoo, o gerente do hotel veio ao nosso encontro.

Senhor Sheldon, ser que lhe posso dar uma palavrinha?

Com certeza.

O seu convidado  muito mal educado para as nossas empregadas de quarto e de limpeza. Esto muito perturbadas. Ser que...

Eu falo com ele respondi. Quando o fiz, a resposta dele foi:

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So muito sensveis. Meu Deus, no passam de empregadas de limpeza.

A actriz dentro de Jorja andava encantada pelo talento de Harris. Passava o tempo a fazer-lhe perguntas sobre teatro. Uma noite ao jantar comentou:

Sabe, h um momento no The Crucibk, quando Madeleine Sherwood faz uma sada de cena magnfica. Qual era a motivao dela? Em que  que lhe disse para pensar?

Ele olhou para ela e respondeu rudemente:

No cheque do ordenado.

Esta foi a ltima vez em que se dirigiu a Jorja pelo primeiro nome.

No dia seguinte, partimos os trs para Baden-Baden, uma luxuosa estncia no meio de Baden-Wurtenberg, no sudoeste da Alemanha.

Jed odiou.

Da partimos para a lindssima Floresta Negra, um fantstico espao montanhoso no sudoeste da Alemanha que se estende ao longo de cento e quarenta quilmetros, entre 
os rios Reno e Neckar, coberto por escuras florestas de pinheiros e cortado por profundos vales e pequenos lagos.

Jed odiou.

Eu estava farto. A nossa pea andava demasiado devagar para meu gosto. Em vez de criarmos uma linha para a histria, Jed preferia concentrar-se numa cena que tinha 
escrito e via-a e revia-a vezes sem conta, mudando uma palavra aqui, outra ali, sem necessidade.

Vamos voltar para Munique, mas sem ele disse eu a Jorja.

Tens razo respondeu-me ela com um suspiro.

Analisei as notas que tinha feito na pea. Pareciam-me completamente banais.

Quandojed entrou na minha suite para trabalharmos, eu disse-lhe: Jed, eu e ajorja vamos voltar para Munique. Vamos ter de deixar. Ele concordou.

Est bem. De qualquer das maneiras no tencionava fazer a pea consigo.

Umas horas mais tarde, eu e Jorja estvamos no comboio a caminho de Munique.

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Quando chegmos ao nosso hotel, estiquei-me para apanhar o telefone e ligar a Laci quando o meu disco deslocou-se. Ca ao cho, com uma dor terrvel, incapaz de 
me mover.

Vou chamar um mdico disse Jorja, desesperada.

Espera pedi. Isto j me aconteceu antes. Se me ajudares a subir para a cama, basta que fique deitado e, depois de um dia ou dois, isto desaparece sozinho.

Ela por fim l me conseguiu meter na cama.

Vou telefonar ao Laci.

Uma hora depois, Laci entrou no nosso quarto.

Lamento muito tudo isto. Eu tinha tantos planos para ns.

Mas eu posso ajudar disse ele olhando para mim.

Como?

Conheo um homem aqui, Paul Horn.

E  mdico?

No.  psicoterapeuta. Mas j trabalhou com algumas das pessoas mais famosas do mundo, que vm c para o consultar. Ele vai pr-te bom.

Passei os dois dias seguintes na cama e, ao terceiro dia, Laci levou-me a uma sala no nmero 5 da Platenstrasse, onde era o consultrio de Paul Horn.

Este andava pelos quarenta anos, era alto, com um monte desgrenhado de cabelos.

O senhor Bush-Fekete falou-me de si. Isto acontece-lhe muitas vezes? perguntou.

Bom, de forma irregular. Por vezes acontece duas vezes por semana, em outras ocasies no tenho nada durante anos respondi, encolhendo os ombros.

Ele fez um sinal de assentimento.

Eu posso cur-lo.

Fiquei alarmado. Os mdicos do Ceddars of Lebanon e da UCLA tinham-me dito que no havia cura para o meu mal. Adie a operao o mais possvel. S quando j no conseguir 
aguentar a dor  que o operamos. E este homem que me ia curar nem sequer era mdico.

Ter de ficar c durante trs semanas. Vou trat-lo todos os dias. Sete dias por semana.

No me parecia muito promissor.

Bem... no sei... disse eu. Talvez seja melhor esquecermos tudo isto. Eu vou consultar os meus mdicos quando regressar e...

Laci virou-se para mim:

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Sidney, este homem tem trabalhado com governantes de pases. D-lhe uma oportunidade.

Olhei para Jorja.

Bom, veremos.

O tratamento comeou na manh seguinte. Eu entrava e ficava deitado numa mesa, com uma lmpada de calor a aquecer-me as costas, durante duas horas. Depois descansava 
e repetia o processo. Durava o dia todo.

No segundo dia, algo de diferente foi acrescentado. Paul Horn ajudou-me a subir para uma espcie de rede suspensa criada por ele, que permitia aos msculos das costas 
relaxarem. Ficava ali deitado durante cinco horas. Todos os dias se repetia o mesmo procedimento.

A sala de espera estava sempre cheia de pessoas de todo o mundo, algumas delas a falarem lnguas que eu nem sequer conseguia identificar.

Trs semanas depois, no ltimo dia de tratamento, Paul Horn perguntou:

Como se sente?

Sinto-me bem.

Mas eu sabia que me teria sentido bem mesmo sem os tratamentos.

Est curado disse ele, feliz.

Eu estava cptico. Mas ele tinha razo. Em todos os anos que se passaram desde essa altura, nunca mais tive um nico ataque. Paul Horn, que no era mdico, tinha-me 
curado.

Estava na hora de regressar a Hollywood.

Regressar  MGM era como estar de volta a casa.

Tem um presente de boas vindas! anunciou Dore. Vamos fazer a anteviso do Dream Wife no Egyptian Theatre.

Dore viu o meu sorriso de satisfao e disse:

Este vai ser em grande.

Era habitual os jornais do ramo, o Variety e o Hollywood Reprter, fazerem as crticas dos filmes antes de as outras crticas sarem. Todos aguardvamos as crticas 
com ansiedade. Elas podiam fazer ou destruir um filme.

O Egyptian Theatre encheu-se com gente ansiosa por apreciar o que ia ser exibido. O filme comeou a correr e olhvamos para o ecr felizes enquanto ouvamos as gargalhadas 
nos momentos certos.

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Jorja apertou-me a mo.

 maravilhoso.

Quando o filme terminou, soaram os aplausos. Tnhamos um xito. Fomos ao Musso & Frank celebrar. As nicas crticas iam sair no Variety e no Hollywood Reprter. 
Fizemos apostas acerca de qual faria as melhores crticas e de manh bem cedo sa e fui compr-los.

Quando voltei, Jorja ainda estava na cama. Viu os jornais e sorriu.

L as crticas em voz alta. Devagarinho. Quero sabore-las. Dei-lhe os jornais.

L-as tu.

Ela olhou para o meu rosto e comeou a ler rapidamente as crticas.

Primeiro da Variety...

Parte da crtica dizia "... uma pea de puro disparate cinematogrfico. Os bons actores ajudaram a ultrapassar o disparate do argumento, mas Sidney Sheldon, o realizador, 
deixa que a aco caia demasiadas vezes em pura farsa. Esta incapacidade de controle reflecte-se ocasionalmente nos desempenhos, principalmente no de Grant.

"Dream Wife foi feito sob a superviso pessoal de Dore Schary e Cary Grant consegue obter gargalhadas onde nem sempre  possvel encontr-las no texto. A mistura 
desequilibrada de humor sofisticado e de pura farsa consegue apenas criar uma simples comdia ligeira. Sidney Sheldon exagerou na busca de situaes cmicas e no 
foi bem sucedido."

A crtica do Hollywood Reprter ainda era pior. Fiquei devastado.

Howard Strickling, o chefe da publicidade da MGM chamou-me e disse:

Sidney, tenho ms notcias para ti. Tenho instrues para matar o filme.

Fiquei chocado.

Que ests a dizer?

O Dore tirou o filme do Radio City Music Hall. No lhe vamos fazer qualquer publicidade, vamos simplesmente deix-lo morrer.

Mas porqu, Howard? Porque  que vo fazer uma coisa dessas?

Porque tem o nome de Dore como produtor. Como director do estdio, ele diz aos outros produtores o que devem ou no fazer. No se pode dar ao luxo de ter o nome 
dele num falhano. Vai deixar o Dream Wife desaparecer o mais depressa possvel.

Fiquei furioso. No haveria nem antevises, nem marcaes, nem entrevistas, nem merchandising. O barco afundara-se e o elenco e a equipa tinham-se afundado num mar 
de egos. Fora Dore quem sugerira pr o nome dele no filme e, por causa disso, ia agora destru-lo.

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Liguei a Jorja e contei-lhe o que acontecera.

Lamento muito. Isso  horrvel para ti disse ela. Jorja, eu no posso trabalhar para um homem assim.

O que vais fazer?

Demitir-me. Ests de acordo?

Para mim, querido, tudo o que faas est bem.

Quinze minutos depois, eu entrava no escritrio de Dore Schary.

O homem que, uns meses antes, dissera que no queria que eu sasse para ir dirigir outro estdio, dizia agora:

Muito bem. Vou falar com o departamento legal.

No dia seguinte, recebi uma ordem formal da MGM a libertar-me do contrato.

Eu no estava preocupado com o emprego. Ao fim e ao cabo, eu tinha um Oscar e uma lista de crditos espectacular. Tinha a certeza de que qualquer estdio da cidade 
teria o maior gosto em receber-me.

No fim, verificou-se que estava enganado. O elevador parara no fundo.

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CAPTULO 25

Aluguei um escritrio em Beverly Drive. Assim que Groucho teve conhecimento, perguntou-me:

Que  que vais fazer? Vais ser dentista?

Liguei ao meu agente, disse-lhe que estava disponvel e sentei-me  espera que as chamadas entrassem.

O telefone nunca tocou.

No teatro, um argumentista  avaliado pela sua melhor pea, independentemente dos vrios falhanos que venha a ter depois. Em Hollywood, um argumentista  julgado 
pelo ltimo filme, independentemente dos xitos que possa ter tido antes. Eu estava a ser julgado por Dream Wife. Conseguira libertar-me do contrato com a MGM na 
pior altura possvel, quando a indstria cinematogrfica ia pelo cano abaixo. O fim da marcao em bloco estava a matar os estdios.

A marcao em bloco era uma prtica usada por todos estdios para colocarem os seus filmes nas salas. Quando saa um filme com uma estrela famosa, obrigavam as salas 
de cinema ansiosas por adquirirem esse filme a adquirir tambm quatro filmes menores do estdio e, assim, havia sempre um bloco com cinco filmes. Quando os donos 
das salas de exibio foram para tribunal contra esta prtica, o governo meteu-se no assunto e acabou com ela.

Mas havia outros problemas. Durante a guerra, as pessoas andavam sedentas de entretenimento. Agora que a guerra terminara j escolhiam mais. A televiso transformara-se 
num novo entretenimento e a sua popularidade comeava a ficar cara s salas de exibio. Outro problema que surgiu tinha a ver com o rendimento estrangeiro, que 
representara sempre uma boa parte dos proventos de um filme. Nesta altura, a Inglaterra, a Itlia e a Frana faziam os seus prprios filmes e isso reduzia a receita 
estrangeira dos estdios de Hollywood.

Entrei numa profunda depresso. Ocasionalmente, Jorja fazia um programa de televiso, mas no chegava para cobrir as nossas despesas. Durante muito tempo no me 
preocupara com dinheiro, mas agora

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tinha uma mulher para sustentar e a situao era diferente. Quanto mais tempo estivesse sem trabalho, maior seria a presso. As semanas arrastavam-se e no surgiam 
ofertas. Natalie teria dito:

Hollywood no reconhece o talento quando o v. O William Goldman dizia-o de forma diferente:

Ningum em Hollywood sabe nada de nada...

O Clark Gable foi recusado pela MGM, pela Fox e pela Warner Brothers.

Darryl Zanuck disse dele: "Tem umas orelhas demasiado grandes. Parece um macaco."

Cary Grant foi rejeitado por vrios estdios porque "Tem o pescoo demasiado grosso."

Sobre Fred Astaire, um director de casting comentou: "No sabe representar, no sabe cantar, sabe um pouco de dana."

Deanna Durbin foi despedida da MGM e passou para a Universal no mesmo dia em que Judy Garland foi despedida da Universal e passou para a MGM. Cada uma delas deu 
rios de dinheiro a ganhar aos seus novos estdios.

Quando um director de uma televiso viu o Star Trek, o nico comentrio que fez foi:

Livrem-se do idiota com as orelhas pontiagudas.

Um chefe de um estdio tentou vender o filme High Noon porque na sua opinio "era um desastre". Ningum o quis. Acabou por vir a ser o filme de maior sucesso que 
a United Artists alguma vez teve.

Y. Frank Freeman, da Paramount, achava que Shane, com o Alan Ladd, seria um desastre. Tentou vend-lo a outros estdios. Ningum o quis. Transformou-se num clssico.

Quando o telefone finalmente tocou, era Judy Garland.

Sidney, vou fazer uma nova verso do A Star is Born e quero que escrevas o argumento.

Eu tinha o corao aos saltos, mas tentei parecer descontrado.

Excelente, Judy! Tenho muito gosto. Hesitei uns segundos. Acabei de realizar um filme com o Cary Grant. Ia ter muito prazer em dirigir-te em A Star is Born.

Seria interessante respondeu.

Fiquei nas nuvens. Isto ia fazer todos esquecerem o falhano de Dream Wife. Liguei ao meu agente.

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A Judy Garland quer que eu escreva e realize A Star is Born. Vamos tratar do negcio.

So boas notcias.

Comecei a planear o que ia fazer com o argumento. A Star is Born era um clssico feito anos antes com Frederic March e Janet Gaynor.

Dois dias mais tarde, como no tinha notcias do meu agente, resolvi ligar-lhe.

Fechaste o negcio?

Fez-se um silncio e em seguida ele respondeu:

No vai haver negcio. Sid Luff, o marido da Judy, acabou de contratar Moss Hart para escrever o argumento e George Cukor para realizar o filme.

Um escritor tem uma vantagem sobre um actor ou um realizador. Para que actores e realizadores possam trabalhar, algum tem de os contratar. Mas um escritor pode 
escrever em qualquer lado, em qualquer altura e sobre o que lhe apetecer. S tem um problema, ele ou ela tem de ter confiana suficiente para acreditar que algum 
lhe comprar a histria. Eu perdera essa confiana. Hollywood estava cheio de escritores que trabalhavam, mas eu no era um deles. Ningum estava interessado em 
mim.

Jorja tentou consolar-me.

Tu fizeste coisas ptimas, vais voltar a faz-las. s um excelente escritor.

Mas a autoconfiana no pode ser instilada pelos outros. Eu estava paralisado, incapaz de escrever. Hollywood estava cheia de histrias de carreiras que tinham terminado. 
A nvel emocional, encontrava-me num beco sem sada. No fazia ideia de quanto tempo mais ia aguentar.

No dia 30 de Julho de 1953, cinco meses depois das crticas negativas da Variety e do Hollywood Reprter, Dream Wife estreou pelo pas. No tinham feito publicidade 
ao filme, as estrelas no tinham ido s estreias e ningum tentara sequer arranjar reservas para o filme.

Vamos simplesmente deix-lo morrer.

As crticas nacionais comearam a sair e fiquei perfeitamente espantado.

Bosley Crowther, do New York Times, dizia: "O filme mais divertido deste Vero... Belamente transposto para o cinema com a dose certa de inequvoco piscar de olho 
pela mo forte de Sidney Sheldon."

A revista Time "Um alegre barbecue da Costela de Ado."

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St. Paul Minneapolis Dispatch: "Uma encantadora comdia, como nunca viu."

Los Angeles Daily News: "O escritor/realizador Sidney Sheldon, cujo talento para comdias ligeiras nos desperta recordaes de Ernst Lubitsch..."

Showmen's Trade Review "Um filme muito bem feito que atrair as audincias a qualquer sala, independentemente do seu tamanho ou localizao."

Dream Wife foi nomeado para o Exhibitors Laurel Award, mas era tarde de mais para o fazer reviver. Estava morto. Dore matara-o. Como  que eu me sentia com estas 
crticas? Como se tivesse ganho a lotaria e perdido a cautela.

Uma manh, o telefone tocou e, antes de o atender, interroguei-me que mais ms notcias a vinham. Era o meu agente.

Sidney?

Sim.

Tens um encontro marcado com Don Hartman, o chefe de produo da Paramount, para amanh de manh s dez.

ptimo respondi, engolindo em seco.

O Don  extremamente pontual, por isso no chegues atrasado.

Atrasado? Vou j sair...

Don Hartman comeara a carreira como escritor. Escrevera mais de uma dzia de filmes, incluindo a srie Road, com Crosby e Hope. Dois anos antes, Y. Freeman, o presidente 
da Paramount, colocara Hartman  cabea do estdio.

Cada estdio tinha a sua aura prpria. A Paramount pertencia ao topo. Alm dos Road de Hope e Crosby, o estdio produziu Sunset Boulevard, Going My Way e Calcutta.

Don tinha cinquenta e poucos anos, era vivo e cordial.

Sidney, estou contente por ter vindo.

Ele no fazia a mnima ideia de como eu estava contente por ter ido!

J alguma vez viu um filme do Martin e do Lewis?

No.

Mas claro que sabia muito bem quem eles eram.

Dino Crocetti fora pugilista, croupiere Blackjack, cantor e aspirante

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a comediante. Joseph Levitch fizera stand up em pequenos clubes nocturnos espalhados pelo pas. Conheceram-se em 1945 e decidiram trabalhar juntos, mudando os nomes 
para Martin e Lewis. Individualmente, a carreira deles no tivera qualquer sucesso. Juntos eram magia. Eu vira um pequeno nmero com eles quando estavam a actuar 
no Paramount Theatre em Nova Iorque e as ruas estavam pejadas por grupos de admiradores aos gritos.

Temos um filme para eles que gostaramos que escrevesse. Chama-se You're Never Too Young. Norman Taurog  o realizador.

Eu j trabalhara com ele em Rich, Young and Pretty.

Era maravilhoso voltar a trabalhar num estdio. Voltava a ter uma razo para me levantar de manh, sabendo que o trabalho que eu tanto amava me aguardava.

Nessa noite, quando voltei para casa, Jorja comentou:

Pareces outra pessoa.

A verdade  que me sentia outra pessoa. A frustrao de estar sem trabalho durante tanto tempo era corrosiva.

A Paramount era um estdio simptico e parecia-me que havia muito menos tenso do que na MGM.

You're Never Too Young contava a histria de um jovem assistente de barbeiro que se v obrigado a disfarar-se de mido de doze anos depois de se ter envolvido no 
roubo de umajoalharia. Era um remake de The Major and the minor, um filme de 1942 realizado por Billy Wilder, com Ginger Rogers e Ray Milland.

Assim que terminei o argumento, fizemos uma leitura em grupo com o elenco, o produtor e o realizador.

Se acharem que alguma parte do texto vos incomoda, por favor, digam-me, pois terei todo o gosto em a alterar disse eu a Dean e a Jerry.

Excelente argumento. Adeus, tenho um jogo de golfe respondeu Dean, levantando-se e saindo pela porta fora.

Bem, eu tenho algumas questes disse Jerry.

E sentmo-nos durante duas horas enquanto ele fazia perguntas sobre os cenrios, os ngulos da cmara, a abordagem a algumas das cenas e aquilo que me pareceu uma 
centena de perguntas. Era bvio que os dois parceiros tinham prioridades muito diferentes.

Ningum na altura o sabia, mas era uma previso do que, anos mais tarde, os levaria a separar-se.

You're Never Too Young estreou com boas crticas e muito bons resultados de bilheteira. Para comemorar o reiniciar da minha carreira,

222
comprei uma linda casa em Bel Air, com uma piscina e belos jardins. Tudo estava bem de novo no mundo. Decidi que chegara a altura de eu e Jorja fazermos outras frias 
na Europa. O elevador estava a subir.

O senhor Hartman quer falar consigo.

Quando entrei no escritrio de Don, este perguntou-me:

Tenho um projecto que penso que vai gostar. Alguma vez viu o The Lady Eve?

Se vira. Era um filme de Preston Surges com Barbara Stanwyck e Henry Fonda, e contava a histria de um vigarista e da sua bela filha que esfolam um ingnuo milionrio 
durante um cruzeiro transatlntico. As complicaes comeam quando a filha se apaixona pela vtima.

Vamos fazer uma nova verso com George Gobel e chamar-lhe The Eiras and the Bees explicou.

George Gobel era um jovem comediante que tivera um sucesso meterico na televiso, usando um estilo discreto e apagado. A realizao pertenceria a Norman Taurog.

A adaptao do argumento de Preston Sturges foi feita rapidamente. David Niven, um homem encantador e muito divertido, foi contratado para o papel de pai, Mitzi 
Gaynor para o papel da filha, e o filme entrou em produo.

No meio das filmagens, Don chamou-me ao seu escritrio.

Acabei de comprar o Anything Ges e quero que escreva o argumento informou.

Era um estrondoso xito da Broadway, com msica e letras de Cole Porter e libreto de P. G. Wodehouse e do meu antigo colaborador Guy Bolton.

A banda sonora era Cole Porter no seu melhor. O problema era o libreto. A histria envolvia um grupo de pessoas que entram em contacto com o inimigo pblico nmero 
treze, que se esgueira para dentro do navio para fugir ao FBI. Sentia que o libreto estava antiquado e no me parecia que resultasse no cinema, e disse-o a Don.

Ele acenou com a cabea.

-  por isso mesmo que aqui est. Para fazer com que risulte. Criei uma nova histria acerca de dois scios que produziam uma pea na Broadway. Cada um deles, sem 
dizer nada ao outro, conhecera uma actriz e prometera-lhe o papel principal na sua nova produo. Mostrei-lhe o meu guio.

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Gostou.

Muito bem. Isto vai resultar muito bem com o nosso elenco.

Qual  o nosso elenco?

Ah! Ainda no lhe disse? Bing Crosby, Donald O'Connor, Mitzi Gaynor e uma linda bailarina chamada Zizi Jeanmaire.  casada com o nosso coregrafo, Roland Petit.

Bing Crosby! Toda uma gerao crescera a ouvir as suas canes.

Bing Crosby comeara num grupo coral e uma vez aparecera de tal forma bbado numa estao de rdio que ficara proibido de voltar  rdio. Isso seria o suficiente 
para arrasar a carreira de qualquer cantor, mas ele no era um qualquer cantor. Tinha um estilo muito pessoal que apelava s pessoas. Foi-lhe dada uma segunda oportunidade 
e disparou at ao topo. Antes do final da sua carreira, tinha vendido mais de quatrocentos milhes de discos e feito cento e oitenta e trs filmes.

Fui ao camarim dele para o conhecer. Era o encanto em pessoa, simptico e de trato fcil, com uma forma de estar relaxada e discreta.

Estou muito satisfeito por irmos trabalhar juntos disse ele. Ele no fazia ideia do satisfeito que eu estava. Era um sonho que se tornava realidade.

A filmagem do meu argumento para Anything Ges decorreu sem incidentes. Roland Petit era um coregrafo mundialmente famoso e Zizi Jeanmaire fazia justia ao trabalho 
dele. Donald O'Connor era incrivelmente talentoso. Parecia-me que podia fazer fosse o que fosse, e ele e Bing Crosby complementavam-se perfeitamente.

A produo correu sem sobressaltos. Quando o filme estreou, todos ficaram satisfeitos com o filme, incluindo os crticos.

S muitos anos depois  que o lado negro de Bing Crosby foi conhecido. Dixie, a sua primeira mulher, que estava a morrer com um cancro nos ovrios, contou aos amigos 
que Bing a abandonara. Depois da sua morte, Bing tornou-se pai solteiro e um disciplinador severo. Lindsay e Dennis, dois dos filhos, suicidaram-se.

Enquanto eu trabalhava em Anything Ges, Jorja estava na Twentieth-Century-Fox a contracenar com William Holden e Jenniferjones em Love is a Many-bplendored Thing. 
Pouco depois de ter iniciado as filmagens, ela disse-me:

Tenho notcias para ti.

Sobre o filme?

No, sobre ns. Estou grvida.

224
As duas palavras mais excitantes da lngua inglesa. Fiquei com um sorriso idiota de orelha a orelha, abracei-a e afastei-me logo. No queria magoar o nosso beb.

E que vais fazer quanto ao filme? perguntei. Lave is a Many-Splendored Thing estava a meio da produo.

Avisei-os hoje de manh. Responderam que podiam continuar a filmar e que no precisavam de me substituir.

Fiquei exttico. Senti-me invadido por uma enorme sensao de bem estar.

Enquanto a data do parto se ia aproximando, ela ia preparando o quarto do beb. Acabei por saber que era uma excelente decoradora, um talento que tempos mais tarde 
veio a dar imenso jeito, quando passvamos a vida a viajar entre Hollywood e Nova Iorque. Contratou tambm uma amorosa empregada afro-americana chamada Laura Thomas, 
a qual viria a desempenhar um papel importantssimo nas nossas vidas.

Uma manh, depois de ver as imagens no editadas de Anything Ges, Don Hartman perguntou-me:

Gostaria de escrever outro filme para o Dean e o Jerry?

Parece-me ptimo, Don. Eu gostara muito de trabalhar com eles.

Comprmos um western para eles, chamado Pardners. Acho que vai gostar.

Hesitei uns segundos.

Se no vir inconveniente, gostaria de trazer uma pessoa para trabalhar comigo.

Quem? perguntou, espantado.

Jerry Davis. Havia uns tempos que Jerry no trabalhava e esta era uma hiptese de o ajudar.

Conheo o Jerry. Se  isso que quer, tudo bem.

Muito obrigado.

Jerry ficou encantado com as notcias e eu fiquei satisfeito por t-lo comigo. Estava sempre bem disposto e era muito divertido. As mulheres achavam-no atraente 
e, sempre que terminava uma relao com uma pessoa, permaneciam amigos.

Uma vez, uma ex-namorada dele chamada Diane telefonou-lhe para lhe dizer que se ia casar. Jerry, que era muito protector, pediu:

Fala-me dele.

225
Bem,  escritor e vive em Nova Iorque.

Diane, os escritores de sucesso no vivem em Nova Iorque. Vivem em Hollywood. S pode ser um falhado. Como  que ele se chama?

Neil Simon.

Jerry e eu comemos a trabalhar no argumento e tudo corria bem. O que ningum sabia  que este seria um dos ltimos filmes de Martin e Lewis juntos. Foram dadas 
vrias razes para a separao, mas a verdade  que tinham personalidades completamente diferentes.

Eram constantemente inundados por convites de todo o pas para aparecerem como convidados de honra em eventos de caridade e Lewis, que era muito gregrio, dizia 
sempre que sim. Quando ele dizia a Dean o que iam fazer, este ficava sempre aborrecido. Preferia ir jogar golfe. Por fim, as diferenas entre eles levaram a uma 
ruptura final, mas, antes disso, concordaram em fazer o Pardners.

Pardners era uma comdia western e Dean e Jerry eram os actores ideiais para ela. Paul Jones, um dos mais simpticos homens do ramo, era o produtor.

As crticas foram excelentes e o filme foi um sucesso de bilheteira.

Em 14 de Outubro de 1955, a nossa filha Mary Rowane Sheldon veio a este mundo. Por minha causa, Jorja quase que no chegava a tempo ao hospital. Inadvertidamente, 
transformei o grande acontecimento numa situao de verdadeira comdia.

Tudo comeou anos antes quando liguei uma vez para as Informaes e pedi a morada da biblioteca pblica de Beverly Hills.

Peo desculpa, mas ns no podemos dar moradas respondeu a telefonista.

Pensei que estava a brincar.

Minha senhora, eu no estou a pedir a morada do quartel-general da CIA. Estou a falar da biblioteca pblica.

Lamento, mas no damos moradas.

No queria acreditar. Era um desafio grande de mais para o ignorar. Decidi que me iam dar aquela morada.

Aguardei um bocado e liguei de novo para as Informaes.

Eu quero o nmero de telefone da biblioteca pblica de Beverly Hills pedi. Fica em Beverly Drive.

A telefonista entrou outra vez na linha.

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No temos nenhuma biblioteca pblica em Beverly Drive. H uma em North Crescent Drive.

No me parece que seja essa. Qual  a morada da North Crescent Drive? perguntei.

City Hall, 450 North Crescent Drive.

Muito obrigado.

Eu recebera a informao que procurava.

Desde ento, sempre que queria a morada de algum lugar, usava esta tcnica e conseguia dar a volta  estpida regra da companhia.

Na noite de 14 de Outubro, a minha trama virou-se contra mim. Ouvi Jorja a chamar e corri para o quarto.

Est a comear. Depressa! pediu.

A mala estava pronta e  espera junto  porta. Eu tratara de tudo para que ela fosse admitida no hospital St. John, em Santa Mnica. O problema  que eu no tinha 
certeza de qual era a rua. Liguei para as Informaes.

Quero o nmero de telefone do hospital St. John, na Main Street. Escolhera uma rua ao acaso, para que ela me desse a rua correcta. A telefonista reapareceu uns segundos 
mais tarde, com o nmero

de telefone.

E  na Main Street?

, sim foi a resposta.

Pelos vistos, acertara por acaso na rua. Meti Jorja no carro e dirigi-me velozmente a Santa Mnica, para o hospital. Ela gemia com dores.

So s uns minutos at l assegurei. Aguenta-te. Cheguei a Main Street e virei para entrar na rua. Andei para cima

e para baixo. No se via qualquer hospital St. John. Comecei a entrar em pnico. A noite j ia avanada e as ruas estavam desertas. As bombas de gasolina estavam 
fechadas. Eu no fazia a mnima ideia do lugar para onde ia. Comecei a andar velozmente para cima e para baixo em todas as ruas que me apareceram at que, por fim, 
acabei por dar com o hospital, na rua Vinte e Dois com o Bulevar Santa Mnica, a mais de vinte quarteires da Main Street. Duas horas depois, Mary nascia.

Tivemos um beb saudvel e maravilhoso. Era uma alegria incrvel. Pouco depois de Mary ter nascido, eu e Jorja perguntmos ao Groucho se queria ser o padrinho. Quando 
concordou, ficmos encantados. No imaginvamos ningum mais perfeito.

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Trs dias depois, levmos Mary para casa e Laura, a nossa criada, tomou-a dos braos de Jorja.

Eu tomo conta dela disse.

E, da em diante, toda a gente tomou conta dela. Mary chorava a meio da noite e Jorja corria para o quarto dela para dar comigo sentado numa cadeira com Mary ao 
colo. Ou ento era eu que ouvia o beb a chorar e corria para o quarto e encontrava Jorja j sentada a embal-la. De dia ou de noite, ao primeiro sinal de choro, 
todos corramos para lhe pegarmos em primeiro lugar. No momento em que lhe pegvamos ao colo, parava imediatamente de chorar.

Por fim, tive uma conversa com Jorja:

Querida, ns estamos a estrag-la com mimos. Estamos a dar-lhe demasiado amor. Temos que reduzir.

Jorja olhou para mim e respondeu:

Est bem. Reduzes a tua parte. E foi o fim da conversa.

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CAPTULO 26

Uma segunda-feira de manh, a minha assistente ligou-me.

Est aqui um senhor Robert Smith que lhe quer falar. Eu nunca ouvira falar nele.

E o que  que ele quer?

-  um escritor. Diz que quer falar consigo.

Robert Smith andava pelos trinta anos, era baixo, tenso e nervoso.

Em que  que o posso ajudar, senhor Smith?

Eu tenho uma ideia respondeu.

Em Hollywood toda a gente tinha ideias e a maior parte delas eram pssimas. Fingi interesse.

Sim?

Porque no fazemos um filme sobre Buster Keaton? Fiquei imediatamente interessado.

Buster Keaton, o "Grande Rosto de Pedra" do cinema mudo, era uma das estrelas mais importantes dessa poca. A sua imagem de marca era um chapu de aba lisa e revirada, 
sapatos uns tamanhos acima e nenhuma expresso no rosto. Era um actor baixo, magro, de rosto triste, que colaborara na produo e na direco dos seus filmes e que 
fora comparado a Chaplin.

Buster Keaton teve na sua poca um enorme sucesso, mas, quando apareceu o cinema falado, o seu destino mudou. Fez vrios filmes sem sucesso e cada vez tinha mais 
dificuldade em encontrar trabalho. Entrou em alguns filmes de curta metragem sem importncia e por fim viu-se na iminncia de criar cenas acrobticas para os outros 
actores. Eu achava que a histria dele era fascinante e suficientemente interessante para ser levada ao cinema.

Ns os dois podamos produzi-la, escrever o argumento e voc realizava sugeriu Robert Smith.

Levantei a mo.

Ei, espere a. Deixe-me falar primeiro com Don Hartman. E nessa mesma tarde fui falar com ele.

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Que se passa?

Um escritor chamado Bob Smith veio ter comigo com uma ideia de que gostei. Sugeriu que fizssemos The Buster Keaton Story.

Ele nem hesitou.

-  uma ptima ideia. Gostava de saber porque  que nunca ningum se lembrou disso antes.

Bob e eu produzimos e eu realizo. Ele concordou.

Vou comear a trabalhar para adquirir os direitos. E em quem estava a pensar para o papel de Buster?

Ainda nem tive tempo para pensar nisso!

Eu digo-lhe quem era ideal para esse papel, Donald O'Connor comentou.

Fiquei entusiasmado.

O Donald seria maravilhoso. Trabalhei com ele no Anything Ges. Tem imenso talento.

Mas h um problema. Don Hartman hesitou. Donald tem outro filme marcado para o princpio do ano. Para ficarmos com ele, temos de comear a filmar dentro de dois 
meses.

Esse era um grande problema. Ns nem sequer tnhamos uma linha para a histria. Mas eu queria O'Connor.

Acha que consegue ter o argumento pronto a tempo?

Claro.

Eu queria mostrar-me mais confiante do que estava realmente. Fazer um argumento a correr para conseguir um determinado actor  sempre contraproducente. O pblico 
no quer saber quanto tempo demorou a escrever o argumento, s lhe interessa o que v no ecr. Eu acabara de criar para mim e Bob um prazo impossvel de cumprir.

Obter os direitos sobre a vida de Buster Keaton revelou-se fcil.

Comemos imediatamente a trabalhar no argumento. Havia imenso material de trabalho porque a vida de Buster fora dramtica. Nascera numa famlia disfuncional e atravessara 
vrios divrcios e uma luta contra o alcoolismo. Eu vira-o nos seus primeiros clssicos The General, TheNavigatore TheBoat. Estavam recheados de cenas acrobticas, 
extremamente perigosas, e ele insistira sempre em faz-las pessoalmente. Liguei a Don Hartman:

Gostvamos de falar pessoalmente com Buster. Podia tratar disso?

Com certeza.

Eu estava ansioso por este encontro.

Quando Buster Keaton entrou no meu gabinete, era como se tivesse

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acabado de sair do ecr. Era o mesmo homenzinho de rosto triste que encantara o mundo com o seu humor sombrio. Depois das apresentaes, perguntei:

Buster, gostaramos que fosse o consultor tcnico deste filme. O que me diz?

Ele quase quebrou a tradio ao sorrir.

Acho que me aguento!

ptimo. Vamos filmar muitas das suas cenas acrobticas. Vou-lhe arranjar uma caravana e p-la aqui no estdio e quero que esteja c sempre que estivermos a filmar.

Ele olhou para mim como se estivesse a fazer um esforo para no chorar, mas fiquei sem saber se no seria imaginao minha.

C estarei.

Muito obrigado.

Eu e Bob estamos a trabalhar no argumento. Queremos que seja o mais fiel possvel. Tem algumas situaes caricatas que gostasse de nos contar para usarmos no filme?

No.

Talvez alguma coisa especial que lhe tenha acontecido na vida e que considere excitante?

No.

Alguma coisa dos seus casamentos ou dos seus romances?

No.

Toda a reunio decorreu assim. Quando saiu, virei-me para Bob:

Esqueci-me de dizer uma coisa. Se queremos o Donald O'Connor, temos de comear a filmar daqui a dois meses. Ele ficou a olhar para mim.

Est a brincar?

Nunca falei to a srio. Ele suspirou.

Vamos l ver a que velocidade conseguimos escrever um argumento.

Eu e Bob vimos os velhos filmes do Buster As cenas de acrobacia eram fantsticas. Seleccionei as que queria usar, pois sabia que Buster estaria no estdio para me 
mostrar como eram feitas.

Donald O'Connor veio ver-me.

-  um papel estupendo. Buster Keaton  um dos meus dolos comentou.

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Meu tambm.

O "Grande Rosto de Pedra". Isto vai ser maravilhoso.

Havia um problema. Ns precisvamos de mais tempo para trabalhar no argumento e no o tnhamos. J havia uma data marcada para o incio das filmagens, que tnhamos 
de respeitar, por isso comemos a trabalhar dia e noite.

Por fim, chegou a altura de dar incio  produo.

Mantivemos a maior fidelidade possvel  histria da vida de Buster Keaton, mas, para aumentar o drama, tommos algumas liberdades. Mostrei a Buster o guio e, quando 
ele acabou de o ler, perguntei-lhe:

Tem algum problema com o que a est?

No.

E foi tudo o que ele disse.

Os cenrios foram construdos e a produo comeou.

As filmagens corriam bem. O elenco era maravilhoso. Alm de Donald O'Connor, tnhamos Peter Lorre, Rhonda Fleming, Ann Blyth, Jackie Coogan e Richard Anderson. A 
qumica era ptima.

Havia uma cena em que entrava um velho realizador. Ainda no tnhamos actor para ele. O assistente de realizao veio ter comigo.

Gostaria que fosse o velhote a desempenhar o papel? Fiquei intrigado.

Qual velhote?

O senhor DeMille.

Cecile B. DeMille era sem sombra de dvida um dos realizadores mais importantes de Hollywood. Entre outros, os seus filmes mais recentes incluam Samson and Dalilah, 
The Greatest Show on Earth e The Ten Commandements.

Era uma lenda e as histrias a seu respeito corriam pela cidade. Era conhecido por ser implacvel e exigente. Aterrorizava os actores. Corria a histria de que uma 
vez, quando filmava uma cena de um dos seus picos, em p no cimo de uma plataforma e a olhar para baixo para as centenas de figurantes, comeara a explicar o que 
pretendia quando viu duas jovens figurantes na conversa. Parou de falar.

Ei! Vocs as duas a! chamou alto. Cheguem-se aqui  frente.

As duas mulheres olharam uma para a outra, horrorizadas.

Quem? Ns?

Sim! Vocs as duas. Venham c. Nervosas, chegaram-se  frente.

Muito bem disse ele em voz forte. Como  bvio que

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acham que aquilo que estavam a dizer  muito mais importante do que o que eu estava a dizer, acho que deviam diz-lo alto, para todos poderem ouvir.

As mulheres ficaram embaraadas e aterrorizadas.

Senhor DeMille, ns no estvamos a dizer nada...

Estavam, sim. E eu quero que todos ouam o que era. Uma delas falou e disse em tom de desafio:

Pois muito bem. O que eu estava a dizer era: "Quando  que aquele filho da me vai mandar parar para almoo?"

Fez-se um silncio de choque por todo o estdio. DeMille olhou para ela durante longos segundos e em seguida disse alto:

Parar para almoo!

Est louco respondi ao meu assistente. O DeMille no vai fazer este papel. So quatro linhas de texto!

Quer que fale com ele?

Claro. Eu sabia que no havia qualquer hiptese. Mais tarde, o assistente do director veio ter comigo.

Vamos filmar a cena amanh. Ele vem. Fiquei sem palavras.

Ele vai fazer a cena?

Sim.

Eu vou dirigir o Cecil B. DeMille?

Exactamente.

No dia seguinte, estava a filmar uma cena principal com Donald e Ann Blyth. Quando terminei a cena, ia passar  filmagem de um ngulo mais perto. O meu assistente 
de realizao aproximou-se.

O senhor B. DeMille est a caminho do estdio. Vamos para o outro lado do palco, onde vai ser filmada a cena dele.

Agora no posso fazer respondi. Tenho de fazer um close-up primeiro.

Ele olhou para mim por uns segundos.

O senhor DeMille est a caminho do estdio. Sugiro que vamos para ali, onde ele vai fazer a cena.

Percebi a mensagem.

Vamos j. E dei ordem para parar.

Uns minutos depois, Cecil B. DeMille entrou com o seu squito. Chegou junto de mim e estendeu a mo.

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Sou Cecil B. DeMille.

Era mais alto do que eu imaginara, mais largo do que eu imaginara e tinha muito mais carisma do que eu imaginara.

Eu sou Sidney Sheldon.

Se me disser o que tenho de fazer...

Eu ia mostrar a Cecil B. DeMille o que ele tinha de fazer?

Sim, com certeza.  sobre...

Eu sei. Li o meu texto.

Excelente. Montei a cena e disse:

Cmara... aco...

A cena terminou, mas achei que a podia melhorar. Como  que se diz a Cecil B. DeMille que no foi suficientemente bom? Ele virou-se para mim:

Quer que eu faa a cena outra vez? Acenei, grato.

Seria ptimo.

Porque no dispo o casaco?

Boa ideia.

E vou ser um pouco mais enrgico.

Boa ideia.

Filmmos outra vez a cena e ficou perfeita. S havia uma coisa de que eu no tinha bem a certeza. Fora eu que dirigira Cecil B. DeMille ou fora Cecil B. DeMille 
que me dirigira a mim?

As cenas acrobticas que Buster Keaton criou para os seus filmes mudos eram incrveis. Uma em especial parecia ser absolutamente impossvel. A cena abria com Buster 
perseguido pela polcia a correr ao longo de uma vedao de madeira. De p junto da vedao, e de costas para ela, estava uma mulher forte, que tinha vestida uma 
saia bastante rodada. Buster parou na frente dela, viu que os polcias se aproximavam e mergulhou por entre as pernas da mulher para o outro lado da vedao. A mulher 
deslocou-se de seguida para o lado, mostrando que a vedao era slida.

Tinha um efeito fantstico.

Como raio  que fez aquilo? perguntei.

Ele quase sorriu.

J lhe mostro.

O segredo era simples, quando se sabia. Directamente atrs da

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mulher, trs ou quatro painis da vedao tinham dobradias que lhes permitia deslizarem para trs, criando um ngulo de quarenta e cinco graus. No momento em que 
Buster mergulhava entre as pernas da mulher, os membros da equipa, que estavam do outro lado da vedao, subiam rapidamente os painis, que estavam ocultos da viso 
dos espectadores pela saia da mulher, criando uma abertura por detrs dela. Ele limitava-se a mergulhar sob a saia dela e atravessava rapidamente a abertura na vedao. 
Uma vez do outro lado, os homens repunham apressadamente os painis, fechando a abertura. Ela afastava-se rapidamente, revelando aos espectadores uma vedao intacta 
e que Buster desaparecera. Tudo isto era feito numa fraco de segundos e era fantstico, quando bem feito.

Donald fez a cena de forma soberba.

Uma outra cena que aparecia mais tarde no filme era mais um clssico de Buster Keaton. Passava-se nas docas e fomos para o litoral para a filmarmos. Era o bota abaixo 
de um barco e Donald estava orgulhosamente de p na proa do barco enquanto este descia pela rampa.

A proa foi entrando devagarinho pela gua, cada vez mais fundo, e Donald ali permaneceu, sem qualquer expresso, enquanto ia submergindo lentamente, at que a certa 
altura j s se via o seu chapu a flutuar.

Durante as filmagens apercebi-me de como Buster era tmido. Eu e Jorja convidmo-lo a ele e  mulher, Eleanor, para um jantar. Entre os convidados havia um dirigente 
de um estdio, alguns realizadores e vrios actores e actrizes conhecidos.

Eu sabia que Buster j l estava em casa, mas ainda no o vira. Entrei no escritrio. Ele estava ali sozinho a ler um jornal.

Buster, est tudo bem? Ele olhou para mim.

Est tudo ptimo. E continuou a ler o seu jornal.

Quando o filme ficou pronto, Buster disse-me:

Quero agradecer-lhe.

Agradecer o qu?

Pude comprar uma casa.

Todos no estdio estavam muito satisfeitos. The Buster Keaton Story era o meu ltimo filme sob o meu contrato com a Paramount, masj

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estavam a falar com o meu agente sobre um contrato novo. A minha vida nunca fora to boa.

Discuti com Don Hartman uma ideia que tive para um filme de suspense chamado Zone of Terror, que seria filmado na Europa.

Em Abril de 1957 saiu um artigo no Daily Variety:

Onde ir em Abril? Este  o problema com que Sidney Sheldon se debate.

Buster Keaton, que ele dirigiu, co-produziu e co-escreveu para a Paramount, estreia no ms que vem. No dia 27 de Abril, a sua pea Alice in Arms estreia em Viena. 
Na mesma altura comeam em Nova Iorque os ensaios para a verso revista por ele de The Merry Widow, com os Kiepuras, com estreia prevista para meados de Maio. Sheldon 
trabalha presentemente no seu prximo projecto, Zone of Terror, previsto para iniciar as filmagens na Alemanha, para o ano que vem.

Eu sabia como  que ia passar o meu tempo no ms de Abril. Ia levar Jorja e Mary at  Europa para celebrar.

The Buster Keaton Story estreou com boas crticas a Donald O'Connor, Ann Blyth, Peter Lorre e ao resto do elenco. O argumento j no foi to bem recebido. A maior 
parte dos crticos atacaram-no, dizendo que devia ter mais cenas de Buster e menos histria.

"O argumento  um arranjo de demasiados velhos filmes de Hollywood."

Tinham razo. Tnhamos escrito depressa de mais. O filme estreou bem porque as pessoas sentiam imensa curiosidade em relao ao nome de Buster Keaton. Mas a palavra 
de boca em boca espalhou-se rapidamente e, pouco tempo depois, o filme desaparecia das bilheteiras.

O meu agente telefonou-me.

Acabei de falar com Don Hartman. O estdio no vai renovar o teu contrato.

Eu sabia onde  que o jornalista do Vanety me ia poder encontrar em Abril. Na fila do desemprego.

Relutante, cancelei as nossas reservas na Europa. Ligava para o meu agente uma vez por semana e tentava parecer optimista.

Ento, que se passa na frente de batalha?

Nada de especial, Sidney, no tem aparecido nada.

Era uma mentira bondosa. Havia sempre coisas para fazer, s que

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no eram para mim. Tal como fora prematuramente condenado pelo Dream Wife, estava agora a ser julgado pelo The BusterKeaton Stary. Mais uma vez me sentia traumatizado 
pelo pensamento de que nunca mais ia conseguir voltar a trabalhar. Durante todas as vezes que estive sem trabalho, os amigos iam e vinham, mas Groucho esteve sempre 
comigo com uma palavra amiga.

Aguardei por um telefonema que nunca chegou, as semanas passaram, depois os meses, e em breve eu estava com um grave problema de dinheiro.

Eu gostava de viver bem, mas nunca tivera interesse no dinheiro em si. A minha filosofia em relao ao dinheiro era uma combinao da poupana de Natalie e dos modos 
esbanjadores do Otto. Tinha dificuldade em gastar dinheiro comigo, mas no tinha qualquer problema em gast-lo para ajudar os outros. Como consequncia, nunca conseguira 
poupar nada.

A casa de Bel Air tinha uma hipoteca e eu tinha ainda de pagar os ordenados a um jardineiro, a um rapaz que cuidava da piscina e a Laura. A nossa situao financeira 
deteriorava-se rapidamente.

Jorja comeou a ficar preocupada.

O que vamos ns fazer?

Vamos ter de comear a economizar. E, depois de respirar fundo, acrescentei: Vamos ter de despedir a Laura. No nos podemos dar ao luxo de continuar a ter uma criada.

Foi um momento terrvel para ns os dois.

Diz-lhe tu pediu Jorja. Eu no sou capaz.

Laura fora maravilhosa. Estava sempre alegre e ajudava muito. Adorava Mary e Mary adorava-a.

Isto vai ser muito difcil. Chamei Laura  biblioteca.

Laura, infelizmente, tenho ms notcias. Olhou para mim, alarmada.

O que foi? Est algum doente?

No, estamos todos bem. Mas  que... vou ter de a dispensar.

O que  que quer dizer com isso?

Laura, eu no lhe posso pagar o seu ordenado. Ela olhou para mim, chocada.

Quer dizer que me est a despedir?

Infelizmente, sim. Lamento muito. Ela abanou a cabea.

No pode fazer isso!

No est a perceber. Eu j no lhe posso pagar e...

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Eu fico.

Laura...

Eu fico.

E saiu da sala.

Eu e Jorja fomos obrigados a cortar a nossa vida social e raramente saamos. Havia peas que queramos ver, mas eram demasiado caras. Laura ouvia Jorja e eu conversarmos 
a esse respeito.

Quando debatamos a possibilidade de sairmos uma noite, Laura chegou junto de ns e estendeu-me uma nota de vinte dlares:

Tome.

Eu no posso aceitar respondi.

Depois paga-me.

Eu estava quase a chorar. Ela trabalhava muito, no recebia ordenado e ainda por cima estava a dar-me dinheiro.

Chegou o dia em que eu j no tinha dinheiro para pagar a prestao da casa.

Perdemos a casa disse a Jorja. Ela viu bem a minha dor.

Querido, no te preocupes. J escreveste muitos sucessos antes, vais escrev-los de novo.

Ela no compreendia.

No vou no, nunca mais.

Lembrei-me da primeira casa que a minha famlia alugou, na rua Marion, em Denver. Eu vou casar aqui e os meus filhos vo crescer aqui... Nessa altura, contando as 
casas, apartamentos e hotis, eu mudara-me treze vezes.

Na semana seguinte, desistimos da casa com a piscina e os maravilhosos jardins e aluguei um apartamento. Eu estava a viver a vida de Otto, numa montanha russa que 
me levava da prosperidade  pobreza num ciclo que parecia no ter mais fim. Sentia-me outra vez com tendncias suicidas. Mantivera os pagamentos de uma aplice de 
um seguro de vida que chegaria para a Jorja e a Mary viverem. Elas esto melhor sem mim, decidi. E comecei a pensar no assunto.

Eu sabia que nunca mais ia ter a vida que tivera. Nunca mais teria a Europa, as festas maravilhosas, os sucessos. Ia sentir saudades de tudo isso e perguntava-me 
se seria melhor ter tido sucesso e tudo ter perdido ou nunca ter provado o sabor do sucesso de forma que nunca lhe sentiria a falta. Estava extremamente deprimido 
e o suicdio era a nica sada que conseguia imaginar para aquela crise. Senhor Sheldon,

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est a sofrer de uma psicose manaco depressiva... Em mdia, uma em cada cinco pessoas que sofrem de psicose manaco depressiva acabam por se suicidar.

Vivia um pesadelo que sentia nunca mais ter fim. Estava a ponderar seriamente o suicdio?

Tentei pensar em todos os sucessos que tivera, em vez dos falhanos, mas de nada serviu. Esta misteriosa qumica que existia dentro do meu crebro no o ia permitir. 
Eu era incapaz de controlar as minhas emoes.

Mas, quanto mais pensava nisso, mais me apercebia de que no conseguia aceitar a ideia de deixar Jorja e Mary. Eu tenho de criar alguma coisa, pensei. Era bvio 
que os estdios cinematogrficos no queriam nada comigo. E a televiso?

O meu programa preferido era o I Love Lucy, uma comdia brilhante que Lucille Bali e o marido, o produtor Desi Arnaz, punham no ar todas as semanas. Era a comdia 
mais popular da televiso. Talvez eu pudesse escrever qualquer coisa que interessasse Desi Arnaz. Pensei num ttulo e numa ideia, Adventures of a ModeL Seria uma 
comdia romntica, com todas as situaes em que uma modelo maravilhosa se veria envolvida.

Levei uma semana a escrever o guio piloto. Marquei uma entrevista com Desi Arnaz.

Muito prazer em conhec-lo disse ele. Tenho ouvido falar de si.

Senhor Arnaz, tenho uma ideia para um piloto e tirei para fora o manuscrito e dei-lho.

Assim que leu o ttulo, o rosto dele iluminou-se.

Adventures ofa ModeL Soa muito bem. Levantei-me.

Quando tiver uma oportunidade para o ler, ficava-lhe muito grato que me dissesse qualquer coisa.

No, no. Sente-se pediu. Vou l-lo j.

Fiquei a observ-lo enquanto lia. Sorriu o tempo todo. Um bom sinal, pensei. Eu nem respirava.

Leu a ltima pgina e olhou para mim.

Adorei. Vamos faz-lo disse.

Euj podia voltar a respirar. Senti-me como se um enorme peso tivesse sido tirado de cima do meu corao.

A srio?

Vai ser um xito. No h nada deste gnero no ar. E ainda o podemos fazer esta temporada disse ele. A CBS tem um espao livre no horrio. Vamos ver se o conseguimos 
apanhar.

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CAPTULO 27

Eu no precisava de um carro para me levar at casa. Andava nas nuvens. Quando cheguei, Jorja estava  minha espera  porta. Olhou para a minha cara e perguntou:

Boas notcias?

Excelentes notcias. O Desi Arnaz vai produzir Adventures ofa ModeL

Abraou-me.

Isso  maravilhoso.

Tu fazes ideia do que significa ter uma srie de sucesso na televiso? Pode durar anos.

E quando  que tens uma resposta?

Dentro de um ou dois dias.

Dois dias mais tarde, recebi um telefonema do Desi.

Estamos nisto. A CBS deu-nos o ltimo espao que tinha no horrio.

Hoje vamos sair para comemorar disse a Jorja. Laura, que ouvira a conversa, estava com ar radiante.

Vocs os dois vo divertir-se. Deu-me outra nota de vinte dlares. Eu pago.

No posso. A Laura j foi...

Pode sim. Abracei-a.

Muito obrigado.

Eu sempre soube que ia conseguir.

Samos e fomosjantar a um restaurante italiano e tivemos umjantar maravilhoso.

Eu nem posso acreditar disse eu. Estamos na CBS. Eu vou produzir o programa e escrever os guies.

A caminho de casa, Jorja comentou:

Estou to orgulhosa de ti, querido. Eu sei o que passaste e como tem sido difcil, mas agora tudo acabou.

240
Desi telefonou-me na manh seguinte.

Pode vir ao meu escritrio? Eu sorri.

Claro que sim.

Cheguei l trinta minutos depois.

Sente-se pediu.

Certo. Quando  que comeamos? Ele estudou-me por uns instantes.

Sidney, a CBS tinha um espao livre e ns aproveitmo-lo. Cancelaram o The Dick Van Dyke Show e puseram-nos no mesmo perodo. Danny Thomas, que  o dono do The Dick 
Van Dyke Show e de uns outros programas na CBS, pressionou-os e insistiu que dessem mais um ano ao The Dick Van Dyke Show. A estao acabou por ceder. Voltaram a 
p-los no horrio. Ns samos.

Fiquei sentado, sem me mexer, incapaz de falar.

Lamento muito. Talvez para a prxima temporada disse ele.

Eu estava outra vez perante a mesma escolha, desistir ou tentar de novo. Diabos me levassem se ia desistir.

Precisava de outro projecto, e sentei-me a cri-lo. Sentei-me no meu escritrio durante uma semana, pondo de lado ideia atrs de ideia. Por fim, tive uma que me 
pareceu poder resultar. No havia espectculos na Broadway sobre ciganos. Eu tinha um ttulo, KingofNew York. Seria sobre uma famlia cigana, com uma filha lindssima 
que se apaixonava por um no cigano e todas as situaes a que isso podia levar.

Eu no sabia nada sobre ciganos e tinha de fazer alguma pesquisa. Onde  que poderia aprender coisas sobre eles? Liguei para a polcia e pedi para falar com um detective.

Em que lhe posso ser til?

Gostava de fazer entrevistas a uns ciganos. Por acaso sabe onde posso encontrar alguns?

Ele riu.

Sei. Normalmente temo-los presos na cadeia. De momento esto todos na rua. Posso dar-lhe o nome do homem que se intitula "o rei".

Perfeito.

O homem chamava-se Adams e o detective disse-me onde podia entrar em contacto com ele. Liguei-lhe e expliquei-lhe quem era e convidei-o para vir ao meu apartamento. 
Era um homem alto, corpulento, com cabelo negro e uma voz funda e grave.

241
Gostava de falar consigo sobre os costumes dos ciganos disse eu. Quero saber tudo sobre a forma como vivem.

Ele ficou ali sentado, em silncio.

Eu pago-lhe. Se conversar comigo e me explicar tudo o que preciso saber, eu pago-lhe... e hesitei cem dlares.

O rosto dele iluminou-se.

Muito bem. Pode dar-me o dinheiro j e... E eu sabia que nunca mais o veria.

No. Quero que venha c uma vez por semana e conversamos e eu dou-lhe dinheiro cada vez que vier durante uma hora.

Encolheu os ombros.

Est bem.

Bom, ento comece a falar.

Ele falava e eu tomava apontamentos. Eu queria conhecer os seus hbitos, como viviam, como se vestiam, como falavam, como pensavam. Ao fim de trs semanas j sabia 
o suficiente para poder comear a escrever a pea. Quando a terminei, mostrei-a a Jorja.

Est ptima. A quem  que a vais levar? Eu j decidira o que fazer.

A Gower Champion.

Ele acabara de dirigir um xito da Broadway chamado ByeBye Birdie. Fui ver Gower. Fora uma estrela musical na MGM, passara para a Broadway como director e tivera 
um enorme sucesso.

Tenho uma pea que gostava que lesse disse eu.

Muito bem. Parto hoje para Nova Iorque. Levo-a comigo e leio-a no avio.

Estupidamente, eu imaginara que ele ia fazer a mesma coisa que Desi Arnaz, l-la imediatamente.

Muito obrigado.

Quando cheguei a casa, Jorja perguntou:

O que foi que ele disse?

Disse que ia l-la. O problema  que eu ouvi dizer que ele tem uma srie de outros projectos em mos. Mesmo que esteja interessado, pode levar ainda muito tempo 
at que a comece.

Gower Champion ligou-me na manh seguinte.

Sidney, eu acho que  excelente. Vai dar um musical maravilhoso. Nunca houve nada disto na Broadway. Vou ligar a Charles Strouse e a Lee Adams, que escreveram a 
banda sonora do Bye Bye Birdie, e traz-los para trabalhar connosco.

Por qualquer razo, no me senti excitado. Tivera demasiados desapontamentos. Tentei soar um pouco entusiasmado.

242
Que bom, Gower.

Desliguei o telefone e pensei em todos os sonhos que nunca se tinham tornado realidade.

Esperei por voltar a ter notcias de Gower e, cinco dias mais tarde, ele ligou. Parecia zangado.

Est tudo bem? perguntei.

No. Disse ao Strouse e ao Adams que queria que fizessem a msica para esta histria e esto a pedir uma percentagem maior. So uns ingratos filhos da me. Respondi-lhes 
que no cedia.

Ento, quem  que ns...?

No vou fazer a pea.

Um ano depois, outra pessoa estreou uma pea na Broadway chamada Bajour. Era sobre ciganos que viviam em Nova Iorque.

Numa altura em que eu devia estar deprimido, sentia-me feliz. Lembrei-me do que o Doutor Marmer me dissera sobre a psicose manaco depressiva.  um desvio do crebro 
que envolve episdios de mania e de depresso srios, onde a disposio muda da euforia ao desespero...  um importante factor em trinta mil suicdios por ano. Eu 
estava eufrico. Sentia que algo de maravilhoso me ia acontecer.

Chegou por via de um telefonema.

Quero falar com Sidney Sheldon, por favor.

Sou eu prprio.

Daqui fala Robert Fryer.

Era um produtor da Broadway muito conhecido.

Diga, senhor Fryer.

A Dorothy e o Herbert Fields pediram-me para lhe telefonar. Esto a escrever um musical para mim chamado Redhead e querem saber se estaria interessado em trabalhar 
com eles. Est interessado?

Se eu estava interessado em voltar a trabalhar com Dorothy e Herbert Fields? Se estava! Tentei parecer calmo.

Sim, estou interessado.

ptimo. Ento quando  que pode vir para Nova Iorque? Queremos comear o mais depressa possvel.

Duas semanas mais tarde, Jorja, Mary e eu mudmo-nos para Manhattan para um apartamento alugado. O nosso nico desapontamento foi Laura no poder viajar connosco. 
Eu pagara-lhe todos os ordenados que lhe devia mais um bnus avultado. Foi uma despedida muito emotiva.

243
Senhor Sheldon, eu no posso abandonar a minha famlia. Vou sentir saudades vossas e rezar por vocs. Esta era a Laura.

Robert Fryer andava pelos quarenta e tal anos e era um homem bem parecido, muito bem vestido, com uma paixo pelo teatro. Encontrmo-nos no escritrio dele, na rua 
Quarenta e Cinco.

O Redhead vai ser um espectculo em grande disse, entusiasmado. Estou muito satisfeito por vir trabalhar connosco.

Tambm eu. Fale-me do espectculo.

A Dorothy est a escrever as letras das canes. A msica est a ser escrita por Albert Hague. Voc e o Herbert vo escrever o argumento. A pea tem lugar no virar 
do sculo, em Londres. A nossa figura principal  umajovem que faz modelos em cera que so exibidos na cmara dos horrores de um museu de cera. Um assassino em srie 
est  solta e no deixa pistas. Quando ele assassina a sua ltima vtima, a nossa herona v-o e faz um modelo dele. Ele fica determinado em mat-la.  uma mistura 
de mistrio, suspense e canes e danas.

Parece excitante.

Encontrmos a Dorothy em casa dela.

Depois dos cumprimentos, ela disse:

V, vamos trabalhar.

Ela e Herbert tinham criado uma trama de sonho. No os voltara a ver depois de Annie Get Your Gun e era um prazer trabalhar outra vez com eles.

Os Fields apresentaram-me a Albert Hague, o compositor que fizera meia dzia de espectculos na Broadway. Era um brilhante msico.

Hague ficou famoso mais tarde no papel de Benjamin Shorofsky, na srie de televiso Fame.

Como a ideia base dos Fields era to excitante, escrever o argumento foi fcil. O Herbert e a Dorothy eram profissionais que trabalhavam em horrio de escritrio. 
Trabalhvamos das nove da manh s seis da tarde e depois amos todos para casa. Pensei nos dias frenticos em que eu e Ben trabalhvamos vrios espectculos ao 
mesmo tempo at s primeiras horas da madrugada.

Arranjmos uma ama para Mary e, quando no estava a trabalhar, explorvamos Nova Iorque. Fomos aos teatros e aos museus e a alguns

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restaurantes. O primeiro a que leveiJorja foi o Sardi's, e Vincent Sardi ainda l estava, caloroso como sempre. Comemos uma refeio maravilhosa, acompanhada por 
uma garrafa de champanhe oferecida.

Eu e Herbert terminmos o primeiro esboo do libreto ao mesmo tempo que Dorothy e Albert acabavam a banda sonora.

Quando terminmos, juntmo-nos no escritrio de Robert Fryer e verificmos o argumento e a banda sonora.

Muito bom.  exactamente aquilo que esperava. Bom, e agora quem vamos ns escolher para o elenco? A quem  que damos o papel principal? perguntou Fryer.

Precisvamos de uma artista que fosse atraente, simptica e que conseguisse cantar e representar comdia ao mesmo tempo. No era uma combinao fcil de encontrar. 
Vimos a lista das actrizes e por fim chegmos a um nome de que todos gostvamos, Bea Lillie. Era uma estrela do palco inglesa, que representava comdia, cantava 
e danava.

Seria perfeita. Vou mandar-lhe o argumento e a banda sonora disse Fryer e rezar.

Cinco dias depois estvamos de volta ao escritrio de Fryer. Ele sorria.

A Bea Lillie adorou. Vai entrar.

Que bom.

Agora precisamos de um coregrafo e estamos prontos a comear.

Mas ainda no era desta. Bea Lillie queria que fosse o namorado a dirigir o espectculo.

Vimos outra vez a lista das actrizes disponveis.

Esperem a. E que tal Gwen Verdon? sugeriu Dorothy. A sala iluminou-se.

Porque no pensmos nela antes? Ela  perfeita.  uma actriz belssima, musical e cheia de talento... e  ruiva. Vou mandar-lhe a pea amanh.

Desta vez a espera foi s de dois dias.

Ela aceitou disse Robert Fryer, e suspirou. Mas temos um problema.

Olhmos todos para ele.

O qu?

Ela quer o namorado a dirigir.

245
Quem  o namorado?

Bob Fosse.

Bob Fosse era um coregrafo espectacular. Acabara de coreografar dois sucessos, The Pajama Game e Damn Yankees.

Ele alguma vez dirigiu alguma coisa? perguntei.

No, mas  extremamente talentoso. Se todos estiverem de acordo, eu estou disposto a arriscar.

No me apetece nada perder a Gwen Verdon disse eu.

Ento, no a vamos deixar fugir respondeu Dorothy e olhou para Robert Fryer. Vamos l ento falar com o Bob Fosse.

Bob Fosse andava pelos trinta e poucos anos, era um homem baixinho, intenso, e fora bailarino e actor em vrios filmes de Hollywood. Passara a coregrafo e tinha 
um estilo prprio muito excitante. A sua marca pessoal, quando danava, era usar chapu e luvas. Os chapus serviam para disfarar o facto de que comeava a ficar 
careca. Dizia-se que usava as luvas porque no gostava das mos.

Encontrmo-nos num salo de ensaios fora da Broadway. Ele sabia exactamente o que queria fazer com o espectculo. Estava cheio de excitantes ideias e, quando a reunio 
terminou, estvamos todos encantados por o termos. Era um negcio duplo. Ele ia fazer a coreografia e dirigir.

Complementmos o elenco com Richard Kiley e Leonard Stone e os ensaios comearam. Bem como os problemas.

Bob Fosse, como todos os bons coregrafos, era um ditador. Tinha uma viso muito pessoal do espectculo. O libreto estava escrito, os cenrios em construo, o guarda-roupa 
encomendado e Fosse estava constantemente desagradado com tudo. Emitia opinies e era teimoso e estava a pr-nos a todos com os nervos em franja. Porque aguentvamos 
tudo isto? Porque ele era um gnio. A coreografia dele era suficientemente brilhante para dar, s por si, vida ao espectculo. Mas, quando ele tentou rescrever o 
argumento, isso no permiti. Herbert concordou comigo. Decidimos deix-lo trazer outro escritor, David Shaw.

Os ensaios tinham um aspecto maravilhoso. Gwen era espantosa. As danas eram espectaculares e o argumento funcionava s mil maravilhas. Sustive a respirao  espera 
do que ia correr mal.

Natalie e Marty vieram a Nova Iorque para a estreia e Richard e a mulher, Joan, vieram de avio. Sentaram-se na plateia comigo e com Jorja. Desta vez ningum saiu 
desapontado.

246
Estremos no 46 Street Theatre em Nova Iorque, no dia 5 de Fevereiro de 1959, e as crticas foram unnimes nos elogios. Estavam encantados com a Gwen, adoraram as 
canes e as danas e gostaram do argumento.

"Melhor comdia musical da temporada...", Watts, New York Post.

"O triunfo musical do ano, talvez de vrios anos...", Aston, New York Tekgram and Sun.

"At agora, o melhor musical da temporada!...", McClain, New York Joumal-Amertcan.

"Um musical de primeira!...", Chapman, New York Times.

"Um vibrante sucesso...", Kerr, New York Herald Tribune.

Nesse ano, Redhead recebeu sete nomeaes para o Tony e ganhou cinco. Escusado ser dizer que estvamos todos extasiados.

Trs anos depois, Gwen Verdon e Bob Fosse casaram-se.

O elevador estava outra vez no topo e decidi que era a altura de regressar a Hollywood. No ia ficar  espera que um estdio me contratasse. Escreveria uma pea 
que os estdios quereriam comprar.

Era muito fcil ter um sucesso na Broadway. Eu sempre me interessara pela percepo extra-sensorial. Os filmes e as peas feitas sobre o tema eram sempre muito srios. 
Imaginei que seria divertido escrever uma comdia romntica sobre uma maravilhosa jovem mdium. Escrevi a pea e dei-lhe o nome de Roman Candle. O meu agente enviou-a 
a vrios estdios e aos produtores da Broadway e a excitao que se gerou deixou-me espantado. Recebi propostas de quatro produtores da Broadway.

Moss Hart, um dos principais directores da Broadway, queria dirigi-la. Acabara de dirigir o sucesso da Broadway My FairLady. E queria o produtor com quem trabalhara, 
Herman Levin, para Roman Candle. Sam Spiegel tambm a queria produzir.

Audrey Wood, a minha agente, era uma mulher baixinha, dinmica, e uma das agentes mais proeminentes da Broadway. Trabalhava com Bill Liebling, o marido, e os dois 
representavam alguns dos mais importantes dramaturgos, incluindo Tenessee Williams e William Inge.

Esta vai ser uma pea importante disse Audrey. Sam Spiegel ligou outra vez, est pronto para fazer o negcio.  amigo de Moss Hart e Moss vai dirigir para ele.

Fiquei encantado. No havia ningum melhor. Audrey ligou-me outra vez:

Tenho mais notcias para ti. O William Wyler leu a tua pea e quer realizar o filme.

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William Wyler era um importante realizador de Hollywood. Realizou, entre outros clssicos, Mrs. Miniver, Em Hur, The Best Years ofOur Lives e Roman Holidays. Trabalhava 
com a Mirisch Company, que ia produzir o filme. Tambm queria investir na pea da Broadway. Eu tinha de fazer uma escolha, Sam Spiegel e Moss Hart ou William Wyler 
e a Mirisch Company?

Como Moss quer fazer a pea, porque no pomos o Sam Spiegel a produzi-la e o Moss a dirigi-la e o filme  feito pelo William Wyler e a Mirisch Company? perguntei 
a Audrey.

Ela abanou a cabea.

Duvido muito que Sam esteja interessado em produzir a pea se no puder ficar com os direitos do filme.

Experimenta pedi.

No dia seguinte, ela respondeu:

Eu tinha razo. O Spiegel quer tambm os direitos do filme. Mas tenho um produtor que poder ser excelente para esta pea. Acabou de produzir um xito, Candide. 
Chama-se Ethel Linder Reiner.

Conheci Ethel Linder Reiner. Andava pelos cinquenta anos, tinha o cabelo grisalho e era muito agressiva.

Gosto muito da sua pea. Vamos ter um xito estrondoso disse. Ouvira dizer que Alan Lerner e Frederick Loewe tinham escrito um espectculo para a Broadway sobre 
um mdium e que este estava pronto para ser produzido. Fora interrompido por causa do Roman Candle. Nos filmes e na televiso, um sucesso rapidamente gera imitaes 
mas, na Broadway, a originalidade  a chave do sucesso. Lerner e Loewe no queriam montar um espectculo sobre um mdium quando um sobre o mesmo tema acabara de 
ser feito por outra pessoa. Estavam  espera para ver o que acontecia com Roman Candle.

Eu conhecera Alan quando estvamos na MGM e gostava dele. Ele e Frederick Loewe eram extraordinariamente dotados e lamentava que tivessem perdido tempo e gasto o 
seu talento num espectculo que nunca iria ser levado  cena.

Todos diziam que amos ter um grande sucesso. Com Moss Hart a dirigir Roman Candle, ia ser um xito.

- s capaz de ligar ao Moss e dizer-lhe que vamos avanar? pedi  Audrey.

Claro respondeu. Quanto mais depressa iniciarmos esta pea, melhor.

No dia seguinte, tive uma reunio com Audrey Wood e Ethel Linder Reiner.

248
Recebi um telegrama de Moss e Audrey leu-o em voz alta. "Querida Audrey, recebi o teu ultimato, mas eu estou a meio de uma autobiografia chamada Act One e vou demorar 
ainda uns seis meses at a acabar e poder dirigir a pea do Sidney." Ela olhou para mim.

Vamos arranjar outro director.

Era o momento de eu dizer alguma coisa. No h director melhor que Moss Hart. No temos pressa para estrear a pea. Esperemos por ele. Mas eu detestava confrontos. 
Desde pequeno que, por ter ouvido as amargas discusses entre Natalie e Otto, fugia sempre s discusses. Assim, concordei:

Como queiram.

Foi um dos maiores erros da minha vida. Verificou-se que Ethel Linder Reiner era uma diletante. No percebia nada da Broadway, nem de Hollywood. Quando a apresentei 
a William Wyler, que ia realizar o filme, o comentrio dela foi: "Adorei o Sunset Boulevard", um clssico que, claro, fora dirigido pelo Billy Wilder.

Comemos a fazer os testes para a pea. Ela escolheu Inger Stevens, uma jovem e belssima actriz que fizera alguns programas de televiso, Robert Sterling e Julia 
Meade. O director era o David Pressman, que tinha muito pouca experincia. Como dramaturgo da pea, eu tinha o direito de aprovar o director e os actores, mas eu 
no queria criar ondas. Inger Stevens e Robert Sterling voaram para Nova Iorque e os ensaios comearam.

William Wyler telefonou-me.

Sidney, estamos com um problema. Respirei fundo.

O que foi que aconteceu?

A Audrey Hepburn e a Shirley MacLaine leram a tua pea. Ambas querem fazer o filme.

Willie... que todos os problemas sejam esses!

A pea comea com uma belssima mdium que vai a Nova Iorque porque viu na capa da revista Time a fotografia do homem com quem se vai casar. Ele  um cientista que 
est noivo da filha de um senador. As complicaes comeam. O Exrcito no ficou nada satisfeito com o facto de um cientista andar metido com uma mulher que afirma 
ser mdium.

Os ensaios correram bem. A pea estreou fora da cidade e as crticas podiam ter sido escritas pela Natalie.

249
Em Filadlfia: "A alegre comdia de Sidney Sheldon  uma fonte de deleite puro. Hilariante...".

Em New Haven, "Roman Candlede Sidney Sheldon foi responsvel por inmeras gargalhadas no Schubert Theatre ontem  noite..."

TheJournalEvenning, de Wilmington, no Delaware: "Roman Candle  a mais encantadora comdia sobre as foras armadas desde No Time forSargeants..."

John Chapman: "Roman Candle  uma farsa alegre e cheia de anedotas sobre as nossas foras armadas e uma bela mdium."

Em todos os teatros em que actumos, as paredes ressoavam com as gargalhadas dos espectadores.

Esta pea vai estar anos em cena comentou a Audrey. Tentei controlar o meu entusiasmo. Em todas as cidades em que actumos recebemos excelentes crticas. Continuei 
a trabalhar na pea, a melhor-la, a afin-la. As cenas funcionavam maravilhosamente. Estvamos quase prontos para ir para Nova Iorque. Todos estavam entusiasmados 
e com razo. Tnhamos uma pea que as audincias adoravam. Estava na hora de estrear em Manhattan. Tnhamos conseguido o Cort Theatre, que era perfeito para a pea. 
As brilhantes crticas das outras cidades tinham-nos precedido. As pginas culturais dos jornais de Nova Iorque estavam cheias de fotografias do elenco e de artigos 
a proclamar-nos como um estrondoso sucesso. Os telegramas de felicitaes choviam da famlia, dos amigos, da Broadway e de Hollywood. Todos estvamos excitados. 
Comemos a fazer apostas.

Aposto que vai estar em cena dois anos dizia o produtor.

Com as tournes pode estar trs anos, talvez at mesmo quatro comentou Audrey.

Viraram-se para mim. Eu j recebera demasiadas lies bem amargas.

H muito tempo que deixei de apostar no teatro foi a minha resposta.

A noite de estreia correu bem e a audincia apreciou o espectculo. Ao fim da noite lemos as primeiras crticas.

New York Times: "Tem menos graa que uma corrida de bicicletas de seis dias..."

Variety: "As personagens so espantosamente descoloridas."

New York Hemld Tribune: "No fique com a impresso de que o espectculo  pretensioso. No . Romam Candle uma peazinha sem interesse, modesta e teimosa."

QMagazine: "Os actores tornam o palco do Cort Theatre mais vivo e mais excitante do que o guio permite."

250
Afeal York Daily News: "A trama de Roman Candle avana, mas no consegue manter o ritmo."

Um especialista disse um dia que um crtico  algum que espera que estreie uma pea com problemas para lhe dar um tiro e a abater.

Roman Candle saiu de cena ao fim de cinco espectculos.

Pouco depois de termos sado de cena, Lerner e Loewe puseram em produo o seu espectculo sobre uma mdium. Chamava-se On a Clear Day You Can See Forever.

Foi um xito.

O meu agente telefonou-me de Hollywood.

Lamento muito isto da pea.

Tambm eu.

Receio ter ms notcias para ti.

Pensei que estas eram as ms notcias.

H mais. Wiliam Wyler decidiu que no vai realizar o filme. Este foi o golpe final.

Era muito fcil quase ter um xito na Broadway.

251
CAPTULO 28

Um dia, deu-se um incndio numa ravina perto de nossa casa. Se o fogo se espalhasse, dzias de casas seriam destrudas. Um bombeiro apareceu  nossa porta.

O fogo est a avanar muito depressa. Comecem a evacuar. Jorja correu ajuntar as coisas de que precisava, eu peguei em Mary,

que na altura estava com cinco anos e levei-a rapidamente para o carro. Tinha de decidir o que ia levar comigo. No escritrio tinha uma coleco de prmios, uma 
prateleira cheia de primeiras edies de livros, papis de pesquisas, roupas de desporto e os meus tacos de golfe favoritos. Mas havia algo muito mais importante 
para eu levar.

Corri para casa, agarrei num punhado de canetas e em meia dzia de blocos de papel amarelo que podia perfeitamente comprar numa loja qualquer por trs vintns porque, 
algures dentro de mim, pensei que talvez tivssemos de passar algumas semanas num hotel e soube instintivamente que no podia interromper a minha escrita. Foi tudo 
o que tirei de casa.

Estou pronto.

Felizmente, os bombeiros conseguiram controlar o fogo e a nossa casa nada sofreu.

Ouvi uma voz conhecida ao telefone.

Os crticos esto doidos. Li o argumento de Roman Candlee adorei. Era Don Hartman.

Obrigado, Don.  muito simptico. No mandem fiares.

Tenho um projecto que quero que escreva para mim. Chama-se Al in a Night, Work. O Dean Martin e a Shirley MacLaine so os artistas principais. O Hal Wallis vai produzir. 
O argumento  bom mas tem de ser rescrito para as nossas estrelas.

Eu gostei muito de trabalhar com Dean.

ptimo. Quando  que pode comear?

252
Infelizmente, no posso comear j. Preciso pelo menos de uns quinze minutos.

Ele riu.

Vou falar com o seu agente.

Era bom estar de volta  Paramount. Proporcionara-me excelentes recordaes. Continuava a haver uma srie de caras conhecidas, produtores, realizadores, escritores, 
secretrias. Sentia-me como se tivesse regressado a casa.

Tive uma reunio com Hal Wallis. Conhecera-o a nvel social, mas nunca trabalhara com ele. Ele produzira uma srie de filmes de prestgio, entre eles Littk Caesar, 
The Rainmaker, lamaFugitivefrom a Chain Gange The Rose Tattoo. Hal era baixo, de constituio compacta e com ar srio. J nos setenta anos, estava mais activo do 
que nunca.

Quando entrei no seu gabinete, ele ergueu-se:

Pedi-o expressamente a si porque acho que este filme  o seu gnero.

Estou ansioso por comear a trabalhar.

Discutimos o filme e ele contou-me a sua viso. Quando me vinha embora, ele disse:

A propsito, li o Roman Candle.  uma excelente pea. Tarde de mais, Hal

Obrigado.

Estava na hora de voltar ao trabalho.

Edmund Beloin e Maurice Richlin tinham escrito o argumento e era excelente, mas Don tinha razo. Precisava de ser moldado para Dean e Shirley. Eles eram personalidades 
to distintas que a adaptao seria fcil, e comecei a escrever.

Uma noite, quando regressava a casa vindo do estdio, Jorja estava  minha espera com um enorme ramo de flores. Tinha um ar de satisfao.

Feliz dia do Pai. Olhei para ela, espantado.

Mas... hoje no ...

Mas logo percebi onde ela queria chegar. Tomei-a nos braos e abracei-a.

Queres um menino ou uma menina? perguntou.

Dois de cada.

Pois, para ti  fcil dizer. Abracei-a com mais fora.

Querida, isso no interessa. Vamos s esperar que o beb seja to maravilhoso como Mary.

253
Mary tinha cinco anos. Como se sentiria ela com um irmo ou uma irm?

Dizes-lhe tu ou digo-lhe eu? J lhe disse.

E como foi que reagiu?

Bom, respondeu que estava muito contente, mas, uns minutos depois, vi-a a contar os passos entre o nosso quarto e o quarto dela e os passos do nosso quarto ao quarto 
que vai ser do beb.

Ri.

Ela vai adorar ser irm mais velha.

Que nome vamos dar ao beb? perguntei.

Se for rapariga, gostaria de lhe chamar Alexandra.

 um nome bonito. Se for um rapaz, chamamos-lhe Alexandre. Significa defensor da humanidade.

Parece-me bem respondeu Jorja a sorrir. Conversmos toda a noite sobre os nossos planos para Mary e o beb. De manh, estava exausto mas feliz. Incrivelmente feliz.

O argumento para AU in a Night's Work corria bem. Conversei vrias vezes com Hal Wallis e os comentrios dele ajudaram bastante. Os cenrios estavam a ser construdos 
e foi contactado um realizador chamado Joseph Anthony.

Cliff Robertson e Charles Ruggles foram acrescentados ao elenco. Embora j tivesse trabalhado antes com Dean, nunca conhecera Shirley MacLaine. S sabia que era 
uma actriz cheia de talento e que acreditava que j tinha vivido vidas anteriores. Talvez fosse verdade. Mas, quando a conheci nesta sua vida actual, revelou-se 
uma ruiva cheia de dinamismo com uma extraordinria energia.

Sidney Sheldon.

Ela olhou-me atentamente.

Shirley MacLaine. Tenho muito gosto em conhec-lo, Sidney. Interroguei-me se nos teramos conhecido numa vida prvia. Assim que me viu, Dean sorriu.

Ainda no se fartou de mim?

Nunca.

Dean no mudara em nada. Era o mesmo homem descontrado e de trato fcil que eu conhecera, completamente intocado pelo seu estatuto de estrela.

Depois de se terem separado, Jerry fez mais quarenta filmes e

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dedicou-se a angariar dinheiro para crianas com distrofia muscular. Dean continuou a fazer filmes e entrou em programas de televiso de sucesso.

A televiso adequava-se perfeitamente ao estilo de vida de Dean. O seu contrato com a cadeia de televiso dizia que ele no precisava de ensaiar. Dean entrava, fazia 
o programa e desejava as boas noites. E o programa era um sucesso.

Eu e Jorja dvamos jantares e ramos convidados. De forma a no emular a tendncia de Otto para usar os seus amigos, eu exagerava em fazer exactamente o oposto e, 
sem querer, acabava por magoar pessoas maravilhosas. Eddie Lasker era o herdeiro da fabulosa agncia de publicidade Lord & Thomas. A mulher, Jane Greer, era uma 
bela e bem sucedida actriz. Convidavam-nos frequentemente para casa deles e as festas que davam eram sumptuosas. Jorja e eu gostvamos muito de estar com eles.

Uma noite, Eddie disse:

Ns divertimo-nos tanto juntos, porque  que no marcamos um encontro para todas as semanas?

E eu pensei: Eu no tenho dinheiro para festas to caras como estas. Estaria a aproveitar-me deles. Por isso respondi:

Eddie, vamo-nos encontrar sempre que for possvel, est bem? Vi na cara dele que ficara magoado.

Outro casal de quem gostvamos muito era Arthur Hornblow e a mulher, Lenore. Ele era um produtor de sucesso.

Tenho um projecto que penso que vais gostar disse Arthur certo dia.

Ele  bem sucedido e eu preciso de um emprego, mas no me quero aproveitar. Assim, respondi:

Arthur, vamos manter as coisas num nvel social, est bem? E eu perdi um amigo.

AU in a Night's Work estava terminado e pouco tempo depois Jorja estava pronta para dar  luz o nosso segundo beb. Desta vez, eu estava preparado. Sabia onde era 
o hospital e partimos cedo para que no houvesse correrias de ltima hora. Deram-nos um quarto e agora no havia mais nada a fazer seno esperar pela chegada do 
nosso menino ou menina. No importava o que viesse.

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O obstetra, o doutor Blake Watson, j estava no hospital.

 uma da manh, a Alexandra chegou. Eu estava  espera do lado de fora da sala de partos quando o doutor Watson e duas enfermeiras apareceram, apressados. O Doutor 
Watson tinha o beb nos braos, embrulhado num cobertor.

Doutor, como est...?

Ele passou apressadamente por mim. Entrei em pnico. Um momento mais tarde, Jorja surgiu numa cama com rodas vinda da sala de partos para ser levada para o quarto. 
Parecia muito plida.

Est tudo bem? perguntou. Peguei-lhe na mo.

Est tudo bem. J vou ter contigo.

E fiquei a olhar enquanto a levavam pelo corredor fora. Em seguida, apressei-me  procura do doutor Watson.

Quando passei em frente da unidade de cuidados intensivos de recm-nascidos, vi-o atravs da janela. Ele e outros mdicos estavam em volta de um bero em acesa discusso. 
O meu corao comeou a bater descompassadamente. Eu queria entrar na sala, mas obriguei-me a esperar. Quando o doutor Watson olhou para cima e me viu, disse qualquer 
coisa aos colegas. Todos se viraram e olharam para mim. Eu estava com dificuldade em respirar. O doutor Watson saiu para o corredor.

O que  que se passa? perguntei. O que ... o que  que est errado? Eu mal conseguia falar.

Receio que tenha ms notcias para si, senhor Sheldon.

O beb morreu!

No. Mas... Ele estava com dificuldade em falar. O seu beb nasceu com espinha bfida.

Eu queria aban-lo.

E o que  isso? Explique-me isso em ingls.

A espinha bfida  um defeito congnito. Durante os primeiros meses da gravidez, a espinha no fecha adequadamente. Quando o beb nasce, s tem uma fina camada de 
pele sobre a espinha. A espinal medula est muito protuberante pelas costas.  uma das mais...

Ento, por amor de Deus, trate disso! Eu estava a gritar.

No  assim to simples.  preciso que um especialista...

Ento mande vir os especialistas. Est-me a ouvir? J! Quero-os aqui j! Eu gritava, completamente descontrolado.

Ele olhou para mim por segundos, acenou com a cabea e afastou-se apressadamente.

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Tive de dar a notcia a Jorja. Foi provavelmente o momento mais difcil da minha vida.

Assim que entrei no quarto, ela olhou para a minha cara e perguntou:

O que se passa?

Vai correr tudo bem garanti-lhe. A Alexandra nasceu com um... um problema. Masj vm uns especialistas a caminho para tratar disso. Tudo se vai arranjar.

As quatro da manh chegaram dois mdicos e o doutor Watson levou-os  unidade de cuidados intensivos. Eu fiquei l fora durante um bocado a olhar os rostos deles, 
a rezar para que acenassem com a cabea, que sorrissem para me acalmar. Por fim, no aguentei mais. Voltei para perto de Jorja. Sentei-me com ela e ali ficmos  
espera, em silncio.

Meia hora mais tarde, o doutor Watson entrou. Olhou para Jorja e para mim durante uns segundos e disse pausadamente:

Dois dos maiores especialistas em tratamento de espinha bfida examinaram a vossa beb. Concordaram que existem poucas probabilidades de ela sobreviver. Se o fizer, 
provavelmente ter hidrocefalia, uma acumulao de lquido no crebro.

Cada palavra dele era como um martelo.

Ter tambm problemas de bexiga e de intestinos. A espinha bfida  uma deficincia congnita permanente.

Mas  possvel que ela viva? perguntei.

Sim, mas...

Ento ns levamo-la para casa. Vamos ter enfermeira vinte e quatro horas e todo o equipamento...

Senhor Sheldon, no. Ela precisa de ser colocada num centro de cuidados onde esto habituados a lidar com este problema. Recomendamos um local perto de Pomona, onde 
lidam com estes casos.

Jorja e eu olhmos um para o outro.

Isso quer dizer que a podemos visitar disse a Jorja,

Seria melhor que no o fizessem. Demorou um bocado at percebermos.

Quer dizer que...

Ela vai morrer. Lamento muito. A nica coisa que vos resta  rezar.

Como  que uma pessoa reza para que o filho morra?

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Li tudo o que encontrei em revistas de medicina sobre espinha bfida. O prognstico no era bom. Quando Mary perguntou onde estava a Alexandra, respondemos que estava 
doente e que no podia vir ainda para casa.

Eu no conseguia dormir. Tinha vises de Alexandra deitada num bero cheia de dores, num lugar desconhecido sem ningum para lhe pegar ao colo, ningum para a amar. 
Acordei vrias vezes a meio da noite e encontrava Jorja no quarto vazio do beb, a chorar. Mas havia esperana. Os registos mostravam que algumas crianas com espinha 
bfida viviam at  idade adulta. Alexandra precisaria de cuidados especiais, mas ns podamos dar-lhos, amos tentar tudo. O doutor Watson estava errado. Os milagres 
clnicos aconteciam todos os dias.

Quando apanhava um artigo sobre um medicamento miraculoso, mostrava-o ajorja.

Olha. Isto ontem nem sequer estava no mercado. Agora vai salvar milhares de vidas.

E Jorja procurava artigos sobre descobertas mdicas.

Aqui diz que h novas descobertas cientficas prestes a mudar a face da medicina. No h nenhuma razo que impea que descubram alguma coisa que salve o nosso beb.

Podes crer. Ela tem os nossos genes.  uma sobrevivente. S precisa de aguentar durante algum tempo. Hesitei e acrescentei: Acho que a devemos trazer para casa.

Os olhos de Jorja estavam rasos de lgrimas.

Concordo contigo.

Vou ligar ao doutor Watson logo de manh. E apanhei-o no consultrio.

Doutor Watson, eu queria falar consigo sobre a Alexandra. Eu e ajorja pensamos que...

Senhor Sheldon, eu ia agora mesmo ligar-lhe. A Alexandra morreu esta noite.

Se existe um inferno na terra, ele existe para um pai que perde um filho.  uma dor inexplicvel que nunca desaparece completamente. No conseguamos parar de pensar 
em Alexandra e Mary a crescerem juntas, com uma vida maravilhosa e feliz, protegidas pelo nosso amor.

Mas Alexandra nunca veria um pr do sol, nem passearia por um maravilhoso jardim. Nunca veria o voo de uma ave nem sentiria a quente brisa de vero. Nunca saborearia 
um cone de gelado, nem

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apreciaria um filme ou uma pea de teatro. Nunca usaria um vestido bonito, nem guiaria um automvel. Nunca conheceria a alegria de se apaixonar, nem de ter uma famlia. 
Nunca, nunca, nunca.

Diz-se que,  medida que o tempo passa, a dor diminui. A nossa dor aumentava. As nossas vidas estavam num limbo. O nico conforto que tnhamos era Mary, e a Jorja 
e eu demos por ns a sermos ridiculamente protectores.

Um dia, perguntei-lhe:

Que achas de adoptarmos uma criana?

No, ainda no.

Uns dias mais tarde, ela chegou junto de mim e disse:

Se calhar devamos. A Mary precisa de um irmo.

Falmos com o doutor Watson sobre adoptarmos uma criana. Ele acabara de ser abordado por uma estudante universitria que estava grvida e que rompera a ligao 
com o namorado. Queria entregar o beb para adopo.

A me do beb  inteligente e atraente e vem de um bom ambiente familiar. Acho que dificilmente encontrariam melhor comentou.

Jorja, a nossa filha de seis anos e eu reunimos numa conferncia de famlia.

Tu tens o voto decisivo. Gostarias de ter um irmo ou irm? perguntmos.

Ela pensou por um momento.

No vai morrer, pois no?

Eu e Jorja olhmos um para o outro:

No, no vai morrer. Ela acenou com a cabea.

Ento, est bem. E ficou combinado. Tratei da parte financeira.

Trs semanas mais tarde,  meia noite, o doutor Watson ligou:

Vocs tm uma menina saudvel.

Chammos-lhe Elizabeth April, e o nome assentava-lhe que nem uma luva. Era maravilhosa, saudvel, de olhos castanhos. Eu achava que ela tinha um sorriso fantstico, 
mas Jorja informou-me que deviam ser gases.

Assim que nos foi permitido, levmos Elizabeth April para casa e a vida recomeou. Eu e Jorja comemos a sonhar e a planear para ela o que planeramos para Alexandra. 
No que nos dizia respeito, Elizabeth

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April era da nossa carne e sangue, uma parte das nossas vidas, amos mand-la para as melhores escolas e deix-la escolher a carreira que quisesse. Mary adorava-a.

Demos a Elizabeth os maravilhosos fatinhos que tnhamos comprado para Alexandra. Comprmos pincis e um cavalete, para o caso de ela ter uma inclinao para artista. 
As lies de piano viriam depois.

 medida que os meses passavam, era bvio que Elizabeth April adorava a sua irm mais velha. Sempre que esta se aproximava do bero, Elizabeth April soltava risinhos. 
Iam crescer juntas e amar-se.

Quando faltava uma semana para Elizabeth April fazer seis meses, o doutor Watson telefonou.

Doutor, fez uma excelente escolha. Nunca vi um beb to feliz. No tenho palavras para lhe expressar a nossa gratido.

Fez-se um longo silncio.

Senhor Sheldon, acabei de receber um telefonema da me do beb. Ela quer a filha de volta.

O meu sangue gelou.

De que raio est para a a falar? Ns adoptmos a Elizabeth April e...

Infelizmente, h uma lei neste estado que diz que a me que d um filho para adopo pode mudar de ideias nos primeiros seis meses. A me e o pai da beb decidiram 
casar e ficar com a filha.

Quando dei as notcias a Jorja, ela ficou plida, e pensei que ia desmaiar.

Eles... eles... eles no nos podem tirar o nosso beb... Mas a verdade  que podiam.

Elizabeth April foi levada no dia seguinte. Eu ejorja no podamos acreditar no que estava a acontecer.

Mary soluava e, por entre lgrimas, disse:

Ela foi boa enquanto durou.

No sei muito bem como conseguimos superar a terrvel dor dos meses que se seguiram, mas de alguma forma l o fizemos. Encontrmos apoio na Igreja da Cincia Religiosa, 
uma no denominacional combinao racional de religio e cincia. A sua filosofia de paz e de bondade era exactamente aquilo de que precisvamos. Fizemos vrios 
cursos gerais durante um ano e depois mais um segundo. Foi uma extraordinria experincia de conciliao. Continuamos a sentir o vazio nas nossas vidas, mas, preparados 
ou no, a vida continua.

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CAPTULO 29

Perguntou-se uma vez ao famoso letrista Sammy Gahn o que vinha primeiro, a msica ou a letra. A resposta dele foi:

Nem uma nem outra. Primeiro vem o telefonema. O telefonema veio dejoe Pasternak.

Sidney, a MGM acabou de me comprar ojumbo. Queremos que escrevas o argumento. Ests disponvel?

Eu estava disponvel. Jumbo, de Billy Rose, estreou na Broadway em
1935. Billy Rose, um dos principais produtores da Broadway, no era pessoa para fazer as coisas de forma discreta. Instalara-se no imenso Hippodrome Theatre, na 
rua Quarenta e Trs, e recriara uma enorme tenda de circo, com os espectadores a olharem para baixo, para a "arena". Jimmy Durante e Paul Whiteman entravam no espectculo, 
Ben Hecht e Charley MacArthur escreveram o guio, Rodgers e Hart fizeram a banda sonora e George Abbot dirigira. A creme de la creme em todos os sentidos.

Quando o espectculo estreou, as crticas foram excelentes, mas havia um problema.

A produo era to cara que era impossvel pagar os custos, quanto mais ter lucro. Saiu de cena ao fim de cinco meses.

J se tinham passado perto de dez anos desde que eu estivera na MGM, mas parecia-me que tudo estava na mesma. Depressa ficaria a saber como estava enganado.

Joe Pasternak no mudara em nada. Continuava com a mesma maravilhosa exuberncia.

J contratei a Doris Day, a Martha Raye e o Jimmy Durante. Para conseguir a Doris tive de pr o marido dela, o Marty Melcher, como produtor. O teu velho amigo, Chuck 
Walters, vai dirigir.

Eram boas notcias. No via Chuck desde que trabalhmos no Easter Parade.

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E quem vai ter o papel masculino principal? Pasternak hesitou.

Ainda no temos ningum, mas h um actor que est a representar o Camelot na Broadway que parece ideal para o papel.

Como  que se chama?

Richard Burton. Quero que vs com o Walters a Nova Iorque e o vejam.

Com todo o prazer.

Foi nesse dia, quando entrei na cantina para almoar, que tive um choque. Pauline, a mesma empregada, continuava l a trabalhar. Cumprimentmo-nos e, quando ela 
me indicou uma mesa, perguntei:

Qual  a mesa dos escritores?

No h mesa dos escritores.

Muito bem. Ento vamos dar incio a uma. Ela olhou para mim por momentos.

Senhor Sheldon, receio que se v sentir muito sozinho. O senhor  o nico escritor aqui dentro.

De cento e cinquenta escritores para "O senhor  o nico escritor aqui dentro". Demonstrava bem como Hollywood se alterara nos ltimos dez anos.

Passei os dias que se seguiram a trabalhar numa linha para adaptar a histria de Jumbo ao cinema. Na sexta-feira, Charles Walters e eu vomos at Nova Iorque para 
ver Richard Burton em Camelot.

Era uma gigantesca produo comjulie Andrews e Robert Goulet. A direco era de Moss Hart. Burton era brilhante.

O estdio tratara de tudo para que cessemos com Burton depois do espectculo. Quando ele chegou ao Sardi's, j l estvamos  espera. Era maior do que a vida aberto, 
gregrio, cheio do encanto gals. Era culto, inteligente e tinha uma mente viva. No era uma grande estrela, mas em breve o seria.

Como eu no tivera tempo para escrever as linhas gerais da minha histria, disse:

Ainda no tenho nada em papel, mas gostava de lhe poder contar a histria.

Adoro histrias. Avance respondeu ele a sorrir.

Jumbo era uma romntica histria de amor, passada num ambiente de rivalidade entre dois circos. Assim que acabei de contar a histria, Burton mostrou-se entusiasmado.

Adoro. E adoraria trabalhar com a Doris Day. Ligue para o meu agente e diga-lhe para fazer o acordo pediu.

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Eu e Chuck olhmos um para o outro. Tnhamos o nosso homem. Tudo estava a postos.

Na manh seguinte, regressmos a Hollywood. Joe Pasternak disse a Benny Thau para fechar o negcio do Burton, Thau ligou para Hugh French, o agente de Burton em 
Hollywood, e marcou uma reunio.

Depois de trocarmos cumprimentos, Hugh French comeou a falar:

Richard telefonou-me. Gostou muito do projecto. Est ansioso por faz-lo.

Muito bem. Vamos tratar dos contratos.

Por quanto? perguntou Hugh French.

Duzentos mil dlares. Foi o acordado no ltimo filme dele.

Ns queremos duzentos e cinquenta mil respondeu o agente. Thau, que era um negociador duro, mostrou-se indignado.

E porque  que devemos dar-lhe um aumento? Ele no  assim to importante. Este papel  uma oportunidade para ele.

Benny, tenho de lhe dizer o seguinte. Ele tem uma oferta para fazer outro filme. E esses esto dispostos a pagar os duzentos e cinquenta.

Muito bem. Eles que paguem. Ns arranjamos outro respondeu Thau teimosamente.

E foi assim que, em vez entrar emjumbo, Richard Burton fez o Cleopatra, conheceu Elizabeth Taylor, apaixonou-se por ela e, juntos, criaram um excitante novo CAPTULO 
nos mexericos amorosos de Hollywood. A minha teoria  que se Thau tivesse pago os cinquenta mil dlares a mais, Richard Burton teria feito ojumbo e ter-se-ia casado 
com Martha Raye.

Contratmos Stephen Boyd para o principal papel masculino e o filme estava pronto para iniciar as filmagens. O elenco era brilhante. Doris Day era perfeita para 
o papel de Kitty Wonder. Stephen Boyd era excelente e Martha Raye uma delcia. Mas o meu preferido era Jimmy Durante.

Durante comeara como pianista. Abrira um clube nocturno e criara um nmero com dois outros artistas, Jackson e Clayton. Quando decidiu trabalhar sozinho, manteve 
os seus dois anteriores parceiros na sua lista de pagamentos. Adorava contar histrias sobre o passado e jamais o ouvi dizer uma palavra menos agradvel sobre quem 
quer que fosse.

O meu argumento foi aprovado e a produo iniciou-se. Durante as filmagens, tudo correu sobre rodas. Quando o filme estreou, Jumbo

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foi nomeado para o prmio da Writers Guild para o melhor musical americano do ano.

Sam Weisbord, o meu agente, ligou-me.

Sidney, acabmos de vender o Patty Duke  ABC:

Claro que eu conhecia aquele nome. Com doze anos, Patty Duke conseguira o papel de Helen Keller na pea TheMiracle Workere conquistara a Broadway, e depois, com 
o filme, recebera um Oscar.

Sam prosseguiu:

J temos um horrio. As quartas-feiras, oito da noite. Vamos chamar ao programa The Patty Duke Show. Est tudo a andar. Mas temos um problema.

No percebo. Se est tudo a andar, qual  o teu problema?

-  que no temos programa.

Eles tinham vendido s o nome de Patty Duke.

Queremos que cries um.

Lamento muito, Sam, mas a resposta  no.

No incio dos anos sessenta, as pessoas que trabalhavam no cinema olhavam com desdm as que trabalhavam na televiso. Quando a televiso estava na sua infncia, 
as estaes de televiso foram aos estdios e disseram: "Temos uma nova e espectacular forma de distribuio, mas no sabemos como criar entretenimento. Porque no 
nos tornamos scios?"

A resposta era simples. Os estdios tinham os seus prprios meios de distribuio. Chamavam-se salas de cinema e a maior parte dos estdios possua as suas prprias 
cadeias. No lhes interessava envolver-se com uma tecnologia nova que consideravam uma moda passageira. Os estdios eram to anti-televiso que no permitiam sequer 
que as suas estrelas fossem vistas na televiso a assistirem a uma estreia.

Eu fora condicionado por esta atitude e lembrava-me da minha experincia com Desi, por isso foi natural para mim responder "Lamento muito, Sam, mas no fao televiso."

Fez-se uma pausa.

Muito bem. Compreendo. Mas, s por delicadeza, importas-te de almoar com a Patty Duke?

No havia qualquer mal nisso. A verdade  que at tinha curiosidade em a conhecer.

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Combinmos almoar no Brown Derby. A Patty vinha acompanhada por quatro agentes do escritrio da William Morris. Na altura tinha dezasseis anos, era mais baixinha 
do que eu a imaginara e muito vulnervel. Sentou-se a meu lado na nossa mesa.

Tenho muito prazer em conhec-lo, senhor Sheldon.

E eu tenho muito prazer em conhec-la, menina Duke. Durante o almoo, fomos conversando e a timidez dela pareceu desaparecer, mas a vulnerabilidade permaneceu. Ela 
segurou na minha mo durante o almoo e era bvio para mim que estava esfomeada por amor.

Patty vinha de uma famlia terrvel. Assemelhava-se a um conto de Charles Dickens. A me era psictica. O pai um bbedo que abandonara a famlia. Aos sete anos, 
Patty fora viver com o seu empresrio, John Ross, e Ethel, a mulher deste, que viviam num pobre apartamento. Patty nunca tivera uma famlia.

Antes do The Patty Duke Show, John Ross era um pequeno empresrio que se debatia para sobreviver. A sua clientela era composta por pequenos actores. Entre eles havia 
um chamado Ray Duke.

Um dia, Duke chegou junto de Ross e perguntou-lhe se ele estava disposto a representar a sua irm, Anna, que at  altura ainda no tivera nenhum papel como actriz. 
Ross conheceu a mida de sete anos e concordou em represent-la.

Uns meses mais tarde, quando a vida em casa de Anna se tornou insuportvel, os Ross concordaram que ela fosse viver com eles e imediatamente mudaram o seu nome para 
Patty. A ordem viera de Ethel Ross, que declarou: "A Anna Mane morreu. Agora chamas-te Patty."

John Ross lera que uma pea chamada The Miracle Worker ia ser produzida na Broadway e decidiu que Patty Duke seria ideal para o papel de Helen Keller, uma menina 
cega, surda e muda. Preparou-a durante meses. Quando ela finalmente competiu contra uma centena de outras midas e ganhou o papel, as suas vidas mudaram completamente. 
No dia que se seguiu ao da estreia da pea, a sua jovem e desconhecida cliente tornara-se uma estrela da noite para o dia.

Ross comeou a receber propostas de milhares de dlares por semana. Em vez de bater  porta dos produtores e de lhes pedir que contratassem a sua cliente, Ross comeou 
a ser assediado por produtores, realizadores e executivos dos estdios. Nem podia acreditar na sua boa estrela.

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Quando o almoo acabou, apercebi-me de como ficara cativado por Patty. Achava-a irresistvel.

Gostaria de vir hoje  noite a minha casa e jantar comigo e com a minha mulher Jorja? perguntei.

Ela ficou radiante.

Com todo o gosto.

Jorja ficou to encantada com ela quanto eu. Era esperta e viva e manteve-nos a rir durante toda a noite.

A certa altura, eu e a Jorja estvamos a conversar quando, de repente, me apercebi que Patty se levantara da mesa. Levantei-me e fui  procura dela. Estava na cozinha 
a lavar a loua. Foi isso que me fez tomar uma deciso.

Patty, eu vou escrever um espectculo para ti. Recebi um enorme abrao e ela disse-me baixinho:

Muito obrigada.

Decidi que, se ia ter o meu nome num programa de televiso, queria poder ser eu a controlar a qualidade. Tive a minha primeira reunio com os produtores.

Sidney, estamos encantados por aceitar fazer o programa.

Muito obrigado.

Alm de ser o criador, ser o editor da histria e supervisionar os outros escritores.

Eu no quero outros escritores. Ficaram a olhar para mim.

Como?

Se vou fazer este programa, quero ser eu a escrev-lo.

Sidney, isso  impossvel. Temos uma encomenda para trinta e nove programas, um por semana.

Tenho inteno de os escrever a todos.

Eles olharam uns para os outros, horrorizados. S mais tarde  que soube porqu. Ningum no mundo da televiso jamais escrevera todos os guies para uma comdia 
de meia hora.

Isto  negocivel?

No! respondi.

Muito bem. Est contratado.

S muitos meses depois vim a saber que, no dia em que assinei o contrato, eles tinham contratado quatro outros escritores para escreverem os guies, para, no caso 
de eu um dia chegar junto deles e dizer

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que no tinha nenhum guio para a semana seguinte eles poderem dar-me os outros e dizer "Aqui tem".

Como Patty era menor de idade e as leis no estado da Califrnia sobre o trabalho infantil eram muito severas, decidimos filmar o programa em Nova Iorque, onde os 
jovens podem trabalhar tantas horas quantas o produtor entender.

Jorja, Mary e eu mudmo-nos para Nova Iorque.

Criar um espectculo de televiso para Patty Duke era um desafio, porque ela era to extraordinariamente talentosa que eu no queria desperdiar as suas capacidades. 
Resolvi optar por p-la a representar dois papis, o de duas irms gmeas. Uma viva e animada rapariga de Nova Iorque, a outra mais calma e bem comportada, da Esccia, 
que tinha sido separada da irm  nascena.

Bill Asher foi contratado para produzir e realizar e sugeriu que fizssemos delas primas em vez de irms, para explicar o facto de viverem a to grande distncia 
uma da outra. Por mim estava perfeito.

The Patty Duke Show foi produzido num velho estdio de televiso na rua Vinte e Seis, a doze quarteires do teatro onde trabalhei como arrumador e anunciante. No 
era a vizinhana ideal. Um dia, contratmos uma secretria que comeava a trabalhar s nove da manh. s dez, uma enorme ratazana passou a correr sobre o p dela. 
Ao meio dia, ela foi abordada quando ia almoar e  uma da tarde demitiu-se.

Eu j tinha escrito meia dzia de programas adiantados. Estava na altura de comear o casting. Tivemos sorte.

O estdio contratou Wiliam Schallert para o papel de pai da Patty, Jean Byron para fazer de me, Paul CTKeefe para o papel de irmo e Eddie Aplegate para o pretendente 
de Patty.

No primeiro dia de produo, Patty deu incio a um ritual que persistiu at ao final do programa. Todas as manhs, antes das filmagens comearem, toda a equipa e 
o elenco alinhava e cantava "Bom dia para ti. Bom dia para ti. Estamos todos prontos, com sorrisos de felicidade."

Era interessante ver os membros da equipa, pessoas batidas, de barba por fazer, a maior parte em t-shirts, todos alinhados e a cantarem esta cano infantil. A Patty 
parecia ser uma das estrelas mais felizes da televiso. S trs anos mais tarde  que fiquei a conhecer a verdade.

Corre-se um enorme risco quando um actor representa dois papis. Se os espectadores no conseguirem perceber qual delas  que est em cena, a confuso pode ser fatal. 
Para evitar que isso acontecesse,

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vestimos Patty com roupas informais e fizemos as de Cathy muito mais formais. Para garantir que no havia mesmo lugar a qualquer confuso, dei a Patty dilogos e 
atitudes prprias de uma jovem activa e extrovertida, e a Cathy dilogos muito mais reservados e polidos.

Quando vi as filmagens do primeiro dia, percebi que todas as precaues tinham sido desnecessrias. Patty no dependia das roupas nem dos dilogos. Ela tornava-se 
cada uma das personagens.

Eu estava com um problema com a estao de televiso. Tinham contratado um jovem ambicioso, a quem chamarei Todd, para estabelecer a ligao com a ABC. Todas as 
segundas-feiras de manh, ele vinha ao meu gabinete e o seu cumprimento era sempre o mesmo:

Li o seu ltimo guio.  pssimo. Est a criar um desastre para a estao.

A ltima gota veio quando estvamos no estdio de gravao de som a gravar a msica para o primeiro programa.

O estdio contratara o talentoso e premiado pela Academia Sid Ramin para compor e fazer as adaptaes. Quando a primeira msica foi gravada, eu e ele estvamos a 
conversar a um canto do estdio. Olhei e vi que Todd se aproximava apressadamente de ns. Ele parou em frente do Sid e disse bem alto:

A sua msica  a nica coisa boa deste programa. Nessa noite, liguei para um dos executivos da estao. Na manh seguinte, Todd desaparecera da minha vida.

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CAPTULO 30

Quando John Ross fez o acordo para Patty protagonizar a srie de televiso, arranjou forma de ser includo na lista de pagamentos como produtor associado. Quando 
lhe perguntaram quais eram as suas funes, ele foi vago.

Os produtores disseram:

A funo dele  manter Patty feliz e no perturbar o trabalho de ningum.

Um dia, Ross entrou pelo meu gabinete quase a chorar.

O que se passa? perguntei. O que foi que aconteceu?

A revista Life vem hoje ao estdio para fazer a cobertura do ensaio.

E isso  bom, no ?

No. Ele tentava conter as lgrimas. Agora a revista Life vai ficar a saber que no tenho uma secretria.

 medida que se aproximava a data de ida para o ar do Patty Duke Show, tivemos um problema. Bill Asher, o nosso produtor-realizador, era um homem que gostava de 
estar envolvido em vrios projectos diferentes ao mesmo tempo. Como resultado, estava atrasado no nosso programa. Nenhum dos episdios estava acabado.

O Bill chegou e disse-me:

Ed Scherick, o chefe da ABC, quer dar hoje uma vista de olhos ao nosso piloto. No sei bem de qual deles  que vai gostar mais, se de "The French Teacher" se o "House 
Guest".

Em "The French Teacher" entrava o actor Jean-Pierre Aumont e Patty apaixonava-se por ele e fazia planos para o futuro como sua mulher. No "House Guest", uma tia 
excntrica mudava-se para Lane e dava com todos em doidos.

Passa os dois episdios para Scherick ver e deixa-o decidir de qual gosta mais.

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Muito bem concordei.

Na manh seguinte, preparmos uma mostra para Scherick e vrios outros executivos da ABC. Ele trouxera com ele a mulher e a irm e todos foram apresentados de forma 
muito cordial.

As luzes apagaram-se e o episdio foi apresentado. "The French Teacher" ainda no fora editado nem cortado porque Bill Asher andava sempre muito ocupado e vrios 
efeitos especiais ainda no tinham sido includos. "House Guest" ainda no fora editado nem cortado e vrios dos efeitos especiais tambm no constavam. O efeito 
geral foi horrvel.

Quando as luzes se acenderam, Scherick ps-se de p, olhou fixamente para mim e rosnou:

No quero saber qual deles vo apresentar primeiro e ele e os acompanhantes saram a toda a velocidade da sala.

Fiquei ali sentado, sem foras. Talvez Todd tivesse razo.

A noite de estreia aproximava-se e precisvamos de tomar uma deciso. Asher trabalhava agora dia e noite para terminar os dois episdios. Como a estao j no queria 
saber do programa, cabia-nos a ns decidir qual o primeiro a apresentar.

As coisas estavam to caticas que, na noite da estreia do ThePatty Duke Show, "The French Teacher" foi para o ar na costa oeste e "House Guest" na costa leste.

Na manh de quarta-feira, dia em que o programa devia ir para o ar, atravessava o trio do estdio quando Eddie Aplegate apareceu a correr. Dirigiu-se a uma cabina 
pblica, remexeu nos bolsos e virou-se para mim em pnico:

Tens por acaso uma moeda?

Claro. Que se passa? perguntei enquanto tirava uma moeda do bolso.

Tenho de ligar ao presidente.

Ao presidente? Porqu, Eddie?

Porque acabei de saber que o programa em que eu entro vai para o ar na costa leste e os meus pais esto na costa oeste.

Levei algum tempo a perceber.
Tu queres pedir ao presidente da ABC que mude os programas para que os teus pais te possam ver?

Quero.

Voltei a meter a moeda no bolso.

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Eddie,  natural que ele hoje esteja ocupado com outras coisas. Acho melhor desistires.

No dia seguinte, as crticas eram, na generalidade, favorveis. Tpico das crticas era o Hollywood Reprter.

Dizia: "Este pode ser finalmente o programa de entretenimento que as adolescentes e os pais tm estado  espera... um cativante clique."

Mais importante que tudo, as audincias foram maiores do que estvamos  espera. Ficmos entusiasmados.

No dia seguinte, o Daily Variety trazia um anncio da ABC que ocupava duas pginas. Dizia: "As meninas bonitas chegam primeiro. Sempre soubemos que Patty Duke ia 
ser um sucesso."

Pois.

O primeiro ano de filmagens do The Patty Duke Show passou-se sem grandes problemas. Achei que seria boa ideia usar artistas convidados. A ideia funcionou bem. Escrevi 
guies para Frankie Avalon, Troy Donahue, Sal Mineo e outros.

Durante um intervalo, eu e ajorja decidimos levar Mary num cruzeiro. Como regra, quando estou a trabalhar num projecto e vou viajar, levo sempre comigo todos os 
guies, para o caso de aparecer algum problema. Mas neste caso achei que no seria necessrio. Todos os programas para o primeiro ano j tinham sido filmados.

Erro.

Uma manh, recebi um telegrama a bordo do navio, em que me pediam para ligar imediatamente para o estdio. No imaginava qual seria o problema.

Quando algum da produo me atendeu, perguntei:

O que  que se passa?

Temos um minuto a menos no The Green-Eyed Monster, trs minutos a menos no Pratice Mahes Perfect, dois no Simon Says e um minuto e meio no Patty, the Organizer. 
Precisamos que aumentes as cenas e precisamos disso rapidamente.

Agora, j sabia qual era o problema, s que no tinha soluo para ele. Quando escrevo um argumento, concentro-me nele, mas, assim que o termino e passo ao seguinte, 
esqueo mais ou menos tudo sobre o primeiro. Como consequncia, no fazia a mnima ideia do que tratavam os argumentos.

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Voltei para a nossa cabina e expliquei a Jorja o que se passava.

No fao ideia do que vou fazer. Provavelmente terei de voltar para Nova Iorque e olhar para os argumentos para refrescar a memria.

Mary, o nosso gnio de oito anos, falou:

No, pap, no precisas. Eu lembro-me das histrias. E comeou a cont-las cena a cena.

Nessa noite, pude mandar por telgrafo as novas pginas para o estdio.

Perto do final do primeiro ano do The Patty Duke Show, recebi um telefonema de Hollywood.

A Screen Gems quer que cries uma srie para eles.

A Screen Gems era uma subsidiria da Columbia Pictures.

Ests interessado?

Claro que estou.

A minha atitude em relao  televiso mudara completamente.

Querem que tenhas uma ideia para um programa e que te encontres com eles em Hollywood. Quando  que achas que o podes fazer?

Que tal segunda-feira?

Eu tivera uma ideia para um programa com um gnio. Sabia que j tinham sido feitos programas com gnios, mas eram sempre com um gigante, como Burl Ives, que saa 
de um frasco e dizia: "Que posso fazer por si, meu amo?".

Pensei que seria engraado substituir o gnio por uma bela e nbil jovem que dissesse: "Que posso fazer por si, meu amo?" Foi este o projecto que criei para a Screeen 
Gems.

O meu agente levara o que eu dissera  letra e marcara uma reunio para segunda-feira na Screen Gems. Estvamos numa sexta. Sbado de manh telefonei para uma secretria 
e comecei a ditar uma sinopse do argumento do gnio. No entanto,  medida que ia avanando, comecei a incluir mais dilogo e ngulos de cmara e, pouco depois, achei 
que o melhor mesmo era ditar o argumento completo. No sbado  noite estava pronto. Mesmo a tempo para correr para o aeroporto e apanhar o avio para Los Angeles.

A reunio na Screen Gems correu bem. Reuni-me com Jerry Hyams, um dos executivos principais, Chuck Fries e Jackie Cooper, um antigo actor infantil que era agora 
director da Screen Gems. Ficaram entusiasmados com a ideia.

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Que acha de ter a sua prpria empresa e poder produzir aqui? perguntou Jerry Hyams.

Pensei no The Patty Duke Show. Nunca ningum me dissera que no podia fazer dois programas ao mesmo tempo.

No h problema respondi. O negcio foi fechado.

Quando regressei a Nova Iorque, tinha uma mensagem da Screen Gems  minha espera a dizer que j tinham feito negcio com a NBC para IDream ofjeannie. Agora, ia passar 
a ter duas comdias semanais no ar. Comecei a viver entre as duas costas.

Jerry Hyams fez-me ver o piloto de um novo programa que estava prestes a ir para o ar. Adorei-o. Achei que era encantador e que seria um sucesso.

Gostavas de o produzir? perguntou.

Abanei a cabea. Em vez de dizer que sim, que era o que eu queria fazer, respondi que no. De vez em quando, sem qualquer aviso, perder o controle das suas palavras 
e dos seus actos.

Bewitched acabou por ser um estrondoso xito.

Estvamos a filmar o The Patty Duke Show em Nova Iorque e amos filmar IDream ofjeannie em Hollywood. Como eu produzia Jeannie e estava muito envolvido, comecei 
a contratar alguns escritores para o The Patty Duke Show. Dei por mim praticamente todos os fins de semana a voar para Hollywood. Passava o tempo no avio a trabalhar 
nos argumentos do Patty Duke e trs dias por semana preparava a Jeannie. O Beverly Hills Hotel tornou-se a minha casa longe de casa.

Numa dessas viagens  Califrnia foi o fim do mundo. Mort Werner, o dirigente da NBC, mandou-me chamar. Tinha um ar sombrio.

Sheldon, tenho aqui um memorando do nosso departamento de padres e costumes e atirou o papel na minha direco.

Assim que o comecei a ler, percebi imediatamente qual era o problema. A estao percebera que, naquela poca de forte censura, tinham comprado um programa sobre 
uma jovem nbil e semi-nua, que vivia sozinha com um solteiro e perguntava constantemente "O que posso fazer por si, meu amo?" Entraram em pnico. O memorando tinha 
dezoito pginas e ordens do gnero:

Eles nunca se devem tocar.

Temos de ver Jeannie a ir para a sua garrafa dormir sozinha.

Temos de ver Tony a ir para a cama dormir sozinho.

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Jeannie jamais deve entrar no quarto de Tony. Nunca deixar Tony entrar na garrafa de Jeannie.

E assim continuava durante dezoito pginas. Quando acabei de ler, Mort Werner perguntou:

E o que  que vai fazer a este respeito? Esta estao no se pode dar ao luxo de apresentar um programa destes. A palavra "cancelamento" pairava no ar.

Respirei fundo.

Eu estou a fazer uma comdia. E no tenho qualquer inteno de a tornar titilante. No haver quaisquer aluses sexuais nem duplos sentidos.

Ele olhou para mim durante um bom bocado.

Veremos. Barreira nmero um.

Barreira nmero dois: um memorando de um dos vice-presidentes da NBC:

"Discuti o seu guio piloto com vrias pessoas do meu departamento criativo. Todos chegmos  concluso que no vai resultar.  um programa de uma nica piada, o 
que significa que vai durar pouco".

Comecei a interrogar-me porque  que a estao o comprara. Mandei de volta a minha resposta:

"Tm razo. Jeannie  um programa de uma nica piada e  exactamente por isso que resulta. I Lave Lucy  um programa de uma nica piada. The Beverly Hillibillies 
 um programa de uma nica piada. The Honeymooners  um programa de uma nica piada. O truque em todos estes programas consiste em variar de forma divertida a piada 
todas as semanas. Espero que a Jeannie dure tanto tempo quanto I Lave Lucy, The Honeymooners e The Beverly Hillibilies.

Nunca mais me falaram do assunto.

Estava na hora de comearmos o casting. Para mim, esta era a pior parte de se ser produtor. Tinha dificuldade em dizer no a um actor que fazia o teste para o papel. 
Todos eles sentiam que cada audio

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seria finalmente a abertura que mereciam. Passavam a noite da vspera sem dormir, levantavam-se bem cedo de manh, tomavam banho, vestiam-se com cuidado e tentavam 
ser optimistas.

Eu vou conseguir o papel.

Eu vou conseguir o papel.

Eu vou conseguir o papel.

E entravam na audio com mos hmidas e sorrisos falsos.

O casting para o papel de Jeannie era de primordial importncia, porque Jeannie tinha de ser sedutora sem ser obviamente sexy, e agradvel com um toque de comicidade. 
Tivemos muita sorte, porque a primeira e ltima pessoa que vimos para o papel foi a Barbara den. Era perfeita.

Tinha um ar simptico e ingnuo que ia cativar as audincias, bem como um maravilhoso sentido de comediante. Barbara era casada com o actor Michael Ansara.

A segunda parte do casting era para o papel de Anthony Nelson, o seu amo astronauta. Testmos uma meia dzia de actores antes de Larry Hagman aparecer. Hagman, filho 
de Mary Martin, uma estrela da Broadway, fizera em Nova Iorque uma telenovela chamada The Edge of Night e ainda no era conhecido. O teste com cmara foi brilhante 
e contratmo-lo imediatamente.

Precisvamos de um confidente para ele e fizemos testes a dzias de actores. Escolhi um comediante de cabar chamado Bill Daily que nunca actuara na televiso nem 
no cinema.

Tivemos longas discusses quanto aos realizadores. Norman Jewison, que mais tarde realizou o xito The Russians are Corning, leu o meu argumento. Mandou o agente 
 Screen Gems para fazer o negcio, mas, quando o agente insistiu que Jewison recebesse uma percentagem do programa, tivemos de procurar outro realizador.

Gene Nelson, que entrara em filmes musicais na Warner Brothers e realizara TheAndy Grffith Showe outros programas de televiso, veio falar comigo. Passmos uma 
hora a conversar sobre o programa e senti que era a pessoa indicada. Foi contratado.

Mil novecentos e sessenta e cinco era o ano em que todos os programas da televiso passaram a ser a cores. Ou seja, todos os programas excepto IDream of Jeannie. 
Perguntei ajerry Hyams porque  que Jeannie no seria filmado a cores.

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Porque cada programa custaria mais quatrocentos dlares.

Mas Jerry, este programa tem de ser a cores. Eu pago a diferena do meu bolso.

Ele olhou para mim e respondeu:

Sidney, no deites o teu dinheiro pela janela fora.

O que ele queria dizer  que ningum estava  espera quejeannie durasse mais do que o primeiro ano.

Em 1965, enquanto o estdio preparava o piloto de jeannie para ir para o ar, fui por uns dias a Nova Iorque para ver como iam as coisas no Patty Duke, que estava 
a terminar a segunda poca.

John e Ethel estavam decididos a no permitir que nada os separasse da sua galinha dos ovos de ouro. Sempre que o The Patty Duke Show tinha um intervalo, levavam 
Patty de frias com eles. Tratavam de tudo para que ela jamais tivesse qualquer hiptese de conhecer um jovem. Sempre que ela era convidada para um acontecimento 
social ou de caridade, eles tambm iam e mantinham-na debaixo de olho. Estava virtualmente prisioneira deles.

Trabalhava no programa um assistente de realizao com vinte e cinco anos, um jovem de bom aspecto e agradvel, chamado Harry Falk. Quando os Ross perceberam que 
a Patty passava o tempo com ele no estdio, tudo fizeram para que fosse imediatamente despedido. Patty ficou tristssima, mas no disse nada.

Pouco tempo antes do seu aniversrio, a companhia planeou uma festa para ela no estdio. Patty veio ver-me ao meu gabinete.

Sidney, queria pedir-lhe um favor.

Com certeza, Patty. O que  que posso fazer por ti?

Gostava de convidar Harry Falk para a minha festa de anos. Importa-se de o fazer por mim?

Com todo o gosto.

No dia da festa,  tarde, Harry Falk apareceu no estdio. John e Ethel ficaram visivelmente perturbados, mas Patty ignorou-os. Dirigiu-se a Falk para o cumprimentar 
e passaram juntos a maior parte do tempo. As repercusses no se fizeram esperar.

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CAPTULO 31

Completmos o elenco de jeannie com Hayden Rorke para o papel de psiquiatra e Barton MacLane como general Peterson.

Eu achava que o programa devia abrir com desenhos animados que contassem a histria da descoberta de Jeannie por um astronauta. Um dos melhores animadores de Hollywood 
era Friz Freleng, mas trabalhara principalmente para o cinema e no fizera quase nada para a televiso. Mandei-lhe o guio do piloto e perguntei-lhe se estava interessado 
em fazer a animao da sequncia de abertura. Ele estava e criou uma abertura maravilhosa.

Contratei Dick Wess, um compositor cheio de talento para escrever a msica para a primeira poca, mas, depois de a ouvir, achei que no se adequava ao tipo de programa. 
Em vez disso, usei uma melodia alegre e suave escrita pelo Hugo Montenegro para tema de Jeannie.

A garrafa que escolhi como casa da Jeannie era uma garrafa de cristal para vinho dajim Beam que pintmos em cores berrantes.

O primeiro dia de ensaios correu sobre rodas. Tivemos uma leitura do guio piloto com o elenco e com o nosso realizador, o Gene Nelson, e aproveitei para perguntar 
aos actores se precisavam de alguma alterao ou se estavam satisfeitos com os seus textos. Queria ter a certeza que todos estavam satisfeitos porque no queria 
improvisaes quando comessemos a filmar. Estavam todos satisfeitos.

IDream of Jeannie estava pronto para iniciar a sua magia.

De manh, menos de uma hora depois da produo do piloto ter comeado, a minha secretria disse:

O senhor Nelson est a ligar do estdio de gravao. Eu estava ansioso por ouvir as boas notcias.

Gene...

Eu demito-me. Arranje outro. Lamento. E ia a desligar.

Ei! Espere! Espere l! Estava em pnico. No saia da. Eu vou j para a.

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Trs minutos depois, estava no estdio. Chamei Gene  parte.

O que foi que aconteceu?

Nada. Esse  que  o problema. No posso trabalhar com actores que no sabem o texto. Larry Hagman no sabe o texto e Bill Daily no sabe o texto dele, e...

Deixe-se estar aqui. Eu estava furioso. Chamei Larry  parte.

Como  que se atreve a vir para este estdio no primeiro dia de filmagens sem saber o seu texto?

Ele olhou para mim, espantado.

De que  que est a falar? Eu sei o meu texto.

O realizador diz que no sabe.

Bem, eu s resolvi aument-lo um pouco. Tive umas ideias e limitei-me a acrescentar umas coisas aqui e ali...

Larry! Oua-me com ateno. Ns temos um plano de trabalho extremamente apertado. Temos montes de pginas para filmar todos os dias. Voc vai dizer o seu texto exactamente 
como est escrito. Percebeu?

Ele encolheu os ombros.

OK, tudo bem. Chamei Bill Daily  parte.

Que desculpa tem para no saber o seu texto?

Desculpe, Sidney. Eu... eu nunca tive de aprender texto antes. Sempre trabalhei em clubes como o The Improv. Eu fazia um nmero de comdia... respondeu ele.

Isto no  o The Improv lancei. Se quer continuar neste programa, tem de aprender o seu texto de cor.

Ele engoliu em seco.

Muito bem.

Voltei para junto de Gene Nelson.

Gene, houve aqui uma pequena confuso. Creio que a partir daqui vai correr tudo bem. Gostava que ficasse no programa. Larry vai ser genial. Eu vou gravar o dilogo 
do Bill e mand-lo ouvir no carro, para que o aprenda. D-lhes outra oportunidade?

Vou tentar, mas... respondeu depois de uma longa pausa.

Muito obrigado.

A cena de abertura do piloto foi filmada em Zuma Beach, quarenta e cinco quilmetros a noroeste de Los Angeles. A cena iniciava-se com

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Larry como astronauta, perdido numa ilha deserta devido a problemas na sua nave espacial. V uma garrafa, destapa-a e encontra l dentro um gnio. Como ele a libertou, 
segundo as regras de um gnio,  agora o seu amo. Ela faz aparecer um navio para o salvar e ele pensa que se viu livre dela, mas Jeannie no tem qualquer inteno 
de o deixar.

A cena correu bem, o dia tambm e estvamos todos satisfeitos.

No caminho de regresso ao estdio, numa limusina da empresa, apercebi-me pela primeira vez da ambio de Larry Hagman. Parmos num sinal vermelho ao lado de uma 
viatura cheia de turistas. Larry abriu ajanela e, em voz alta, gritou-lhes:

Um dia, todos vo saber quem eu sou.

Larry tinha alguns problemas de ordem emocional com que lidar. A me, Mary Martin, era uma super-estrela da Broadway, com quem ele tinha uma relao difcil. Ela 
estivera sempre muito ocupada com a sua carreira, por isso Larry fora criado no Texas por Ben, o pai.

Durante algum tempo, viveu com a av materna e viajava frequentemente para Nova Iorque para visitar a me. Ele queria demonstrar-lhe que tambm podia ser uma estrela. 
Um dia, todos vo saber quem eu sou.

Quando o piloto estava pronto mas ainda no fora para o ar, recebi um telefonema de Mary Martin.

Sidney, gostava muito de poder ver o piloto. H alguma hiptese de o ver?

Claro.

Eu estava a caminho do leste para trabalhar no ThePatty Duke Show, por isso arranjei as coisas para que o piloto de Jeannie lhe fosse mostrado em Nova Iorque.

Na sala de projeco estavam a Mary Martin, alguns executivos da Screen Gems e John Mitchell, o chefe de vendas da Screen Gems.

Antes da projeco comear, Mary Martin foi ter com John Mitchell, pegou-lhe na mo e disse:

Ouvi dizer que  o melhor vendedor do mundo. Vi-o nitidamente a ficar mais alto.

Ouvi tanto falar em si continuava ela. Dizem que  um gnio.

John Mitchell tentou no corar.

A Screen Gems tem muita sorte em o ter.

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Ele mal conseguiu gaguejar as palavras:

Muito obrigado, menina Martin.

A projeco comeou. Quando o filme acabou, as luzes acenderam-se. Mary Martin virou-se para John Mitchell e disse:

Qualquer um  capaz de vender isto. E vi o John a encolher.

AJeannie estreou e recebeu crticas mistas. A maior parte dos crticos ignoraram o programa mas a audincia no. O programa teve, desde o incio, espectadores fiis, 
cujo nmero foi aumentando com o passar do tempo.

Decidi usar artistas convidados tambm nesta srie. Farrah Fawcett fez um segmento, assim como Dick Van Patten, Richard Mulligan, Don Rickles e Milton Berle.

Escrevi um guio sobre uma cartomante vigarista, ao qual chamei Bigger than a Bread Box and Better than a Genie. Pedi a Jorja que fizesse o papel de cartomante. 
Estvamos na Primavera e Natalie vinha fazer-nos uma visita.

Porque no pedes  Natalie para entrar no programa? Ela podia fazer o papel de uma das personagens da cena da sesso sugeriu.

Eu dei uma gargalhada.

Acho que ela ia gostar.

Quando Natalie chegou, perguntei-lhe:

Que  que achas de aparecer na televiso?

No me importava respondeu, descarada.

AJorja vai fazer o papel de uma cartomante e tu podias ser uma das personagens da sesso.

Est bem concordou.

Estava muito calma em relao  sua estreia na televiso nacional.

Escrevi umas linhas de texto para Natalie ler e entreguei-lhas. Enquanto eu trabalhava no estdio, a Jorja ensaiava com ela.

Na manh seguinte fiz um teste a Queenie Smith, uma actriz maravilhosa. Decidi que ficaria ela com o texto da Natalie e escrevi outras linhas para lhe dar quando 
chegasse a casa  noite.

Ela leu-as e respondeu:

No. Fiquei intrigado.

No o qu?

Eu no posso dizer isto.

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Porque no?

Porque a minha personagem jamais diria uma coisa destas. Isto, vindo de uma mulher de setenta anos, que vendia vestidos em Chicago.

Ainda argumentei, mas no lhe consegui tirar o texto, por isso tive de escrever outro para a Quennie Smith.

A cena correu bem. Nesse episdio, o coronel Chuck Yeager fez o papel dele prprio. Natalie trabalhou to bem que nunca ningum suspeitou que no era uma actriz 
profissional.

Larry conhecera-a ao jantar, por isso, quando soube que ela ia entrar no programa, comentou a brincar:

Ah! Ser que vejo aqui um pouco de nepotismo?

Tens razo, Larry respondi. Para ser justo, quando a tua me vier c, tenho todo o gosto em a ter no programa.

A estao passara Jeannie de sbado  noite para segunda-feira. Era s o princpio. No ano seguinte passou para a tera. No outro ano para segunda e no seguinte 
para tera. Felizmente, a nossa audincia era suficientemente leal para nos procurar.

Mais tarde, depois de Natalie regressar a Chicago, BiggerthanaBread Boxfoi para o ar. No dia seguinte, ela ligou-me:

Muito obrigado, querido.

Por qu? perguntei.

Passei a manh a receber telefonemas. Agora sou uma estrela.

Tnhamos filmado uma dzia de episdios e o estdio e a estao estavam satisfeitos com eles. Um dia, estava ajantar comJorja em casa de uns amigos quando recebi 
um telefonema de Barbara den.

Sidney, preciso de falar consigo.

Muito bem, Barbara. Estarei no estdio amanh de manh e...

No. Tem de ser hoje  noite.

Passa-se alguma coisa?

Eu conto-lhe assim que o vir. Dei-lhe a morada.

Ela chegou uma hora depois. Levei-a para o escritrio. Estava  beira das lgrimas.

Vai ter de me substituir.

Porqu? perguntei, espantado.

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Estou grvida.

Levei um pouco a perceber.

Parabns.

Lamento tanto estar-lhe a fazer isto.

Voc no me est a fazer nada. Continua no programa. Olhou, espantada, para mim.

Mas... como...?

No se preocupe. Eu vou arranjar uma soluo respondi. Na manh seguinte, chamei Gene Nelson ao meu gabinete.

Gene, temos um problema.

J sei. A Barbara est grvida. O que vamos fazer?

Vamos subir um pouco a cmara. Vamos film-la da cintura para cima, cobri-la com mais vus e filmar de longe. Havemos de nos arranjar. No a quero substituir.

Ele ficou pensativo durante uns segundos.

Nem eu.

E conseguimos terminar a srie, filmando desde a terceira semana at ao oitavo ms de gravidez.

No leste, adivinhavam-se nuvens negras no horizonte, por isso voei at Nova Iorque para ver se conseguia acalmar as coisas.

John e Ethel tinham descoberto que Patty e Harry Falk continuavam a ver-se em segredo. Decididos a no permitir que o romance avanasse, conseguiram mudar o programa, 
na sua terceira poca, para a Califrnia. Para mim era bom, porque deixava de precisar de andar entre as duas costas. Mas isso significava que havia problemas latentes.

Quando voltei para a Califrnia, encontrei uma casa maravilhosa em Thousand Oaks para ns alugarmos. Sabia que a Patty e os Ross andavam  procura de uma casa, por 
isso sugeri que vissem esta que eu queria alugar e, se gostassem, eu deixaria que ficassem com ela. Gostaram e mudaram-se para l.

A NASA foi muito prestvel com a produo de Jeannie. Fizemos uma visita  base area de Edwards e ao centro espacial Kennedy, na Florida, e conhecemos muitos astronautas. 
Muitos deles viam o nosso programa e eram fs. Deixaram-nos usar as instalaes em Edwards, onde fiz um voo num simulador Gemini e provei comida liofilizada. Era 
pssima.

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As audincias de Jeanne permaneceram altas no primeiro ano, mas nem tudo corria bem no estdio. O problema era Larry Hagman. Eu planeava usar mais artistas convidados, 
mas Larry criava sempre problemas com eles. Amuava e ignorava-os e passava o tempo fechado no camarim.

Queria ser a estrela e queria s-lo naquele momento. Era a Barbara que tinha as entrevistas e as capas de revista. Larry queria mostrar ao mundo que conseguia ser 
to bom quanto a me. O resultado  que se punha a ele e a todos sob uma enorme tenso.

Na altura no me apercebi do problema, mas vim a saber que Larry abria todas as manhs uma garrafa de champanhe e comeava a beber. Isso nunca afectou o seu desempenho. 
Sabia sempre o texto e estava sempre perfeito. Mas a tenso comeava a fazer-se sentir.

Uma manh, depois de um ensaio, perguntei aos actores se havia algum problema. Todos me responderam que estavam satisfeitos. Quando regressei ao meu gabinete, recebi 
um telefonema de Gene Nelson.

Preciso da sua ajuda, Sidney. O Larry est no camarim a chorar. Recusa-se a sair.

Fui ao camarim dele e falmos durante muito tempo. Por fim, disse-lhe:

Larry, eu vou fazer tudo que me for possvel para te ajudar. Vou escrever argumentos onde a histria se desenrole  tua volta.

E assim, comecei a escrever argumentos para aumentar a personagem de Larry e dar-lhe maior visibilidade. Mas quando um actor est numa srie com uma actriz escassamente 
vestida e to bela e atraente quanto a Barbara den,  muito difcil ser-se a estrela.

Larry estava cada vez mais infeliz e isso perturbava todos no estdio. Barbara tinha imensa pacincia com ele. Por fim, tive outra conversa com ele.

Larry, tu gostas deste programa?

Claro.

Mas no te sentes feliz em faz-lo.

No.

Porqu?

No sei respondeu, depois de ter hesitado.

Claro que sabes. Tu queres estar num espectculo onde sejas tu a estrela.

Talvez seja isso.

Larry, tu s uma pea muito importante deste programa. Mas,

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se queres permanecer nele, vais ter de aliviar a tenso que tens em cima. Acho que devias ir ver um psiquiatra. E, se fosse eu, no perdia tempo.

Tens razo.  o que vou fazer concordou.

Pouco tempo depois disse-me que tinha consultas regulares com um psiclogo. Isso ajudou-o, de certa forma, mas a tenso permanecia.

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CAPTULO 32

Pouco depois do incio da segunda poca, Jeannie passou a ser a cores. Eu contratara outros escritores para me ajudarem, mas no estava contente com a maior parte 
dos argumentos que me eram apresentados. Muitos escritores pensavam que a melhor abordagem erajuntar fantasia com mais fantasia. Queriam que Barbara conhecesse um 
marciano ou outra personagem fantstica. Eu, pelo meu lado, pensava que o sucesso do programa dependia de uma forte base de realidade, a incongruncia que resultava 
de colocar Jeannie perante situaes normais do dia a dia.

Por exemplo, escrevi um guio com a seguinte premissa: Tony est a trabalhar e um homem do IRS vai a casa dele e  recebido pela Jeannie. Para impressionar o visitante, 
Jeannie encheu as paredes com originais de Rembrandt, Picasse, Monet e Renoir.

Est a ver dizia a um atnito fiscal das finanas. O meu amo  muito rico.

Tony teve de desembrulhar a situao".

Noutra sequncia, Tony convidara o doutor Bellows para jantar. Jeannie achou que a casa era demasiado pequena, por isso criou uma imensa sala de baile, uma sala 
de jantar cheia de decoraes, um enorme jardim e uma piscina imensa. Tony teve de explicar esta transformao ao doutor Bellows.

De Fevereiro de 1966 a Abril do ano seguinte, escrevi trinta e oito episdios seguidos sob o meu nome. Em Hollywood, os crditos num ecr so o critrio pelo qual 
se reconhece a existncia de um escritor. Todos lutam para conseguir um crdito, porque  o passaporte para um trabalho seguinte. Eu estava com um problema. Achava 
que estava a ficar com crditos a mais. No jeannie, os meus crditos diziam: "Produo de Sidney Sheldon... Criado por Sidney Sheldon... Produzido por Sidney Sheldon... 
Escrito por Sidney Sheldon... Direitos de Sidney Sheldon". Parecia-me uma bebedeira de ego. Liguei para o Writers Guild e informei-os de que ia comear a escrever 
para o programa

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sob trs pseudnimos diferentes: Christopher Golato, Allen Devon e Mark Rowane. Dali em diante, os meus doppelgngers escreveram a maior parte dos guies e eu tinha 
um crdito a menos.

Depois do primeiro ano de jeannie, Gene Nelson teve outras ofertas e decidiu deixar o programa. Eu sabia que ia sentir a falta dele. Usei uma srie de realizadores, 
principalmente Cludio Guzmn e Hal Cooper, e o programa continuou.

Uma noite, o Sammy Davies Jnior veio jantar a nossa casa.

Sammy, alguma vez viste o programa I Dream of jeannie?

No perco um. Adoro.

Ests interessado em aparecer num deles?

Conta comigo. Liga ao meu agente. Na manh seguinte, liguei ao agente dele.

O Sammy quer entrar no I Dream ofjeannie. Podemos marcar?

Claro. E quanto pagam?

Mil dlares.  o que pagamos aos nossos convidados. Ouvi um som de troa.

Deve estar a brincar. Isso  o que Sammy d de gorjeta  manicura. Esqueam.

Ligue para Sammy.

Uma hora depois, o telefone tocou.

Quando  que o querem?

Sammy fez o episdio e foi maravilhoso.

Tambm usmos Michael Ansara, o marido da Barbara, no papel de Blue Djinn.

Um dia, o Groucho Marx telefonou-me.

 uma pena que no tenhas olho para o talento. Eu conheo um tipo que seria espantoso para o programa.  jovem, e bonito, e brilhante.

Em quem  que ests a pensar, Groucho? perguntei.

Quem  que havia de ser? Eu.

Porque  que no me lembrei disso?

Uma semana depois, escrevi um episdio para o Groucho chamado The Greatest Invention in the World, Como de costume, ele foi um sucesso.

Uma noite em que Mary entrava numa pea da escola, eu e Jorja fomos v-la. Perguntei a Groucho se queria vir connosco e, para meu grande espanto, respondeu que sim.

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Depois do espectculo, Mary convidou alguns dos colegas da escola para irem  nossa casa. Todos ficaram fascinados com Groucho. Uma das melhores recordaes que 
tenho dele  de o ver sentado numa cadeira no meu escritrio, com os midos e as midas em volta, todos sentados num crculo no cho, a ouvirem-no, enquanto lhes 
falava sobre o mundo do espectculo.

O primeiro ano de vida do jeannie foi um sucesso e o merchandising, fabuloso. Havia bonecas Jeannie e garrafas Jeannie. Jeannie at tinha a sua prpria revista, 
The Blink. O correio dos fs era imenso, mas a maior parte era dirigido a Barbara den. Larry mal conseguia disfarar a raiva.

Jeannie ia bem, mas eu passava o tempo a apagar fogos. Entretanto, havia enormes problemas emocionais no estdio do The Patty Duke Show. Patty chegara ao ponto de 
j no permitir que os Ross a controlassem. As frices entre os trs eram constantes.

Uma noite, tiveram uma discusso to grande que Patty saiu de casa e arranjou um apartamento. Harry voou para a Califrnia e casaram-se. Foi o fim do controle dos 
Ross sobre ela.

No entanto, os conflitos no estdio continuavam e tornaram-se to incomodativos que, no final do ano, embora os nveis de audincia fossem favorveis, a estao 
optou por cancelar o programa.

Em 1967, durante a segunda poca de Jeannie, fui nomeado para um Emmy. Na cerimnia de entrega dos prmios, conheci Charles Schulz, que tambm fora nomeado por ter 
escrito o Charlie Brown. Eu era grande f dele e do seu amigo, Charlie Brown. Comemos a conversar e ele revelou-se um homem caloroso e engraado. Confessou que 
era f da Jeannie.

Mencionei que o meu Peanuts favorito era aquele em que o Snoopy escreve na sua mquina: Esta  uma histria que tem de ser contada. A seguir aparece outro desenho 
onde ele parece estar a pensar. Logo a seguir, escreve: Bom, talvez no e atira o papel fora.

Pouco tempo depois dos Emmys, chegou um pacote vindo do Charles. Era a tira original, autografada para mim. Ainda a tenho pendurada na parede do meu escritrio.

A propsito, nenhum de ns ganhou nesse ano.

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Em Setembro de 1967, recebi um telefonema alarmante do hospital Cedars Sinai, em Los Angeles. Otto tivera um poderoso ataque cardaco.  porta do seu quarto do hospital, 
o mdico disse-me que ele tinha poucas hipteses de sobreviver. Entrei no quarto e fiquei junto da cama. Estava plido e senti que toda a sua vitalidade desaparecera.

Ele fez-me sinal para me aproximar e, quando me debrucei sobre a sua cama, disse:

Dei o meu carro ao Richard. Podia ter-lho vendido.

Foram as suas ltimas palavras para mim.

Durante a quarta poca de Jeannie, o programa que aparecia a seguir ao nosso estava a ter imenso sucesso. Era um programa de uma hora chamado Rowan & Martin's Laugh-In. 
Chamei Mort Werner, o chefe da NBC, e sugeri-lhe que por uma noite combinssemos os dois programas. Eu ia escrever um guio para ojeanniecom as personagens do Laugh-In 
e logo a seguir o elenco de Jeannie apareceria no Laugh-In. Achou que era uma boa ideia.

Escrevi um guio chamado TheBiggest Star in Hollywood, Judy Carne, Art Johnson, Gary Owens e George Schlatter (o produtor executivo do Laugh-In) apareceram no meu 
programa a interagir com as personagens de Jeannie,

Em seguida, o George Schlatter mostrou-me o guio que os escritores do Laugh-In tinham arranjado para o nosso elenco. Na cena de abertura, Barbara den, vestida 
de Jeannie, descia vagarosamente as escadas, com um foco a brilhar no umbigo. Comentei com o George que no me parecia de bom gosto e recusei-me a permitir que o 
elenco de Jeannie aparecesse no Laugh-In.

Assim, acabmos com o grupo do Laugh-In no nosso programa mas sem ningum do nosso elenco no programa deles.

IDream of Jeannie completava o seu quarto aniversrio, pronto para entrar no quinto. Ainda no tnhamos recebido o contrato oficial para o quinto ano. Recebi um 
telefonema de Mort Werner.

Acho que a Jeannie e o Tony se devem casar. Fiquei sem palavras.

Mas, Mort, isso vai destruir a srie. A histria era engraada

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devido  tenso sexual entre ajeannie e o seu amo. Se os casares, isso desaparece. No tens nada com que trabalhar.

Eu quero que eles se casem.

Mort! Isso no faz sentido. Se eles...

Queres o contrato para o programa por mais um ano? Fez-se um longo silncio. Eu estava a ser chantageado, mas a verdade  que a estao era dele.

Podemos conversar sobre isso?

No.

Assim sendo, eu caso-os.

ptimo. Ests no ar no ano que vem.

Assim que o elenco soube da notcia, ficaram todos horrorizados.

Os tipos dos negcios no deviam ser autorizados a tomar decises criativas comentou Larry.

Todos os membros do elenco telefonaram a Mort, mas no serviu de nada. Ele achava-se mais esperto que qualquer um deles. Sabia o que era bom para o programa.

Para o quinto ano da Jeannie, escrevi uma cena de casamento.

Filmmos o casamento em Cape Kennedy e vrios elementos da Fora Area assistiram  cerimnia. Tentei tornar o guio o mais interessante possvel mas, depois do 
casamento, a relao entre eles mudou tanto que a maior parte do divertimento desaparecera. No final do quinto ano, IDream of Jeannie foi cancelado. Mort Werner 
pegara num programa de sucesso e destrura-o.

Tnhamos produzido cento e trinta e nove episdios. No seu sexto ano, Jeannie entrou em reposio. Isto passou-se em 1971. Esteve no ar durante mais cinco anos.

Hoje, quarenta anos depois de Jeannie ter ido para o ar pela primeira vez, a srie tem sido reavivada e transmitida por todo o mundo, fazendo rir milhes de telespectadores. 
A cores. A Columbia est a pensar fazer dela um filme.

Na altura em que estava a produzir a Jeannie, tive uma ideia que me pareceu excitante. Era sobre um psiquiatra que algum tentava assassinar. O que me intrigava 
era que, tanto quanto ele soubesse, no tinha inimigos. Mas, se era um bom psiquiatra, teria de ser capaz de perceber quem  que o queria matar e porqu.

O problema da ideia  que a achava demasiado introspectiva. Havia que entrar na cabea do psiquiatra para perceber como  que ele

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resolvia os problemas. Conclu que era impossvel pr a histria em forma dramtica. Teria de ser uma espcie de romance, onde os pensamentos mais ntimos pudessem 
ser explicados ao leitor. Mas eu sabia que no era capaz de escrever um romance, por isso resolvi pr a ideia de lado.

Groucho telefonou-me para me dizer que ia estrear na Broadway, no Imperial Theatre, uma pea de teatro chamada My's Boys, sobre os irmos Marx e a me deles. Perguntou-me 
se eu e ajorja queramos ir com ele ver a pea. Embora na altura estivesse muito ocupado com produes, disse que sim. Vomos para Nova Iorque, vimos a pea que 
estava muito bem feita e fomos  festa do elenco depois da sesso.

Na manh seguinte, fomos para o aeroporto para apanhar um avio de volta a casa. Os controladores de trfego areo estavam em greve. O avio comeou a taxiar e ouviu-se 
no altifalante a voz do piloto a anunciar que teramos uma hora de atraso devido  greve. Taximos de volta para a porta de embarque e, duas horas mais tarde, o 
piloto voltou a anunciar que havia um atraso de trs horas.

Groucho tocou a campainha para chamar a assistente de bordo.

Posso ajud-lo, senhor Marx?

Sim. Tm algum padre a bordo?

No fao ideia. Porqu?

Alguns dos passageiros esto a ficar cheios de teso.

O grande poeta T. S. Eliot era putativamente anti-semita. Groucho tinha uma fotografia emoldurada de Eliot numa das paredes da sua casa.

Quando lhe perguntei qual a razo, respondeu-me:

Eliot escreveu-me a pedir uma fotografia autografada. Mandei-lhe uma e ele devolveu-ma. Queria uma em que eu estivesse com o meu charuto.

Eliot respeitava tanto Groucho que deixou escrito no testamento que queria que ele presidisse s suas exquias, o que Groucho respeitou.

Shecky Greene era outro dos comediantes que encontrvamos nos famosos jantares em casa de Groucho. Uma vez perguntei-lhe qual a diferena entre um cmico e um comediante.

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Um cmico abre portas divertidas. Um comediante abre portas de forma divertida foi a resposta.

Shecky era um dos mais famosos nmeros dos clubes nocturnos do pas. O mais interessante  que ele no tinha qualquer nmero. Nunca fazia dois espectculos iguais. 
Entrava em palco e improvisava durante uns histricos quarenta e cinco minutos.

Uma noite, quando estvamos a assistir a um dos seus espectculos no hotel Sands, em Las Vegas, contou  audincia:

O Frank Sinatra salvou-me a vida. Quando sa pela porta do palco em direco ao parque de estacionamento, trs matules comearam a bater-me. Ao fim de algum tempo, 
o Frank disse: "Muito bem. J chega".

Depois do espectculo, fomos at ao camarim dele nos bastidores. Eu estava intrigado.

O que foi aquilo do Frank Sinatra?

Sabes, eu actuo sempre antes dele. H umas noites, contei umas piadas sobre a famlia dele. Depois do espectculo, ele veio ter comigo e disse: "Shecky, nunca mais 
voltes a fazer isso." Bem, vocs conhecem-me. Eu no gosto que ningum me diga o que devo ou no devo fazer. Por isso, no espectculo seguinte, contei mais umas 
piadas sobre a famlia dele. Quando terminei o espectculo, fui para o parque de estacionamento e trs matules comearam a bater-me. Por fim, Frank disse: "J chega." 
E eles desapareceram.

Conheci Frank em 1953, antes de ser famoso, quando estava na m de baixo. O seu contrato com o estdio terminara, o acordo com a editora discogrfica fora cancelado 
e ningum o queria contratar para nada. Mas, com o talento que tinha, depressa conseguiu voltar a erguer a sua carreira.

Frank Sinatra vivia segundo as suas prprias regras. A verdade  que havia vrios Frank Sinatras e nunca se sabia qual deles  que se iria encontrar. Ele podia ser 
simptico e um amigo generoso, e podia ser um inimigo terrvel.

Sinatra esteve noivo de Juliet Prowse, uma talentosa actriz e bailarina, e quando o ela mencionou a umjornal, Sinatra desfez o noivado.

Quando o letrista Sammy Cahn voou at Los Angeles e se registou no hotel Beverly Hills, Sinatra mandou que transferissem toda a bagagem dele para a sua casa. Durante 
uma entrevista, Sammy Cahn mencionou o nome de Sinatra e pouco depois constatou que as suas malas tinham sido devolvidas ao hotel Beverly Hills.

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Frank nunca conheceu George C. Scott, mas admirava muito o seu trabalho. Quando Scott teve um ataque cardaco, foi Frank quem providenciou os cuidados mdicos e 
pagou todas as contas. Ele tambm era extremamente generoso nas suas contribuies para obras de caridade.

Sinatra casou e posteriormente divorciou-se de Ava Gardner, mas nunca a esqueceu completamente.

Uma vez, Cari Cohn, o gerente do hotel Sands, e eu estvamos no apartamento de Sinatra a preparar-nos para ir jantar e festejar o aniversrio dele. Ava estava em 
frica a filmar Mogambo.

Frank no parecia querer sair. Por fim, perguntei:

Frank, so dez da noite. Eu e o Cari estamos cheios de fome. De que estamos  espera?

Estava com esperana que a Ava me telefonasse a desejar um feliz aniversrio.

Durante anos, todas as quintas-feiras  noite, um grupo que se auto-intitulava "As guias" juntava-se em minha casa parajantar e disfrutar de umas horas de conversa 
interessante. Todas as semanas ramos os mesmos, acompanhados pelas nossas mulheres. Sid Caesar, Steve Allen, Shecky Greene, Cari Reiner e Milton Berle. Ao longo 
dos anos tive o prazer de ver as carreiras deles dispararem. Aqueles eram gigantes da comdia e,  medida que as dcadas passavam, percebi que estavam todos a ficar 
menos jovens. Em breve, estas vozes teriam desaparecido, como se nunca tivessem existido. Mas eu tive uma ideia.

Ocorreu-me preservar a imagem de todo este incrvel talento aproveitando ao mesmo tempo para ajudar faculdades com problemas financeiros. Eu estivera em tempos envolvido 
na educao e servira como porta voz da "Coligao para a Literacia", por isso aquilo que me ocorreu parecia-me um plano excitante.

Expus a minha ideia ao grupo, uma noite, ao jantar.

Meus amigos disse eu, gostava de montar um espectculo com todos vocs, acerca do futuro da comdia. Eu serei o interlocutor. Vamos viajar a faculdades de todo o 
pas, vendemos os bilhetes para o nosso espectculo e doamos o produto final s faculdades. Quem est interessado em participar?

As mos comearam a erguer-se. Sid Caesar... Steve Allen... Shecky Greene... Cari Reiner...

ptimo. Vou tratar de tudo.

Decidi que faramos a primeira apresentao em Hollywood, como

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teste, e a cidade de Beverly Hills mostrou-se encantada por nos receber. O primeiro painel de discusso da Future of Comedy teve lugar no dia
17 de Julho de 2000, no teatro da Writers Guild, perante uma multido de espectadores.

A recepo foi fabulosa e percebi que a minha ideia podia ser bem sucedida. Sid, Steve, Shecky, Cari e eu divertimo-nos imenso, assim como os espectadores. As gargalhadas 
eram initerruptas. Os membros do painel interrompiam-se uns aos outros com as suas tiradas. Tnhamos ali, de facto, qualquer coisa e estvamos todos entusiasmados 
com a ideia desta aventura.

Mas, pouco depois dessa noite, o destino intrometeu-se e tudo se comeou a desintegrar. Steve Allen morreu, Sid Caeser deixou de poder fazer viagens longas, Shecky 
Green teve uns problemas de ordem emocional e Cari Reiner andava ocupado com uns filmes. No estava escrito.

Mas jamais me esquecerei da generosidade dos meus amigos.

Em 1970, criei outro programa de televiso e chamei-lhe Nancy. Contava a histria da filha do presidente dos Estados Unidos, uma jovem sofisticada que, quando vai 
de frias para uma fazenda, conhece e apaixona-se por um jovem veterinrio. Casam-se. E os guies eram baseados nas enormes diferenas entre os dois estilos de vida.

Os actores que escolhi para os papis principais eram muito bons, Celeste Holme, Renne Jarrett e John Fink. O piloto foi mostrado  NBC, que o comprou.

A srie era uma comdia doce e romntica e o elenco deu-lhe vida de forma maravilhosa. A estao cancelou-a ao fim de dezassete episdios. Na altura em que foi cancelada, 
ocupava o dcimo stimo lugar nas taxas de audincias, o que  mais do que suficiente para manter um programa no ar. No fao ideia se a Casa Branca no gostou do 
programa ou se houve presso poltica, mas sei que o cancelamento deixou-nos a todos surpreendidos.

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CAPTULO 33

Vrios anos mais tarde, decidi que queria fazer um programa elegante, com gente sofisticada, em cenrios sofisticados. Criei Hart to Hart, que foi para o ar em 1979, 
com Aaron Speling e o Leonard Goldberg como produtores. Tivemos a sorte de conseguir Robert Wagner e Stephanie Powers como protagonistas. O programa foi um sucesso 
e esteve no ar durante cinco anos.

No meio de vrias outras coisas que fiz, a ideia acerca do psiquiatra nunca me abandonou. Parecia que no me conseguia ver livre dele. Era como se a personagem exigisse 
vida. Eu no tinha confiana na minha capacidade para escrever um romance, mas, para tirar o psiquiatra da cabea, decidi que ia escrever a histria dele.

De manh, ditava o romance a uma das minhas secretrias, de tarde, enfiava o chapu de produtor e trabalhava em outros projectos.

O romance estava quase terminado e eu no tinha ideia do que fazer com ele. No conhecia nenhum agente literrio.

Telefonei a um querido amigo meu, o talentoso romancista Irving Wallace.

Irving, tenho aqui o manuscrito de um romance. A quem  que mando isto?

Deixa-mo ler primeiro pediu.

Mandei-lho e aguardei pelo telefonema a dizer: "No o mandes a ningum."

Em vez disso, ele ligou-me e disse:

Eu acho que  ptimo. Manda-o ao meu agente em Nova Iorque. Eu digo-lhe para estar preparado.

O romance chamava-se O Rosto Nu e foi recusado por cinco editores. O sexto que o leu foi Hillel Black, um editor da William Morrovv. O meu agente ligou-me.

A William Morrrow quer editar o teu livro. Do-te mil dlares de avano.

De repente fiquei entusiasmado. Ia ter um livro editado. A Wiliam

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Morrow no fazia ideia, mas de bom grado lhes teria pago eu os mil dlares.

Excelente foi a minha resposta.

Hillel quis umas pequenas alteraes e eu tratei delas rapidamente.

O romance foi publicado em 1970. No dia em que O Rosto Nu foi posto  venda, entrei em pnico. Tinha a certeza que ia bater todos os recordes da publicao: o de 
no vender um nico exemplar. Tinha tanta certeza disso que fui a uma livraria em Beverly Hills e comprei um exemplar, uma tradio que mantenho at hoje.

Quando um livro  editado,  hbito o autor viajar pelo pas para lhe fazer publicidade, fazendo o pblico ver que o livro se encontra  venda nas livrarias. Os 
autores aparecem em programas de televiso, vo a festas de promoo e a almoos literrios para os publicitar. Liguei para Hillel Black.

S queria que soubesse que estou  disposio para fazer uma viagem de promoo. Fao todos os programas de televiso que conseguir marcar e...

Sidney, no vale a pena mand-lo numa viagem dessas.

O que quer dizer com isso?

Fora de Hollywood, ningum sabe quem voc . Nenhum dos programas estar interessado na sua presena. Esquea.

Mas no esqueci. Liguei para um relaes pblicas e expliquei-lhe a situao.

No se preocupe. Vou tratar de tudo respondeu.

E ele marcou-me para o The Tonight Show, com o Johnny Carson, The Merv Griffin Show e o The David Frost Show, assim como mais uma meia dzia deles.

Tambm conseguiu que eu fosse a um almoo literrio no hotel Huntington, em Pasadena, na Califrnia. Segundo o plano previsto, os autores falariam durante um curto 
espao de tempo sobre os seus livros, depois haveria um almoo e seguidamente os presentes poderiam comprar os livros, que estavam ao fundo da sala, e dirigir-se 
ao palco montado num estrado, onde os autores lhes assinariam o livro.

A meu lado no estrado nesse dia estavam Wll e Ariel Durant, dois escritores que tornaram popular a histria mundial e que passaram toda uma vida a escrever The 
Story of Cnnlization; Francis Gary Powers, que escrevera um livro sobre a sua experincia de ser abatido num U-2; Gwen Davis, uma romancista famosa e Jack Smith, 
que assinava uma coluna muito popular no Los Angeles Times.

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Durante o almoo, cada um de ns foi apresentado e falmos brevemente sobre os nossos livros.

Quando o almoo terminou, os membros da assistncia compraram os livros ao fundo da sala e em seguida formaram fila em frente dos seus autores preferidos. Havia 
uma fila em frente do Will e da Ariel Durant que ia at ao fundo da sala. A fila em frente de Jack Smith era quase to longa. Gary Powers tinha uma fila comprida, 
assim como Gwen Davis.

No havia uma nica pessoa em fila para o meu livro. Corado, tirei para fora um caderno de apontamentos e fingi que estava atarefado a escrever. Como gostaria de 
poder sair dali para fora. As filas em frente dos outros autores estavam cada vez mais longas e eu ali sentado a escrever gatafunhos.

Ao fim de um tempo que me pareceu uma eternidade, ouvi uma voz a perguntar:

Senhor Sheldon?

Olhei para cima. Uma senhora de idade baixinha estava parada na minha frente.

Como se chama o seu livro? perguntou.

O Rosto Nu disse eu. Ela sorriu e disse.

Est bem. Vou comprar um. Era um acto de misericrdia.

Foi o nico exemplar que vendi nesse dia.

Umas semanas mais tarde, voei para Nova Iorque e encontrei-me com Larry Hughes, o presidente da William Morrow.

Tenho boas notcias para si. Vendemos dezassete mil exemplares de O Rosto Nu e vamos fazer a 2a edio disse.

Olhei para ele durante um longo momento.

Senhor Hughes, eu tenho no ar um programa de televiso que  visto, todas as semanas, por vinte milhes de pessoas. No fico exactamente excitado com a ideia de 
vender dezassete mil cpias seja l do que for.

Quando as crticas do livro saram, fiquei agradavelmente surpreendido. Eram praticamente todas favorveis, e a melhor era a do New

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York Times. O crtico dizia "O Rosto Nu , sem dvida, a melhor estreia policial do ano." E, para cmulo, no fim do ano, recebi uma nomeao para o Edgar Allen Poe 
Award.

Quando regressei a Hollywood, continuei a trabalhar no Nancy, mas no conseguia parar de pensar em escrever outro livro. O Rosto Nu no fora um sucesso financeiro. 
A verdade  que eu gastara mais em publicidade do que o livro rendera. Mas havia um elemento muito mais importante envolvido na escrita de um livro. Eu sentira uma 
enorme liberdade criativa que nunca antes conhecera.

Quando se escreve um argumento para o cinema ou para a televiso, ou uma pea para o teatro,  sempre um esforo de colaborao. Mesmo quando se escreve sozinho, 
est-se a trabalhar com um elenco, um realizador, um produtor e msicos.

O romancista  livre de escrever aquilo que ele ou ela quer. No h ningum para dizer:

Vamos mudar o cenrio para as montanhas em vez de ser no vale...

H demasiados cenrios...

Vamos cortar os dilogos e criar a atmosfera com msica...

O romancista  o elenco, o produtor e o realizador. O romancista  livre de criar mundos, de andar para trs e para frente no tempo, de dar aos seus personagens 
exrcitos, servos, manses. No existe limite a no ser a prpria imaginao.

Decidi que ia escrever outro romance, mesmo sem qualquer expectativa de que pudesse ser financeiramente melhor sucedido que O Rosto Nu. Eu precisava de uma boa ideia 
e lembrei-me de uma histria minha que Dore Schary recusara comprar  RKO, o Orchidsfor Virgnia. Decidi que essa era a histria que eu queria contar. Transformei 
o argumento de filme num romance elaborado e mudei o nome para O Outro Lado da Meia Noite.

O livro foi editado um ano mais tarde e mudou a minha vida. Esteve na lista de best-sellers do New York Times durante cinquenta e duas semanas. O Outro Lado da Meia 
Noite transformou-se num fenmeno, um extraordinrio best-seller internacional.

A previso de Bea Factor de que me ia tornar mundialmente famoso transformara-se numa realidade.

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POSFACIO

De tudo o que escrevi ao longo dos anos cinema, teatro, televiso, livros prefiro os romances. So um mundo completamente diferente, um mundo da mente e do corao. 
Num romance podemos criar personagens e dar-lhes vida. A transio de argumentista e guionista para romancista foi mais fcil do que imaginei. E as vantagens!

Um romancista viaja pelo mundo para fazer pesquisa, conhece pessoas interessantes e vai a stios interessantes. Se as pessoas so afectadas por alguma coisa que 
escrevemos dizem-nos. Recebo muito correio extremamente emotivo.

Recebi uma vez uma carta de uma mulher que tivera um ataque cardaco e estava no hospital, e que no deixava que os pais ou o namorado a vissem. Escreveu-me a dizer 
que s queria morrer. Tinha vinte e um anos. Algum deixara um exemplar do O Outro Lado da Meia Noite na sua mesa de cabeceira. Comeou a folhe-lo. Curiosa, voltou 
ao incio e leu o livro. Quando acabou, estava to entusiasmada com as personagens e os seus problemas que esqueceu os dela, e estava pronta a encarar de novo a 
vida.

Outra mulher escreveu-me a dizer que o ltimo pedido da filha moribunda foi que queria ter os meus livros todos espalhados em cima da cama, e que morreu feliz.

Em A Fria dos Anjos, um rapazinho morre e comecei a receber correio negativo. Uma mulher escreveu-me da costa leste, deu-me o nmero de telefone dela e disse:

Telefone-me. Eu no consigo dormir. Porque foi que o deixou morrer?

Recebi tantas cartas deste gnero que, quando fiz a mini-srie, o deixei viver.

Algumas mulheres disseram-me que so advogadas graas ajennifer Parker, a herona de A Fria dos Anjos.

Os meus romances so vendidos em cento e oito pases e esto traduzidos em cinquenta e uma lnguas. Em 1997 o Guiness Book of

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World Records listou-me como autor mais traduzido do mundo. Vendi mais de trezentos milhes de exemplares. Se existe uma razo para o sucesso dos meus livros acredito 
que se deve ao facto de as personagens serem bem reais para mim e, por isso, bem reais para os meus leitores. Os leitores estrangeiros identificam-se com os meus 
livros porque o amor, o dio e o cime so emoes universais que todos compreendem.

Quando me tornei romancista, uma das coisas que mais me impressionou foi o facto de um romancista ser muito mais respeitado do que um argumentista que trabalhe em 
Hollywood. Jack Warner disse um dia:

O que so os escritores seno uns convencidos com mquinas de escrever?

Um sentimento que  partilhado pela maior parte dos dirigentes dos estdios de cinema.

Um dia, na altura em que escrevi o Easter Parade, estava no escritrio de Arthur Freed quando entrou o seu corrector de seguros. Estvamos a conversar e a secretria 
dele anunciou que as filmagens do dia estavam prontas para ser visualizadas. Freed virou-se para o corrector e disse:

Vamos l ver isso.

Levantaram-se os dois e saram da sala, deixando-me ali sozinho enquanto iam ver um filme que eu escrevera. No demonstra grande respeito.

Gosto muito de viajar pelo mundo fora para fazer pesquisa para os meus livros e divirto-me imenso com isso. Uma vez fui a Atenas fazer pesquisa para o meu livro 
O Outro Lado da Meia Noite. Jorja estava comigo. Passmos  porta de um posto da polcia e eu disse:

Vamos entrar.

Entrmos. Havia um polcia atrs do balco, que perguntou:

Em que posso ajudar?

H aqui algum que me ensine como fazer um carro ir pelos ares?

Trinta segundos depois estvamos fechados numa cela. Jorja estava em pnico.

Explica-lhe quem somos disse ela.

No te preocupes. Temos imenso tempo.

A porta abriu-se e entraram quatro polcias armados.

Com que ento quer fazer explodir um carro. Porqu?

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O meu nome  Sidney Sheldon e estou a fazer pesquisa para um livro.

Felizmente, eles sabiam quem eu era e ensinaram-me a fazer explodir um carro.

Fui  frica do Sul fazer pesquisa para o meu romance A Herdeira, que tem a ver com diamantes. Entrei em contacto com a casa DeBeers e perguntei se seria possvel 
descer a uma das suas minas. Deram-me autorizao e passei pela invulgar experincia de explorar uma mina de diamantes.

Posteriormente, um executivo da DeBeers falou-me de uma das suas minas, uma praia onde os diamantes estavam espalhados sobre a areia,  vista de todos, protegida 
pelo oceano de um lado e patrulhas e vedaes do outro. Senti que era um desafio e imaginei uma maneira de uma das minhas personagens entrar e roubar os diamantes.

Para Se o Amanh Chegar, verifiquei a segurana do Museu do Prado em Madrid. Disseram-me que era inexpugnvel, mas uma das minhas personagens conseguiu imaginar 
uma forma de roubar um dos seus bem valiosos quadros.

Para O Capricho dos Deuses, fui  Romnia, um dos cenrios do meu livro. Na altura, Ceaucescu ainda estava vivo e havia um sentimento de parania no ar. Fui  Embaixada 
Americana e estava no gabinete do embaixador quando, a certa altura, lhe disse:

Queria fazer-lhe uma pergunta. Ele levantou-se.

Venha comigo.

Levou-me por um trio at uma sala guardada por fuzileiros vinte e quatro horas por dia, e perguntou:

O que  que quer saber?

Acha que o meu quarto est sob escuta? perguntei.

No s o seu quarto do hotel est sob escuta, como, se for a um clube nocturno, eles arranjam maneira de o porem sob escuta.

Trs noites mais tarde, eu e Jorja fomos a um clube nocturno. O ar condicionado estava mesmo por cima de ns e levantmo-nos, pois queramos mudar de lugar. O chefe 
de mesa veio a correr e voltou a sentar-nos na primeira mesa. Era bvio que essa  que estava sob escuta.

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No dia seguinte, almocei com o embaixador em casa dele e disse:

Gostava de lhe fazer uma pergunta. Ele levantou-se.

Porque no vamos dar um passeio pelo jardim?

Na Romnia, at a casa do embaixador estava sob escuta.

Para As Areias do Tempo, fui at Espanha para conhecer o movimento separatista basco. Pedi ao motorista que seguisse por duas estradas que seriam usadas pelas freiras 
no livro que eu estava a escrever. Terminmos em San Sebastian. Quando o motorista encostou em frente do hotel, disse:

Bom, agora vou-me embora.

No se pode ir embora. Estou no meio da pesquisa para o meu livro retorqui.

No est a perceber. Este  o quartel general dos bascos. Assim que virem pela placa que o carro  de Madrid, fazem-no ir pelos ares.

Conheci alguns bascos e ouvi a sua verso da histria. Sentiam-se cidados deslocados. Queriam a terra deles de volta, bem como a sua lngua e autonomia.

Estas so algumas das minhas experincias. Sinto-me muito grato por elas. Adoro escrever e tenho a sorte de poder trabalhar em algo de que gosto muito. Acredito 
que ningum deve aceitar o crdito do seu talento, seja ele qual for. O talento  um dom, quer seja para a pintura, a msica ou a escrita, e devamos ser gratos 
pelo que nos foi dado e trabalh-lo bem.

O que eu mais aprecio  o processo de escrever. Um dia, o meu gestor financeiro ofereceu-me lies de tnis no valor de quinhentos dlares como presente de aniversrio. 
Um profissional vinha a minha casa uma vez por semana e dava-me uma lio.

Um dia ele perguntou:

J gastmos o valor acordado. Quer continuar?

Eu gostava muito de jogar tnis. Ia a comear a dizer que sim, mas, de repente, pensei EM no quero estar aqui. Lu quero estar no meu escritrio,

a escrever.

Nunca mais pus os ps no meu campo de tnis, e isto passou-se h vinte anos!

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Quatro anos depois do ltimo filme de Cary Grant, Walk Don Run, Cary ligou-me para me dizer que a Academia lhe ia dar um Oscar honorrio em Nova Iorque, e perguntou-me 
se eu queria estar presente. Tinha muito gosto. O seu Oscar era mais do que merecido.

Tive muito prazer em ver que, ao longo dos anos, Bob Russel e Ben Roberts tiveram uma srie de sucessos.

O meu irmo Richard acabou por se divorciar e, em 1972, surpreendeu-nos a todos quando conheceu e se casou com uma atraente mulher de negcios chamada Betty Rhein.

Em 1985, a minha querida Jorja morreu com um ataque cardaco. Foi uma perda inacreditvel e fiquei com um vazio na minha vida que eu senti que nunca mais seria preenchido.

Foi pouco mais de trs anos depois que aconteceu. Conheci a Alexandra Kostoffe a minha vida mudou. Ela  todas as mulheres nos meus livros inteligente, linda e espantosamente 
talentosa, e foi amor  primeira vista. Tivemos um casamento privado em Las Vegas, s com membros da famlia.

Como surpresa, o meu amigo Marty Allen e a mulher Karon apareceram. A multitalentosa Karon tocou ao piano uma marcha nupcial criada por ela e o casamento prosseguiu.

Eu e Alexandra estamos casados h uns maravilhosos dezasseis anos.

Para minha alegria, a minha filha Mary tornou-se escritora. At  data j tem dez romances publicados. A minha neta Lizy viu um seu romance publicado aos dezasseis 
anos. Espero que Rebecca, com dez anos, seja a prxima.

A minha psicose manaco depressiva, hoje vulgarmente conhecida como sndroma bipolar, tem-me feito andar mais devagar nos ltimos quatro anos, mas, com a ajuda do 
ltio, est praticamente controlada. Estou a planear um novo romance, um livro de no fico e uma pea para a Broadway. Acabei de festejar os meus oitenta e oito 
anos.

Sinto-me grato pela montanha-russa que foi a minha vida. Foi uma viajem excitante e maravilhosa. Estou grato a Otto, que me convenceu a continuar a virar as pginas 
e a Natalie pela sua inabalvel f em mim.

Tive uma carreira incrvel, com grandes xitos e terrveis falhanos. Quis partilhar a minha histria convosco e ao mesmo tempo agradecer-vos porque vocs, os meus 
leitores, sempre a estiveram para me ajudar. Sinto-me profundamente grato a cada um de vs.

O elevador est a subir.

302
CRDITOS DE SIDNEY SHELDON

Peas da Broadway

The Meny Widow

Jackpot

Dream with Music Alice in Arms

Redhead Roman Candle Gomes (Londres)

Argumentos cinematogrficos

South of Panam

GamblingDaughters

Dangerous Lady

Borrowed Hero

Mr. District Attorney in the Crter Case

Fy-by-Night

Shei'sin theArmy

The Bachelor and the Bobby- Soxer

EasterParade The Barkks of Broadway

Nancy Ges to Rio

Annie Get Your Gun

Three Guys named Mike

No Quesions Asked Rich, Young and Prety

Just This Once Remains to be Seen

Dream Wife

You're Never Too Young

The Birds and the Bees

Anything Ges

Paidners

The Buster Keaton Stojy AllinaNighfs Work

Crditos de produo - para cinema e televiso

The Buster Keaton Story I Dream ofjeannie

303
Rage ofAngels

Ruge ofAngels: The Story Continues

Memories ofMidnight

The Sands of Time

Crditos como realizador - de cinema e de televiso

Dream Wije The Buster Keaton Story

Sries de televiso - Criador

The Patty Duke Show

I Dream ofjeannie

Hart to Hart

Nancy

Romances

The Naked Face O Rosto Nu PEA 1992

The Other Side ofMidnight O Outro Lado da Meia Noite PEA 1991 A Stranger in the Minar Um Estranho ao Espelho PEA 1991

Bloodline Laos de Sangue PEA 1992

Rage ofAngels A Fria dos Anjos PEA 1996

Master ofthe Game A Herdeira PEA 1999

IfTomorrow Comes Se o Amanh Chegar PEA 2000

Windmills ofthe Gods - O Capricho dos Deuses PEA 2003

The Sands of Time As Areias do Tempo PEA 2003

Memories ofMidnight Memrias da Meia Noite PEA 1991

The Doomsday Conspiracy Conspirao Dia do Juzo Final PEA 1992

The Stars Shine Down O Brilho das Estrelas PEA 1995

Nothing last Forever Nada  Eterno PEA 1995

Morning, Noon and Night Manh, Tarde e Noite PEA 1996

The Best Laid Plans Escndalo na Casa Branca PEA 1999

Tell me Your Dreams A Mulher Dividida PEA 1999

The Shy is Falling Quando o Cu Caiu PEA 2001

Are you Afraid of the Dark? Quem Tem Medo do Escuro? PEA 2004

Memrias

The Other Side of Me

Livros para crianas

The Adventures of Drippy the Runaway Drop

The Chase

The Dictator

Ghos Strrrf

The Money Tree

Revenge! The Strangler

The Twelve Commandments The Adventures ofa Quarter

304
Filmes baseados em romances de Sidney Sheldon

The Other Side ofMidnight

Bloodline The Naked Face

Filmes para televiso e minissries baseados em romances de Sidney Sheldon

Rage o/Angels

Mas ter ofthe Game

If Tomorrow Comes

Windmills ofthe Gods

A Stranger in the Mirrar

Nothing Lasts Forever

The Sands of Time Memories ofMidnight
Obras publicadas na Coleco "Obras de Sidney Sheldon":

1 Memrias da Meia Noite

2 O Outro Lado da Meia Noite

3 Um Estranho ao Espelho

4 Laos de Sangue

5 O Rosto Nu

6 Conspirao Dia do Juzo Final
7 A Fria dos Anjos

8 O Brilho das Estrelas

9 Nada  Eterno

10 Manh, Tarde e Noite

11 Escndalo na Casa Branca

12 A Herdeira

13 A Mulher Dividida

14 Se o Amanh Chegar

15 Quando o Cu Caiu

16 As Areias do Tempo

17 O Capricho dos Deuses

18 Quem Tem Medo do Escuro?

19 O Outro Lado de Mim
Finalmente, o grande mestre da narrativa partilha com o leitor a maior de todas as suas histrias... a da sua vida! Comeou como um dos muitos meninos pobres da 
Amrica mergulhada na Depresso. Aos 17 anos, tentava suicidar-se. Como foi que este menino se transformou no mais traduzido de todos os autores, com mais de 300 
milhes de exemplares dos seus livros vendidos em todo o mundo?

Como foi que o jovem arrumador numa sala de cinema subiu poucos anos depois a um palco para receber um Oscar da Academia? Em O OUTRO LADO DE MIM, Sidney Sheldon 
no se poupa aos golpes que a vida lhe reservou. Fala com candura dos seus altos e baixos, dos sucessos e das crticas, revelando, pela primeira vez, a sua intimidade: 
as suas profundas perdas pessoais e a sua busca pela felicidade.

E, se cada romance de Sidney Sheldon  garantia de leitura apaixonante, o romance da sua vida no o  menos.
Do Grande Mestre do Suspense,

do autor mais vendido no mundo

(recorde no GUINESS)

SIDNEY SHELDON

QUEM TEM MEDO DO ESCURO?

Um louco que controla o tempo... """ Portugal sob chantagem... Presidente da Repblica recusa ceder...

Colheitas destrudas... Inundaes brutais...

O fim est prximo... e comea em Portugal.

IMPERDVEL!
